Universo da obra
Universo da obra
Salve! dia feliz, data sublime
Que despertas o sacro amor da pátria
Em nossos corações!
Salve! aurora redentora que eternizas
A era em que o Brasil entrara ovante
No fórum das nações!
Além do oceano, entre coreias místicas,
Com a imensa coma abandonada aos ventos
Descansava a dormir,
O filho altivo das cabrálias cismas;
— Calmo como a Sibila que tateia
Mistérios do porvir!
E os ósculos ardentes do pampeiro
Do gigante adormido os lassos membros,
Enchiam de vigor,
E os débeis raios da saudosa lua
A soberba cabeça lhe adornavam
De estremas de fulgor.
Um dia... ai! despertou, vendo cortado
Pela infame cadeia dos cativos
O nobre pulso seu;
Estremecera em ânsias: lava ardente
Rugia incendiada pelas fibras
Do novo Prometeu!...
E os mundos agitaram-se nos eixos;
E o mar convulso arremessou aos ares
Cristais em turbilhões;
E a humanidade inteira ouviu tremendo
O brado heroico que rasgara o peito
Do gênio das soidões!
Após insano esforço, ergueu-se ingente
Calcando aos pés a algema espedaçada
Da luta no estertor,
E o Amazonas foi dizer aos mares,
E os Andes se elevaram murmurando:
"Eis-nos livres, Senhor!"
Tu foste meiga estrela que fulguras,
Apontando o caminho ao pegureiro
Exposto ao vendaval;
Rosa orvalhada de divinas lágrimas,
Que o colo purpurino reclinaste
No sólio de Cabral;
Liberdade gentil, visão dos anjos,
Clícia mimosa balouçada à sombra
Pelo bafo de Deus,
Tu foste, como sempre, a luz da aliança
Que a santa chama na alma aviventaste,
Roubando-a aos escarcéus!...
Mas não se cinge a escravidão à algema:
A terra que sagrar vieste livre
Do futuro no altar,
Rasgado o seio por voraz abutre,
Vê-se agora entregue à escravidão dos erros,
Sem forças, vacilar!
Ah! não te esqueças deste augusto dia!
Ampara o débil povo que se curva
Ante um falso poder!
Desdobra tuas asas refulgentes
Sobre o leito fúnebre em que repousa
O mártir Xavier!
E quando os filhos teus tendo por bússola
A crença livre que na antiga idade
Fundiu tantos grilhões,
Remontarem aos polos do futuro
Enchendo o vazio de um presente inerte
De indústria e aspirações;
Serás tu, liberdade sacrossanta
Que cingida de magos resplendores
Nos ungirás de luz!
Serás tu, que voltada para o pr'o infinito
Nos guiarás na senda fulgurante
Que à vitória conduz!...
Salve! dia feliz, data sublime,
Que despertas o sacro amor da pátria
Em nossos corações!
Salve! aurora redentora que eternizas
A era em que o Brasil entrara ovante
No fórum das nações!...
Nebulosas, de Narcisa Amália, é um livro brasileiro de poesias publicado em 1872 pela Livraria Garnier, com prefácio de Peçanha Póvoa. Esta edição gratuita do Literunico oferece leitura online em capítulos HTML, obra em domínio público, fonte BLPL/UFSC validada, capa com identidade Literunico, espelhos completos de conteúdo e metadados reforçados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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