Universo da obra
Universo da obra
Por que convulso geme o pátrio solo,
Dos montes despertando os ecos lúgubres?
Por que emudece o férvido oceano
E à terra, erma da luz, chorando atira
Mil turbilhões de lágrimas amargas?
Por que de sombras tétricas se vela
O firmamento azul? Que mágoa imensa
Enluta os corações e arranca o pranto?!...
É que o sono final cerrara os olhos
De um filho das soidões americanas!
O sol que avivara a chama augusta
No peito dos titãs do Dois de Julho,
Iluminara o berço vaporoso
Do pálido cantor da liberdade!
As dulcinosas brisas lá do Norte,
Ao ensaio dos passos vacilantes,
Traziam-lhe os queixumes, despertando
Um mundo de harmonias em sua alma!
E a dileta criança estremecia
Sentindo em si a seiva do futuro.
Mais tarde a fronte nobre, cismadora,
Volvia ao céu para escutar-lhe os votos
E muda, à terra, revolvia pávida
Como o profeta que a missão sublime
Das mãos de Deus recebe; desmaiava
Como desmaia a flor da magnólia
Aos ardores do estio. E radiosa
A pátria contemplou-o embevecida!
Já não era a criança temerosa
Do confuso murmúrio das florestas;
Era o poeta cuja lira de ouro
Erguia do sepulcro o vulto ingente
Do apóstolo Pedro Ivo; cujos trenos
Derramavam lampejos fulgurantes
De um róseo amanhecer: ora risonhos
Como as límpidas pérolas que entorna
A rorida alvorada, ora profundos
Como os cavos rugidos do Oceano!
Estranha confusão de riso e pranto,
De luz e sombra, mocidade e morte!
Depois, cisne de amor, deixou os lares
Demandando as campinas rociadas,
Onde ecoara o brado altipotente
De Independência ou Morte. Ali desdenha
As três irmãs que lhe apontavam gélidas
O porvir do poeta; vê o gênio
A marchar, a marchar no itinerário
Sem termo do existir, morto de inveja!
"E o mísero de glória em glória corre
Buscando a sombra de uns frondosos álamos."
"E queria viver, beber perfumes
Na flor silvestre que embalsama o éter;
Ver sua alma adejar pelo infinito
Qual branca vela na amplidão dos mares;
Sentia a voraz febre do talento,
Entrevia um esplêndido futuro
Entre as bênçãos do povo; tinha na alma
De amor ardente um universo inteiro!"
"Mas uma voz lhe respondeu sombria:
— Terás o sono sob a laje tosca!"
E nessas regiões sempre formosas
Onde acenava-lhe o fanal da ciência,
O louco sonhador dos Três Amores
Colheu o fatal germe destrutível
Que minou-lhe a existência; quebrantado
Volveu às plagas que deixara outrora
Por pressentir, como única esperança,
Um túmulo entre os seus, no pátrio ninho.
E as almejadas palmas do triunfo
Converteram-se em lousa mortuária!
Mas... não morreste, não, condor brasíleo,
Que nunca morrerão teus puros versos!
Não, não morreste, que não morrem Goethes Guete ,
Não morrem Dantes, Lamartines, Tassos,
Garrets Garrés , Camões, Gonçalves Dias, Miltons Míltons ,
Azevedos e Abreus. Teus belos cantos
Cortarão as caligens das idades
Como de Homero os divinais poemas!
E lá da eternidade onde repousas,
Acolhe o canto meu que o pranto orvalha!...
Nebulosas, de Narcisa Amália, é um livro brasileiro de poesias publicado em 1872 pela Livraria Garnier, com prefácio de Peçanha Póvoa. Esta edição gratuita do Literunico oferece leitura online em capítulos HTML, obra em domínio público, fonte BLPL/UFSC validada, capa com identidade Literunico, espelhos completos de conteúdo e metadados reforçados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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