Universo da obra
Universo da obra
Uma noite em que a febre da vigília
Escaldava-me o crânio e a fantasia,
Das regiões da luz e da harmonia
Eu vi baixar uma gentil visão;
Tinha na fronte ebúrnea, em vez de pâmpanos,
Grinalda de virgíneas tuberosas,
E trazia nas alvas mãos mimosas
O sagrado penhor da redenção.
E perguntei: - Quem és, arcanjo fúlgido,
Que vens iluminar-me a noite escura?
Quem és, tu que derramas a frescura
No pudibundo cálice da flor?...
Serás acaso a ondina teutônica
Envolta das espumas no sudário?
Serás um raio vindo do Calvário
Para trazer-me vida e crença, e amor?...
"Vida... Não tentes, querubim empírico,
Reanimar a chama extinta hoje!
Sinto que o círio da razão me foge
Da treva eterna no assombroso mar!
Crença... Em vão a pedi com longas lágrimas!
Em vão a clama meu sofrer profundo,
Como clamava Goethe moribundo
Luz! Às sombras silentes de Weimar!...
Amor... Límpido aljôfar que das pálpebras
De Cristo rola fecundando o solo!
Amor... Suave bálsamo, consolo
Que implora a humanidade ao pé da cruz!...
Oh! Sim, aponta-me a miragem cândida
Que mostra ao crente o paraíso aberto;
Estrela de Israel, que do deserto
Aos braços da Vitória nos conduz!...
Mas quem és, tu que vens erguer do pélago
A aurora funeral de meu futuro?
Fala! Quem és, que um ósculo tão puro
Depões em minha fronte de mulher?!"
"Sou a Esperança, disse; em minha túnica
Brilha serena a lágrima do aflito;
Tenho um sólio no seio do infinito,
E banha-me o clarão do rosicler!
Abre-me o coração pleno de angústias,
Conforto encontrarás em meu regaço;
Criarei para ti mundos no espaço
Onde segrede amor aura sutil!
Onde em lagos azuis de areias áureas
Se embalem redivivas tuas crenças,
E à meiga sombra das lianas densas
Vibres cismando as notas do arrabil."
"Curvo-me, ó anjo, a teu acento plácido:
Já nem me punge tanto o sofrimento!
Sinto em meu peito o divinal alento
Que verte na alma teu cerúleo olhar!
A meus olhos se rasga atro sudário,
Fito o incerto porvir mais calma e forte:
Já tenho forças pra lutar com a sorte
E voto a minha lira em teu altar!"
Nebulosas, de Narcisa Amália, é um livro brasileiro de poesias publicado em 1872 pela Livraria Garnier, com prefácio de Peçanha Póvoa. Esta edição gratuita do Literunico oferece leitura online em capítulos HTML, obra em domínio público, fonte BLPL/UFSC validada, capa com identidade Literunico, espelhos completos de conteúdo e metadados reforçados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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