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Nebulosas

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Nebulosas

Capítulo 38 · Nebulosas

Terceira Parte: O Baile

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A noite desce lenta e cheia de magia;
A multidão febril do templo da alegria,
Invade as vastas salas.
O mármore, o cristal, a seda e os esplendores,
Do manacá despertam os mágicos olores,
A languidez das falas.

Ao rutilar das luzes as dálias desfalece…
Roçando o pó as vestes das virgens se enegrece,
Enturva-se a brancura…
O ar vacila tépido… a música divina
Semelha o suspirar de uma harpa peregrina…
É a hora da loucura!

Pela janela aberta por onde o baile entorna
No éter transparente a vaga tíbia e morna
Do hálito ruidoso,
Da vida as amarguras espreitam convulsivas
O leve esvoaçar das frases fugitivas…
O estremecer do gozo!…

E tudo se inebria: o lampejar de um riso
Acende n’alma a luz gentil do paraíso,
Arranca a jura ardente!
E mariposa incauta, em súbita vertigem,
Arroja-se a mulher crestando o seio virgem
Na pira incandescente!

Aqui, na nitidez de um colo a coma escura
Se espraia em mil anéis, enlaça a fronte pura
Auréola de rosas;
Da valsa ao giro insano, volita pelo espaço
Do cinto estreito, aéreo, o delicado laço,
As gazes vaporosas.

Ali, na meiga sombra indiferente a tudo,
Imerso em doce cisma um colo de veludo
Ondula deslumbrante:
Que fogo oculto, ignoto, em suas fibras vaza
Vivido ardor que faz tremer-lhe a nívea asa
De garça agonizante?…

Além, meus olhos tímidos contemplam com tristeza
As penas da mulher, dessa — ave de beleza —
Calcadas sem piedade!…
Esparsas pelo solo as laceradas rendas…
As flores já sem viço… abandonadas lendas
Da louca mocidade!

A festa chega ao termo; a harmonia expira;
A luz na convulsão final langue se estira
Pelo salão deserto;
Há pouco — o doudejar da multidão festante,
Agora — o empalidecer empalecer da chama vacilante,
Ao rosicler incerto!

Depois — a razão fria contando instantes ledos
De castos devaneios, de juramentos tredos
Ouvidos sem receio…
Num corpo languescido o espírito agitado…
E a febre da vigília ao doloroso estado
Ligando vago anseio…

A vida é isto: hoje cruel grilhão de ferro;
Talvez d’ouro amanhã, mas sempre a dor, o erro,
Aniquilando o gênio!
Passado — áureo friso num mar de indiferença,
Presente — eterna farsa universal, suspensa
Do mundo no proscênio!

Nebulosas

Sinopse

Nebulosas, de Narcisa Amália, é um livro brasileiro de poesias publicado em 1872 pela Livraria Garnier, com prefácio de Peçanha Póvoa. Esta edição gratuita do Literunico oferece leitura online em capítulos HTML, obra em domínio público, fonte BLPL/UFSC validada, capa com identidade Literunico, espelhos completos de conteúdo e metadados reforçados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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