Universo da obra
Universo da obra
SOBRE UMA PÁGINA DE LAMARTINE
O rei do dia vacilante, incerto,
Abandona seu carro de vitória,
E reclinado em rúbida alcatifa
Adormece no tálamo da glória!
A cortina de nuvens cambiantes
Guarda o róseo vestígio de seus passos;
À imensidão em luz, a terra em sombra,
Prendem milhares de púrpuros laços!
Como esplêndida lâmpada de ouro
Do crepúsculo suspensa à fronte nua,
Ondula lá na fímbria do horizonte
De palor ideal cingida — a lua!
A catadupa flácida dos raios
Repousa sonolenta sobre a relva,
E o negro véu que cai sobre a campina
Mais densa torna a negridão da selva!
A natureza envolve-se nesta hora
Em faixas siderais de poesia,
Vendo sumir-se o resplendor divino,
Vendo cair da noite a lousa fria!
E murmurando a colossal estrofe
De um poema de célica linguagem,
Ao Criador que o sol formou da treva
Oferece a magnífica homenagem!
Eis o imenso holocausto do universo
Da terra a vastidão tendo por — ara!
Por dossel — a safira do infinito!
Por círio — os mundos que o Senhor aclara!
Os flocos purpurinos que vagueiam
Na planície do ar, do poente à aurora,
São colunas de incenso que embalsamam
Os pés do Deus que a natureza adora!...
Porém é mudo o gigantesco templo!
Do céu é mudo o manto peregrino!
Donde rebenta o celestial concerto?
Donde se eleva o sacrossanto hino?
No harmônico remanso só escuto
Pulsar meu coração, ora ofegante...
A voz augusta é nossa inteligência
Que no éter flutua irradiante!...
Nos rubores da tarde que agoniza,
Sobre as asas balsâmicas do vento,
Nosso ser, sobranceiro à térrea urna,
— Sutil essência — sobe ao firmamento!
E prestando uma fala a cada ente,
Trépido eflúvio a cada flor rasteira,
— Ave de amor — para a serena súplica
Com seus hinos desperta a terra inteira!
Os páramos silentes do deserto
Parecem escutar a voz do Eterno!
As multidões contritas buscam ávidas
Um só fulgor de seu olhar paterno!
E Aquele que ouve os salmos das esferas,
Que contempla perene a luz do dia,
Neste instante solene, ao som dos sinos,
Faz subir uma prece — Ave-Maria!
Nebulosas, de Narcisa Amália, é um livro brasileiro de poesias publicado em 1872 pela Livraria Garnier, com prefácio de Peçanha Póvoa. Esta edição gratuita do Literunico oferece leitura online em capítulos HTML, obra em domínio público, fonte BLPL/UFSC validada, capa com identidade Literunico, espelhos completos de conteúdo e metadados reforçados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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