Universo da obra
Universo da obra
VICTOR HUGO
Tem visto, ó povo, esta época
Teus trabalhos sobre-humanos,
Viu-te altivo ante os tiranos
Calcar a Europa assombrada;
Criando tronos hercúleos,
Despedaçando áureos cetros,
Das coroas - vis espectros -
Mostraste o potente nada!
Em cada passo titânico
Semeavas mil ideias;
Marchavas: iam-se as peias
Que o torvo orbe prendiam;
Tuas falanges incólumes
Eram vagas do progresso:
Transbordadas de arremesso
De cimo a cimo erguiam!
Vias a deusa da glória
Cingir-te a fronte de louros;
Derramavam-se tesouros
De luz, por onde passavas!
E a Revolução flamígera
Arremessava à Alemanha
Danton; a quem, sobre a Espanha
Com Voltaire triunfavas!
Como ante os filhos da Hélade,
Curvou-se o mundo aos franceses;
Soberbo em frente aos reveses,
O crime caiu-te às plantas!
As trevas da Idade Média,
A pira do Santo Ofício,
O inferno, o erro e o vício,
Com um lampejo quebrantas!
De teus esplendores límpidos
Estava a terra juncada;
Fugia a noite assustada
Ao reboar de teus passos!
Enquanto a senda estelífera
Trilhavas, ébrio de crenças,
Da história as folhas imensas
Prendiam-te entre seus laços!
Cem vezes pairando impávido
Nos campos que o sol descerra,
Curvaste a face da terra
A um teu aceno arrogante;
Do Tejo, do Elba a vitória
Ao Nilo, ao Ad’ge corria,
E o povo titã jungia
O mesmo chefe gigante.
E os dois monumentos típicos
Dali surgiram um dia:
A coluna - ingente e fria,
O arco - poema ousado!
Ambos, ó povo, são símbolos
De teu poder infinito:
Um talhado de granito,
Outro de bronze amassado!
São dois fantasmas terríficos
Dos passados esplendores;
Doutra idade vingadores
Se os vê, a Europa estremece!
Por eles velando túmido
Nosso amor, sempre sombrio,
Nas almas acende o brio
Quando o vigor lhe falece!
Se nos ultrajam estólidos
Ei-los aí, testemunhos,
Do valor de nossos punhos,
Nos acenando à vingança:
No metal, no altivo mármore,
Tentamos dos veteranos
Ver os sábios, livres planos,
A nobre perseverança.
Na hora da queda horrenda
Mais vivo o orgulho cintila;
Aumenta a palma que oscila
O refulgir dos troféus;
As almas no fogo vívido
Acendem a sacra chama,
E o povo em luto brama
No estrugir dos escarcéus!
Outrora a falange célere
Passava em pleno lampejo;
Como um cavo, longo arpejo
Rolava o trovão nos montes!
Desses peitos magnânimos
Que resta? O trabalho ingente
Que à mocidade indolente
Mostra os negros horizontes!
As raças de hoje, mais pálidas
Que os finados de outras eras,
Dessas virtudes austeras
Nem mesmo a imagem possuem!
E se eles tremem nos túmulos,
É teu alvião que soa,
Tua bomba que reboa
Contra os portentos que aluem.
* * *
Horríveis dias são próximos,
Que sinais aterradores!
Clamam — Basta! — os pensadores
Como Lear à procela!
Não pode morrer um século
Sem que um outro além desponte;
Do porvir — no germe insonte —
Quem ousa manchar a tela?
Oh, vertigem! Paris fúlgida
Nem sabe quem mais a esmaga!
Se um poder que tudo estraga,
Se outro que tudo fulmina!
Assim lá no Saara tórrido
Lutam contrárias tormentas,
Vibrando às ondas poentes
Do raio a chama divina!
Erram, ó povo, esses abismos!
O firmamento que freme,
O rijo solo que treme,
Conjuntamente censuro!
Esses poderes coléricos
Cuja sanha cresce ignara,
Um tem a lei que o ampara,
Outro o direito e o futuro!
Tem Versalhes — a paróquia,
Paris ostenta — a comuna;
Mas, além dessa coluna
Desata a França seu manto!
Quando devem verter lágrimas
É justo que se devorem,
Sem que a desdita deplorem,
Sem que vertam negro pranto?!
Fratricidas! Gemem férvidos
Canhões, morteiros, metralha;
Além o vândalo espalha
Do inferno as fúrias vis!
Aqui, campina Caríbdis,
Lá, Cila avulta arrojada!
De teu fulgor ofuscado,
Ó povo, vão-se os loureis!
Ai! nestes tempos infaustos
Em que inglórios vivemos,
Dois fortes domínios vemos
Estranhamente rivais!
Um toma o arco mármoreo,
Outro a pilastra imponente;
E o malho, e o obus fremente
Tornam-se forcas fatais!
Mas, vede: é a França exânime
Que esses colossos sustentam!
Nosso valor representam
Embora aí Bonaparte!
Sim, franceses, se frenéticos
Derrubamos essa herança,
Que restará da provança?
Onde as honras do estandarte?!
Se o senhor condena indômito,
Mais forte o povo aparece;
Nobre a Esparta resplandece
Através do despotismo!
Abatei de um golpe a árvore,
Mas respeitai a floresta:
Quando chora a pátria mesta
Mais belo fulge o heroísmo!
E tantas almas intrépidas
Nas espirais balouçadas,
Enchem naus almirantadas,
Fossos, paióis e campinas;
Franqueiam muralhas sólidas,
Longas pontes, torres altas,
Saudando o porvir que assaltas
Com mil armas peregrinas.
Em vez de César grandíloquo
Colocai, justiça, Roma;
Ver-se-á que vulto assoma
Nesse cimo sobranceiro!
Condensai nesta pirâmide
A turba infrene, compacta;
Que o direito a estátua abata
Do assombro do mundo inteiro!
E que este gigante estrênuo
O — Povo — aclarando a estrada,
Tenha na mão uma espada,
De auroras cingido o busto;
Respeito ao soldado árbitro!
A seus pés o ódio expira!
Do vingador da mentira
Nada iguala o talhe augusto!
Surge — Oitenta e Nove — atlético
Ganhando vinte batalhas!
Marselhesa, és tu que espalhas
Medo e assombro à velha idade!
Se o granito aqui ostenta-se,
O bronze avulta em rugidos,
E dos troféus reunidos
Salta um grito: — Liberdade!
* * *
Quê! Com nossas mãos alígeras
Da pátria o seio rasgamos,
E o duplo altar laceramos
Pelos teutões invejado!
Pois quê! Nos padrões egrégios
A multidão delirante
Ceva a clava flamejante,
Agita o facho abrasado!
É aos nossos golpes válidos
Que a franca glória vacila;
Seus louros virgens mutila
Nossa maça ensanguentada!
E sempre a esfinge da Prússia!
Que horror! A quem foi vendida,
Ai! pobre pátria perdida,
Tua invencível espada?...
Sim! foi por ela que inânime
De Ham o nome caíra;
Ante a Reischoffen expira
De Wagram Vagrã o grito ovante!
Riscado Marengo inclito,
Waterloo Vaterlu apenas resta...
E sob a folha funesta
Rasga-se a lenda brilhante!
Uma bandeira teutônica
Enluta nosso horizonte;
Sedan Sedã enegrece a fronte
Que a Austerlitz Osterliz deu renome!
Vergonha! A rajada freme
É Mac-Mahon Maque marrom que vibra;
Forbach Forbá a Iena equilibra,
E o fogo as glórias consome!
Onde os Bicêtres, ó Gália?
Os Charentons denodados?
Dormem os grandes soldados
Em teu leito de Procusto.
De Coburgo, de Brunópolis,
Onde estão os vencedores
Com seus sabres vingadores,
Correndo areais adustos?
Rasgar da história uma página
Não é um crime inaudito?
Não será negro delito
Manchar vultos que tombaram?
Sufocar a voz dos mártires
Que nunca clamaram — basta —
E sempre de fronte casta
Papas e reis cativaram?
* * *
Ai! após tantas misérias
Mais este golpe cruento!
Este delírio sedento
Que na paz mesmo abre chagas!
E tantos combates trágicos!
Com Estrasburgo queimada,
Com Paris atraiçoada,
Que valem hoje estas plagas?!
Se da Prússia o orgulho frívolo
Vendo seu negro estandarte
Vencedor por toda a parte,
Com Paris a suas plantas,
Nos clamasse: "Quero rápida
A vossa glória obumbrada:
Abaixo a pilastra ousada
Com que aos orbes espantas!
Abaixo esse arco insigne —
Emblema do império falso! —
Quero aqui — um cadafalso,
Ali — obuses em linha;
Contra um — fogo mortífero,
Canhão, bombarda, escopeta;
Contra outro — a picareta!
Cumpri: a ordem é minha."
Que vulto erguera-se esquálido
Bradando às turbas "soframos"?
Oh! nunca, à morte corramos!
Lutemos, que o insulto é novo!
Que importa mais cruas mágoas?
Que importa um revés de mais?
Curvar-nos? Jamais! Jamais!
— E vós o fizeste, ó povo!
Nebulosas, de Narcisa Amália, é um livro brasileiro de poesias publicado em 1872 pela Livraria Garnier, com prefácio de Peçanha Póvoa. Esta edição gratuita do Literunico oferece leitura online em capítulos HTML, obra em domínio público, fonte BLPL/UFSC validada, capa com identidade Literunico, espelhos completos de conteúdo e metadados reforçados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.
Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.
Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.
Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!
Capítulos disponíveis para continuar a leitura.
Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!
Conhecer as 100 RelíquiasAinda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.
Durante a leitura, abra Menu para ajustar a experiência sem sair do capítulo. As preferências de aparência ficam salvas neste aparelho.
Recursos identificados como “em preparo” aparecem para antecipar a evolução do leitor, mas ainda não executam uma ação.
Posso mostrar leituras em destaque, clássicos e Relíquias disponíveis agora no Literúnico.
Escolha um caminho
Dúvidas desta página
As explicações do Aurélio são respostas cadastradas pelo Literúnico.