Universo da obra
Universo da obra
Era pela enchente da maré de lua cheia. -O pescador João Sérvulo, mesliv da canoa Guanabara, subiu de madrugada ao alto da Igrejinha, em Copacabana, a vêr se já lá estaria o vigia á mira do peixe. Em baixo, na praia, em que a humidade das águas esbatia em sombras leves a alvura da areia empapada junto á orla inda escura do mar, o pessoal da canoa ia-se reunindo e aprestando redes e remos, á espera do aviso. Palpitava ao João Sérvulo que iam ter bom lanço. A manhã rompia clara e fresca. Era tempo, que as derradeiras pescas, com a calmaria daquelle ultimo Abril, não lhe tinham dado nem para o fumo. Não se lembrava mesmo, em toda a sua vida, de Semana Santa tão pobre de pescado. Uma miséria. Só vinham no copio do arrastão algas e -caraças do fundo do mar. Felizmente a tempestade do fim do mez que- c a u E i . AMOU brára aquella atonia e agora, com bom tempo e boa maré, que tal seria a sorte se lhe não sorrisse!
• João Baptista, o vigia, lá estava já em pé no outeiro, entre a Igrejinha e o pontal da fortaleza, olhando, com olhos de fragata ou gaivota cáçadora, para as águas verdes e profundas. Era um rapaz branco, robusto, de calças arregaçadas até aos joelhos, camisa de meia preta e boina também preta, de banhista. Conhecia de longe a approximação dos cardumes de peixes pelo negro (1) que os seus corpos desenhavam na superfície e pelo arrepiamento das águas por que passavam. Todos lhe gabavam a vista aguda e a estridencia inconfundível dos seus silvos de aviso para o cerco. Era um calado e um paciente, com paixão pelo. seu officio e pela canoa que servia, essa adorada Guanabara toda listrada de branco e azul, que lá estava na praia junto K curva da enseada, esperando a sua vez de cahir na água... O mestre, João Sérvulo, mulato alto, grisalho e magro, de braços finos mas fortes, e olhos serenos, cortou pela rocha o caminho, subindo da praia em direcção ao vigia.
— Bons dias, seu Baptista! Então? — Ainda nada... — Diabo! O vigia ergueu os hombros. Não tinha culpa; e depois de um curto silencio, informou : — O tempo está favorável... bom ar... boa maré... (1) Negror. vai vêr que até ha de ser precizo fazer curral... Olhe, o mudo e o 208 já estão pescando de linhote na lage grande... — Gente de paciência... amanhece ou anoitece e elles de caniço na mão ! Sabe de cousa mais aborrecida? Pescaria lá fora, ou mesmo de arrastão, fallem commigo, o resto? Até a tarrafa me enfastia; Pedro, que é mudo, ainda não admira, coitado, mas o 208 ! mas o tenente, do Leme ! João Sérvulo fallava olhando em redor. O dia desabrochava como uma flor immensa de luz, destinada a encher todo o universo. Desdobravam-se asombras em doces claridades. Os morros iam apparecendo entre neblinas rosadas, que se adelgaçavam. Em baixo, nos estendaes de areia fina, muito branca, uma vegetação rasteira, carapinhosa, desenhava formas bizarras de reptis monstruosos e a seus pés, lambendo os penhascos negros da rocha, o mar estendia-se desde a curva harmoniosa da praia immensa até ao horizonte infinito, confundido pela distancia e a vaporisação das águas com o céo esbranquiçado.
Maio floria a hervagem rasteira das restingas de botõesinhos de ouro pallido e avelludava num afago de luz o roxo e o pardo do fraguedo. As vagas, num espreguiçamento de somno, lambiam os pedregulhos, fazendo serpear entre elles fios leves de arminho branco, que logo se dissipavam... Para os lados de terra, neblinas côr de rosa iam-se rasgando sobre montanhas e florestas negras... Súbito, como se do fundo mysterioso do mar irrompesse em gradações suaves uma claridade cada vez mais forte, tudo s<> fez verde, de um verde fluido, claro, «•orno o da água traspassada por um raio luminoso; um verde que era como a própria alma do mar dilatando-se, dilatando-se pelo espaço, até vestir toda a terra, todo o eéo, num dilúvio de luz uniforme •> radiante. — Mez de Nossa Senhora ! exclamou João Sérvulo, com o olhar afogado na luz, procurando com os dedos magros o escapulario pendente do pescoço sobre o peito muito liso.
— Ora ! sentenciou o vigia, nem por isso deixa de morrer gente-e nem a gente de matar os pobres dos... Elle ia dizer — animaes, quando lhe pareceu que ao longe uma larga mancha escura vinha arrepiando a superfície das águas... calou-se e estendeu o pescoço, á espera. João Sérvulo percebeu o gesto e desandou ás pernadas apressadamente pela encosta abaixo, a tempo de esperar já rente da canoa, na praia, o aviso do vigia. O pessoal da Guanabara estava já todo reunido, desde seu Freitas, que era o dono da canoa, homem baixinho e magro, de olhos inquietos, até o crioulo Rufino, ainda novato no officio. Já quatro homens tinham embarcado o arrastão. Agora, fazendo des- > lizar a Guanabara, sobre as estivas postas successivamente na sua dianteira, até á orla do mar, estavam o Marcos, que, ao lado de seu Freitas, parecia uma torre, branco, de tez requeimada de sol, de boca larga e cara núa de pellos; depois o Rubião, nortista, barbudo, caboclo de olhar alegre, movimento ágil, mediano de altura e largo de hombros; e o Flavianó, mulato escuro, esbelto, com os cabellos negros, luzidios, em caracoes cerrados mas flexíveis como os cabellos dos brancos.
Havia ainda o Lino, que toda a gente chamava de compadre, portuguez grisalho <• espadaúdo, de olhos somnolentos. De estiva em estiva, os pescadores entoavam baixo uma cantilena : — Ehl... ah!... chi... Mais um arranco e o casco da Guanabara beirava a água, quando lá de cima, do outeiro, vibrou o silvo ngudissimo do Baptista, annunciando t» cardume. João Sérvulo saltou lesto para dentro da canoa, onde já dois companheiros empunhavam os remos. — Coragem, minha gente, que manjuba vem ahi, que nem farinha! gritou da praia, caçoando, o Rubião, emquanto o João Baptista, que tinha corrido do seu posto de vigilância, saltava também para dentro da canoa. Os outros pescadores ficavam na praia segurando o calão da rede, que ia sendo levada pela Guanabara ligeira para apanhar o peixe. A manhã favorecia o trabalho; estava linda. Flavianó mesmo, o mestiço, tido como o mais incontenlaVel dos companheiros, sempre acommodados ás ciroumstancias do azar, mostrava-se satisfeito.
Foi ellé que annunciou : — Vão ver que hoje começa a corrida das tainhas.. — Gente ! você está maluco I replicou Lino. Este anno, tainhas só para o mez que vem. Não viu que Abril foi tão quente ! não foi, Rubião? Este Rubião gosava de certa fama de mentiroso. Diziam que elle exagerava sempre que descrevia as 1. (1 CHUEl. \MOI! suas aventuras, salpicadas de perigos e de leineridades, desde o tempo de menino, lá nos'mares do Norte. Mas não lhe queriam mal por isso. Era fallador e alegre. Que importam mentiras, que digtrahem sem trazer prejuízo? Sem perder os movimentos da Guanabara, que todos acompanhavam com vista attenta, Flaviann disse cantaroladamente : — O melhor peixe que me couber hoje... já se sabe ! — Vai pr'a sua noiva? indagou Rubião. — Por força. Maria Adelaide dá a vida por um peixinho gordo.... Ouvindo esse nome de mulher, Marcos voltou-se <• cravou no mestiço um olhar penetrante e aborrecido.
Até então elle estivera calado, fazendo o seu serviço, mas sempre com o pensamento preso nessa Maria Adelaide de que o companheiro faltava agora com tamanha familiaridade. Seria crivei que aquelle mestiço desafiador e indolente, casasse de verdade com aquella flor? Elle vira-a na véspera, por acaso, no Ipanema, toda cheirosa e socegada entre as outras duas irmãs, e não sabia explicar por que motivo o diabrete da moça não lhe sahia da cabeça desde que abrira os olhos nessa madrugada... Não, bonita ella não era; com o seu ar de resignação, o rosto comprido, de uma palidez enluarada, em que se reflectiam raças oppostas; e o corpo fino como uma haste de flor. Nem parecia moça de trabalho, affeíta ás soalheiras do coradouro e ás agruras da barrella. Que perversão de sentidos seria a sua para se apaixonar CRUliL AMOR I I assim, ella que todos julgariam branca, por aquelle mestiço, filho de uma negra immunda?
Era verdade que o Flaviano procurava fugir das imperfeições da sua raça. Tinha perfil. Em quanto se pesca não se falia : o mais leve rumor espanta os peixes; mas como a Guanabara fazia as suas primeiras manobras, os pescadores na praia permittiam-se ainda dialogar, faliando aos arrancos, entrecortadamente, com a attenção no barco e no mestre. — Vai ver, Flaviano, dizia Rubião, que você só vai ter baiacú para levar á sua noiva... — Isso .fica para você... que não merece cousa melhor... — Diabo de peixe estraçalhador de rede... commentou Rubião; e logo : — Pois o que eu digo a vocês é que preparado por mim, bem tirado o veneno, guizado com tomate e uma ponta de dendê e limão, é de comer e pedir mais. Tá ahi, é como o cação. Ha gente que está morrendo de fome e desdenha o cação. Bobagem só. E' peixe que toma o gosto que a cozinheira quer. Eu sou capaz de fazer comer cação ao mais graúdo, por bom pescado...
Marcos também sabia preparar o baiacú, tirar-lhe a pelle e as vísceras, deixal-o branquinho que nem madreperola, só desprezando a cabeça; mas não se gabou da prenda insignificante e insistio em pensar no extranho gosto da Maria Adelaide por aquelle cabra de má morte... Por despeito e para machucar a vaidade do outro, gabou em poucas palavras, mas 'IU'EI. \ M O l t exageradamente. a graça da Hoiiensia, do compadre Lino, que sendo pobre e filha de pescador, não linha em toda a Copacabana mulher que lhe chegasse aos calcanhares... Rubião saltou, enthusiasmado : — E quando ella canta as modas? Inté os anjos do céo escutam... Marcos concordou, affirmando que á voz de Hortencia afugentava os máos pensamentos de quem a ouvisse. Com os olhos na canoa, que levava o arrastão ainda recolhido, Flaviano affirmou desdenhosamente, para desprestigiar quem lhe desprestigiava a noiva : — Gente ! se aquella é bonita, onde fica a filha de D.
Rola? — Lá isso é verdade, ponderou Rubião; essa onde chega allumia tudo ! Houve uma longa pausa de silencio e de attenção. A Guanabara começava a descrever uma larga curva e a lançar a rede ao mar. Na superfície muito azul das águas iam apparecendo successivamente, em fila arredondada, as boias enegrecidas do arrastãò; lembrando minúsculas marrequinhas seguindo umas atra/, das outras para um combinado destino. Suspensos das manobras da canoa, os pescadores não davam agora um pio, só tendo olhos e pensamentos para o seu trabalho, que o mestre dirigia silvando e batendo no ar os braços magros. Tinham corrido curiosos a vêr a pescaria, offerecendo-se para ajudarem a puxar o arrastão, mal a canoa aprotfu para outro ponto da praia. Mas os pescadores não responderam a ninguém, tão absortos CRULL AMOR l.'J estavam no seu officio, até verem os tripolantes da Guanabara saltarem em terra segurando a outra extremidade do cabo da rede.
Compadre Lino tinha ficado no mar, tomando conta da canoa. A um signal do João Sérvulo começou nos dois grupos, a um só tempo, o trabalho de colher o arrastão. Com os pés na orla espumarenta da água, os braços, em que as veias entumecidas se encordoavam, ora estendidos ora dobrados em angulo, os bustos curvados para a frente ou derreados para traz no esforço da tracção, os pescadores pareciam ceder ao mesmo influxo poderoso que rythmava o movimento • das águas. O verde novo da manhã transmudara-se em um azul violento, igual, sem mácula. Toda a praia resplandecia ao sol e já crepitavam na areia, ainda fria, chammasinhas de crystaes -tremeluzentes. Mais um arranco e o arrastão vinha sahindo, grosso, rugindo no fundo. , f Além dos curiosos que estavam na praia para apreciar a pescaria, havia grupos de pescadores de' outras canoas em descanço : a Yicloria, a Cruzeiro, a Camponeza... A fortuna da Guanabara não lhes mettia inveja.
Os pescadores regem-se por uma bíblia differente da dos outros homens. Para elles, quando a sorte despe um para vestir outro, não oílende ninguém. São os obreiros do acaso e sujeitam-se ás suas leis com estupenda resignação. Toda a Semana Santa fora cruel. O mez de Abril arrastara ainda muitos dias mortos, • em que se não conseguira nem uma tarrafada dov peixe que os pescadores chamam de comedia, porque vive á flor da água comendo manjuba. Agora que chegara a vez da Guanabara derradeira da escala, veriam como os bichos haveriam de vir rabiando ! Todos elles sabiam de cór as suas leis. Cada patrão de canôà tem o seu mestre, o seu pessoal de serviço, a ta"bella que fixa o seu dia para pesca na praia. Então se Deus manda peixe, louvado seja Deus! se não manda... paciência. Vão-se então os pescadores tentar vida lá fora no mar, ou na lagôa7 ou com o caniço nas pedras. Numa cadência de onda, os corpos dos pescadores curvavam-se e retezavam-se com vigor na luta com milhares de vidas que se debatiam na traição das malhas do arrastão, que vinha sahindo das águas, tumultuosamente...
Por entre o negror da rede molhada, os peixes reluziam como facas novas, em reviravoltas malabares. Puxando o arrastão para a areia secca, os pescadores suavam, deixando pender depois os braços fatigados. Os curiosos precipitavam-se para vêr ©s animaes e assistir-lhes á agonia. Rubião abria a rede para que os peixes morressem em liberdade, e perto delle, de pé, João Sérvulo contemplavarps com ar aborrecido : — Paratys... pescadinhas... — Que queria vancê neste tempo? ! — Tainhas. Podiam vir também tainhas, que o frio está ahi. Embora o cardume fosse de paratys, vinham tam- 5 bem alguns badejetes escuros e pescadinhas de prata, arqueando-se em convulsões frenéticas de encontro ao grande corpo lus.troso e denegrido de um merote de cabeça achatada e olhos terríveis. — Então vancê não faz conta do mero ? — Sim... Atira os baiacús nagua... o mero vale alguma cousa... — Uns trinta mil réis ! — Qual!
é pequeno... Os pescadores contavam o peixe, para manda l-o ao mercado. O dinheiro que rendesse seria tanto para o mestre, tanto para a canoa e tanto para cada pescador. Tudo se fez e aceitou em boa paz. Mais animado, João Sérvulo considerava a quantidade e parecia satisfeito. Para mais de quatro mil paratys, fora os outros... já era! Flaviano, acocorado, ferira o mero de leve com a pontinha aguda da sua faca, só para o ver sofírer ainda mais. Marcos voltara o rosto, agoniado; para que fazer aquella judiaria ao pobre do bicho?... e Rubião observou : — De nós todos, o único que usa armas é você, Flaviano. Porque ? — Costume... Sempre faz conta para cortar fio ou aparar um tolete... — Bem se vê que você foi criado no mato... para isso basta um canivete, homem ! Emquanto uns pescadores contavam o peixe, outros sacudiam a rede, para tirar-lhe a salsugem e as estrellas do mar. — Antonico 1 gritou João Sérvulo para o filho, 'iuri;l.
AMOU que se tinha deitado no chão, rindo-se das cambalhotas afflictivas dos peixes — Corra ! vá chamar sua mãi! O pequeno parlio como uma ilexa e o pai sacando do bolso fumo picado pôz-se muito lentamente, de beiço pendido, a enrolar entre os dedos magros um magro cigarro. Marcos, continuou elle, você que vai para o Leme ha de levar de caminho um badejete de minha parle á menina santa. Firme nas pernas finas, João Sérvulo riscou um phosphoro olhando para diante, para o vulto do íilho que semelhava uma bolinha escura rolando na alvura do areai. Acceso o cigarro e depois da primeira chupadella commentou : — Quem devia ir á santa era o Pedro mudo... Se aquella lingua se desentorpecia, muito teríamos que ouvir! Que eu por mim não acredito ! até me faz afflicção ouvir fallar em santas... Santas só no céo ! — Pois minha companheira vai lá, afirmou Rubião, e inté hontem me disse : quando ti santinha me põe as mãos nós olhos, é como se espalhasse flores na minha cara !
— Ella já vê?... — Já... — A's vezes, João Sérvulo, sabe o que me parece? que o Pedro não falia porque não quer... João Sérvulo arregalou os olhos, com um calafrio. Rubião continuou : — O diabo mette-se em toda a parte, todo o mundo diz o que quer e o que pensa ao pé delle... certo de CBUEL AMOR 17 que elle é mesmo surdo como peixe frito ; mas eu cá para mim tenho as minhas desconfianças.... aquillo é caixa de segredos, que mais dia menos dia, arromba de cheia ! — Homem, você tá doido ! Conheço o Pedro desde assimzinho ! Em pequeno era- ruim como a tintureira; mas foi sempre mudo : rtem elle tinha paciência para calar tudo no coração. Nem os animaes podem viver sem dizer o que sentem... homem! Vai ver que os próprios peixes conversam entre si ! João Sérvulo, era considerado pelo pessoal da Guanabara como o mais intelligente e o mais instruído. A'quelle dito da absoluta necessidade de expressão, os outros calaram-se convencidos.
Realmente, quem poderia viver uma longa vida, como a do Pedro, que já andava roçando pelos quarenta annos, sem articular uma queixa, num desabafo? A aragem de Maio vinha do mar largo acariciar a terra illuminada. As ondas desfaziam-se em pennugens de cysnes. Nos recortes dos morros, no estendal das areias, no ar sem nuvens, o sol derramava a sua luz de ouro. —• Mez de Nossa Senhora ! tornou a dizer João Sérvulo, com o olhar sumido no mar sem fim. Depois de um largo silencio, Flaviano aventurou : — Antonico tá tardando... talvez fosse brincar com o diabo do Bié e da Nita... Elle dizia aquillo de propósito, para contrariar João Sérvulo, que protestou : Você não conhece meu filho. Os outros são dois vagabundos... | S c l í t ' i : i . A Mui; — Isso são. Inda hontem encontrei elles sozinho-; perto da casa de minha noiva... Flaviano, quando fallava na noiva, enchia a boca. Rubião, sem interromper o serviço, indagou atrevidamente : Minha noiva...
minha noiva ! você casa mesmo ? ! Emquanto minha mãi fôr viva, não. Faz você muito bem, sentenciou João Sérvulo; as noras são o diabo. Tudo que se faz por uma mãi é pouco. — Maria Adelaide tem paciência, ella espera por mim ! Marcos sorrio. — De que é que você está rindo? ! perguntou-lhe o mestiço com ar atrevido e sério. — De nada... •— Nada, não é resposta; você ha de explicar porque é que se rio quando eu disse que Maria Adelaide espera por mim ! — Ora! — Ora, não! se você sabe de alguma cousa diga pr'ahi! Eu cá por mim acreditei no juramento delia ; mas se você pôde provar que o juramento foi falso, prove ! Marcos corou, desconcertado, tartamudeando : — Já disse : não sei nada. Somente tenho para mim que toda a mulher é mentirosa. Mas você tem fé, acabou-se. — O senhor não tem mãi? inquirio João Sérvulo solemnemente, voltando-se para Marcos. — Ora essa ! Pois então não conhece minha mãi?
Leia gratuitamente Cruel Amor, de Júlia Lopes de Almeida, romance brasileiro em domínio público publicado em folhetim em 1908. Texto preparado em HTML para leitura online no Literunico, com 24 partes, capa nova no padrão Literunico, fonte BBM/USP validada, busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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