Leia agora
Festas populares do Brasil

Universo da obra

Festas populares do Brasil

Capítulo 5 · Festas populares do Brasil

O Carnaval (Rio de Janeiro)

5 de 13 ≈ 25 min de leitura

o Carnaval ( RIO PE JANEIRO ) Ão é de hoje a historia das vesanias humanas. O carnaval, que é uma phrenopathia, filia-se as mais altas civilisações, exh.ibindo-se rudimentario entre os povos sel vagens. A senha dos Chérubins egypcios, da Saturnaes romanas, das Bacchanaes gregas, da festa dos Innocentes e dos Loucos, de que faliam as chronicas da idade média, é a mesma do car-

naval de Veneza, de Roma, de Pariz, do Rio de Janeiro e das tribus amazônicas. Entre todos os povos encontram-se as masca radas desde o Hindo — <jne, como pensa Volney, desfigurava o céo, o metamorphoseava, até os nossos Tucunas, que tomavam mascaras de folhas e de cascas de arvores, de terra e de cabeças de animaes, para as festas do Bui ante. S. João Chrysostomo condemnava os de boches e as mascaradas nas igrejas; e o papa Innocencio iii as verberava por meio de uma Decretai — «Dão-se algumas vezes nas Igrejas espectáculos e divertimentos de theatro, e não sómente introduzem n’esses espectáculos e n’esses divermentos monstros mascarados, mas ainda em certas festas os diáconos, os padres e os sub-diaconos permittem-se a liberdade de fazer toda a casta de loucuras e palhaçadas... « Eu vos conjuro a exterminar este cos tume... » O carnaval implica o uso da mascara e dos disfarces ; e a mascara era usada pelos trágicos gregos e romanos. Nas Bacchanaes e nos espectáculos havia mascaras que exprimiam o odio, a lubricidade, a satyra... Em França, desde o século xiv, diz o bibliophilo Jacob, as mascaras foram adoptadas: belippe o Bello tinha o carnaval como o fol guedo de sua predilecção. Segundo o redactor do Journal de Paris, ci tado pelo romancista dos Nouveaux romans de Paris, « uma singular mascarada teve logar no

0 CAIINAVAL ' ” U '71.-Í4, :î'?dr M i l- .: -rirüi'- reinado de Carlos vi, no cemiterio dos Inno centes. Em.uma acção phantastica, chamada Dans.ï Macabre, indivíduos de ambos os sexos, disfarçados em gente de todas as condições, desfilavam ante a Morte, que impassível lhes ouvia as queixas. Pediam-lhe a prolongação da vida ; uns para realisarem projectos de am bição, outros para gozarem de sua nova for tuna, todos para alguma chimera. A Morte, depois de chasquear em verso com os supplicantes, descarregava-lhes a fouce. A mascarada da Dansa Macabre esteve mui to em voga na Allemanha e na Suissa. Henri.]ue iii dispensava calorosa animação a esse r^gosijo publico. A’ semelhança dos vali dos do rei, os nobres e as senhoras do tom mascaravam-se. Accrescenta o historiador Lestoile que aquelle soberano gostava tanto de fantasiar-se, que deitava-se de mascara, interiormente unctuosa c pintada. No Beppo de lord Byron, o poeta encarece o carnaval de Veneza ; Goethe no Faust não é menos enthusiasta pelo carnaval de Roma. No tempo de I.uiz xiv as cortezãs e as mu lheres da moda tatuavam-se exageradamente, e usavam de signaes pretos no rosto para faze rem-se mais lindas ; muitas havia que sobre a alvura da face assentavam estrellas e meias luas de tafetá, que concorriam para transformal-as. A revolução acabou com as mascaradas em França, reapparecendo ellas mais tarde nas ruas e theatros.

Wny,- FES'l’AS POPULAllES 1)0 BUAZIL Uina coincidência : o carnaval francez agonisava, quando nascia o carnaval brazileiro, O carnaval do Rio de Janeiro começou após a prohibição do jogo do entrudo pelo desembar gador Siqueira, unico dos nossos chefes de po licia de quem a tradição repete o nome com segurança e respeito. Muito antes, inauguraram-se os bailes mascarados_, devidos os primeiros á iniciativa da can tora Delmastro, que para aqui viera com a companhia lyrica de Mme. Lagi'ange. Esses bailes tiveram logar onde e hoje o theatro da Phénix Dramatica, que comprehendia a grande chacara da Floresta. Succederam-.se a estes os do Angelo, na cha cara da rua do Conde, da Cidade Nova, e os do Nicola, no largo do Rocio. Ao crescente e inesperado favor do publico corresponderam os theatros de S. Januario, Lyrico Fluminense, S. Pedro e Gymnasio, que para o mesmo lim abriram as suas portas, acom panhando-os o Club Fluminense, que só admittia os socios, e o Paraiso que acceitava a todos. Em que consistia o nosso primitivo carnaval ao ar livre? E’ facil de cogitar : em pequenos grupos de mascaras errantes, um jcrince^ des garrado, e assim por diante. Em iSãq, já alguns carros com mascaras appaieceram e dasjanellas atiraram-lhes (lores. O Jornal do Commercio, noticiando o facto, aCwiiselhou que para o anno futuro se reunis sem, o que daria mais relevm ao festejo.

0 CARNAVAL Até então a loucura descobria o prazer ao sorn da musica escolhida, inundava-se da luz dos lustres e candelabros, mitigava a sede pro vocada pelas dansas ardentes nas taças de champagne^ e requintava de goso n’aquelles abrigos resguardados e idéaes como as scismas voluptuosas dos crentes de Mahomet. Era á noite que n’aquellas Lupercaes esplen didas as mulheres coroavam-se de fascinações, que os moços de qualificação distincta dissi pavam-se attrahidos. No Club, especialmente, quanta perdição no langor morno da belleza aristocrata, no roçar de um corpo de neve, n’um scismar vago, ao terraço ou á janella, tendo por testemunhas o olhar pestanejante das estrellas e o céo pro fundo e escuro como as marés incertas do destino !... Mas a luz do dia tivera inveja da luz dos can delabros ; a voz do jornalista é o fiat das socie dades ; e a Loucura, no seu despertar de somnambula, emboca as fanfarras no meio das praças, com o seu séquito de cem escravas e de milhares de captivos. Em janeiro de i855 já as folhas diarias annunciavam que o carnaval seria manigíico: as familias mais consideradas, a mocidade mais dinheirosa e illustre, associavam-se á em preza do dia. Jurisconsultos, médicos, jornalistas,militares, Í.í altos íunccionarios públicos, negociantes, fazendeiros, emíim tudo quanto a sociedade flu- ■ 4'4in minense possuia de selecto absorvia-se n’uma ■ Jí só idéa, n’um só pensamento.

íl'i í TEÍSTAS J>01'TEAKES DO DKAZIE t Í * í' ^ ij! I i I il I I S-í: Í-Vi», í !• ii No largo do Rocio c eni muiussimas ruas, as casas de vender e alugar vesíimentas multipli cavam-se. Nas casas particulares viam-se o velludo e a seda, as espiguilhas e cs bordados a ouro ; nos alfaiates os costumes especiaes ; nos ourives adereços íinissimos. Decoravam-se sumptuosamente os theatros. Nos scenarios, subindo até as bambolinas, os es pelhos scintillavam, como vagas descendo de fantasticas muralhas: palmeiras á entrada de grutas, cascatas artihciaes, flôres e perfumes, : faziam suppôr que n’aquelles salões enormes, se iriam asylar as fadas dos contos das Mil e uma Noites. Cá fóra o commercio abria pesada bolsa ao artista mais habil no enfeite das ruas, ao jardi neiro mais zeloso no cultivo das palmeiras e arbustos de ornamentação, a quem mais des lumbrantes erguesse as arcarias illuminadas, ao pintor de mais. imaginação e espirito no acabado dos escudos implantados de trophéos onde se liam epigrammas e quadras chistosas. Nos coretos em profusão pregavam-se bancos para a musica e collocavam-se ligurasque symbolisavam personagens e acontecimentos ridicu los. Nos primitivos carnavaes a influencia era ta manha, que póde dizer-se que um terço da população mascarava-se. K tanto é verdade, que os directores de thea tros advertiam ao publico que seria vedado o ingresso nos bailes a quem não se apresentasse fantasiado.

U CAILNAN AL Em i855 fazia a sua primeira passeiata o Congresso das Sumniidades Carnavalescas. Antes do dia z3 de fevereiro, em que cahira o entrudo, uma commissão composta do Dr. Joa quim Francisco Alves Branco Muniz Barreto, coronel Bolydoro de Souza Q^uintanilha Jordão e o Dr. José Martiniano de Alencar, dirigiu-se a S. Christovão, pedindo a S. M. o Imperador que viesse com as princezas para o paço da ci dade, honrar com a sua presença o carnaval do anno e assistir á passagem do Congresso. D’esta sociedade tiveram a iniciativa homens de lettras e jovens escriptores, cujo talento impunha-se pelo brilho progressivo. Esses leaes companheiros de tantas gloiias, que resplandecem do passado, faziam parte da redacção do Correio Mercantil e chamavam-se Henrique Cesar Muzzio, Pinheiro Guimarães, Manuel Antonio de Almeida, J. de Alencar, Augusto de Castro, Ramon de Azevedo e outros, que saudavam o futuro entre um artigo de fundo, uma poesia, um folhetim, e o des abrochar das esperanças nas alamedas sempre encantadoras da primeira mocidade. Felizes tempos aquelles em que Alves Branco, I' F. Octaviano, Firmino Rodrigues Silva e Paranhos regiam os moços, porque elles viam a penna de ouro na mão do mestre e do amigo ! Afastados d’esse grupo, mas conhecidos de bonito nome, a elles reuniram-se Joaquim de Mello,Francisco Augusto de .Sã, os dous Faros, Palhares, Ghristiano Stock me ver, Horacio Urpia Fe&tàs populares

FEîSTAS POPULARES DO BRAZIL e mais, que fortaleceram o emprehendimento como forma e como idéa. Na tarde do domingo as bandas marciaes to cavam ; os chicards, os titis^ os flambards, os pierrots^ os débardeurs^ os dominós^ os Zés Pe reiras^ os D. Niinos e os cavalleiros de capa e espada percorriam a cidade. Os carros de mas carados não tinham conta. Dos sobrados desdo bravam colchas de damasco e entornavam flores; os estalos fulminantes imitavam as cre pitações das fogueiras e a multidão acudia a vários logares, curiosa e festiva. No anno a que nos referimos, os mascaras de espirito tornaram-se salientes, üm francez houve, que no Provisorio intrigou a toda a gente. Este mascara envergava um costume metade preto e metade branco. .Muitas pessoas ainda se recordam de um individuo que, trepado n’uma saia-balão de propor ções colossaes, distribuia pelas janellas poesias, trocando pilhérias. Consecutivo este carnaval á illuminacão a gaz d’esta capital, junto a um Mineiro que mon tava n’um boi, conquistou gostosas gargalhadas um sujeito enfesadinho, escanchado n’uma ju menta branca, tendo em toda a exotica vesti menta escadas e Iam peões de panno, recortados e cosidos. Pisava-se sobre folhas de canella e man gueira, sacudia-se do cîiape'o rosas e jasmins, corava-se á indiscrição de um mascara que se gredava (em voz alta) o que vira e o que não vira. ■ÿiii

Ü CARNAVAL , "=--ílO-...... ..: "'“i '■ »• Zil' • ''isjl). XiÚi i5:oc '•j.-íCitó -.jér.fjÇi NaPetalogica do largo do Rocio, Paula Brito, Teixeira e Souza, Constantino Gomes de Souza, â Laurindo Rabello, Zaluar, o bacharel Goncalves. Castro Lopes, José Antonio, Bracarense e Machado de Assis, atropelavam os prince^es que entravam e os desenchabidos que pas savam, Quanta lembrança original, quanto desapon tamento engraçado, quanta corrida de vencido ! Uma vez Laurindo Rabello estava na porta. Um mascarado, vestido de capim, aproxima-se. O poeta ial-o parar e diz-lhe, torcendo o bigode : — Meu amigo, o senhor, depois de divertir-se, come a roupa, não é assim ? Ao que o seu interlocutor nada respondeu, perturbado, por certo. O Imperador, a Imperatriz e as Princezas observavam do passadiço do palacio a animação dos festejos, esperando um pouco retirados pelas Summidades, cuja tardança os impacien tava. Por volta das 5 horas da tarde, a turba toma as sahidas de onde o clangor dos clarins e o tropel doscavallos avisinhavam-se. O povo abria-se em fileiras defronte do paço; de envolta com a multidão os velhos cabeçudos^ de cajado e luneta, suspendiam no ar as enor mes mascaras de papelão, saracoteando; os diabinhos barbudos reviravam a mascara, enro lando á cinta a cauda vermelha... A espectativa era inexcedivel ! E os sons se escutam de perto, de muito perto...

i I í !■ ! 'i i ■! , A familia imperial chega ás sacadas, e os «vivas» e hurrahs^ como uma pyramide sonora, que enfiasse a grimpa na immensidade, tinham por base ondulante o pasmo de toda aquella população. Logo após, transpunha o largo do Paço a banda marcial do Congresso das Summidades Carnavalescas, vestida com o pittoresco cos tume doscossacos da Ukrania. Os clarins escocezes cio regimento dos hiffhlandes formam-lhe a retaguarda, antecedendo ao carro de D. Quixote, o cavalleiro da Mancha, que fazia tremular, com a galhardia de um heróe de Cervantes, o pendão admiravelmente trabalhado das Summidades. Todos os caleches— e deviam ser mais de dose — eram puchados a du.is parelhas lindís simas, ajaezadas com grandeza. Sobre cada carro desenrolava-se rica colcha de damasco coberta de rendas alvissimas \ e, em cima das almofadas, ou aos pés dos personagens, cestas com pequenos bouquets^ caixinhas com estalos fulminantes, grãos de bico e feijões confeitados, que cada um atirava aos espectadores das janellas e á gente aglomerada nas ruas. No meio de bravos e flores, o primeiro grupo de cavalleiros foi de um successo maravilhoso. Era um grupo historico, reproduzido com tanta propriedade e luxo de trajar, que não ha quem o tivesse visto que d’elle não se recorde des lumbrado Esses cavalleiros eram Nicoláu i, imperador de todas as Russias, Abdul-Metijid, o senhor de Stambul, um Crego, o almirante

0 CAUNAVAL ■'!;í|;5|Í -îàk J , .i-'Sr- ' ' . s. • ®if'" '■ , . ■ -'jiiJU J^Liguay Troin, Marco Spada e um Dragão prus siano da Morte. Parando a instantes, refreando os ginetes ariscos, jogavam ás senhoras, durante o trajecto, ramos de llores, dentro dos quaes mettiam um cartão de visita, que tinha por fim de clarar o nome dos personagens que representa vam. Por exemplo : « Nicoláu I comprimenta a V. Ex., por quem morre de amores. » (Caleches com Bayaderas, Mandarins, Nobres do Caucaso, Benvenuto (Fellini, Fernando o (Jatholico, o duque de Guise ; grupos a cavallo, caracterisados como o duque d’Alba, Carlos v, o conde de Provença, Thadeu Kosciusco ; phaetontes em que se repimpavam o Dr. Dulcamara, pregoeiros, etc., constituíam o pomposo prés tito do (Congresso que, em sua marcha trium phal por uma estrada de folhas verdes e aromaticas, ao dardejar das luzes que semelhavam abobadas de fugo, ás acclamações populares e ás catadupas de fiores e harmonias, entrava victoriosamente no grande carnaval. Impossível fôra ds-screver o enthusiasmo das multidões ! Para caminhar no passado, só a imaginação esclarece a treva ! Na noite antecedente,o baile das Summi Jades marcara notável acontecimento, por isso que, como baile á fantasia, ainda nenhum outro en laçou com tanto brilho e formosura, a nobreza e o talento. O Club Fluminense, adornado com o maior esplendor, era o palacio das representações íi-

FESTAS POPl'LARES DO DP.AZIL fi* ft ,l K 1 !v hl dalgas. As moças mais bellas, membros do mi nistério, do senado, do corpo diplomático, generaes, poetas, littérales, jornalistas, funccionarios públicos, etc., ahi se achavam dando mais realce á grandiosa festa. Sem roteiro determinado,a passeiata d’aquelle anno realisou-se ao acaso ; e depois de percor rerem o Cattete, voltaram á chacara da Flo resta, de onde sahiram, dispersando-se afinal, Na terça-feira fizeram o enterramento do carnaval. As pompas funerárias do deus Momo não podiam ser mais solemnes. O préstito seguiu a pé ; carregado por dominós, o feretro symbolico foi deposto n’um catafalco erguido debaixo das arcarias illuminadas da rua das Violas. A banda militar toucou a marcha funebreg|Um membro da commissão dos festejos recitou um discurso, terminado o que, foi transportado o ataúde, escoltado pelo Con gresso, ao theati o Provisorio. Durante o trajecto, as estrondosas demon strações excediam do enthusiasmo. Vivas, poesias, allocuçoes burlescas na Petalogica, illuminação das ruas e do ediíicio do club, ban deiras e musicas, assignala vam-lhe os triumphos. A’ entrada no Lyrico, as saudações da platéa e dos camarotes não foram menos significa tivas, Quando o Congresso das Summidades Carna valescas banqueteava-se nos salões, as polkas, os galopes, as quadrilhas e as valsas respiravam apenas, suffocados pelos sons dos guizos e das trompas, dos gritos estridulos, da vozeria con-

0 CARNAVAL fusa e do bater dos pés de um louco em delírio — o Baile Mascarado ! D’est’arte inaugurada a festa, fora debalde querer detel-a nas suas celebrações annuaes. As Summidades erguendo arcos triumphaes, prepararam o caminho até hoje trilhado pelo carnaval do Rio de Janeiro, em busca do tem plo do deus Momo, uma das mais palpitantes individualisações das bizarrias do espirito hu mano. E a União Veneziana, que apparecera mais tarde, chama o Congresso de irmão, e dispu tam-se a primazia. Ambos tem nas mãos a taça dos très dias, que ferve de risos e de’esquecimento. Com a fronte engrinaldada das rosas pallidas da folia, como as mulheres da Babylonia, o Congresso e a União antecipam-se ao requinte do prazer. A Euterpe Commercial, sociedade de musica, transforma-se em Zuavos, e, anno pjr anno, o carnaval adianta-se nas suas jornadas ruidosas. Entretanto, o Congresso, durante o seu rei nado, campeou absoluto ; os seus bailes e os seus préstitos íicaram únicos. Até 1877, a physionomia do carnaval era mais expansiva, mais popular. Todos os thea tres davam bailes ; as ruas e praças decoravamse com amplitude e profusão ; carros de mas-

r. ê h ) FESTAS POPFEARES 1)0 RRAZIL r.j;-' I Vri " /■ 5 ' [{MVi ii\ 111!; 1.4 t caras percorriam as ruas ; os grupos fantasiados eram innumeros ; e os mascarasisolados faziam rir.pela originalidade das ideas, destacando-se pelo espirito. Emquanto um préstito desfilava e um’ ou outro grupo mais avultado exhibia-se vistoso pelas ruas principaes, os mascaras de todas as categorias entretinham, cm quantidade prodi giosa, todas as attenções. Sentia-se que a cidade sahia fóra de sua vida habitual, é que seu aspecto exterior era um reflexo pallido da alegria publica. Os theatros embandeirados, o commercio das vestimentas, coretos, musicas e rumores generalisados, constituiam o clima do domingo, que, desde as duas horas, transmittia o conta gio da loucura á população inteira. Durante os tres dias havia o carnaval das ruas, dos theatros, do (^lub. dos salões. Aluitos giupos organisaram-se, cada qual com mais ele gância e accentuada característica. A Bohemia, piecedendo os Chromaticos, apresentou-se nos theatros com estranho luzimento. O vestuário era o seguinte; blusa de seda, de mangas curtas, franjada de ouro, ma noplas de verniz, calção camurça e justo, botas d Fernando, facha de cores vivas, argolões de metal ás orelhas, cabelleira crespa, distinguin do-se pelos capacetes encimados por passaros, lanternas, chimeras, etc., cujo efLito era admi rável. Recordamo-nos de um desses chicaris, que sobre o capacete de couraceiro prussiano osten-

tava um pennacho escarlate e branco, de mais de um metro de altura. Esses hohemios annunciavam-se pelo grito especial, de que falia Henri Murger. O (^lub X, do qual ainda se falia com sau dades, compunha-se igualmente de riquíssimos e espirituosos chicards^ iniciadores dos carros de idéas^ que com tanta vantagem foram apro priados pelas sociedades ulteriores. As da mas do Club X fántasiavam-se com esmero e primavam pelo conjuncio das formas. Da passeiata que fez o club, acompanhado de camellos, ha muito quem se lembre. O distinctivo dos socios era um C e um X no alto do capacete e nos escudos. Náo nos preoccupando de grupos vulgares, fallemos de uma antiga sociedade, que retirouse das folias carnavalescas,porque já nã-o tinha mais louros a colher — os Estudantes de lleidelberg. E quem eram esses estudantes ? Na primitiva, rapazes do curso medico, al guns empregados públicos, e poucos, mas de boa collocação, do commercio. Esta sociedade não fazia passeiatas: dava seus bailes, ou concorria aos do Lyrico, Gymnasio e S. Pedro. Pelo pessoal escolhido, percebe-se o successo de sua existência. Quando os Estudantes de lleidelberg entra vam nos salões, a íina critica, a intriga espiri tuosa, a pilhéria inoffensiva, entravam em con tribuição. As familias nos camarotes, e os mas-

FESTAS POPULARES DO RRAZIL vit K^ííí hil-'- caras que flanavam nos intervalles da dansa, * punham-se em guarda para o riso e para o des apontamento, O seu trajar era especial, segundo o estylo universitário, Eis o uniforme : sobrecasaca curta abotoada, calção-camurça, botas de mon tar, facha, espada, bonet sem aba, mas circulado por larga íita, em que realçavam as cores da bandeira do paiz ao qual cada um apparentava pertencer, O rei destoava, porque substituía o bonet pelo chapéo armado e vestia irreprehensivel casaca, Todos traziam porta-voz, com que atroavam céo e terra. As mulheres que os seguiam, vestidas a ca pricho e interessantes, ajudavam-lhes a atra vessara noite, no meio das dansas e das garga lhadas argentinas. Em qualquer das tardes, mascaras avulsos faziam-se celebres pela originalidade das lem branças. Uma vez appareceu um g^allo bastante vist so, que cantava, abrindo as azas, junto a um hgurão, que sobre o abdomen deixava 1er o se guinte letreiro : Aqni dentro hn alginna cousa. No S. Pedro, no Provisorio, depois de ter debicado nas ruas a todo o mundo, apresentouse um individuo, correctamente trajado, ves tido á corte, como vulgarmente se diz, de cculos, cabelleira e nariz postiços, de um espi rito sorprehendente, fallando francez, inglez, Clllemão, italiano e portuguez.

I í ; i;n^ ífJHi : - -'iil* j î f> TÍ •fWÎ Não houve quem não o admirasse, já pelo chiste, já pela pureza da pronuncia nas linguas em que se exprimia. Por baixo dos arcos pintados e de luzes ; ao açoite das bandeiras suspensas,abalroando-se nos coretos ; e, á noite, ao fogo dos archotes, os Zés Pereiras^íx ;nor/e, de campainha e fouce, osjr>?-/»- ce^es de mascara de arame e de papelão, os ran chos com tocatas e os diabinhos de rabos e chifres, agitavam-se, moviam-se, danáo a esses quadros um aspecto verdadeiramente encantado. De subito, uma banda de musica assomava, precedida de fogos de bengala e da multidão dando vivas. Eram as Summidades, a União Veneziana, os Zuavos, ou qualquer outra sociedade, con forme os tempos, que na terça-feira enterrava o carnaval... Nosesquifes,com rodellas de limão, ouriçados de palitos, guarnecidos de archotes, carregados ao hombro, os leitões assados, os perús, asgallinhas e o fiambre para as ceias no theatro. O feretro parava em determinados logares, entoava-se um De profiindis, tocavam-se mar chas fúnebres, recitavam-se discursos comicos, poesias disparatadas, em honia do carnaval e da comesaina. Estas festas foram mais ou menos assim até o anno de sessenta e tantos, em que a Paulicéa Vagabunda compareceu nos festejos. Foi esse o ultimo carnaval clássico, estron doso. O Imperador desceu, na ultima tarde, ao paço da cidade.

A’ excepção do Congresso e da União Vene ziana, as mais sociedades existiam : parte da população mascarava-se, e os theatros e clubs eram paraizos arteficiaes. Sem podermos firmar as datas da funda.ão das sociedades de hoje, recordamo-nos de um facto que determinou o renascimento do car naval, que ia em decadência : o incêndio de uma Pharmacia ou drogaria da rua Direita, no anno de i8 6 t. Os theatros estavam cheios, e a noticia espa lhou-se. Os Zuavos, suppondo que o fogo se havia de clarado em casa de um dos socios, para lá cor reram, e, com o seu uniforme carnavalesco, auxiliando o corpo de bombeiros, portaram-se com a maior valentia. Extincto o incêndio, levantaram-se para elles as labaredas do prestigio. Novos socios entra ram ; o enthusiasmo aviventou-se, e não longe d esse baptismo de fogo, que lhes consagrou o nome, receberam no chrisma de Momo o de Tenentes do Diabo. Nos carnavaes posteriores a i8 6p, uma outra gerarão, trazendo comsigo novas ideas, veiu occupar o scenario pouco povoado do passado e assistir á agonia das derradeiras associações que falleciam. Da altura de suas aspirações, recolheu o que lhe paieceu util, accumulando os cabedaes de que presentemente dispõe. Os Fenianos, grupo dissidente dos Tenentes do Diabo, exemplificam o que dizemos.

0 CÂRNAVAT. h 10 ♦ ■ï'ifî ;'Ï0J A partir de 1 8 7 0 , o carnaval concentrou-se g nas grandes sociedades, absorvendo os mascaras. Pequenos ranchos, foliões dispersos e de r pontos distantes, para verem o desfilar de um I prestito sumptuoso, afifiuiam aos lugares indi cados no itinerário, abandonando assim seus passeios, seus centros, seu meio ; mas como tanto gosavam fantasiados como sem disfarce, opinaram pela conveniência, e o mascara de hontem tornou-se o curioso de hoje. Não sabemos se com isso ganhou ou perdeu o carnaval; como regosijo popular, não é mais o que era. Os theatres, ficando vasios, porque as cavernas e as casas proprias locupletavam-se, apagaram seus lustres, fecharam suas portas; e oscuriosos, depois que as sociedades passam, voltam aos seus lares, como nos dias communs. Entretanto, cumpre confessar que os Democraticos,Fenian os e Tenentessão justamente dignos da gloriosa reputação que lhes dispensa o publico, reputação adquirida pelo espirito subtil de suas idéjs^ pelo appai ato grandioso de seus prestitos. Margeando as correntes modernas, substi tuiram as cavalgadas numerosas, os canos de mascaras, os personagens disfarçados, a masca rada geral, pelas suas custosas bandas de mu sica, pelas allegorias do Porta-estandarte, pelos carros de idéas., cada qual mais espirituoso e original, ou mais rico. Debaixo das rodas d’esses carros ficaram es magados os arlequins, os polichinellos e outros typos, que outr’ora tanto nos divertiram.

í i : ' ; ’ FESTAS POPULARES DO BPiAZIL E a allusão deixou de ser pessoui para abran ger, as mais das vezes, um circulo, um facto uma acçao. Applaudidas muitas das suas cri ticas pela felicidade das reproduccões, os acon tecimentos mais ridiculos e frisantes do anno são transportados para aquelles scénarios ambu lantes, como para um baixo-relevo executado por mestre. O povo ri-se a bom rir, porque, conhecendo o assumpto, póde dar aos perso nagens os nomes authenticos. b>epois das ruidosas Allegorias em que todas as sociedades se empenham por exceder-se, seguem-se os carros de idéas, em que os Fenianos, Democráticos e Tenentes tem ao mesmo tempo, ou em annos diversos, se coroado de laureis, na realidade deslumbrantes. A de Venus, em que apparecia um celebre astronomo armado de telescópio ; A mancha de Jupi^er^ allusao magnifica á escravidão ; B ra ço s a lavoura. A s barraquinhas, a Q uestão dos bispos, etc, conquistaram tão vivas manifes tações que a impressão produzida restou inapagavel na memória publica. Os Fenianos, os Tenentes e os Democráticos empunhando o sceptroda tradição, representam actualmente o carnaval do Rio de Janeiro.

Festas populares do Brasil

Sinopse

Leia gratuitamente Festas populares do Brasil, de Mello Moraes Filho, ensaio clássico de 1888 em domínio público sobre tradições, folclore, festas religiosas e cívicas brasileiras. Esta edição digital do Literunico foi preparada a partir da digitalização da BLPL/UFSC da edição Livraria Garnier, organizada em 13 capítulos HTML para leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

Festas populares do Brasil

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Festas populares do Brasil

Trilha sonora oficial

Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.

Abrir no Spotify
Ir para o carrinho
Mercado de Festas populares do Brasil

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral Festas populares do Brasil Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
0Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 5 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir