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Capítulo 10 · Festas populares do Brasil

A véspera de S. João

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pî:a ••■Olj '-^Oîro, ;siii A vespera de S. João OR que pedirmos aos mythos dos as tros, de que se tem occupado a critica moderna, a corporisação de lendas christãs?Por que descobrirmos ana logias em celebrações divergentes por sua Ín dole, quando entre ellas cava-se um abysmo, elevam-se muralhas que separam crenças e racas ? Estas interrogações formulavamos nós, fo lheando paginas de uma erudição pedantesca, que ajustava por phenomenos solares a com-

memoração do Precursor evangelico, festa liturgica em toda a christandade, e do calen dário popular em Portugal e no Brazil. Retrogradando, porém, ao luar que amarellece as chronicas do século xv, vimos desfilar as primeiras cavalhadas de S nas ilhas dos Açores, aos fogos de artificio e rufos de tam bores, Com o tempo, essas festas enriqueceram-se de superstições que desceram de suas religiosas origens, tendo para esclarecer-lhes a marcha os fachos de resina e o luzir incendiado da polvoia em detonações fulminantes. Q_ual a genesis d’esse folguedo publico nas ten as de além mar, onde ainda perdura com suas formulas auguraes e encantamentos, foinos vedado descobrir, O mesmo não succédé no Brazil que, aceitando o legado na sua casti dade primitiva, creou-lhe uma lenda, accrescentou-a na. parte mythica, e o ampliou em relação ao concurso de novas raças e diversos meios Entre nós a revolução foi rapida e pertence toda ao passado... O estrangeirismo, que nos esmaga, tudo que e nosso vai levando comsigo !... E quasi nada nos resta ! E , pois, abrindo uma janella ás tradições e a porta á gente antiga, que suspenderemos as ruinas da casa paterna mais este quadro que trouxemos da infancia, emmoldurado dos espectros das rosas da nossa primeira moci dade.

A VESPEUA DE S. JOAO lõl ^ c i í; c ..'tiifl Para as festas de S. João eram múltiplos os costumados introitos. Recebiam-se convites dos grandes senhores, dos fazendeiros riquissimos, da burguezia abastada e do proletário arran jado. No Rio de Janeiro, logares havia em que se festejava o Baptista do modo mais estrondoso e fidalgo. Em Inhaúma, em Paquetá, em Campo Grande, na ilha do Governador, etc., o mastro plantado com a boneca, enfeitado com espigas de milho, laranjas e mais fructas, indicava o festejo no sitio, as proximidades do dia. Nos arrabaldes, as chacaras e palacetes, com o mesmo signal, chamavam a attenção dos visinhos que propalavam indiscretos os nomes dos donos, commentando livremente a lista, ás vezes imaginaria dos convidados. Antecipadamente, viam-se nas ruas pretos de ganho com cestos carregados de foguetes e fogos de todo genero,de cannas e batatas doces, de carás e milhos verdes, de gallinhas, ovos e perus; de tudo, emfim que dizia respeito á folia da noite e aos lautos jantares e ceias que então se davam. Os fazendeiros despendiam largas sommas, vestiam de novo a escravatura, matavam rezes em obséquio aos convidados da côrte. Em casa da baroneza de Sorocaba, do barão de Merity,do Amaral, e do marquez de Abrantes,preludiavamse os regosijos da noite desejada ; no palacio de S. Christovão, as princezas recommendavam ás suas companheiras de inhtncia que compare cessem bem cedo ; em vários pontos da cidade, os pais de familia dispunham da lenha para

IP■ o£- as fogueiras, collocavam sobre a mesa os livros de sortes, encordoavam-se os violões para os descantes. As rodinhas, as pistolas, os foguetes, buscapés, chuveiros, rojões, cartas de bichas, gyrasóes, traques de sete estouros, bombas, e uma diversidade enfadonha de fogos, alastravam as mesas, entupiam as mangas de vidro, atravan cavam as gavetas. De par com tudo isso, as donas de casa atropellavam as escravas, arrumando as provisões, ralando o milho verde e o côco para a cangica, fazendo os deliciosos bolos de S. João. Nas ante-vesperas, na intimidade do lar, as moças reuniam-se á luz do candieiro, e os me ninos, descendo aos pulos do sofá da sala, acer cavam-se da avó, que, tremendo com os lábios, rolando nos dedos as contas do rosário, nar rava, sentada n’uma esteira, a lenda do Baptista e das fogueiras. E as moças, accommodando as crianças, e as criança, bugalhando os olhos, fitavam-n’a, que, uma vez resolvida, assim começava : — Vou contar-vos, meus netinhos, uma his toria do principio do mundo. « Um dia, Nossa Senhora, que trazia a Nosso Senhor Jesus Ghristo, foi visitar a sua prima Santa Isabel, que também trazia em seu bemdito seio a S. João Baptista. Apenas as duas sagradas primas se avistaram, o divino Baptista, que não tardava a nascer, se ajoelhara em adoração a Jesus. Santa Isabel, que isto sentira, não tardou em communicar o milagre á Virgem, que, exul-

njiL ’■'■•'■iJ!üri;.i I ';''5 J JO-ipa«.) ! HU', i V —•• X Uijiijj ‘ i „t, .... ^v;:r;;,3i^,...,!): ■....ill' tando, perguntou-lhe;-^«Que signal me dareis, quando nascer vosso filho?» — « Mandarei plan tar n’esta montanha um mastro com uma bo neca e accender em torno uma grande fogueira ; respondeu-lhe. « E de feito : na vespera de S. João, a Mãi de Deus, vendo de sua morada uma fumacinha, labaredas e o mastro, partiu, indo visitar Santa Isabel. « Desde então, concluiu a boa velha, é que se festeja o santo com mastros e fogueiras. » — Oh !... Que historia tão bonita ! !... inter rompeu um dos ouvintes. — Já agora, escutem outra, meus filhinhos ; tem o mesmo motivo e é da mesma data : é do tempo em que nem eu nem vocês sonhavamos de nascer, e que a terra estava toda coberta d’agua. — Conte, vóvó, conte ! Tão bonito ! !... E a velhinha, alisando os cachos de cabellos brancos, deixando pender os braços sobre as per nas cruzadas, sorveu um pequeno ronco, abriu a boca desdentada, proseguindo : — E’ o resto da historia.« Mezes depois, quan do Santa Isabel cantava, ninando o seu bento filho, este lhe perguntou : — « Minha mãi, quando é o meu dia ?» — «Dorme, meu filhinho, dorme; logo que elle for, eu te direi». E S. João dormiu. Acordando, porém, na noite de S. Pedro, e ouvindo foguetes e vendo fo gueiras accessas, insistiu : — « Minha mãi, quan do é o meu dia ? » — «O deu dia já passou ; acudiu-lhe ella. » — « Ora, minha mãi, por que

r?i r*’’ FESTAS POPULARES ÜÜ PPiAZlL f u i . :: não me disse, que eu quena ir brincar na terra ?» — Sim, por que não disse ? retorquiram pezarosos os meninos. — Santa Isabel teve razão, meus netinbos ; se S. João descesse do céo, o mundo se arra saria em fogo ! Essas tradicionaes historias eram correntes em toda a parte, dando-lhes inteiro credito ge rações que se foram e gerações que ainda existem. Diariamente, encontravam-se aqui e ali gru pos de famílias constituindo pequenas tribus. Adiante iam as crianças, logo após as moças e os rapazes, depois os pais e os velhóes, emigrando para fora da cidade ou para fóra da corte. A estes acompanhavam, em gradação opposta, os pretos e pretas idosos, carregando latas de folha com roupa de uso ; as mucamas, leves cestos de junco e embrulhos com objectos per tencentes ás sinhás-moças; e,na retaguarda, iam os molequinhos com o chapéo de sol e a bengala do sinhõ-velho, um cachorrinho de estimação, um sagui, um papagaio, uma bugiganga qual quer. Os que vinham pelo cáes da Gloria descor tinavam o mar sulcado de botes e canoas en trados n’agua ao peso dos passageiros, sentados e de pé, que os enchiam, acenando com lenços e em alegres vozerias. Pendurado á piôa dos barcos, um escravo ou um rapagão riscava um phosphoro, mordia o papel de um foguete, e, aprumando ao longo .ui I.

A VESPEUA DE S. JOAO 1Õ5 do corpo, atacava-o, estourando no alto, ás re percussões do éco. Ao amanhecer, tudo se achava ordenado e previsto : a população distribuída, as bandejas de fogos sobre os aparadores e cama do quarto de dormir; as cannas, os cocos, os carás e os H milhos empilhados na cozinha ; a fogueira abra- •-‘iiin-! j cava o mastro ; e Os dados da Fortuna^ A roda I j do Destino, O Cigano, e outros livros de sortes, ••• üiií fornecidos pela livraria Garnier, ficavam é esco lha dos consultantes de oráculos. Apenas escurecia, as machinas boiavam no ether húmido e transparente ; cabeças de al catrão fumavam rubras nas ruas ; e os buscapés largavam-se atraz dos passantes, rabeando, rolando, serpeando, em fulgidos estouros. E uma preta, perseguida, corria d’aqui ; e um indivíduo, livrando-se, pulando, encostando-se a um muro, avultava acolá ; e os rapazes, no ardor do brinquedo, riam-se a bom rir, do ex pediente das victimas e das descomposturas consecutivas. A’s badaladas do aragão, o ar mostrava-se marchetado das zonas luminosas das fogueiras que ardiam nos quintaes e chacaras ; e, dos so brados, os combates a pistolas, ao mesmo tempo que formavam das janellasás calçadas cachoei ras de fogo, adquiriam maravilhoso aspecto, á proporção dos tiros de cores, que, pontuando iriados as paredes, cahiani em gemmas fumegantes no chão dos lagedos. Ao longo dos caminhos, com estranho e equivoco ruido, escutavam-se descargas de .v-y.jl

ÉÍÜ: ■; Ei if cartas de bichas, que estouravam em potes de barro e barricas cobertas, collocados á distan cia pelos habitantes do quarteirão. Fazendo singular contraste com esta scena de apotheose theatral, á rotula de páo da casa terrea, uma mulher embiocada segurava na mão de uma criança, sacudindo, na extremi dade da flecha, indefluxada rodinha. Na totalidade das habitações e nas fazendas, o throno de S. João deslumbrava de luzes e vi çosas flores, ornado de sanefas carissimas, e elevando-se de uma toalha da côr das neblinas, pregada aos cantos do altar com laços de fita e prateados alfinetes. Na roça, as fogueiras tinham no centro, ora o mastro, ora uma arvore, que estalava minada pelas chammas, arriando-se com fragor. Os escravos, de calça de algodão cortada ao joelho, de camisa branca do mesmo panno e aberta no peito, batucavam com as escravas á roda do fogo, assando carás e batatas, tirando os do norte os seus còcos^ dansa e canto po pular daquelles sertões : Lá vai amor, lá se vai O amor lá se vai! Pelas paredes a riba Ninguém vai ! Onde vai, lavadeira ? — Vou lavar. E eu vou aprender A nadar.

Stava na praia escrevendo Quando o vapor atirou, F o i os olhos mais bonitos Que as ondas do mar levou ' nmn>] 'Cl nr. súrtiaiisi ‘ ííaihv Lá vai amor, lá se vai! O amor lá se vai! Pelas paredes a riba Ninguém vai ! A’ porteira das fazendas e esclarecendo a entrada, as cabeças de alcatrão queimavam toda a noite. Os fazendeiros, de rodaque de brim e de chapéo do Chile, folgavam no terreiro, ob sequiando os hospedes, que atacavam fogos á discrição, que faziam guerra a busca-pés, facheados na mão calcada de luva de couro, e cuja bomba era lançada aos arraiaes contrarios. A fazendeira, attenciosa e distincta, mandava servir aos convidados pires de cangica, manjar, roletes de canna assada e bolos de S. João. As moças da corte, na elegante varanda, sus pendiam acima da fronte pistolas de lagrimas, craveiros de chuva de ouro, que illuminavam, com os seus projectis e faiscas, os tectos longinquos das senzalas vasias. Outras, grupadas á mesa de jantar, deitavam dados, liam as

quodrinhas da sorte, prorompiam em garga lhadas, ás predições do destino : Um velho torto e pançudo, I3e nariz de palmo e meio. Ha de ser o teu consorte, Mui breve, segundo creio. E ocioso dizer, que n’essas occasiões confraternisavam-se os coronéis e tenente-coroneis do logar, todas as forças dos partidos, desde o mais influente chefe eleitoral da Formiga até o mestie de escola de Vassouras, ou de não im porta que villa. E as fogueiras do terreiro vomitavam grossas labaredas ; as machinas sumiam-se na noite ou desfaziam-se em gottas de fogo; e as gyrandolas, as bombas, as roqueiras estrugiam aos— Viva S. João ! cujos écos iam morrer na floresta. Os negros despejavam nos brazeiros carros de milho e carás, verdes cannas e tenras espigas ; e os moços e moleques, pulando as fogueiras, appareciam no alto d’aquella atmosphera ignea, abrindo a bocca e gritando: — Acorda, João !... Ao que muitos dos festejantes respondiam cantando : S. João 'stá dormindo, Não acorda, não ! Dê-lhe cravos e rosas E mangericão ! N essa noite, dentro e fóra das grandes ci dades, um pouco antes de meia noite, resva-

A VKSPEKA 1)E S. JOAÜ ■ j«i 1. lava, aos clarões das fogueiras, o carro silen cioso das superstições nacionaes. Fosse debaixo dos tectos de estuque ou da telha-vã da pobreza, essas crenças abrigavam-se sem constrangimento, exercendo poderosa in fluencia sobre as mulheres e pessoas simples. Assim, ao estampido dos fogos, ao brilho de crescente das enormes lavas, o movimento supersticioso iniciava suas praticas, cujos dog mas constituiam no seguinte, sempre executado ao toque fatidico da meia noite : Em louvor de S. João, plantava-se um alho ; se amanhecia grelado, obtinha-se o que se desejava. Deixava-se ao sereno uma bacia d'agua e ia-se, antes do nascer do sol, mirar o rosto; se o individuo não via a sua sombra, era signal que não chegaria ao outro S. João. Passava-se, em cruz, um copo cheio d’agua por sobre a fogueira, e quebrava-se dentro do liquido um ovo com a clara e gemma. De ma nhã, se appareciam oslineamentos de um navio, significava viagem ; se a fórma de uma igreja, casamento ; se um caixão, enterro. De um outro copo, que também passava-se na fogueira, em louvor de S. João, tomavam as moças solteiras um bochecho, e ficavam atraz da porta da rua. O primeiro nome de homem que ouvissem pronunciar, seria o d’aquelle que lhes estava reservado para marido. Antes da meia-noite, devia-se ir ao quintal ou terreiro onde houvesse plantado um pé de arruda com flores. Estendia-se no chão uma

toalha e accendia-se nas pontas duas velas de cera. O fim d este sortilégio era aparar as sementes que cahiriam á meia-noite, sementes essas que ninguém conseguia obter, por isso que o Diabo era quem naquelle momento as recolhia, as sombrando o individuo que ouzasse disputal-as, Um dos prejuizos mais arraigados -entre o povo era que as brazas da fogueira ficavam bentas; e muitas pessoas as guardavam ou en viavam aos parentes ausentes, acreditando que quem as possuísse viveria mais um anno. Aos primeiros raios do sol — porque depois as aguas perderíam de sua virtude — tomava-se o banho de S, João, que gosava de propriedades preservativas e miraculosas. Esses brinquedos prolongavam-se, cás vezes, até S. Pedro, com o mesmo apparato e lentejoulado de abusões. 1 or agora fechamos a janella ás tradições e nos } despedimos saudosos da gente antiga, não nos ? importando de ser acoimado de nativismo^ sentimento sublime que herdei de meu pai, e que bebi no seio materno, que são as taças do bem e as fontes da vida.

Festas populares do Brasil

Sinopse

Leia gratuitamente Festas populares do Brasil, de Mello Moraes Filho, ensaio clássico de 1888 em domínio público sobre tradições, folclore, festas religiosas e cívicas brasileiras. Esta edição digital do Literunico foi preparada a partir da digitalização da BLPL/UFSC da edição Livraria Garnier, organizada em 13 capítulos HTML para leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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