Universo da obra
Universo da obra
III u C orpus-Christi A PROCISSÃO DE S. JORGE Í'!Í^in: _üsJ. :;)!!:!|... íi iTl'»'' ■ ATA do reinado de D. João ii a mais antiga noticia histórica das festas pu blicas, que celebravam em Portugal a instituição da Eucharistia, festas ás quaes aquelle soberano permittiu que se accrescentasse a procissão de S. Jorge, com o seu cortejo de 1res reis Magos, a Serpente, S. Se bastião, uma Donzella, o Dragão, S. Miguel, Santa Clara e mais uma infinidade de persona-
FESTAS POPULARES DO BP.AZIL [ri i ífUI J!.!P- ■' P :Ót*í' - gens do martyrologio e do symbolismo christão, c^u6 , no dia do C^orpo dô Dôus, percorriam en fileirados as ruas lendarias da lusa metropole. 1 4 1 2 em diante é que a tradição, amor talhada nas cartas régias, resplandece, tendo como testemunhas de igual valor os documentos das municipalidades insulanas e coimbrã, es palhados por sopros seculares sobre a mesa de trabalho do erudito Th. Braga, que os tem estudado e divulgado com lúcido critério e alevantado saber. A procissão de Corpus-Ghristi, isoladamente, é do ritual romano; em todos os paizes catholicos ella existiu e existe, limitando o seu giro as circumvizinhanças dos templos, ou aos proprios templos. Como tradição patria , como legado dos tempos coloniaes, é mais particularmente da procissão de S. Jorge que vamos tratar, e que destoa da de Corpus-Christi da liturgia christã, constituindo um todo independente, cu uma parte cuja ligação ideal é o fio delgado uma lenda. Lê-se nas chronicas mediévas que S. Jorge, indo ferir uma batalha, encontrara-se em ca minho com o sagrado Viatico e o acompanhara com as suas tropas. Dahi a base do religioso cortejo e o que na turalmente determinou a sua primitiva e sin gular organisação, nas eras crédulas em que acima vimol-o apparecer. Pouco adiantado em relação ás suas pompas remotíssimas, desconhecedor de sua evolução ís-i,
CORPUS-CIISISTI até o pèriodo actual no velho reino, é ao tur bilhão enfraquecido das nascentes históricas que passaremos a descrever essa procissão no Rio de Janeiro, ha mais de vinte e cinco annos, quando ella não havia perdido a sua realeza hereditaria e seu apparato magnifico. De todas as procissões do anno, a de S. Jorge era a que melhor concretisava elementos nossos; a que com mais largueza apresentava em painel vigoroso o povo brazileiro, definido em sua religião, em seu regimen politico, em seus troncos capitaes e em alguns de seus costumes. Apezar de não a havermos assistido senão no declinio de seu esplendor, o commercio com os narradores do tempo facilita-nos o perlustrar veredas deixadas, em que dia por dia o esqueci mento enche de sombras. Em i85o via-se ainda na rua de S. Jorge, murando a um lado a rua da Lampadosa, a modesta capellinha de S. Jorge, que fora aba tida annos depois e em seu logar elevado um prostibulo ! Ao amanhecer, a voz garrida do sino annunciava a festa do padroeiro do templo: como um tapete, aos seus degráos baixinhos, estendiam-se areas e flores, e os irmãos, com a ópa da irman dade, começavam no seu labor annual. Passava-se sob um tecto de bandeiras, ouviase o bater dos martellos pregando nas janellas
I í í l '' í í, j f Á : I i 'i ||::':i.i-;H ! : ’ i í i 22 6 sacadíls dc pno srandclas, globos 6 colchas 5 e os sachristães, nos ângulos do adro, sopravam morrões, escorva vam foguetes, os arremeçavam ao ar, sibilando já e estourando após. A imagem de S. Jorge lá estava no corpo da capella, exposta á adoração do publico, á es pera do cavallo branco, em que sahiria mon tada, e de muitos outros que a seguiríam com os seus thesouros, vindo um e outros da Quinta de S. Christovão, com a criadagem em grande uniforme. As nove horas o concurso avolumava-se. Os transeuntes e os espectadores curiosos to mavam as sabidas, agrupavam-se no caminho ; os negros de ganho, com o cesto enfiado na ca beça, paravam boquiabertos; as vendedeiras de quitanda sentiam-se como que chumbadas ao sólo ; e os moleques, descalços e em mangas de camisa, olhavam ariscos para o Homem de Ferro, an iando no adro, e para os pedestres, que surdiam de improviso dispersando-os a j uncadas. As janellas enfeitadas installavam-se mu lheres de má vida, formando uma galeria de faces afogueadas e inchadas,de semblantes vulgarissimos e as vezes macilentos, ensombrados per negras partas de cabellos unctuosos, reluzindo ao collo nú e ás orelhas d’aquelles bustos estúpidos, cordões de ouro e pesados brincos, que tombavam-lhes no hombro. Esparralhadas fóra dos batentes, com as mãos gordas e cruzadas, mostrando em todos os de dos anneis de ouro com pedras falsas, as disíi,v •-U
CORPUS-CIIUISTI ' <1 iU- ■'•ilia. • itcií» vit : Spií»; - -Á sit solutas Magdalenas da ralé estiravam o pescoço, debruçavam-se, a qualquer estrondo de bombas, a qualquer movimento subito. Emquanto isso se passava, os irmãos de S. Jorge chegavam á porta, desciam á rua, des esperados da tardança da musica e do acompa nhamento do santo. Eis senão quando o povo atropelava-se, os moleques corriam em bando até o largo do Rocio, e na embocadura da rua dos Ciganos, § assoviando, gingando, apontando, diziam ; vem E’ vem ! E a multidão recuava, o cavallo e a comitiva official de S. Jorge passavam, o prestito preli minar apromptava-se e, ás lo horas marcadas, S. Jorge deixava a sua capellinha para ir no largo do Paço reunir-se ao Corpo de Deus, em procissão solemnissima. De muito cedo, o movimento de tropas, o rodar de carretas de artilharia, os toques de clarins, oS sons de musicas marciaes propaga vam-se em direcções múltiplas,fazendo lembrar uma cidade invadida por exercitos triumphadores .. Era a guarda nacional que marchava toda, eram os batalhões dos suburbios que compareciam a tomar posição na lustrosa revista pas sada pelo General no seu dia glorioso. Estendidos em linha pelas ruas Direita, Pes cadores, Quitanda, Assembléa e largo do Paço, os batalhões da freguezia do Sacramento, por alcunha Chinello velho, de Santa Rita Tai nhas, de Sant’Anna Caranguejos, de S. José
iy;.; !'íi FESTAS POPÜLAUES DO imAZJL in-il i: Gjturanios, da Candelaria GjUo sem crista^ o 6 ® do Engenho Velho Sambiirá sem fitndo^ o 1® de artilharia Carroceiros^ e os corpos da roça esperavam o chefe militar para fazeremlhe as honras no seu transito.... E S. Jorge chegava á rua da Misericórdia ; na Capella Imperial os officios religiosos tocavam ao termo, e da igreja e immediaçóes o cortejo ordenava-se. A um signal de dezenas de girandolas enca minhava-se a procissão. As fortalezas salvavam.. . Precedida de uma columna de povo, de ca poeiras de diversos bairros e de soldados de policia a cavallo ; entre muralhas de tropa e de gente postada nas calçadas, iniciava ella o seu percurso, ao espelhante das colchas de da masco das janellas e sacadas, á expansão das familias que de lá asds’iam, vestidas de sedas e velludos, toucadas de pérolas e brilhantes. Era alem da rua Direita que se podia melhor apreciar o effeito d’essa scena ambulante e pittcresca, fértil em detalhes e completa. Seienado o tumulto, espraiada mais longe a espuma da onda popular, a procissão seguia o seu itinerário habitual, por entre o scintillar de bayonetas, ao rufo de tambores, á quéda de um dilúvio de flores e ao estrugir da foguetaria, á curtos intervallos. Nas calçadas, por traz dos soldados em alas,a gente de todas as classes perfilava-se, suspendia acima da fronte as crianças, afim de verem á vontade o Ferreiro de S. Jorge...
E a irmandade do santo General rompia a marcha do religioso e militar cortejo. Depois d’esta, a banda de escravos da Quinta avultava, executando soberbos dobrados e tre chos escolhidos. Estes artistas — e d’entre elles alguns havia afamados, como o celebre mestre Joaquim Maria, —trajavam calção azul com galões bran cos, paletó cinzento e comprido, meias de al godão e sapatos de íivella. O chapéu era de feltro, côr de flôr de alecrim, e na larga aba revirada na frente, prendia-se um lindo tope verde e amarello. Atraz da musica dos pretos apparecia o Ferreiro ou o Homem de Ferro, persona gem estranho, montado n’um cavallo negro, coberto de \asta manta de camurça, aberta para as pernas, as narinas, os olhos e as ore lhas. Esse personagem, vestido de malhas, peito de aço, capacete bronzeado e viseira descida, secundava a banda, empunhando com a ma nopla de escamas enorme lança, e tendo no braço esquerdo pesado escudo. A côr de ferro de todo o seu uniforme guer reiro bem explicava a denominação que lhe dava o povo. Em seguida, aprumada n’um cavallo branco, com um criado do paço a cada lado da brida, vinha a imagem de S. Jorge, envergando polida cóta de malhas, peito de aço, capacete com bordaduras douradas, e capa de velludo car mesim bordada a ouro. Dous outros criados o
FESTAS POl'LLARES DO BRAZIL ["'si'. !*'f ■If J * • ' ■ ;í .f' ■, í-.ÇÍ:i'.Írí; « !; ’■ I i ; w 5'. . I I ‘ ÍL T acompanhavam, pegan.’o nos estribos e fixando-lhe os joelhos. A’ proporção que a imagem adiantava-se, raiava-lhe o escudo ao pino do sol e um es tandarte tremia-lhe na dextra, tremulando ao vento. A’ pequena distancia vinha o Escudeiro em fogoso ginete. De casaca e calção vermelhos, de collete branco de seda, de botas e esporas, sobraçando um chapéu de pasta, tinia-lhe á cinta grossa corrente de prata, que prendia um copo do mesmo metal. Este figurão trazia a barba rapada, o rosto polvilhado e pintado de carmim, e cahia-lhe ás costas o rabicho de uma cabelleira branca, fri sada, de tres pontas. Fazendo parre do séquito, vinte e quatro cavallos fornecidos pelas cavallariças da Quinta levavam os theòouros de S. Jorge, que consistiam em gtandes charneiras de prata sobre as man tas de panno verde, quasi arrastantes, agaloadas de amarello e guarnecidas nos cantos com as armas imperiaes. Meneando vistosos penachos, com as crines trançadas de fitas e lindos laços de extensas dobras á cauda agitante, a c.ivalgada cami nhava a passo, conduzida pelos criados da casa imperial, de libré e calcão. Fechando o séquito, formava a retaguarda um piquete de cavallaria de linha, de espadas desembainhadas, o Estado de S. Jorge. Então o ar escurecia-se de uma floresta de guiões das irmandades, reunidos em grupo.
CORPUS-CHRISTI Os irmãos sentiam-se embaraçados na roda dos habitos, olhavam para cima equilibrando os pendões,suavam em bicas,com a cabeça ao sol. Aos guiões succediam-se todas as irmandades. A’s ordens terceiras precedia o clero regular; o cura da Capella aos padres da diocese. Compa reciam os escrivães do corpo ecclesiastico, de I calção e capa romana, a cruz do cabido e o pesI soai da capella ; e, entre as ordens terceiras e |'o clero, a camara municipal, representada pelos I vereadores. Os anjinhos eram em numero prodigioso, os conirades de tochas accesas bufavam de calor e protegiam-se da insolação, suspendendo á calva lenços de tabaco, e a musica do i° da guarda nacional já se fazia ouvir. N’isso passava o pallio, que abrigava o bispo com o Santissimo, monsenhores, conegos e sacristas, tendo as varas o imperador com o manto de Christo e os ministros fardados em granae gala. Os grandes do império, os cavalleiros do cruzeiro e de Christo com os distinctivos da ordem, U a nobreza e os archeiros ultimavam o cortejo. As fortalezas salvavam, e quebravam-se ao longe os écos das descargas : eram os bata- |,lhõcs em alas que faziam as honras ao Santo ^ General, incorporando-se um a um ao prestito, depois da passagem do Viatico. Quando a procissão entrava, seguida de toda a tropa, as fortalezas davam as derradeiras salvas, os batalhões formavam no largo e de bandavam. ..oai
S. Jorge, o Escudeiro e o Ferreiro demora vam-se ainda um pouco; e, tomando para a thesouraria do paço, lá recebia o Escudeiro no copo de prata i:ooo$ooo, em moedas de ouro, o soldo de S. Jorge. Isso succedia por volta das duas horas, ro dando nas ruas, até ao escurecer, luxuosas equipagens que reconduziam as pessoas da côrte e as familias importantes. A imagem ficava exposta, até ás onze horas ou meia-noite, em sua capellinha da rua de S. Jorge, onde os devotos iam em romaria tri butar-lhe adorações e ofFerecer-lhe esmolas. Mas tudo se foi ! O Santo perdeu a sua igreja, o governo supprimiu-lhe o soldo, iicão obstante S. Jorge ser o unico dos nossos generaes que jámais se en volveu em questão militar. .. Misérias de quem nos governa !
Leia gratuitamente Festas populares do Brasil, de Mello Moraes Filho, ensaio clássico de 1888 em domínio público sobre tradições, folclore, festas religiosas e cívicas brasileiras. Esta edição digital do Literunico foi preparada a partir da digitalização da BLPL/UFSC da edição Livraria Garnier, organizada em 13 capítulos HTML para leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.
Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.
Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.
Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!
Capítulos disponíveis para continuar a leitura.
Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!
Conhecer as 100 RelíquiasAinda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.
Durante a leitura, abra Menu para ajustar a experiência sem sair do capítulo. As preferências de aparência ficam salvas neste aparelho.
Recursos identificados como “em preparo” aparecem para antecipar a evolução do leitor, mas ainda não executam uma ação.
Posso mostrar leituras em destaque, clássicos e Relíquias disponíveis agora no Literúnico.
Escolha um caminho
Dúvidas desta página
As explicações do Aurélio são respostas cadastradas pelo Literúnico.