Universo da obra
Universo da obra
-* ÍhíC' 1 o dia de Finados (rio de janeiro) RA no tempo em que este paiz reve lava o espirito tradicional da velha métropole, e que a alma popular mi rava-se na serenidade azulada do céo. N’aquelles dias de outr’ora, em que se acre ditava nas virtudes maternas e na existência de Deus, a religião conduzia o homem, do berço ao turriulo, entre cantares e flores, harmonias e lamentações.
lüO FESTAS PÓPULARES DO DIIAZJL A morte, para os nossos maiores, nunca se afi gurou o cadaver boipndo podre nas maremmas lividas do Nada, porém a continuação da vida, o despertar da individualidade persistente, n’uma existência posthuma. D’ahi, os piedosos deveres para com os que ha viam deixado este mundo,que na comprehensão antiga nada mais era do que um valle esguio e tenebroso, onde a missão do homem é rir e chorar como um louco, até cahir como um ébrio nas portas da Eternidade. A’s desigualdades da vida, a commemoração dos lieis defunctos traçava um nivel que con tinha o rei e o vassalo, o rico e o pobre, o senhor e o escravo. Dir-se-hia que o dia de finados destinava-se á representação da celebre dansa macabre^ em que a Morte, sahindo da sombria noite da idade média, pas sava revista ás legiões de fantasmas refugiados em seus glaciaes dominios, mas para concilial-os pelo perdão e a prece, em climas melhores. E’ que o christianismo, levantando o archote que fuma sob o pé do Genio funerário da arte grega, transformou-o num facho sideral, á luz do qual as almas remoinham em bandos na béatitude dos eleitos— lá onde o dia é sem noite, a vida sem morte, e a verdade não tra vada de erro ! N essa festa lugubre do anno, cada um con statava as perdas que havia soffrido, o numero dos que succumbiram pelejando a seu lado na grande batalha da vida. .. ! -I. rt
cliff 0 DIA DE FINADOS ; í çí ’::.'^a. Í 0 ;.}tre, íoc- •:;: r ;Ü3li íJí. : ; íCJ ,:isi Aqui, era o pai de familia que orava em pranto pela esposa que fora dormir o somno dos tumulos ; alli, a viuvá desolada e sem pão, que preparava a offerenda fúnebre para o ma rido, que tão cedo lhe cahira dos braços ; acolá, a joven mãi que soluçava pendida sobre um berço vasio... E os convidados da Morte seguiam em pro cissão fúnebre, com ramos de saudades e amo res-perfeitos, de sempre-vivas e cyprestes, de grinaldas e emblemas, no solemne cortejo, em que a rainha coroada era um esqueleto com pannejamentos negros, tendo em uma das mãos descarnadas uma fouce, e na outra a ampulheta symbolica. No meio das igrejas, aquella figura medonha, parecia o espectro de um abutre do Josaphat, peneirando de suas azas esgarradas e heticas a cinza dos mundos ! O dia de finados subordinava-se a estylos preambulares. O primeiro cuidado das familias era, com bastante antecedencia, mandar fallar a um padre, para dizer a missa do defuncto, rezar responsos e mementos á sepultura dos seus. Isto feito, enviavam-se emissários ao Mamede da Silva Passos, da rua da Valia, ao Raymundo de Andrade Leite, da rua do Ilospicio, ao Joaquim Teixeira de Castro, da rua da Ca rioca, e a outros armadores, para que fossem armar a frente das catacumbas muraes e as
banquetas, collocando sobre estas as urnas fu nerárias, com inscripcões e fechos de prata, circuladas de castiçaes e serpentinas do mesmo metal, com velas de cera. A porta dos templos, sanefas pretas de largos apanhados, agaloadas de branco ou de amarello, enchiam-se ao vento, e, desde a vespera ás tres horas, até ás seis da tarde seguinte, o car rilhão dos mortos soava o lamentoso anniversario. De vespera, igualmente, um povo estranho, de calça curta e estreita, de barba rapada ou á ingleza, de opa verde, vara e pequena bacia de prata, aíTrontava os transeuntes, entrava pelos corredores^ batia nas rotulas, implorando, com accentuação pausada e reverente ; — P’ra missa das almas !,.. E os meninos e as moças, os velhos e os ra pazes, davam esmolas de dinheiro, emquanto que o escravo de quitanda ou do ganho fazia diante do irmão das almas leve genuflexão, antes de depor, sobre a bacia reluzente, um ovo, uma banana, uma laranja, ou uma moeda de dez réis. As almas santas lhe ajudem; dizia o fi gurão da irmandade de S. Miguel e Almas, proseguindo, com a sua ópa de seda, que lhe descia abaixo da curva das pernas. Amen, respondiam, benzendo-se, os po bres captivos, compenetrados de sua acção me ritória. E todos os sinos dobravam, pedindo suffragios pelos mortos, ao passo que immenso povo.
0 DIA DE FINADOS ■) ’tis. 130«“'" vestido de luto, desfilava tíío pezaroso, que nem um sorriso dourava-lhe* o semblante severo. As mãis conduziam pela mão os tristes filhinhos, que levavam á memória paterna goivos enlaçados de cyprestes ; as familias encaminha vam-se ás igrejas, com grinaldas de cyprestes e de flores, que deposivam sobre o crepe das banquetas e nos ângulos dos ossarios ; o escravo procurava de preferencia a igreja da Lampadosa, de Santa Iphygenia, do Rosario e de S. Domingos, onde chorava os seus companhei ros de infortúnio, nas covas sem letreiro e sem luzes, em que haviam desapparecido. j7 eram elles bem felizes, porque descansa- ' vam na casa de Deus !... Em épocas anteriores, ^ o cemiterio das alimarias, em Catumby, e a valia ; de Santa Luzia não distinguiam, no desabrigo e no solo, o pobre filho da Africa, do cão que se r sacia e morre na lama das ruas ! rAnoc Eo vacuo abria-se no lar... e os sinos dobravam lugubres como o pensamento da vida 'VKriír eterna... Nos conventos e nas ordens terceiras, onde o üt-j culto dos mortos revestia-se de todo o apparato .jiP I liturgico, as pompas fúnebres do rito executavam-se magestosas, de accordo com o caracter b decorativo do recinto sagrado. No altar-mór 5Í.-/11' fechava-se o throno com um vèo preto e docel da mesma cor, destacando-se ao fundo a sacro- '? santa imagem do Christo, de tamanho natural, com o corpo cheio de sangue e os olhos cheios ijj-b de perdão. No plano abaixo do cruzeiro, eleva-
fSI!'í[P L t i i l l l f lítíi^Ü 'P-, liT ■ili va-se custoso caiafalco, coberto de velludo preto, com unia cruz prateada ao longo, la deado de cyprestcs e seis tocheiros de prata, tendo na frente, que deitava para o vestibulo, uma caveira assentada sobre dois tibias cruza dos, e a cada canto inscripções tiradas da Biblia: Piilvis C5, et in pulverem reverteris. Sic transit gloria mundi. Homo natiis de muliere, brevi vivens tempore, muliis miseriis. Memento mori, etc. A’ porta de cada igreja, um irmão das almas c uma chusma de mendigos pediam esmolas a quem entrava, — o que não lhes era recusado, — por intenção de algum parente morto, pelo qual se compromettiam ellesa resar um PadreNosso e uma Ave-Maria, — P’ra missa das almas!... repetiam a in s-f tantes os prepostos da irmandade, adiantando j a bacia, e dando a beijar a vara de prata com a I imagem esculpida de S. Aliguel e Almas. E a missa estava no altap, o canto gregoriano batia as suas ondas de sagrada harmonia, que reboavam no espaço e nas naves, relluindo no coração dos fieis. Depois, as estações cantadas no claustro, os officios, os mementos e as missas particulares em todos os altares. Sobre as sepulturas do corpo da igreja e dos , claustros viam-se aqui e alli pannos pretos com j cruzes de galão, e ás quatro extremidades ricos castiçaes com ví;las accesas... Iv as ílôres serviam de lagrimas á morte, como as lagrimas de ílôres á vida !
0 DIA DE FINAÏJOS Nns cntacumbas armadas^le velludo negro, '* Prit ï" sobresahia o nome do mor^^ot^ue encerravam, emblemas, inscripções diversas. diante de cada uma, os meninos 'f.srjvL, r'soletravam assombrados as legendas fúnebres, os velhos ruminavam uma prece húmida de pranto, e estes e os mais penduravam ás ma çanetas e á cruz inclinada das urnas as gri naldas que iriam fanar-se ao contacto frio da morte. E os frades, atravessando lentos aquellas vas tidões consagradas, murmuravam o memento, com a fronte pendida e as mãos occultas na manga do burel, como se acompanhassem solemnes uma procissão de além-tumulo. As grandes senhoras, os personagens illustres, o cidadão pouco avultado, a familia obscura, o escravo, emíim, percorriam os templos, resando suas orações, encommendando os seus mortos, assistindo ás missas em suífragios, que diziam-se até às 3 horas. Então o povo sahia, dispersava-se sem tu multo, conscio de haver desempenhado reli giosos deveres. D’aqui e d’alli, no adro das igrejas, a mão de um pobre estendia-se ao passante, e um coro de vozes rompia em tons pungitivos: — Pelas almas santas bemdictas !... E outro, mais forte : — Pr’a missa das almas ! E os sinos dobravam pelos íiáls defunctos, até que a noite aninhava-lhes de novo o tumulo no silencio e no mvsterio.
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f R v - ' líi Com a febre í^,marella, ficaram abolidos os enterramentos na^ igrejas, inaugurando-se a abertura dos cemiterios públicos em i8 5 i, ne cessidade essa reclamada pelo crescido obi tuário. Desde logo, o çlia de finados tomou outra: feição, que se foi apagando pouco a pouco, e de^ que apenas subsiste uma idéa vaga, confusa ] profanada. Na primitiva, porém, quando a veneração] pelos restos dos que nos foram caros, ainda era legitima, a herança d’esses costumes manifes tava-se pelas pompas exteriores do momento,' reverberando sobre a população claridades suaves e patrióticas, De pé a tradição, a mudança de logar deter- ‘ minara ligeiras variantes, e mais tarde estúpidos 1 abusos. Como no passado, as familias preparavam-se, j contratando sacerdotes para as missas, para os responsos nos cemitérios. De vespera, pela ma drugada, partiam escravos com grandes taboleiros á cabeça, samburás, cestos, etc., em que lam castiçaes com mangas de vidro, serpentinas e medalhões com emblemas adequados, orna mentos que a saudade oífertava em lembrança dos que haviam purificado na campa a vesti dura terrena. Os negros, na insolação do descampado, lá - permaneciam todo o dia, guardando a prataria, ' mudando as velífe que se gastavam. Devido á distancia, os ricos, nas suas bellas equipagens, e agente mais modesta em omjnbus
0 DIA DE FINADOS . IlAlllila ãin, [).j_,^3 fluminenses seguiam o mesmo itinerário, carrel gados de flôres e coroas fui^ícbres, para depo sitar nos jazigos sumptuos'í)s e na cova rasa, onde uma cruz de páo pintada de preto dava prantos de orvalho ás memórias ignoradas. O povo, caminhando em devotas romarias, distribuia-se em direcções dii^^rentes, conforme os cemitérios ; mas contricto, trajado de lucto, com o braço enfiado em coroas de cyprestes, conduzindo as suas lembrajíças funerárias. Ao avistar-se a cidade da Morte, o coração confrangia-se, o sentimento religioso dominava da altura celeste, embalado pela brisa que so- ^ luçava entre os arvoredos isolados das longas avenidas. No mármore dos carneiros, no chão do fosso ’■"'jêl fechado, um pai ou uma mãi, um parente ou ■■"■'■'num amigo, depositava, com as palpebras in- 'í; chadas de pranto, as suas offerendas enlaçadas bicom largas fitas, nas quaes o amor, a saudade, o desalento, lavravam os epitaphios espontâneos de amarguras que se calam, Nos templos, paramentados de capas ecalOL^-i pretas, e nas capellas do Cajú, S. João Baptista e S. Francisco de Paula, os padres, em presença das familias, celebravam as missas, rv'-:(«pi:cantavam os oílicios. iti • Sulcando os quadros populosos dos cemite- ’jrrios, os ministros de Deus resavam mementos, ,-Kaspergiam as lousas... nP I Como era edificante aquell« lugubre espec táculo ! Como deviam exultar*^no Senhor os ossos d’aquelles mortos !
Depois... tudo se foi! O mármore dos lumulos manchou-se das i?odoas do vinho e da sobra das refeições; a vaidade foi cuspir no esqueleto de hoje clla que será o esqueleto de amanhcã ; o sacerdote aggride pelas preferencias, como se a sua prece sacrilega pudesse alliviar das penas a seres mais puros Raras são as péssoas respeitáveis e sérias que actualmente ainda visitam os cemitérios. Destas, algumas que o fazem, preferem as horas mais próximas da madrugada ou as mais distantes do entardecer. E as luzes estão quasi extinctas... Quando cilas sp apagarem de todo, é que a treva nao cahirá sómente sobre o culto dos mortos, mas sobre o culto da Patria !
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