Universo da obra
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A festa do Divino TÉ O anno de i855, nenhuma festa po pular no Rio de Janeiro f)i mais attrahente, mais alentada de satisfação geral. Referem antigos chronistas, que as festas do ! Divino foram institui Ias em Portugal pela j rainha Santa Isabel, e escriptores do século xvi i as descrevem, bem como Heitor Mendes Pinto i na sua Imagem da vida Christã. Não abandonando nunca as suas terras nataI licias, mas viajando em nossos climas, esses
folguedos impregnaram-se aqui de aromas sub tis, expandiram-se em manifestações mais va riadas, tendo como figurantes troncos primi tivos ou seus descendentes immédiates, que deviam entrar por alguma cousa na metamor phose do molde metropolitano, sempre uni forme e monotone nos Açores, Coimbra, etc. E’ que não só a linguagem, porém os usos e costumes europeus, passando-se para a Ame rica, adquiriram mais suavidade e riqueza. Na época em que fazemos passar essa festa (i853 — i855), em très freguezias d’esta capital armavam-se impérios e coretos : — na do Espi rito Santo de Mataporcos, na de Sant’Anna, no campo do mesmo nome, e na Lapa do Desterro, que representava a freguezia da Gloria. As musicas de barbeiros, que eram compostas de escravos negros, recebendo convites para as folias, ensaiavam dobrados, quadrilhas, fan dangos. .. O povo, prelibando delicias infalliveis, passeiava no campo, assistindo á edificação das barracas, á construcção do império e dos co retos, á collocação das bandeiras e das aran delas, e ao orlamento de copinhos de cores, com que fantasticamente illuminava-se a frente da igreja de Sant’Anna, mais tarde demolida para fazer-se a estação da estrada de ferro de Pedro II. Quarenta dias antes do domingo do Espirito Santo, a banda dos pretinhos, precedendo rui dosa turma, parava no largo da Lapa, de-
A FESTA DE DIVINO 1 0 1 '■ ;Í3f-1 ' \ :í:í:J!S k ..-■itecí ,..;ííiÍJ ^ fronte de um império de pedra e cal, que existia no lugar onde actualmente levanta-se um prédio de dous andares — e ahi tocava escolhidas peças de seu resumido repertó rio. Ao passo que a mus’ca extasiava os circumstantes e reunia toda a gente, dous negros possant«s perfuravam o chão com alavancaspesadas e pontudas. Findo esse trabalho, finca va-se o clássico mastro, encimado por uma pomba de madeira recentemente prateada, fluctuando um pouco abaixo a bandeira do Di vino, com as suas douraduras brilhantes e seus matizes vivissimos. E a foguetaria estourava, repicavam os sinos, os barbeiros feriam os seus instrumentos, e os foliões, que até então conservavam-se quietos, misturavam aos sons da instrumentação mar cial o rufo accelerado dos tambores, os tinidos dos ferrinhos, o tropel das castanholas e o cho calhar dos pandeiros, com que acompanhavam as suas cantigas : A pombinha vai voando, A lua a cobriu de um véo, O Divino Espirito Santo Pois assim desceu do céo Os foliões eram rapazes de nove a dezoito annos, trajavam igualmente, cantavam quadrinhas ajustadas ao religioso motivo, pedindo pelas ruas da cidade esmolas para as despezas do culto.
Dous irmãos da confraria os acompanhavam, vestidos de ópa : um conduzia pela mão o im perador, que era um menino de oito a doze annos, vestido de casaca vermelha, calção e chapéo armado ; e o outro, com uma especie de custodia, no centro da qual havia uma pomba esculpida, adiantava-se para as pessoas que a beijavam, e, apresentando uma sacola de belbutina encarnada, recolhia as esmolas dos de votos. Nos ranchos, um rapazola ia com a bandeira, sendo as vestimentas de todos casaca e calcão escarlates com galões de ouro, collete de seda branca debruado de cores, sapatos baixos de fivellas, chapéo de feltro de cópa afunilada e abas largas, ornado de fitas, distinguindo-se o porta-estandarte por vestuário mais pomposo e pelo grande tope de flores, pregado no chapéo, de fórma dififerente. E a folia dobrada, pulando, brincando, dansando, cantava : O Divino pede esmolas Mas não é por carecer, Pede para exp’rimentar Quem seu devoto quer ser. Meu Divino Esp’rito Santo, Divino celestial. Vós na terra sois pombinha, No céo pessoa real. A folia de Matapoicos, reproduzindo cere monial idêntico, tomava para outras bandas.
2û>;îX3)e aguçando a curiosidade dos habitantes do bairro, que chegavam á porta e ás janellas para vel-os e ouvil-os : Andamos de porta em porta De todos os moradores, P’ra festejar o Divino, CobriI-o todo de flores. O Divino EspVito Santo Hoje vos vem visitar. Vem pedir-vos uma esmola P’ra seu império enfeitar. Depois destes e de um sem numero de versos, o irmcio de ópa, erguendo a bolsa em que os devotos osculavam a imagem sjmibolica, a re tirava, ao tinir das moedas de prata ou de I cobre, que cahiam, dos contribuintes piedosos e francos. Diariamente sahiam esses alegres e festi vos grupos, visitando cada qual a sua parochia. Os foliões de Sant’Anna eram mais avul tados, descreviam mais amplo itinerário, reco lhiam maiores donativos. Antecedidos sempre pela musica de barbeiros, acompanhando com instrumentos múltiplos as suas tradicionaes cancóes, a colheita das esmolas estabelecTa relações directas com as ma ravilhas dos festejos. E os foliões, contentes da lida, arrufavam, correndo com o dedo, os leves pandeiros, ba-
tiam ferrinhos^ rufavam tambores, bailando em infantis descantes : O Divino Esp’rito Santo E’ pobre, não tem dinheiro, Quer forrar o seu império Com folhas de cajueiro. Rua abaixo, rua acima. Ruas de cantos a canto. Rua que por ella passa O Divino Esp’rito Santo, Os impérios e coretos, fabricados de sarrafos e lona pintada, estavam a concluir-se; nas bar racas do campo, os carpinteiros e pintores, tre pados em escadas, pregavam taboas, estendiam dísticos, miravam os painéis que reproduziam grosseiramente as representações do interior; e, por entre os galhardetes, as bambinellas, trophéos e bandeiras, avistavam-se, em desenho flammante e incorrecto, scenas acrobaticas, um bezerro de cinco pernas, trabalhos de equilí brio, exercícios equestres, etc. O campo de Sant’Anna synthetisava o grosso da funcção. Na direcção da rua de S. Pedro, em frente ao quartel, alongava-se uma linha de barracas com as suas cumieiras, que seme lhavam á noite pyramides de fogo ou tectos incendiados ; e nos portaes da rua e aos balcões, os vendedores de sortes, de entradas e de co midas, estendiam o braço, gesticulavam, gri tavam como possessos, ensurdecendo os tran seuntes.
As musicas estrondavam de dentro, as famí lias e o povo formigavam defronte, e como uma chuva de pyrilampos que se abatesse dos ares, as lanterninhas de folha com vela de vintém das quitandeiras sentadas faiscavam ao largo, allumiando nos taboleiros e bandejas os louros manaués^ as cocadinhas brancas e os bolinhos de aipim, feitos com esmero e aceio pelas la boriosas e inestimáveis doceiras d’aquelle tempo Desde o escurecer, era realmente deslum brante aquelle scenario. N’aquella praça enor me, a fileira de barracas parecia um muro alvo lavrado pelas chammas; a multidão com suas ' vestimentas pittorescas, apinhada no chafariz que ahi existia, ou movendo-se em grupos, lem brava um quadro de mestre da escola veneziana; *-ao hombro das montanhas descançava a abo bada do firmamento, e a igreja de Sant’Anna, com a sua torre caiada, destacava-se ao fundo, I n’um céo calmo e estrellado. O famoso império, o coreto e o palanque do 5. leilão, ao lado da templo, fascinavam de luzes, agitavam os bambolins. Os espectáculos nas barracas constituiam o divertimento predilecto de metade do publico, que os frequentava com assiduidade. A cavalgada de um dos circos de cavallinhos - preludiava, ao mesmo tempo que as folias, a festa do Divino. Todas as manhãs, a partir de ji horas, a exhibia-se nas ruas, com seus cavallos de raça, seus artistas adestrados.
o pessoal completo da companhia, em gar bosos ginetes enfeitados de fitas, passeava pela cidade, annuncianJo o espectáculo da noite. Precedido por dous clarins, o bando entrava ordinariamente pela rua de S. Pedro, cami nhando a passo e avivando a atteni.ão. Airosamente inclinadas em sellins de banda, duas dansarinas de corda, fantasiadascom luxo, refreavam cavallos fogosos, fustigando-os opportunamente. A estas succediam-se vários artistas, vestidos como nos circos, tendo por sellins o acolchoado especial adoptado para os exercícios eques tres. D’entre elles gosavam de merecida celebri dade o portuguez Jacintho, que pulava por dentro de arcos, e seu irmão, vulgarmente conhecido por Bem-te-vi^ gymnasta assombroso e incessantemente victoriado nos saltos mortaes por sobre sete e nove cavallos. Fechan io o prestito, vinham d o u s ,macacos banzando de um lado para outro em dous lindos pequiras, o director da companhia, e o palhaço Joaquim, por antonomasia — o Faceirice. Vestido de clown, de costas para o pescoço de uma égua baia, de pé e fazendo tregeitos, o gracioso palhaço arrastava após si uma ranchada de moleques, que, tumultuosos, batendo palmas compassadas, estabeleciam com elle estravagante dialogo e formavam coro. E o Faceirice, dominando de toda a altura o seu numeroso séquito, erguendo as mãos.
A FESTA DO DIVINO iir. -‘•510, .'M3aü! • t KJ í ^ÜOOÍOS ' !i3i -:F3-I "OÍO ^ arregalando os olhos, escancarando a boca pintada de vermelho, ao soar dos guizos de suas mangas de bicões e de seu chapéo de pierrot, principiava: — Moleque !... — Sinhô! — A moça é bonita ? I — hi’, sim sinhô... — Tem vestido de babado? — Tem, sim sinhô... — Rapadura é cousa dura? — E’, sim sinhô... E assim por diante, terminando isso pelo invariável estribilho: — Ora, bate, moleque ! ora, bate, coió ! Com o íim de manter a ordem, um ou ■ mais pedestres, munidos de grossas chiba tas, guarneciam a onda, distribuindo ás vezes ; perdidas lambadas, que moderavam os exces sos de enthusiasmo dos dileitantes em ala rido. Q.uandoas luminárias accendiam-se, o campo regorgitava de curiosos e de gente que com prava sortes, ceiava nas barracas, caminhava ao acaso e recebia entradas. Na sua tribuna aerea, o Ghico-Goátoso apre goava offertas, improvisava versos patuscos, com a sua ópa escarlate, com a sua salva de prata : Quern tiver o seu segredo, Não conte á mulher casada, Que a mulher conta ao marido, 0 marido á camarada...
î j ' ' ( i : ! ; — Dou-lhe uma, dou-lhe duas, dou-lhe très, dou-lhe tudo desta vez! — Eram as palavras que os ecos espalhavam pelo espaço, com as gargalhadas da multidão, que applaudiaIhe as lembranças felizes e o logro dos segredos. As bandas de musica faziam-se ouvir por toda a parte. Os saltimbancos, aos gritos nos circos, provocavam « bravos » e palmas dos especta dores em delirio, Na barraca de MiM. Bertheaux e iMaurin, a gymnastica e os quadros ao vivo, de reproducções históricas, tornavam-se tentação irresistivel para as pessoas que, depois de apreciarem as magistraes execuções da banda de fuzileiros, que tocava na varanda, iam deleitar-se a mais não poder, em presença dos proclamados qua dros impressionistas. Não menos frequentada era a barraca de M. Foureaux, com as suas scenas mimicas, suas Pyramides humanas, seus volteios eques tres, onde os artistas Carlos Varin e Baptista Foreaux executavam exercicios de bolas, equi libravam-se em garrafas, desempenhando igual mente admiráveis evoluções em argolas vo lantes. Essa companhia contava em seu grêmio duas estrellasde considerável grandeza—Mlles. Jenny e Seraíina. Muitas coroas lhes foram atiradas aos pés, muitos amores adejaram timidos por sobre as suas fôrmas cinzeladas, muito poeta inspirou-se no seu olhar encantador.
irti^ '•'IÎ.L ■', ■■■ ; MJiSlî 'rlj-® Ilf:’ -, 'Jíií A FESTA DO DIVING E’ de boa fonte esta quadra, que lhes enca- ‘recia o merito : A Jenny, sempre applaudida, Fará passos graciosos; Serafina, sobre a corda, Seus saltos difficultosos. Não obstante todos esses successes, a B a r r a c a DAS T rès C idras do A mor levava de ven cida a todas as outras, não só pela originalidade das representações, mas ainda pela variedade e distincção de seus frequentadores, E quem a frequentava ? A plebe e a burguezia, o escravo e a familia, o aristocrata e o homem de lettras. Nos annaes das nossas festas populares, a „barraca do Telles ficará solitaria no merecido renome. A barraca das Très Cidras do Amor, ou bar raca do Telles, campeava em ultimo logar, quasi fronteira do império. O seu aspecto era modesto, o letreiro que a entesteirava era illustrado de très cidras mons truosas, pintadas a oleo nas duas extremidades, e um triângulo de pequenas bandeiras, enfiadas n’uma corda, formava-lhe o frontão simples e aligero. No salão regular e pouco confortável, em longos bancos fixos e toscas varandas, installavam-se, nas noites de recita, centenas de es pectadores, ávidos de emoções agradaveis. Por occasião d’essa festa comprehende-se que todos procuravam divertir-se, entrando os
espectáculos do Telles no numero de suas procuradas distracções. O scenario da barraca não era extenso: pro porcionalmente dividido, sómente uma quarta parte destinava-se ao celebre theatrinho de bonecos, restando as demais para as represen tações de comédias, cantorias de duettos, magicas e gymnastica. Na companhia não havia damas : para des empenhar taes papéis, dous ou très rapazolas imberbes vestiam-se de mulher, salvando com habilidade a illusão scenica. O que é verdade, é que o galan Pimentel, o Mondar e Pinheiro Junior tiveram como seu primeiro mestre o emprezario das Très Cidras do Amor, e quando de lá sahiram foi para en trarem no caminho da arte, das lettras e da gloria. O Telles era um homem de estatura regular, moreno, cheio de corpo e de pernas inchadas. Gozando dos favores públicos, sympathisado ge ralmente, engraçado a fazer rir as pedras, os seus espectáculos airastavama maior concurrencia. Muitas noites, José Antonio, o bacharel Gon. çalves, Paula Brito, a Petalogica em peso iam aprecial-o, corôal-o em scena, no debique o mais inoífensivo. A João Caetano chamava elle de collega, consultava a respeito da comprehensão da arte, sobre os trajes dos personagens e interpretação das partes. Uma vez o impagavel Telles, assistindo á re presentação da Nova Castro, depois de felicitar
jtj j y :/ : tr'- j i-, I. . O.JI :ii aJir- - A FESTA DO DIVINO o immortal actor que desempenhara o papel de D. Pedro, disse-lhe no camarim, no intervallo de um dos actos : — O senhor agradou-me tanto, que deu-me vontade de imital-o. Mas, como vestir-me para disfarçar o defeito das pernas ? — Collega, de botas e batina; respondeu-lhe João Caetano. A’ noite, a feira do campo excedia-se em marés de povo no fluxo e refluxo, em vozerias de pregoeiros, em luzes, musicas e diverti mentos. O estalo dos chicotes nos circos, o repique dos sinos de Sant’Anna ao terminar o Te-Deum^ as pachuchadas do Chico-Gostoso apregoando um pão-de-lot ou uma galinha, e a multidão em tropel que acompanhava ao império o impe rador do Divino, o Porta-estoque e os foliões no centro de quatro varas encarnadas, impri miam a essa festa um cunho de relevo brilhante, como as esculpturas architectonicas da idade média. O theatro do Telles era illuminado a velas e a azeite, pagava-se 5oo rs. de entrada, incluindo n’esse preço o bilhete da rifa ; tinha, além da orchestra para a grande divisão do scenario, uma outra de violão, flauta e cavaquinho, que tocava occulta, quando dansavam os bonecos. Depois da ouvertura — uma valsa ou uma polka — subia o panno. Como introducção á noite artistica, o Telles esquipaticamente ves tido, apparecia, engolia espadas, comia fogo,
i »15 fl'! !f E nem lhe falravam applauses e muitos agrados. Descendo o panno e subindo de novo, repre sentava-se O Judas em sabbado de Alleluia^ por exemplo; havia gymnastica, cantava-se a aria do capitão Matamouros ou cousa semelhante, como conclusão da primeira parte da recita. O Telles nas comédias do sublime Penna tinha seu valor,porisso que era um homem totalmente inculto e gracioso, como os protogonistas das comédias de costumes do Molière cá da terra. A maior somma de seus triumph' s não con sistia propriamente n’essas scenes de sobra originaes do nosso theatro nacional, porém no duetto O ^leirinho e a Pobre^ O Ahndi)iho e na dansa de bonecos, entremeada por elle de chulas lascivas, de repentes petulantes, de saracoteios inimitáveis. Quando o Telles transpunha o palco, encasacado de meirinho.e que começava, desenrolando uma corda, ao avistar a pobre : ÿjt Tanta pobre na cidade Não ’stá má vadiação... o auditorio enchia com uma gargalhada o re cinto, a rapaziada acclamava o artista, e João Caetano batia palmas victoriando-o. Isso devéras o animava, pois retribuindo com o seu esforço a generosidade publica, despicava-se no fado do fim do acto, bambaleando, cantando, requebrando-se, puchando a fieira, ondulando as nadegas a extenuar-se,
íi í 'ï' A FESTA DO DIVINO aos — Bravo do Telles ! — Corta jaca ! — Mette tudo ! — Bota a baixo ! — da multidão calorosa, que ria-se, gritava, batia com as mãos até os derradeiros rumores d’esse dansado tradicional e electrisante do povo brazileiro. Em um d’esses momentos, coroou por pan- - dega o genio de nossa scena tlramatica ao saudoso histrião, de quem tão vivas recorda ções ainda persistem na lembrança de tantos contemporâneos que o conheceram e aprecia ram. Com a inconstância das bandeiras ao vento, as peças na barraca variavam, e com ellas todo o espectáculo. Era immutavel, porém, a representação dos bonecos, que constituia a segunda parte do espectáculo. Justamente n’isso brilhava o nosso Telles por seu espirito e mostrava real habilidade. O povo, que retirava-se nos intervallos, precipi tava-se na occasião do signal para o espectáculo dos bonecos. Amainado o tumulto, o Manésinho arpejava lá dentro no seu violão, o Zuzú feria com a palheta as cordas do cavaquinho, e o Ferreira soprava na sua flauta macia... Levantava-se o panno, e ao som de plangente melodia, cantava o Telles: Abra-se o ce'o, Rasguem-se as nuvens ! Appareça a scena Cheia de luzes !... E’ inútil descrever a impressão produzida entre os espectadores, desde que se erguia a Festas populares
i^l', - ■ Int I] cortina, desde que retalhavam o ar, n desappai recer nas bambolinas, os cordões motores das t saltitantes figuras. Iniciava quasi sem.pre essas recitas -1 ?'oda de Fiar^ dialogo entretido pela Fiandeii-a e o Ca- -^i bodo, personagem forçado a todas as repre- - sentacões. o Caboclo, que era o fiel reproductor das pachuchadas do Telles, crescia do tablado, ves- - tido de calça branca, camisa arregaçada, collete éjencarnado, pulando-lhe á cinta uma cabacinha e munido de um facão, que agitava continuamente, nas dansas, nas ameaças, nas investidas, conforme as situações. Na Roda de Fiar elle entrava, irritando a pequena boneca em seu trabalho. A FIANDEIRA, cantaudo : Não bula com a roda Que ella é de fiar... o CABOCLO Não seja teimosa Que lia de apanhar. En... eu! minha dona!.,, bradava elle, per seguindo. a interlocutora, que se punha de pé : — ’Stou todo amspiado II ^ E muito dito chistoso e muito verso de sen tido equivoco acudiam em turbilhão ao Caboclo e a Fiandeira, que acabavam brigando e fazendo as pazes, aos requebros da chula, cãs ovacÕes da plateia.
kiÍ Em seguida á Roda de Fiar vinha A Creação 0 Mundo, drama de enredo complicado e riquissimo em disparates. Os protogonistas de nominavam-se : O Caboclo, o Padre Eterno, Adão, Eva, Caim. Abel,o Sacristão e sinhá Rosa. Por esta distribuição póde-se calcular o idéal do autor. Apanhando reminicencias, apenas archivamos na memória um ou outro lance, que nos ficou por causa dos versos. As figuras bailavam desde o começo,o dialogo corria pouco interrompido, o Caboclo enthusiasmava com os seus repentes. Com o imprescindível facão, traquinas e sempre disposto, arreliava elle as suas donas, e, no paraijO, recostado a uma arvore, implorava por sinhá Rosa, quando ella sumia-se nos bas tidores : Rosinha da saia curta, Barra de salta-riacho, Trepa aqui n’este coqueiro Bota estes côcos abaixo ! Então,Eva queixava-se a Adão, revelando-lhe a tentação da serpente, ao que este soltava : Grande pinheiro tão arto, Que dá páo para cuié, Quem qui:^é vê mexerico Vá na bocca de niiiié. A historia intrincava-se, Caim matava a Abel, havia desaguisado, e o Padre Eterno, n’uma apothéose de nuvens de pasta de algodão, descia
do ceo, intervinha beneficamente no conflicto, finalisanJo o drama por um caterete, em que o Padre Eterno dansava com sinhá Rosa, aos peneirados do (>aboclo, que, dando umbigadas, sapateando, bradava ; — Quebra, sinhá Rosa !... Rebola, minha Malmequeres !... E palmas repetidas, bulha incessante, bravos e risadas, partiam ardentes. Arriava-se o panno, succedendo após minutos um jongo de automatos negros, vestidos de riscado e carapuça encarnada, que, ao ferver de um batuque ras gado e licencioso, cantavam o estribilho, que ainda é popular : Dá de come/ Dá de bebé! Santa Casa é que paga A você ! — A’ scena o Telles !—Bravo do Telles !—A ’ scena! —partiam da platéa, ao que elle attendia, e, reverentemente commovido, murmurava, adiantando-se e inclinando a cabeça : — Obrigado, meu povo ; obrigado. . D’esta vez não fiz pechincha, Descobriu-se a ladroeira ! .. Assim exclamava o Chico-Gostoso da grade do . seu tablado dos leilões,sendo sorprendido n’uma » escamotagem de prendas.
A FESTA DO DIVINO - cillu fi 1 'H i ■ fit:-:. ■'I E uma trovoada de risos e uma pateada geral antepunham-se á imperturbabilidade do capaicidocio leiloeiro. — Dou-lhe uma, dou-lhe duas, dou-lhe très... Scio ! Scio ! ! O POVO Bravo ! bravissimo !... CHICO-GOSTOSO Toca a musica ! O POVO Ainda não! ainda não!... CHICO-GOSTOSO Tenho dous mil réis pelo porquinho... quem dá mais ? UM HOMEM Dou mais meia pataca. CHICO-GOSTOSO Pois o coré é seu... Toca á musira !... o POVO Bravo! bravo do Gostoso! No império, o imperador, com o seu manto verde e sua coroa dourada, cochilava no meio
v’:a í.- * ? i . A; (Í6 sua corte, o que a actualidade tem demons trado que não acontecia unicamente aos impe radores do Divino. Nas noites de fogo, a affluencia augmentava, as familias aguardavam, sentadas em esteiras, por essa radiante concluscão dos festejos, e magniíicas ceias, trazidas de casa, as congregàvam expansivas Depois da meia-noite queimava-se a primeiraroda : formavam-se partidos para saber-se quem venceria, se a fortaleza ou as fragatas : as moças gostavam dos gyra-sóes e da /t/a, os meninos da mulher que mija fogo e do barbeiro^ e a rapasiada tinha como o melhor as vaias e os « fóras» ao fogueteiro, que andava em ver dadeira roda-viva. Ao arder a derradeira peça, quando lia-se no transparente em cifras cambiantes — Gloria ao Divino a turba sahia das barracas, os sinos repicavam, o acampamento levanta-se, os applausos redobravam, e a multidão pouco a pouco dispersava-se. Não faltavam commentarios divertidos, ao toque das serenatas, aos últimos episodios da funeção. Eis o que era n aquelle tempo a festa popular do Divino, quando a nossa sociedade não tinha a pretenção de querer impor-se pela decadência de seus costumes e pelo enervamento de seu senso religioso.
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