Universo da obra
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iil(3 O Sete de Setembro grito de «Independencia ou morte», proferido na tarde de 7 de setembro de 1822, ás margens do Ypiranga, foi um grito de amor e um grito de guerra. O primeiro Imperador havia recebido em viagem para Santos, cartas e officios das cortes lusitanas, que impunham novos vexames á colonia, e aquella phrase tornou-se um ardente manifesto de patriotismo e de lucta. Se o paiz, que então começava a organisar-se, achava-se em estado de ser livre, é o que os
FESTAS POPUÍvARES DO BRAZIL y'ix li., 'NM: [V ■ I ' í i i • ,i ..'i :'í ■ I i ■ ■ Pi.'i-î!' /' j»F; M íiíi ' v,i n y- ■ Hii; { factos parecem negar, desde o primeiro instante de nossa separação poHtica. A violenta correspondência da métropole, alevantando o animo do fogoso principe, foi o facho cjue ateou o incêndio no edifício em construcção de nossa nacionalidade nascente, (^ue logo após se vira deserto de seus per sistentes obreiros, seguindo elles o caminho das dissensões, do exílio, do cárcere e da forca, Na crystallisação do pensamento pátrio, a historia daquelle periodo não recolhe sem jaças a preciosa gemma, por isso que a intriga G as ambições annuviam-lhe por instantes o brilho da superfície. D. Pedro i, o esboço de um heróe, fez rolar o carro dos acontecimentos fataes ; mas de baixo de suas rodas a arvore da liberdade devia fanar-se, á mingua do sangue que fecunda as tradições de valor. A proclamação do Ypiranga, como senha de combate, não correspondeu ao sentido immediato que lhe annunciavam as palavras. A beira de um riacho, que foi pequeno para conter o tumulo de um pelejador, na effervescen>.ia de ânimos que não fez disparar uma peça, entre uma comitiva e uma guarda de honra sem adversários, o brado da independên cia resoa no primeiro reinado como um éco affectivo de uma grande alma, e fígura como uma pagina a que emprestaram sombrio colo rido as conflagrações politicas e o baptismo dos martyres. Pirí ■
0 SETE DE SETE»ÍdRO •'s; fí«. ■ '-Mil E’ nessa época sobretudo que ás iJéas revo lucionarias fazem acto de presença em nossa historia. Os patriotas, que se haviam empenhado pela independencia, no mez de junho de 1S22, dividem-se em dous partidos, para se hostilisarem ; mais tarde em très: liberaes puros, realistas e republicanos, arvorando á uma o estandarte das perseguições e da intriga. A assembléa constituinte dissolve-se. Os Andradas são deportados. A anarchia entrega nas mãos dos dissidentes o archote acceso das rebellióes, e o paiz sente nos musculos o calefrio precursor das horas funestas. Depois do golpe de estado da Constituinte, os realistas, liberaes e republicanos, que foram para o Sul, promoveram a perda da Cisplatina; os que seguiram para o norte, o anarchisaram, A Bahia arma a sedição militar de 25 de ou tubro de 1824, e Pernambuco estortega-se nos braços de ferro da revolução que trazia cqmo distico do seu estandarte — A Republica do Equador. E os facciosas medravam sempre, inquietando por toda a parte o espirito publico, que oscillava entre as forças que se debatiam. Por esse tempo de successos extraordinários, dous partidos sobretudo dividiam o paiz : o que queria a separação absoluta e definitiva de Portugal, e o que trabalhava em sentido con trario, isto é, o que combatia pela união do Brazil com ã métropole.
FESTAS-í>OPULARES DO BRAZIL Aquelle tinha o prestigio da opinião gencralisada, que equivalia, a antev.ipado triumpho. Os separatistas^ formando um scisma, sahiram de seu primitivo grêmio, com bandeiras diversas. Subdiviram-se em absolutistas, constitucionaes e democráticos. Todos queriam a independencia, é verdade ; mas os primeiros com uma monarchia absoluta, os segundos com uma constituição liberal, e os terceiros que se dividisse o Brazil em estados federados. Dahi as perturbações intempestivas, os odios, concentrados, os lagos de sangue atravessados | pelo carrasco, que não era precedido do Juiz, nem representava um instrumento da lei. Entretanto, o grito de «Independencia ou morte »,que fizera desabar as muralhas seculares do Brazil-colonia, é a mais bella inscripção lavrada por um principe no frontispício de uma nacionalidade. E bem memorável foi aquella geração, que sofFreu, luetou e morreu, porque comprehendia o direito de liberdade!... Em certos dias, as festas de um povo nada mais são do que a romaria da posteridade ás tradições que ficaram no passado. E o 7 de setembro nos exemplifica o dizer. Ha quasi trin'a annos, as festas de anniversario da Independencia e do império eram I
0 SETE DE SETEâíJUO ■:orií"? estrondoSiis e possuíam o relevo das consa grações populares. Ninguém havia d’enire o povo que não se ensoberbecesse da idea que regia o regosijo geral, cujas manifestações expandiam-se sob as fôrmas da arte, nas pompas decoraiivas e no enthusiasmo patriótico dos cidadãos, que com participavam dos festejos, isoladamente ou em collectividades. No theatro de S. Pedro, João Caetano, o genio dramatico de mais altura que nos tem sido dado admirar no Brazil e na Europa, en saiava tragédias de Shakespeare, Vincenzo Monti, Alfieri, Racine, etc. D’essas tragédias, de que era laureado traduetor o engenheiro Dr. Antonio de Araujo, a[esculhida para a noite patriótica montava-se com apparaio e rigor decorativo. Por vezes o Imperador mostrava desejos de vêr o.celerbe artista fluminense n’esta ou n’aquella, o que se tornava para elle poderoso incentivo e uma ordem a cumprir. Foi assim que em 7 de setembro de i85... representou-se o Arisíodemo^em que João Caetano maravilhou o monarcha e o escolhido auditorio que concor ria ás suas recitas. Os mais notáveis poetas d’aquella quadra, taes como Magalhães, G. Dias, Porto Alegre, Teixeira e Souza, Lauí indo, Constantino Gomes de Souza, Joaquim Norberto, José Antonio e Machado de Assis compunham cantos inspira dos pelo amor da patria, e os recitavam no theatro, os publicavam em jornaes e revistas,
FESTAS i^ÓPüLARES DO BRAZIL . Í f ; ■ ou OS declamavam ao som do hymno nacional, ás portas da Petalogica, da Loja do canto e em frente á typograpiîia de Paula Brito. A partir da vespera, o caminho que vai do Rocio Pequeno ao paço da cidade enfeitava-se todo; as ruas com arcarias e folhas de man gueira, e as janellas com arandelas, globos e castiçaes accesos por dentro das vidraças. No largo do Rocio, do Capim e de S. Domin gos, os tradicionaes coretos concluiam-se, onde não era raro ver-se bandas de musica de navios estrangeiros surtos no porto tocarem associan do-se ás alegrias do dia da patria. Os salões dos bailes pareciam a morada dos sonhos; os córos para o romper d’alva estavam habilmente ensaiados, e a alma nacional fervia jubilosa nas abstracções e'picas, que nobilitam | povos e raças. As sociedadesde musica, as bandas militares, as multidões, seguiam em varias direcções, e as gyrandolas estouravam intermittentes, pin gando de fogo as trevas, que se dissipavam. As sociedades Ypiranga e Sete de Setembro achavam-se a postos, com seu pessoal selecto e alentado de nacionalismo. Entre a população e os directores dos patrió ticos festejos havia tal correlação de sympathia, que o enthusiasmo tornava-se uma consequência facil e natural. As primeiras salvas das fortalezas do mar, logo que a madrugada espreguiçava-se no ho rizonte, os vivas á Independencia, ao Inípe- , rador e a José Bonifacio, irrompiam das turbas.
0 SETE DE SETEMBRO ' - : -"''''''EjI ••<■ lícriúilcJ ■ iiíaritrál :iilin:| ' : '.‘‘dbfdj « r.j '-“ SM w w*^.. if-'.fi; 1 que, descobertas, agitavam no ar o chapéu, levantando os braços. Bandos de meninas ves tidas de branco, com grinalldas e íitas de cores nacionaes, cantavam em coretos o hymno de Pedro I; os poetas da Petalogica tangiam as suas lyras, e a festa das consagrações posthumas começava a celebrar-se. Das janellas então desdobravam-se colchas de damasco; sanefas e guarnições revestiam as portadas. Nas arrecadações da guarda nacional as armas espelhavam, grupos de paisanos as inva diam, e os clarins reluzentes pendiam das columnas d’essas praças darmas, em que se viam em ordem espingardas e espadas, bayonetas e bandeiras, machadinhas e tambores. Avisados por toques de cornetas nas esquinas, reuniam-se primeiro os guardas por compa nhias, depois por batalhões, que iam postar-se no campo da Acclamação, e, por ultimo, encorporados em brigadas, desciam a occupar o largo cfo Paço. A’s 11 horas o Imperador vinha de S. Christovão ; e, do Rocio Pequeno até a Gapella Im perial, o seu coche de gala era ladeado de ar cheiros, que, a pé, acompanhavam correndo o carro que seguia. E as salvas écoavam a intervallos no mar e em terra, como para o funeral dos phantasmas da gloria ! Apenas Sua Magestade sentava-se no docel do templo, o venerando bispo, que officiava, subia ao altar, acercado de monsenhores, coFestas populares
negos e outros sacerdotes, e o brilhante TcDeuni, de composição de Pedro i, executava-sc sem demora. E a guarda nacional lá estava formada, ves tida com seu fardamento novo, tocando suas musicas recentes. Incandescentes no amor da nacionalidade, o patriotismo transformava o soldado em cidadão; sem quebra de disciplina, cada qual collocava cm suas armas e barretinas folhas symbolicas do grande dia. Concluido o Te-Deum, havia cortejo, e de pois a parada, que arregimentava toda a tropa de linha e guarda nacional. Depois das evoluções e descargas da lei, as tropas desfilavam em continência pela frente do paço, onde, á varanda, estavam a familia imperial e os nobres da corte. A’ noite, as illuminações das praças e dos edifícios públicos, das ruas c das casas parti culares, os bailes, as musicas e os hymnos pa trióticos embeveciam esta população, que ainda conservava o vestigio da fé antiga, nas ideas e no futuro. A’s 8 horas o Imperador chegava ao theatro de S. Pedro, para assistir ao espectáculo de grande gala. Quando descerravam-se as cortinas de seu camarote, a orchestra executava o hymno na cional, ao que a platéa erguia-se dando os vivas da oceasião. Lvm seguida, subia o panno, e os artistas, em . c* ’/ ' ^ , .. IJpy
0 SETE DE SETEMBRO '•AifJ '•rROjvl í;V f collcte e gravata branca, ostentando a tiracollo uma larga fita verde e amarella, formavam o côro do hymno da indeperidencia, cantado por uma actriz, rica e caracteristicamente vestida. E o espetáculo começava... Os poetas ba tiam palmas, para recitar as suas poesias congratulatorias; e João Caetano elevavni os seus louros a regiões inaccessiveis talvez ao alcance de um século. . Com o fim de igual mente celebrar este anniversario, o alferes Amei ico Rodrigues Gamboa fundou, a 12 de outubro de 1869, a Sociedade Commemorativa da Independência c do Im pério, que teve a sua séde no Lyceu de Artes c Ollieiosj sendo seu presidente o benemerito cidadão e notável architecto Cethencourt da Silva. Esta sociedade mandava construir no Rocio dous simulacros de fortificações, onde bandas de musica tocavam nas noites de sete e oito. A seu convite e solicitude, o governo impe rial determinava que estanciasse no morro de Santo Antonio, na parte fronteira á estatua do fundador do império, um parque de artilharia, que, ao clarão da alvorada, á 1 hora e ás 6 da noite, saudava com uma salva real o aconteci mento mais definitivo da nossa historia. A estatua pernoitava illuminada, a compa nhia do gaz tomava á sua conta o dispêndio com os quatro grandes candelabros, e, até poucos annos, o Te~l)enm, as paradas, os es pectáculos commemorativos c^as festas pu blicas realisavam-se como na primitiva.
if i i t Ainda muito depois da guerra do Paraguay, que foi a liquidação final do patriotismo brazileiro, os alumnos e àlumnas do Conservatorio de Musica e do Lyceu de Artes e OíTicios iam, ao alvorecer, cantar, n’essas construcções de momento, o hymno da independência, prece didos da multidão que os applaudia. Porém... silencio ! Não ouvis aquella salva? E’ a voz dos patriotas mortos, que, no dia de hoje, tortura a consciência bastarda de seus filhos, que esquecem as suas tradições e en tregam ao estrangeiro as terras da patria ! Como é fria e implaca\el a vingança dos mortos!...
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