Universo da obra
Universo da obra
-íliil :3 iii O Dous de Julho ( BAHIA) ADA existe de mais lugubre do que o frontispicio da Liberdade. Ao fital-o, a vista maravilha-se diante de resistências desesperadas, de corpos baleados que se erguem a meio e tombam no chão ensanguentado, de membros mutilados sob a roda pesada das carretas, de corcéis que pulam sem dono por sobre montões de cadaveres, até que, lá na extrema, ao mar-
che-marche dos batalhões, ao disparar da fu zilaria, uma bandeira rota fluctua em sinistra muralha ou negra fortificação, arvorada pelo vencedor que, tendo na mão a espada, agita, aos quatro ventos, o estandarte victorioso, pa recendo, na animação feroz, levantar vivas á Patria e á Liberdade. Aqui e além, clarins partidos ao toque das investidas, tambores despedaçados, lanças e bayonetas reluzindo como o olhar do anjo do destino salvando das estancias da morte o nome e a gloria dos bravos. Eis mais ou menos o aspecto geral da Bahia, quando os terriveis granadeiros do general Ma deira já haviam entrechocado no reconcavo as suas armas com as dos exercitos de Labatut, a quem deve a campanha da Independencia d’aquella provincia as fanfarras triomphantes com que entra na historia... E em Itaparica, no Cabrito, em Pirajá, fe riam-se luctas titanicas, pelejas encarniçadas, em que os bahianos conquistavam palmo a , palmo o território pátrio ao poderio luso que o disputava. '*'ti ! ■ Fúnebre, porém, desceu a noite do lo de julho', sobre a cidade. Aproveitando a cinza densa das trévas, e ranfes vultos cresciam vagando na ruas desertas e sahiam cautelosos das casas ermas. Aos archotes inflammados, as padiolas trans portavam os soldados feridos, as carretas baPtini*.... - “■■« v f l 1 [
0 DOUS DE JULHO , trW 1! gagens escoltadas, emquanto os batalhões mar chavam humilhados ao caes do embarque. O saque, a pilhagem nos templos, a profa nação das sagradas imagens eram a senha das tropas vencidas. As sentinellas perdidas attentavam o imprevisto, e a esquadra que levaria a seu bordo os '■‘-.13:5!d lusitanos, desenhava-se nas aguas da bahia, sinistra como esses monstros que nos opprimem no clima asphyxiante dos pesadelos. O momento chegara em que uma ou outra accesa nas barracas extinguira-se, o silencio ,;.,ív.r5 amordaçara os écos, percebendo-se apenas b elas ribanceiras o resono do mar, carregando ,...,.4 tardo os vencidos com os seus despojos de desiJ troços. A’s primeiras rutilações do crepúsculo, Mab deira e suas tropas faziam-se de vela, perse- ’ guidos pela esquadra imperial ate' o Tejo. No dia 2 de julho de 182J, á i hora da tarde, ; o exercito pacificador, tendo por chefe Lima e Sil\a, fez a sua entrada na cidade, aos repiques ; de sinos, cás acclamações do povo, ao som de hymnos marciaes. Batalhões havia que marchavam quasi nús; 0 outros, vestidos de folhas verdes; trazendo ■ muitos dos soldados pedaços de carne enfiados I nas armas, aves e caça morta batendo-lhes aos joelhos, fruetos e mais provisões, por isso que nada encontrariam na cidade faminta e devas3 ta da. Quando, por baixo de um arco de triumpho desfilava o exercito, e as freiras da Soledade
desceram, trazendo grinaldas para a fronte dos heroes, Lima e Silva foi coroado, todos os generaes foram coroados, só não o foi Labatut — porque se achava preso ! Mas a intriga, e a perfídia, tiveram justa ex piação. Da guerra da Independencia apenas dous nomes a Bahia recommendou á memória e fíguram nos seus cantos populares : — Labatut e Madeira. Como commemoração dos seus feitos licos, a Bahia reproduzia annualmente esse epilogo brilhante — a entrada do exercito liber tador — no dia 2 de Julho. Para que as festas tivessem mais relevo, oito uias antes o bando annimciador prevenia a po pulação, convicta de sua nova soberania, que o préstito symbolico apparelhava-se, que as arca rias triumphaes e os palanques vistosos erguerse-iam na praça do Palacio e no Terreiro com deslumbramentos indizíveis, cumprindo aos ha bitantes da cidade a illuminação e adornos das fachadas de suas casas, durante as très noites de pátrio regosijo. Moços da mais alta nomeada, formando o bando, sahiam montados em lindos cavallos de crinas e cauda tramadas de fítas verdes e amarellas, soando, aos peitoraes de velludo e ca-
0 DOUS DE JULHO 14d ■'KLiw iÜ-k.. - ■ ■■■'• ::.'íí Ij;!' Os cavalleiros vestiam de branco, traziam folhas de fumo e café enlaçadas ao chapéo de palha, de vintém ; pendiam-lhes do lx)mbro capellas de viçosas flores, e ostentavam a tiracollo larga fíta achamalotada, de cores brazileiras. Em duas longas filas marchavam dousa dous, alteando nos ares profunda e verdejante abo bada, constituída por arcos de folhas e flores, sustentados nas extremidades pelos successivos pares. O porta-estandarte ia no centro. Aos vivas repetidos ao Dous de Julho, á Independencia, ao Imperador, a Labatut e seus generaes, ao povo bahiano, etc.; ás acclamações que par tiam dos sobrados com o perfume das flores que cahiam, a lustrosa passeiata distribuía pro clamações e poesias, aviventadas pela grande alma da patria : Vai de novo surgir, ó bahianos, Vosso dia de gloria sern par ; -Nuvem d’ouro parou no horizonte, Já vem perto, não tarda a raiar... Na vespera do Dous de Julho, o povo, á meianoite, levava o carro para a I.apinha, ao clarão de archotes, em festivos clamores. Pode-se assegurar que n’essa noite toda a cidade ficava desperta; nas ruas por onde pas sava o cortejo, pendiam das janellas globos e lanternas accesas, e nos cantes das sacadas de páo ou de ferro grandes mangas de vidro protegiam a chamma das velas, que ardiam desde o escurecer. Festas populares
FESTAS POPULARES DO RRAZIL A crioulada e a mulataria, aos magotes, can tando quadrinhas patrióticas e em serenatas locaes, dasfructavam a noite, prelibando os prazeres da festança. A começar da vespera, o commercio portuguez fechava as portas, em razão de.s ataques e violências das turbas, não escapando dos des varios populares as tavernas, onde a capadoçada infrene embriagava-se, zombando dos di reitos do taverneiro amedrontado, que tudo franqueava, comtanto que o deixassem vivo. N’esses dias eram communs os fecha-fecha, os mata-marotos^ de que resultavam reprovadas correrias e frequentes assassinatos. Desde ás 6 horas, as fortalezas salvavam, as ruas embandeiradas coaxavam de folhas aromaticas, os batalhões patrióticos cruzavam-se com bandas de musica; e numeroso povo, tendo como distinctivos do dia laços de fita, e folhas das côres nacionaes na abotoadura e nos vestidos, agglomerava-se nas praças, nas es quinas^ em tumultos inquietos. Um anno houve, segundo o testemunho de minha mãi, em que armaram-se em diversos pontos/oríu/cfUi-, que davam salvas victoriosas á passagem de uma fragata puxada por mari nheiros, a qual se incorporava ao popular cortejo. A 1 hora da tarde, desfilava pelo Terreiro o colossal préstito, vindo da Lapinha. Ninguém imagina a effusão patriótica dos bahianos no maior dia de sua provincia ; é in calculável o grandioso espectáculo offerecido
0 nous DK JULHO Si:’ils;: ■ ~ i-Süt. J îjim: pela raça authentica dos pelejadores da Liber dade no tablado immorredouro das consagra- , ções patrias. Apenas as primeiras levas de povo transpu nham o Terreiro, os sinos do Collegio, de S. Francisco, de Domingos e da Sé repicavam, garridos, e centenas de gyrandolas disparavam,, estourando prolongadas ; o ar enfumaçado re tinia de hymnos, de vivas, de cantos populares, em que a consciência anonyma celebrava a gloria dos heroes e a passada luta. O arcebispo e o cabido, o presidente da provincia e a nobreza, lá estavam no templo, ar mado de galas para a acçcão de graças. E o préstito a vançava... As moças, as crianças, as familias, debruça vam-se ^ias janellas, agitavam lenços, acclamando o Dous de Julho, e as escravas, com cestas de flores, aguardavam, um pouco reti radas, as ordens das senhoras. E o tumulto crescia .. De repente, o carro triumphal assomava, puxado por cidadãos vestidos de branco e com chapéos e enfeites caracteristicos. Em épocas primitivas, este carro conduzia uma cabocla com os seus adornos selvagens, pisando um dragão, acercada de caboclinhos igualmente vestidos de pennas. Era elle enorme e pesado, tinha as rodas douradas e comprehendia uma allegoria : — Paraguassú calcando aos pés o Despotismo. Mais tarde essa cabocla foi substituida por uma figura de indígena, sem a mesma pompa, nem o mesmo séquito.
Quando o carro apparecia, as janellas estron davam de applauses, as flores inundavam-lhe o transito, e os patriotas, pendidos para a frenre, entesando as cordas com que o rodavam, can tavam as suas trovas de improviso, saturadas de ridiculo e estrebilhadas de odios recentes : Labatut jurou a Pedro Quando lhe beijou a mão, Botar fóra da Bahia Esta maldita nação ! Embora da Europa venham Batalhões a mil e mil Nossos braços, nossos peitos, São muralhas do Brazil. E mais adiante : O Paulo, Ruivo e iMadeira, Todos tres n’uma janella. Esfolando um pé de burro, Suppondo ser de vitella... Irra ! Irra !... Só o Paulo foi quem pôde Tirar do burro a caveira, Para mandar de meranda Ao seu general Madeira. Irra ! Irra !...
0 DOUS DE JULHO ■‘■tâlfi • O Madeira queria Se corôar ! Botou uma sorte, Sahiu-lhe um azar ! E a crioulada batia palmas, repetindo em chula : O Madeira queria Se corôar ! Botou uma sorte, Sahiu-lhe um azar ! A’ Cabocla seguiam os batalhões com as fe ridas ainda não cicatrizadas,recebidas nos com bates da Independencia, o batalhão Acadêmico dos estudantes de Medicina com os lentes da Faculdade,e,em annos remotos,o commandante das armas, vestido de branco e com chapéo de palha, puxara uma brigada de patriotas, da Lapinha á praça de Palacio. Como vivo simulacro da entrada do exercito, o carro da bagagem primava pela originalidade. Era uma monstruosi.lade ambulante, coberta de folhas de café, trazendo mantimentos e fructas para as forças desprovidas. Aos tirantes d’este ajustava-se gente de toJa a casta, cantando e tirando versos em estylo facil e gracioso : Vai o carro da bagagem Carregado de ananaz, A mulher que não tem homem Vive sempre dando ais...
I' '' ij -ví' - , .. KESTAS POPULARES ÜO RRAZIL — Viva o Dous de Julho ! — Viva a Independencia ! — Viva a Bahia ! — gritavam, allucinadas de jubilo, as'“ multidões, levantando os braços, agitando os chapéos de fitas, acompa nhando, fascinadas, os symbolos preciosos de suas lides e de suas glorias. Be distancia em distancia, a procissão pa triótica parava, e os poet is recitavam os seus versos,ainda aquecidos do fogo das bombardas, ^o alarido das victorias. Nos vôos de cem covados de seu genio de repentista, engrandecido na brilhante apothéose <jue lhe preparou o Dr. Rozendo Moniz no excel lente livro em hcmenagem a seu pai, eis Moniz Barreto que resurge n’cste dia, do qual foi elle um cantor, depois de ter sido um combatente... B o veterano, assombrado d3 talento, cx^- siado nos festins da patria, tangia a sua lyra, a cujos cantos as multidões embeveciam-se : Olhai, povo! resumida Aqui vossa gloria está. Povo, deveis vossa vida Aos velhos de Pirajá. Foram elles que na guerra Livraram a vossa terra Do jugo ferrenho e vil ; Foram elles que ajudados, Por Deus, deram denodados Independencia ao Brazil. Estes velhos que frustraram Tremendos planos hostis, Quando os mancebos juraram O que esta legenda diz ; I Í3i:
0 nous DE JULÎIO ; "’îiooi Estes velhos que em batalhas Ganharatn estas medalhas Que dizern — Restauração — ; Estes velhos, coino dantes, Hoje marcham triumphantcs A’ frente de um povo — irmão. •J1 ii A esse solemne cortejo, a essas pompas an tigas, accrescentou-se posteriormente o carro do Caboclo ; e ao batalhão Acadêmico, que cedia o logar de honra ao dos Veteranos da Independencia e Couraças Bahianos, logo que estes se apresentaram, muitasoutras phalanges patrióticas, taes como os batalhões dos Defen sores da Liberdade, dos Caixeiros Nacionaes, Minerva, Doisde Julho, etc. A estes associou-se, em data que não referiram-nos, uma companhia de allemães, de paletot branco, lita encarnada a tira-collo, tornando-se saliente pelo riquissimo estandarte, bordado a ouro fino,que desfraldava. Toda a tropa da guarnição ultimava o sé quito, com uniforme de grande gala, retiran do-se a quartéis quando findava a parada. As pessoas abastadas davam jantares ; a fidal guia, em seus palacios, sumptuosos bailes ; e a sociedade da Independencia, organisada após a guerra, libertava miseros captivos — em nome da Liberdade. Concluindo o seu triumphante itinerário, os carros allegoricos ficavam na praça de Palacio, de onde seguiam, depois dos festejos, para a Piedade.
I T í A s 8 horas, a cidade era toda luzes, e o Ter reiro regorgitava de gente. A frente da igreja de S. Domingos, o palan que principal elevava-se magnificente, no meio de listras de luzes que sulcavam interrompidas a extensão das casas, e dos quadros e triângulos ardentes das torres, das portas e das janellas dos templos disseminados. Quando a banda militar tocava o hymno na cional, as cortinas rasgavam-se, os retratos do Imperador, da Imperatriz, de Labatut e dos bravos da Independencia desvendavam-se, e o presidente, generaes, veteranos e grandes do Império adiantavam-se e soltavam vivas ao Im perador, á Bahia, ao Dous de Julho, etc. hindo esse acto, outro mais imponente ia ter logar : a distribuição de cartas de liberdade, feita pelo sabio e venerando D. Romualdo, no palanque do Dous de Julho. Aqui dobremos o joelho diante do tumulo de Chico Santos, o libertador de escravos, o presidente emerito da Sociedade Libertadora 1 ous de Julho, o abolicionista de inabalaveis convicçoes, como Luiz Gama e José do Patro cínio. Esta ceremonia terminava em lagrimas, que fundiam as algemas despedaçadas do captiveiro, para que as não vissem os poetas da liberdade. Descendo o arcebispo, o presidente e sua co mitiva, tocava a vez dos repentistas inspirados. L quem eram elles? O povo sabia de cór os seus nomes, e a imprensa levava a todo o Brazil as producções de seu estro.
0 DOUS DE JULHO ■ -ülii. '•'■■) T. . fi Í ' .»=• ^ ’ '■•i-'ÜJilo Í- «flh. '^■ ■'-; 't riiié, *';(.MÍ;0|110 ,.WiW!,o ;■ ^ :» ';jl!(cij ! . \-ôro!Ï rvl,î<- *■ nitOt!«®i'l ' fI Do luminoso grupo que dominava n’aquelles tempos, formando o zodiaco da poesia bahiana, moviam-se, em torno de Moniz Barreto, Gualberto dos Passos, Laurindo, Mendonça, Luiz Alvares dos Santos, Symphronio, Manuel Pes soa, Fortunato Freitas, Bolivar, Rodrigues da Costa e outros improvisadores, que afinavam pelo patriotismo os seus cantos e as suas glosas instantaneas. Um d’elles, chegando-se ao avarandado, ba tia palmas, compassando o auditorio, antes de começar. Distingamol-o. Correctamente vestido, da cor dos califas, de olhar penetrante e gesto distincto , ninguém ha que o desconheça, todos o admiram. E’ o Dr. Luiz Alvares dos Santos. O povo recebe-o com delirio, o silencio res tabelece-se, e elle, desatando a palavra vibran te, declama nos arroubos do inspirado : ... Sim ; as nuvens lá tão calmas, São dos guerreiros as almas, Que entre as lúcidas palmas O Dous de Julho vêm ver. E vendo o dia pomposo, — O seu padrão glorioso — N’um devaneio de gozo Choram de dòr e prazer. Certo : os heroes que morreram Na brava luta, prenderam As almas, que ennobreceram. Aos pés de Deus lá no ceo.
f e i E n’e'sta noite acordados, Dos vivos aos ledos bravos, Banham prantos magoados Lá de longe o seu trophe'o. h mais poesias se recitavam. O povo dava mottes, os poetas improvisavam enthusiasmados, prolongando-se esses outeiros por très noites, até horas adiantadas. Aos espectáculos de grande gala e aos bailes concorriam a aristocracia, alguns repentistas, emquanto a turba-multa estacionava nas duas praças e via as luminárias. Mas isso era quando este paiz tinha o idéal da patria e combatia pela liberdade.
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