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O Chapéu de Três Bicos

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O Chapéu de Três Bicos

Capítulo 2 · O Chapéu de Três Bicos

Prefácio do autor

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Prefácio do autor

Poucos espanhóis, mesmo contando os menos sábios e lidos, desconhecerão a historieta popular que serve de fundamento a esta obrinha.

Um rude pastor de cabras, que nunca saíra da escondida cortijada onde nasceu, foi o primeiro de quem a ouvimos contar. Era ele um desses rústicos sem letra alguma, mas naturalmente ladinos e brincalhões, que tanto papel fazem em nossa literatura nacional sob o nome de pícaros. Sempre que havia festa na cortijada, por motivo de casamento ou batizado, ou de solene visita dos patrões, cabia a ele armar os jogos de troça e pantomima, fazer as palhaçadas e recitar os romances e relações; e foi precisamente numa dessas ocasiões, faz já quase toda uma vida..., isto é, faz já mais de trinta e cinco anos, que se dignou deslumbrar e enlevar certa noite a nossa inocência (relativa) com o conto em verso de O Corregedor e a Moleira, ou seja, O Moleiro e a Corregedora, que hoje oferecemos ao público sob o nome mais transcendental e filosófico (pois assim o requer a gravidade destes tempos) de O Chapéu de Três Bicos.

Recordamos, a propósito, que, quando o pastor nos deu tão boa diversão, as moças casadoiras ali reunidas ficaram muito coradas, de onde suas mães deduziram que a história era um tanto picante, razão pela qual puseram o pastor de alto a baixo; mas o pobre Repela (assim se chamava o pastor) não mordeu a língua, e respondeu dizendo que não havia por que escandalizar-se daquela maneira, pois nada resultava de sua relação que não soubessem até as freiras e até as meninas de quatro anos...

- E se não, vejamos - perguntou o cabreiro -: que se tira em claro da história de O Corregedor e a Moleira? Que os casados dormem juntos, e que a nenhum marido agrada que outro homem durma com sua mulher! Ora, que novidade!...

- Pois é verdade! - responderam as mães, ouvindo as gargalhadas das filhas.

- A prova de que o tio Repela tem razão - observou então o pai do noivo - é que todos os pequenos e grandes aqui presentes já ficaram sabendo que esta noite, assim que acabar o baile, Juanete e Manolilla estrearão aquela bela cama de casal que a tia Gabriela acaba de mostrar a nossas filhas para que admirem os bordados dos almofadões...

- Há mais! - disse o avô da noiva. - Até no livro da Doutrina e nos próprios Sermões se fala às crianças de todas essas coisas tão naturais, ao pô-las a par da longa esterilidade de Nossa Senhora Sant'Ana, da virtude do casto José, da estratagema de Judite e de muitos outros milagres de que agora não me lembro. Por conseguinte, senhores...

- Nada, nada, tio Repela! - exclamaram valentemente as moças. - Diga outra vez a sua relação, que é muito divertida!

- E até muito decente! - continuou o avô. - Pois nela não se aconselha ninguém a ser mau; nem se ensina a sê-lo; nem fica sem castigo quem o é...

- Vamos! Repita! - disseram por fim, consistorialmente, as mães de família.

O tio Repela voltou então a recitar o romance, e, considerado já seu texto por todos à luz daquela crítica tão ingênua, acharam que não havia porém a lhe opor; o que equivale a dizer que lhe concederam as licenças necessárias.

*

Com o passar dos anos, ouvimos muitas e muito diversas versões daquela mesma aventura de O Moleiro e a Corregedora, sempre da boca de graciosos de aldeia e de cortijo, na ordem do já falecido Repela, e além disso a lemos impressa em diferentes Romances de cego e até no famoso Romancero do inesquecível D. Agustín Durán.

O fundo do assunto resulta idêntico: tragicômico, zombeteiro e terrivelmente epigramático, como todas as lições dramáticas de moral pelas quais se apaixona o nosso povo; mas a forma, o mecanismo acidental, os procedimentos casuais, diferem muito, muitíssimo, do relato de nosso pastor, tanto que este não poderia recitar na cortijada nenhuma dessas versões, nem mesmo as que correm impressas, sem que antes as moças em estado honesto tapassem os ouvidos, ou sem se expor a que suas mães lhe arrancassem os olhos. A tal ponto extremaram e perverteram os grosseiros patanes de outras províncias o caso tradicional que tão saboroso, discreto e limpo resultava na versão do clássico Repela!

Faz, pois, muito tempo que concebemos o propósito de restabelecer a verdade das coisas, devolvendo à peregrina história de que se trata seu caráter primitivo, que nunca duvidamos fosse aquele em que o decoro saía melhor aquinhoado. E como duvidá-lo? Esta classe de relações, ao rolar pelas mãos do vulgo, nunca se desnatura para se tornar mais bela, delicada e decente, mas para se estragar e se encardir ao contato da ordinarice e da chabacanice.

Tal é a história do presente livro... Portanto, metamo-nos já na farinha; quero dizer, demos começo à relação de O Corregedor e a Moleira, não sem esperar de teu são juízo (ó respeitável público!) que, "depois de havê-la lido e feito mais sinais da cruz do que se tivesses visto o demônio" (como disse Estebanillo González ao principiar a sua), "a terás por digna e merecedora de haver saído à luz".

Julho de 1874.

O Chapéu de Três Bicos

Sinopse

Tradução brasileira de O Chapéu de Três Bicos, novela satírica de Pedro Antonio de Alarcón sobre desejo, astúcia, poder local e equívocos numa Andaluzia de antigo regime. Edição consolidada pelo projeto Literunico / Copa.

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