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O Chapéu de Três Bicos

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O Chapéu de Três Bicos

Capítulo 35 · O Chapéu de Três Bicos

Capítulo XXXIII - Pois e tu?

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Capítulo XXXIII - Pois e tu?

O Tio Lucas foi o primeiro que veio à tona naquele mar de lágrimas.

É que começava a lembrar-se outra vez do que vira pelo buraco da fechadura.

— Senhores, vamos às contas!... — disse de repente.

— Não há contas que valham, Tio Lucas... — exclamou a Corregedora. — Sua mulher é uma bendita!

— Bem..., sim...; mas...

— Nada de mas!... Deixe-a falar, e verá como se justifica. Desde que a vi, deu-me o coração que era uma santa, apesar de tudo o que o senhor me havia contado...

— Está bem; que fale!... — disse o Tio Lucas.

— Eu não falo! — respondeu a moleira. — Quem tem de falar és tu!... Porque a verdade é que tu...

E a senhora Frasquita não disse mais, impedida pelo invencível respeito que lhe inspirava a Corregedora.

— Pois e tu? — respondeu o Tio Lucas, perdendo de novo toda a fé.

— Agora não se trata dela... — gritou o Corregedor, voltando também a seus ciúmes. — Trata-se do senhor e desta senhora! Ah, Merceditas!... Quem havia de me dizer que tu?...

— Pois e tu? — replicou a Corregedora, medindo-o com a vista.

E durante alguns momentos os dois casais repetiram cem vezes as mesmas frases:

— E tu?

— Pois e tu?

— Ora, tu!

— Não, tu!

— Mas como pudeste tu?...

Etc., etc., etc.

A coisa teria sido interminável se a Corregedora, revestindo-se de dignidade, não dissesse por fim a D. Eugenio:

— Olha, cala-te tu agora! Nossa questão particular a ventilaremos mais adiante. O que urge neste momento é devolver a paz ao coração do Tio Lucas: coisa muito fácil, a meu ver; pois ali distingo o senhor Juan López e Toñuelo, que estão se coçando para justificar a senhora Frasquita.

— Eu não preciso que os homens me justifiquem! — respondeu ela. — Tenho duas testemunhas de maior crédito, das quais não se dirá que seduzi nem subornei...

— E onde estão? — perguntou o moleiro.

— Estão lá embaixo, à porta...

— Pois mande-as subir, com licença desta senhora.

— As pobres não poderiam subir...

— Ah! São duas mulheres!... Belo testemunho fidedigno!

— Tampouco são duas mulheres. São só duas fêmeas...

— Pior ainda! Serão duas meninas!... Faça-me o favor de dizer seus nomes.

— Uma se chama Piñona e a outra Liviana.

— Nossas duas burras! Frasquita, estás zombando de mim?

— Não: estou falando muito sério. Posso provar-te, com o testemunho das nossas burras, que eu não me achava no moinho quando tu viste nele o senhor Corregedor.

— Por Deus te peço que te expliques!...

— Ouve, Lucas!... E morre de vergonha por teres duvidado da minha honradez. Enquanto tu ias esta noite do povoado para a nossa casa, eu seguia da nossa casa para o povoado, e, por conseguinte, cruzamo-nos no caminho. Mas tu andavas fora dele, ou, melhor dizendo, tinhas parado para acender umas mechas no meio de um semeado...

— É verdade que parei!... Continua.

— Nisso zurrou tua burra...

— Justamente! Ah, que feliz eu sou!... Fala, fala, que cada palavra tua me devolve um ano de vida!

— E àquele zurro respondeu outro no caminho...

— Oh! Sim... sim... Bendita sejas! Parece-me ouvi-lo agora!

— Eram Liviana e Piñona, que se haviam reconhecido e se saudavam como boas amigas, enquanto nós dois nem nos saudamos nem nos reconhecemos...

— Não me digas mais!... Não me digas mais!...

— Tão pouco nos reconhecemos — continuou a senhora Frasquita — que ambos nos assustamos e saímos fugindo em direções contrárias... Pois aí vês que eu não estava no moinho! Se queres saber agora por que encontraste o senhor Corregedor em nossa cama, apalpa essas roupas que levas vestidas, e que ainda estarão úmidas, e elas te dirão melhor que eu. Sua Senhoria caiu no canal do moinho, e Garduña o despiu e o deitou ali! Se queres saber por que abri a porta..., foi porque pensei que eras tu quem se afogava e me chamava aos gritos. E, enfim, se queres saber o da nomeação... Mas nada mais tenho a dizer por ora. Quando estivermos a sós, inteirar-te-ei desse e de outros particulares... que não devo referir diante desta senhora.

— Tudo o que a senhora Frasquita disse é a pura verdade! — gritou o senhor Juan López, desejando cair nas graças de Doña Mercedes, visto que era ela quem imperava no Corregimento.

— Tudo! Tudo! — acrescentou Toñuelo, seguindo a corrente de seu amo.

— Até agora..., tudo! — agregou o Corregedor, muito satisfeito por as explicações da navarra não terem ido mais longe...

— Então és inocente! — exclamava enquanto isso o Tio Lucas, rendendo-se à evidência. — Frasquita minha, Frasquita da minha alma! Perdoa-me a injustiça e deixa-me dar-te um abraço!...

— Isso são outros quinhentos... — respondeu a moleira, esquivando o corpo. — Antes de te abraçar, preciso ouvir tuas explicações...

— Eu as darei por ele e por mim... — disse Doña Mercedes.

— Há uma hora que estou esperando por elas! — proferiu o Corregedor, tentando aprumar-se.

— Mas não as darei — continuou a Corregedora, voltando desdenhosamente as costas ao marido — enquanto estes senhores não tiverem destrocado as vestimentas...; e, mesmo então, só as darei a quem mereça ouvi-las.

— Vamos... Vamos destrocar... — disse o murciano a D. Eugenio, alegrando-se muito de não tê-lo assassinado, mas olhando-o ainda com um ódio verdadeiramente mouresco. — A roupa de Vossa Senhoria me sufoca! Fui muito desgraçado enquanto a tive vestida!...

— Porque não a entendes! — respondeu-lhe o Corregedor. — Eu, ao contrário, estou ansioso por vesti-la, para enforcar a ti e a meio mundo, se as desculpas de minha mulher não me satisfizerem!

A Corregedora, que ouviu estas palavras, tranquilizou a reunião com um suave sorriso, próprio daqueles anjos atarefados cujo ministério é guardar os homens.

O Chapéu de Três Bicos

Sinopse

Tradução brasileira de O Chapéu de Três Bicos, novela satírica de Pedro Antonio de Alarcón sobre desejo, astúcia, poder local e equívocos numa Andaluzia de antigo regime. Edição consolidada pelo projeto Literunico / Copa.

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