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O Chapéu de Três Bicos

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O Chapéu de Três Bicos

Capítulo 14 · O Chapéu de Três Bicos

Capítulo XII - Dízimos e Primícias

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Capítulo XII - Dízimos e Primícias

Reposto o Corregedor em sua cadeira, a Moleira dirigiu um rápido olhar ao esposo e o viu não só tão sossegado como sempre, mas arrebentando de vontade de rir por causa daquela ocorrência; trocou com ele, de longe, um beijo mandado pelo ar, aproveitando o primeiro descuido de Dom Eugenio, e disse enfim a este, com uma voz de sereia que Cleópatra lhe teria invejado:

-- Agora Sua Senhoria vai provar minhas uvas!

Então foi de ver a formosa navarra (e assim eu a pintaria, se tivesse o pincel de Ticiano), plantada diante do embevecido Corregedor, fresca, magnífica, incitante, com suas formas nobres, seu vestido justo, sua elevada estatura, seus braços nus erguidos sobre a cabeça, e com um cacho transparente em cada mão, dizendo-lhe, entre um sorriso irresistível e um olhar suplicante em que tremeluzia o medo:

-- O senhor Bispo ainda não as provou... São as primeiras que se colhem este ano...

Parecia uma gigantesca Pomona, oferecendo frutos a um deus campestre; a um sátiro, por exemplo.

Nisto apareceu, na extremidade do pequeno largo empedrado, o venerável Bispo da diocese, acompanhado do Advogado Acadêmico e de dois Cônegos de idade avançada, e seguido de seu Secretário, de dois familiares e de dois pajens.

Deteve-se por um instante Sua Ilustríssima a contemplar aquele quadro tão cômico e tão belo, até que, por fim, disse, com o acento repousado próprio dos prelados de então:

-- O quinto... pagar dízimos e primícias à Igreja de Deus, ensina-nos a doutrina cristã; mas Vossa Senhoria, senhor Corregedor, não se contenta em administrar o dízimo, e também trata de comer as primícias.

-- O senhor Bispo! -- exclamaram os Moleiros, deixando o Corregedor e correndo a beijar o anel do Prelado.

-- Deus pague a Sua Ilustríssima por vir honrar esta pobre choupana! -- disse o Tio Lucas, beijando primeiro, e com acento de muito sincera veneração.

-- Que senhor Bispo tão formoso eu tenho! -- exclamou a sinhá Frasquita, beijando depois. -- Deus o bendiga e me conserve o senhor por mais anos do que conservou o dele ao meu Lucas!

-- Não sei que falta posso lhe fazer, quando é você quem me dá as bênçãos, em vez de pedi-las! -- respondeu, rindo, o bondoso Pastor.

E, estendendo dois dedos, abençoou a sinhá Frasquita e depois os demais circunstantes.

-- Aqui tem Vossa Ilustríssima as primícias! -- disse o Corregedor, tomando um cacho das mãos da Moleira e apresentando-o cortesmente ao Bispo. -- Eu ainda não havia provado as uvas...

O Corregedor pronunciou essas palavras dirigindo, de passagem, um olhar rápido e cínico à esplêndida formosura da Moleira.

-- Pois não será porque estejam verdes, como as da fábula! -- observou o Acadêmico.

-- As da fábula -- explicou o Bispo -- não estavam verdes, senhor Licenciado; estavam fora do alcance da raposa.

Nem um nem outro talvez quisessem aludir ao Corregedor; mas ambas as frases foram por acaso tão adequadas ao que acabava de suceder ali que Dom Eugenio de Zúñiga ficou lívido de cólera, e disse, beijando o anel do Prelado:

-- Isso é me chamar de raposa, senhor ilustríssimo!

-- Tu dixisti! -- replicou este, com a afável severidade de um santo, como dizem que de fato o era. -- Excusatio non petita, accusatio manifesta. Qualis vir, talis oratio. Mas satis jam dictum, nullus ultra sit sermo. Ou, o que é o mesmo, deixemos os latins e vejamos estas famosas uvas.

E beliscou... uma só vez... o cacho que lhe apresentava o Corregedor.

-- Estão muito boas! -- exclamou, mirando aquela uva contra a luz e estendendo-a em seguida ao seu secretário. -- Pena que me façam mal!

O Secretário também contemplou a uva; fez um gesto de cortesã admiração e entregou-a a um dos familiares.

O familiar repetiu a ação do Bispo e o gesto do Secretário, atrevendo-se até a cheirar a uva, e depois... colocou-a na cesta com escrupuloso cuidado, não sem dizer em voz baixa aos presentes:

-- Sua Ilustríssima está em jejum...

O Tio Lucas, que havia seguido a uva com os olhos, apanhou-a então disfarçadamente e a comeu sem que ninguém o visse.

Depois disso, sentaram-se todos: falou-se da outonada (que continuava muito seca, embora já tivesse passado o cordonazo de São Francisco); discorreu-se um pouco sobre a probabilidade de uma nova guerra entre Napoleão e a Áustria; insistiu-se na crença de que as tropas imperiais nunca invadiriam o território espanhol; queixou-se o Advogado do quão revolta e calamitosa era aquela época, invejando os tempos tranquilos de seus pais (como seus pais teriam invejado os de seus avós); o papagaio deu cinco horas..., e, a um sinal do reverendo Bispo, o menor dos pajens foi até o coche episcopal (que ficara na mesma pequena rambla que o Meirinho) e voltou com uma magnífica torta sovada, de pão de azeite, polvilhada de sal, que mal havia uma hora saíra do forno; colocou-se uma mesinha no meio da companhia; esquartejou-se a torta; deu-se sua parte correspondente, ainda que resistissem muito, ao Tio Lucas e à sinhá Frasquita..., e uma igualdade verdadeiramente democrática reinou durante meia hora debaixo daquelas folhas de parreira que filtravam os últimos resplendores do sol poente...

O Chapéu de Três Bicos

Sinopse

Tradução brasileira de O Chapéu de Três Bicos, novela satírica de Pedro Antonio de Alarcón sobre desejo, astúcia, poder local e equívocos numa Andaluzia de antigo regime. Edição consolidada pelo projeto Literunico / Copa.

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