Leia agora
O Chapéu de Três Bicos

Universo da obra

O Chapéu de Três Bicos

Capítulo 17 · O Chapéu de Três Bicos

Capítulo XV - Despedida em prosa

17 de 38 ≈ 7 min de leitura

Capítulo XV - Despedida em prosa

Seriam nove horas daquela mesma noite quando o Tio Lucas e a senhora Frasquita, terminados todos os serviços do moinho e da casa, jantaram uma travessa de salada de escarola, uma porção de carne guisada com tomates e algumas uvas das que restavam na já conhecida cesta; tudo isso regado com um pouco de vinho e com grandes gargalhadas às custas do Corregedor. Depois disso, os dois esposos se olharam com afeto, muito satisfeitos com Deus e consigo mesmos, e disseram, entre dois bocejos que revelavam toda a paz e tranquilidade de seus corações:

-- Pois bem, vamos nos deitar, que amanhã será outro dia.

Naquele momento soaram duas pancadas fortes e imperiosas na porta grande do moinho.

Marido e mulher se olharam sobressaltados.

Era a primeira vez que ouviam bater à sua porta em hora semelhante.

-- Vou ver... -- disse a intrépida navarra, encaminhando-se para a pracinha.

-- Nada disso! Isso cabe a mim! -- exclamou o Tio Lucas com tal dignidade que a senhora Frasquita lhe cedeu a passagem. -- Já disse que não saia! -- acrescentou depois, com dureza, vendo que a obstinada moleira queria segui-lo.

Ela obedeceu e ficou dentro de casa.

-- Quem é? -- perguntou o Tio Lucas, do meio da pracinha.

-- A Justiça! -- respondeu uma voz do outro lado do portão.

-- Que Justiça?

-- A do povoado. Abra ao senhor alcaide!

O Tio Lucas, entretanto, encostara um olho em certa vigia muito disfarçada que havia no portão e reconhecera, à luz da lua, o rústico meirinho do povoado vizinho.

-- Você quer dizer que eu abra ao beberrão do meirinho! -- replicou o moleiro, retirando a tranca.

-- Dá no mesmo... -- respondeu o de fora -- pois trago uma ordem escrita de Sua Mercê! Muito boa noite, Tio Lucas... -- acrescentou em seguida, entrando, com voz menos oficial, mais baixa e mais grossa, como se já fosse outro homem.

-- Deus te guarde, Toñuelo! -- respondeu o murciano. -- Vejamos que ordem é essa... E bem podia o senhor Juan López escolher hora mais oportuna para se dirigir a homens de bem! Claro que a culpa há de ser tua. Como se eu estivesse vendo: andou se embebedando nas hortas do caminho! Quer um trago?

-- Não, senhor; não há tempo para nada. O senhor tem de me acompanhar imediatamente! Leia a ordem.

-- Como, acompanhar você? -- exclamou o Tio Lucas, entrando no moinho depois de pegar o papel. -- Venha cá, Frasquita! Luz!

A senhora Frasquita soltou uma coisa que tinha na mão e despendurou o candeeiro.

O Tio Lucas olhou rapidamente para o objeto que sua mulher havia soltado e reconheceu sua bocacha, isto é, um enorme bacamarte que levava balas de meia libra.

O moleiro dirigiu então à navarra um olhar cheio de gratidão e ternura, e lhe disse, tomando-lhe o rosto:

-- Quanto você vale!

A senhora Frasquita, pálida e serena como uma estátua de mármore, levantou o candeeiro, segurando-o com dois dedos, sem que o menor tremor lhe agitasse o pulso, e respondeu secamente:

-- Vamos, leia!

A ordem dizia assim:

Para melhor serviço de S. M. o Rei Nosso Senhor (que Deus guarde), previno Lucas Fernández, moleiro, deste termo, que tão logo receba a presente ordem compareça perante minha autoridade, sem escusa nem pretexto algum; advertindo-o de que, por se tratar de assunto reservado, não o porá em conhecimento de ninguém; tudo isso sob as penas correspondentes, em caso de desobediência.

O Alcaide:

JUAN LÓPEZ.

E havia uma cruz em vez de rubrica.

-- Escute aqui. E o que é isto? -- perguntou o Tio Lucas ao meirinho. -- A que vem esta ordem?

-- Não sei... -- respondeu o rústico; homem de uns trinta anos, cujo rosto anguloso e enviesado, próprio de ladrão ou assassino, dava tristíssima ideia de sua sinceridade. -- Creio que se trata de averiguar alguma coisa de bruxaria, ou de moeda falsa... Mas a coisa não é com o senhor... Chamam-no como testemunha ou como perito. Enfim, eu não me inteirei bem do particular... O senhor Juan López lhe explicará com mais pelos e sinais.

-- Pois muito bem! -- exclamou o moleiro. -- Diga a ele que irei amanhã.

-- Nada disso, senhor!... O senhor tem de vir agora mesmo, sem perder um minuto. Tal é a ordem que me deu o senhor alcaide.

Houve um instante de silêncio.

Os olhos da senhora Frasquita lançavam chamas.

O Tio Lucas não tirava os seus do chão, como se procurasse alguma coisa.

-- Você me concederá ao menos -- exclamou enfim, levantando a cabeça -- o tempo necessário para ir à estrebaria e arrear uma burra...

-- Que burra, nem que demônio! -- replicou o meirinho. -- Qualquer um anda meia légua a pé! A noite está belíssima, e há lua...

-- Já vi que saiu... Mas eu estou com os pés muito inchados...

-- Pois então não percamos tempo. Eu o ajudarei a arrear o animal.

-- Olá! Olá! Está com medo que eu escape?

-- Eu não tenho medo de nada, Tio Lucas... -- respondeu Toñuelo com a frieza de um desalmado. -- Eu sou a Justiça.

E, falando assim, descansou armas, com o que deixou ver a espingarda curta que trazia debaixo do capote.

-- Pois veja, Toñuelo... -- disse a moleira. -- Já que vai à estrebaria... exercer seu verdadeiro ofício..., faça o favor de arrear também a outra burra.

-- Para quê? -- perguntou o moleiro.

-- Para mim! Eu vou com vocês.

-- Não pode ser, senhora Frasquita! -- objetou o meirinho. -- Tenho ordem de levar só o seu marido, e de impedir que a senhora o siga. Nisso me vão "o emprego e o pescoço". Assim me advertiu o senhor Juan López. Portanto... vamos, Tio Lucas...

E dirigiu-se para a porta.

-- Coisa mais estranha! -- disse o murciano em meia voz, sem se mover.

-- Muito estranha! -- respondeu a senhora Frasquita.

-- Isto é alguma coisa... que eu já sei... -- continuou murmurando o Tio Lucas, de modo que Toñuelo não pudesse ouvi-lo.

-- Quer que eu vá à cidade -- cochichou a navarra -- e avise o Corregedor do que está acontecendo conosco?...

-- Não! -- respondeu em voz alta o Tio Lucas. -- Isso não!

-- Pois o que quer que eu faça? -- disse a moleira com grande ímpeto.

-- Que olhe para mim... -- respondeu o antigo soldado.

Os dois esposos se olharam em silêncio e ficaram ambos tão satisfeitos da tranquilidade, da resolução e da energia que suas almas comunicaram uma à outra, que acabaram por dar de ombros e rir.

Depois disso, o Tio Lucas acendeu outro candeeiro e dirigiu-se à estrebaria, dizendo de passagem a Toñuelo, com malícia:

-- Vamos, homem! Venha me ajudar... já que é tão amável!

Toñuelo o seguiu, cantarolando uma copla entre dentes.

Poucos minutos depois, o Tio Lucas saía do moinho, montado numa bela jumenta e seguido pelo meirinho.

A despedida dos esposos se reduzira ao seguinte:

-- Feche bem... -- disse o Tio Lucas.

-- Cubra-se, que está fresco... -- disse a senhora Frasquita, fechando com chave, tranca e ferrolho.

E não houve mais adeus, nem mais beijo, nem mais abraço, nem mais olhar.

Para quê?

O Chapéu de Três Bicos

Sinopse

Tradução brasileira de O Chapéu de Três Bicos, novela satírica de Pedro Antonio de Alarcón sobre desejo, astúcia, poder local e equívocos numa Andaluzia de antigo regime. Edição consolidada pelo projeto Literunico / Copa.

O Chapéu de Três Bicos

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

O Chapéu de Três Bicos

Trilha sonora oficial

Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.

Abrir no Spotify
Ir para o carrinho
Mercado de O Chapéu de Três Bicos

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral O Chapéu de Três Bicos Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
0Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 17 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Capítulos de O Chapéu de Três Bicos

Capa de O Chapéu de Três Bicos
Continue a leitura Capítulo XV - Despedida em prosa Capítulo 17 · 17 de 38 · ≈ 7 min
Todos os capítulos 38 disponíveis

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir