Universo da obra
Universo da obra
A Corregedora recebeu o esposo e a rústica comitiva no salão principal do Corregimento.
Estava sozinha, de pé, com os olhos cravados na porta.
Era uma dama principalíssima, bastante jovem ainda, de plácida e severa formosura, mais própria do pincel cristão que do cinzel gentílico, e estava vestida com toda a nobreza e seriedade que consentia o gosto da época. Seu traje, de saia curta e estreita e mangas ocas e altas, era de alepim negro: uma pelerine de renda branca, já um tanto amarelada, velava seus admiráveis ombros, e longuíssimas luvas sem dedos, ou mitenes, de tule negro cobriam a maior parte de seus alabastrinos braços. Abanava-se majestosamente com um enorme leque trazido das ilhas Filipinas, e empunhava com a outra mão um lenço de renda, cujas quatro pontas pendiam simetricamente com uma regularidade só comparável à de sua atitude e de seus menores movimentos.
Aquela bela mulher tinha algo de rainha e muito de abadessa, e por isso infundia veneração e medo em quantos a olhavam. De resto, o apuro de seu traje àquela hora, a gravidade de seu porte e as muitas luzes que iluminavam o salão demonstravam que a Corregedora se esmerara em dar àquela cena uma solenidade teatral e um tom cerimonioso que contrastassem com o caráter vilão e grosseiro da aventura de seu marido.
Advertiremos, finalmente, que aquela senhora se chamava dona Mercedes Carrillo de Albornoz y Espinosa de los Monteros, e que era filha, neta, bisneta, tataraneta e até vigésima neta da Cidade, como descendente de seus ilustres conquistadores. Sua família, por razões de vaidade mundana, a induzira a casar-se com o velho e abastado Corregedor, e ela, que de outro modo teria sido freira, pois sua vocação natural a ia levando ao claustro, consentiu naquele doloroso sacrifício.
Àquela altura, já tinha dois rebentos do altivo madrilenho, e ainda se cochichava que havia outra vez mouros na costa...
Portanto, voltemos ao nosso conto.
* * *
Tradução brasileira de O Chapéu de Três Bicos, novela satírica de Pedro Antonio de Alarcón sobre desejo, astúcia, poder local e equívocos numa Andaluzia de antigo regime. Edição consolidada pelo projeto Literunico / Copa.
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