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O Chapéu de Três Bicos

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O Chapéu de Três Bicos

Capítulo 33 · O Chapéu de Três Bicos

Capítulo XXXI - A pena de talião

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Capítulo XXXI - A pena de talião

— Mercedes! — exclamou o Corregedor, ao aparecer diante da esposa. — Preciso saber imediatamente...

— Ora, Tio Lucas! O senhor por aqui? — disse a Corregedora, interrompendo-o. — Aconteceu alguma desgraça no moinho?

— Senhora! Não estou para brincadeiras! — replicou o Corregedor, feito uma fera. — Antes de entrar em explicações da minha parte, preciso saber o que foi feito da minha honra...

— Isso não é conta minha! Por acaso o senhor a deixou comigo em depósito?

— Sim, senhora... Com a senhora! — replicou D. Eugenio. — As mulheres são depositárias da honra dos maridos!

— Pois então, meu caro Tio Lucas, pergunte à sua mulher... Ela, justamente, está nos ouvindo.

A senhora Frasquita, que ficara à porta do salão, soltou uma espécie de rugido.

— Entre, senhora, e sente-se... — acrescentou a Corregedora, dirigindo-se à moleira com soberana dignidade.

E, por sua vez, encaminhou-se para o sofá.

A generosa navarra soube compreender, desde logo, toda a grandeza da atitude daquela esposa ultrajada... e talvez ultrajada em dobro... Assim, alçando-se no mesmo instante à mesma altura, dominou seus ímpetos naturais e guardou um silêncio decoroso. Isso sem contar que a senhora Frasquita, segura de sua inocência e de sua força, não tinha pressa em se defender. Tinha, sim, de acusar; e muita... mas não certamente a Corregedora. Com quem ela desejava ajustar contas era com o Tio Lucas... e o Tio Lucas não estava ali!

— Senhora Frasquita... — repetiu a nobre dama, vendo que a moleira não se movera do lugar. — Eu lhe disse que pode entrar e sentar-se.

Esta segunda indicação foi feita com voz mais afetuosa e sentida que a primeira... Dir-se-ia que a Corregedora também adivinhara por instinto, ao fixar-se no porte sereno e na formosura varonil daquela mulher, que não iria haver-se com um ser baixo e desprezível, mas talvez, antes, com outra infeliz como ela; infeliz, sim, pelo simples fato de ter conhecido o Corregedor!

Trocaram, pois, olhares de paz e indulgência aquelas duas mulheres que se julgavam duplamente rivais, e notaram, com grande surpresa, que suas almas se apaziguavam uma na outra, como dois irmãos que se reconhecem.

Não de outro modo se avistam e se saúdam ao longe as castas neves das montanhas elevadas.

Saboreando essas doces emoções, a moleira entrou majestosamente no salão e sentou-se na beirada de uma cadeira.

Ao passar pelo moinho, prevendo que na cidade teria de fazer visitas importantes, arrumara-se um pouco e pusera uma mantilha de flanela preta, com grandes borlas, que lhe caía divinamente. Parecia toda uma senhora.

Quanto ao Corregedor, é claro que guardara silêncio durante aquele episódio. O rugido da senhora Frasquita e sua aparição em cena não puderam deixar de sobressaltá-lo. Aquela mulher já lhe causava mais terror que a própria esposa!

— Pois então, vamos, Tio Lucas... — prosseguiu Doña Mercedes, dirigindo-se ao marido. — Aí tem o senhor a senhora Frasquita... Pode formular de novo a sua demanda! Pode perguntar-lhe aquilo de sua honra!

— Mercedes, pelos cravos de Cristo! — gritou o Corregedor. — Olha que tu não sabes do que sou capaz! De novo te conjuro a largar a brincadeira e me dizer tudo o que aconteceu aqui durante a minha ausência! Onde está esse homem?

— Quem? Meu marido?... Meu marido está se levantando, e já não deve tardar a vir.

— Levantando-se! — bramiu D. Eugenio.

— O senhor se espanta? Pois onde queria que estivesse a estas horas um homem de bem, senão em sua casa, em sua cama, dormindo com sua legítima consorte, como manda Deus?

— Merceditas! Olha o que dizes! Repara que estão nos ouvindo! Repara que sou o Corregedor!...

— A mim não levante a voz, Tio Lucas, ou mando os meirinhos levá-lo para a cadeia! — replicou a Corregedora, pondo-se de pé.

— Eu para a cadeia! Eu! O Corregedor da cidade!

— O Corregedor da cidade, o representante da Justiça, o delegado do Rei — respondeu a grande senhora, com uma severidade e uma energia que abafaram a voz do falso moleiro —, chegou a sua casa na hora devida, para descansar das nobres tarefas do seu ofício, a fim de continuar amanhã amparando a honra e a vida dos cidadãos, a santidade do lar e o recato das mulheres, impedindo desse modo que alguém possa entrar, disfarçado de Corregedor ou de qualquer outra coisa, na alcova da mulher alheia; que alguém possa surpreender a virtude em seu descuidado repouso; que alguém possa abusar de seu casto sono...

— Merceditas! Que é isso que proferes? — sibilou o Corregedor, entre lábios e gengivas. — Se é verdade que isso aconteceu em minha casa, direi que és uma devassa, uma pérfida, uma licenciosa!

— Com quem fala este homem? — irrompeu a Corregedora, desdenhosamente, passeando a vista por todos os circunstantes. — Quem é este louco? Quem é este bêbado?... Nem sequer posso mais crer que seja um honrado moleiro como o Tio Lucas, embora vista sua roupa de vilão! Senhor Juan López, creia-me — continuou, encarando o alcaide de monterilla, que estava aterrado —: meu marido, o Corregedor da cidade, chegou a esta sua casa há duas horas, com seu chapéu de três bicos, sua capa escarlate, seu espadim de cavalheiro e seu bastão de autoridade... Os criados e meirinhos que me escutam levantaram-se e o saudaram ao vê-lo passar pelo portal, pela escada e pela sala de entrada. Fecharam-se em seguida todas as portas, e desde então ninguém penetrou em meu lar até a chegada dos senhores. Isto é certo? Respondam vocês...

— É verdade! É muito verdade! — responderam a ama de leite, os criados e os beleguins; todos os quais, agrupados à porta do salão, presenciavam aquela cena singular.

— Fora daqui todo mundo! — gritou D. Eugenio, espumando de raiva. — Garduña! Garduña! Vem prender estes vis que me estão faltando ao respeito! Todos para a cadeia! Todos para a forca!

Garduña não aparecia em parte alguma.

— Além disso, senhor... — continuou Doña Mercedes, mudando de tom e dignando-se já a olhar para o marido e tratá-lo como tal, temerosa de que as pilhérias chegassem a extremos irremediáveis. — Suponhamos que o senhor é meu esposo... Suponhamos que o senhor é D. Eugenio de Zúñiga y Ponce de León...

— Eu sou!

— Suponhamos, além disso, que me coubesse alguma culpa por ter tomado pelo senhor o homem que penetrou em minha alcova vestido de Corregedor...

— Infames! — gritou o velho, levando a mão à espada e encontrando apenas o lugar dela, isto é, a faixa de moleiro murciano.

A navarra tapou o rosto com um lado da mantilha para ocultar as labaredas de seus ciúmes.

— Suponhamos tudo o que o senhor quiser... — continuou Doña Mercedes, com uma impassibilidade inexplicável. — Mas diga-me agora, meu senhor: teria o senhor direito de se queixar? Poderia acusar-me como promotor? Poderia sentenciar-me como juiz? Vem o senhor acaso do sermão? Vem de se confessar? Vem de ouvir missa? Ou de onde vem o senhor com essa roupa? De onde vem com essa senhora? Onde passou metade da noite?

— Com licença... — exclamou a senhora Frasquita, pondo-se de pé como impelida por uma mola, e atravessando-se arrogantemente entre a Corregedora e o marido.

Este, que ia falar, ficou de boca aberta ao ver que a navarra entrava em fogo.

Mas Doña Mercedes se antecipou e disse:

— Senhora, não se fatigue em me dar explicações... Eu não lhas peço, de modo algum! Ali vem quem pode pedi-las com justo título... Entenda-se com ele!

Ao mesmo tempo, abriu-se a porta de um gabinete, e apareceu nela o Tio Lucas, vestido de Corregedor da cabeça aos pés, com bastão, luvas e espadim, como se se apresentasse nas Salas do Cabido.

O Chapéu de Três Bicos

Sinopse

Tradução brasileira de O Chapéu de Três Bicos, novela satírica de Pedro Antonio de Alarcón sobre desejo, astúcia, poder local e equívocos numa Andaluzia de antigo regime. Edição consolidada pelo projeto Literunico / Copa.

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