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O Chapéu de Três Bicos

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O Chapéu de Três Bicos

Capítulo 37 · O Chapéu de Três Bicos

Capítulo XXXV - Decreto imperial

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Capítulo XXXV - Decreto imperial

Nisto voltaram à sala o Corregedor e o Tio Lucas, cada qual vestido com a própria roupa.

— Agora é a minha vez! — entrou dizendo o insigne D. Eugenio de Zúñiga.

E, depois de dar no chão um par de bastonadas, como para recobrar sua energia (à guisa de Anteu oficial, que não se sentia forte até que sua bengala de cana-da-índia tocasse a terra), disse à Corregedora, com uma ênfase e um descaramento indescritíveis:

— Merceditas..., estou esperando tuas explicações!...

Enquanto isso, a moleira levantara-se e dava ao Tio Lucas um beliscão de paz, que o fez ver estrelas, olhando-o ao mesmo tempo com olhos desenfurecidos e feiticeiros.

O Corregedor, que observara aquela pantomima, ficou feito uma estátua, sem atinar como explicar uma reconciliação tão imotivada.

Dirigiu-se, pois, de novo à mulher e lhe disse, feito vinagre:

— Senhora! Todos se entendem menos nós! Tire-me das dúvidas... Eu lhe ordeno como marido e como Corregedor!

E deu outra bastonada no chão.

— Então a senhora se vai? — exclamou Doña Mercedes, aproximando-se da senhora Frasquita e sem fazer caso de D. Eugenio. — Pois vá descansada, que este escândalo não terá consequência alguma. Rosa! Alumia estes senhores, que dizem que vão embora... Vá com Deus, Tio Lucas.

— Oh... não! — gritou o de Zúñiga, interpondo-se. — O que é o Tio Lucas, este não vai embora! O Tio Lucas fica preso até que eu saiba toda a verdade! Olá, meirinhos! Em favor do Rei!...

Nem um só ministro obedeceu a D. Eugenio. Todos olhavam para a Corregedora.

— Vamos, homem! Deixa o caminho livre! — acrescentou ela, passando quase por cima do marido e despedindo-se de todo mundo com a maior finura; isto é, com a cabeça inclinada, segurando a saia com a ponta dos dedos e curvando-se graciosamente, até completar a reverência que então estava na moda e que se chamava la pompa.

— Mas eu... Mas tu... Mas nós... Mas aqueles... — continuava a mascujar o velhote, puxando a mulher pelo vestido e perturbando suas cortesias melhor iniciadas.

Inútil empenho! Ninguém fazia caso de Sua Senhoria!

Depois que todos se foram, e já a sós no salão os desavindos cônjuges, a Corregedora dignou-se enfim dizer ao esposo, com o acento que teria empregado uma czarina de todas as Rússias para fulminar sobre um ministro caído a ordem de perpétuo desterro à Sibéria:

— Mil anos que vivas, ignorarás o que aconteceu esta noite em minha alcova... Se tivesses estado nela, como era regular, não terias necessidade de perguntá-lo a ninguém. Quanto a mim, não há mais, nem jamais haverá, razão alguma que me obrigue a dar-te satisfações; pois te desprezo de tal modo que, se não fosses o pai de meus filhos, eu te arremessaria agora mesmo por essa sacada, como te arremesso para sempre do meu dormitório. Portanto, boa noite, cavalheiro.

Pronunciadas estas palavras, que D. Eugenio ouviu sem pestanejar (pois, sozinho, ele não se atrevia com a mulher), a Corregedora penetrou no gabinete, e do gabinete passou à alcova, fechando as portas atrás de si; e o pobre homem ficou plantado no meio da sala, murmurando entre gengivas (que não entre dentes) e com um cinismo de que não terá havido outro exemplo:

— Pois, senhor, eu não esperava escapar tão bem!... Garduña me arranjará outra!

O Chapéu de Três Bicos

Sinopse

Tradução brasileira de O Chapéu de Três Bicos, novela satírica de Pedro Antonio de Alarcón sobre desejo, astúcia, poder local e equívocos numa Andaluzia de antigo regime. Edição consolidada pelo projeto Literunico / Copa.

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