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Don Segundo Sombra

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Don Segundo Sombra

Capítulo 4 · Don Segundo Sombra

III

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III

Diante de casa, a caminho da pensão onde ia comer, Don Segundo separou-se de mim, dando-me a mão. Adivinhei que aquilo se devia ao meu aviso de que se cuidasse ao sair de "La Blanqueada", e senti um grande orgulho.

Entrei em casa sem pressa. Como eu havia previsto, minhas tias me passaram uma reprimenda séria, tratando-me de perdido e condenando-me a não comer naquela noite.

Olhei-as como se olham as guascas velhas que já não se vão usar. Tia Mercedes, magra, angulosa, cujo nariz em bico de carancho assomava brutalmente entre os olhos fundos, foi quem me privou da comida. Tia Asunción, barriguda, peituda e voraz em todo prazer, foi a que me insultou com mais vontade. Eu as encomendei a quem competia e me tranquei em meu quarto para pensar em minha vida futura e nos episódios daquela tarde. Parecia-me que minha existência estava ligada à de Don Segundo e, embora eu dissesse a mim mesmo os mil e mil inconvenientes para segui-lo, tinha a esperança escondida de que tudo se arranjaria. Como?

Primeiro pensei que a Don Segundo acontecia outro percalço e que eu, pela segunda vez, o advertia do perigo. Isso sucedia em três ou quatro ocasiões distintas, até que o homem me aceitava como amuleto. Depois era porque descobríamos algum parentesco, e ele se fazia meu protetor. Por último, porque tomava afeição por mim, permitindo-me viver a seu lado, meio como peãozinho, meio como filho do desamparo. Por ora, encontrei uma solução imediata. Don Segundo ia à propriedade de Galván? Pois bem, eu iria antes. Chegado a essa altura de minhas meditações, não pensei mais, porque a solução me satisfazia e porque pensar até o cansaço não para em nada prático.

- Vou embora, vou embora - dizia quase em voz alta.

Sentado no leito, às escuras para que me julgassem dormido, esperei o momento propício à fuga. Pela casa sonolenta arrastavam-se os últimos ruídos, que me diziam a estupidez dos miúdos fatos cotidianos. Eu já não podia suportar aquelas coisas, e uma irrupção de raiva me fez olhar, em torno de mim, as paredes desmanteladas de meu quartinho, como se deve olhar sem piedade o inimigo vencido. Oh, certamente não sentiria falta de nada do que deixava, pois as rédeas e o buçalzinho que eu adivinhava enrolados no prego que os sustentava contra a madeira da porta viriam comigo! Os muros que haviam visto impassíveis minhas primeiras lágrimas, meus aborrecimentos e meus protestos ficariam bem sós.

Às apalpadelas, extraí de debaixo do leito um par de botinhas gastas. Junto a elas coloquei rédeas e buçal. Por cima joguei o querido poncho, presente de Don Fabio, e umas poucas mudas de roupa. O fato de ter posto mãos à obra aumentou minha coragem, e esgueirei-me cuidadosamente até o fundo do curralão, deixando a porta entreaberta. A imensidão da noite me infligiu medo, como se se houvesse apoderado de meu segredo. Cautelosamente, caminhei para o sótão. Sargento, o cão, fez-me algumas festas. Subi por uma escada de mão ao vasto aposento, onde os ratos corriam entre alguns sacos de milho e trastes de descarte.

Era difícil encontrar as pilchas espalhadas do meu arreiozinho, mas por sorte eu tinha nos bolsos uma caixa de fósforos. À luz insegura da pequena chama pude juntar xergões, carona, bastos, pelego, sobreposto e pegual. Ajustado tudo com a cincha, joguei o volume ao ombro, voltando ao meu quarto, onde acrescentei meus novos haveres ao poncho, às botas e às rédeas. E como não tinha mais nada para levar, tombeei-me entre aquelas coisas de minha propriedade, deixando vazia a cama, com o que rompia, a meu entender, todo laço alheio.

Ainda de noite despertei, o flanco direito dolorido de ter-se apoiado sobre o freio, o traseiro esfriado pelos tijolos, a nuca um tanto torcida por sua incômoda posição. Que horas podiam ser? Em todo caso, parecia prudente estar preparado para prever qualquer eventualidade.

Como um turco, joguei às costas arreio e roupa. Meio dormindo, cheguei ao curralão, enfreei meu petiço, encilhei-o e, abrindo a grande porta do fundo, ganhei a rua.

Experimentava uma satisfação desconhecida, a satisfação de estar livre.

O povoado ainda dormia a sono solto, e dirigi meu petiço ao passo, singularmente sonoro, para a cocheira de Torres, onde pediria que me entregassem o outro petiço, que ali Festal filho mandava guardar.

Um galo cantou. Alvorecia imperceptivelmente.

Como a cocheira começava a despertar cedo, a fim de preparar-se para o trem da madrugada, encontrei o portão aberto e Remigio, um rapagão dos meus amigos, entre a cavalhada.

- Que vento te traz? - foi sua primeira pergunta.

- Bom dia, irmão. Venho buscar meu parelheiro.

Longo tempo tive de discutir com aquele paspalho para provar-lhe que eu era dono de dispor do que era meu. Por fim, ele encolheu os ombros:

- Aí está o petiço. Faça o que lhe parecer.

Sem deixá-lo repetir, pus o buçal no animal, por certo mais bem-cuidado que o que havia ficado em minhas mãos, e, despedindo-me de Remigio, com cavalo de tiro e roupa no poncho, como verdadeiro paisano, saí do povoado em direção aos campos, cruzando a ponte velha.

Para ir à propriedade de Galván, tinha de tomar a mesma direção que levava à de Don Fabio. A certa altura, um beco arrancava para o norte, e por ele eu devia seguir até o arvoredo que de longe já conhecia.

Apressado por afastar-me do povoado, pus-me a galopar. O petiço que levava de tiro cabresteava perfeitamente.

Quando havia feito umas duas léguas, dei um respiro às minhas bestas, enquanto o sol saía sobre minha existência nova.

Sentia-me em poder de uma alegria indescritível. Uma luz fresca chorrava de ouro o campo. Meus petiços pareciam esmaltados de cor nova. Ao redor, os pastizais renasciam em silêncio, faiscantes de orvalho; e ri de imenso contentamento, ri de liberdade, enquanto meus olhos se enchiam de cristais, como se também eles se renovassem no sereno matinal.

Faltava-me uma légua para chegar às casas, e a fiz ao passo, ouvindo os primeiros cantos do dia, empapando-me de otimismo naquela madrugada, que me parecia criar a pampa vencendo a noite.

Receoso diante das casas, endireitei para o galpão. Não parecia haver ninguém. Os cães que rosnavam, aproximando-se dos jarretes do meu petiço, não eram um convite amável a pôr o pé em terra. Por fim assomou um velho à porta da cozinha, gritou "fora!" à cachorrada, dizendo-me que passasse adiante, e indicou um dos tantos bancos do aposento para que eu me sentasse.

Toda a manhã fiquei naquele canto, espiando os movimentos do velho, como se deles dependesse meu futuro. Não dissemos uma palavra.

Ao meio-dia começaram a chegar alguns peões, e soou uma campainha chamando para a comida. A gente saudava ao entrar, e alguns me olhavam de soslaio.

Junto com quatro ou cinco homens, entrou Goyo López, que eu conhecia do povoado.

- Anda passeando? - perguntou-me.

- Venho procurar trabalho.

- Trabalho? - repetiu, cravando em mim a vista. Por um momento tremi, pensando que ele fosse dizer alguma coisa de minha família no povoado; mas Goyo era homem discreto. Os peões me observavam. Um rapagão disse, comentando minha resposta:

- Virá se contratar para carregar sacos.

Goyo voltou-se para ele:

- Sim, atiça agora que ele está meio assustado, porque quando tomar confiança talvez carregue você. Você não sabe que peixe é este.

Por um momento fui o ponto de mira de quarenta olhos. Nem sequer pisquei, esperando que passasse aquela atenção.

No entanto, as palavras de Goyo haviam feito seu efeito. Ser esperto, ainda que passando os limites da boa conduta, é um mérito que o paisano aprecia.

Goyo chamou-me da porta, dizendo que desenfreasse meu petiço, que ele me ensinaria onde ficava o bebedouro para que lhe desse um pouco de água. Isso não passava de uma manobra para falar-me a sós. Assim que nos encontramos fora, disse-me:

- Você fugiu do povoado.

- Não diga nada, irmãozinho, veja que me compromete.

- Comprometo? Que figura!... E vai trabalhar?

- E por que não?

- Bueno... dê água ao petiço... Olha, ali vem o capataz.

Esperamos que um inglês acrioulado chegasse até nós e, depois do cumprimento, fiz meu pedido.

- Não tenho trabalho para dar - disse, descendo do cavalo.

- Então me dá licença para comer? Logo em seguida vou embora.

- Para onde você vai?

- Para lá - respondi, estendendo a mão ao acaso.

O inglês me olhou com um sorriso bonachão.

- Você é bem mandado?

- Sim, senhor.

- O senhor o conhece, Goyo?

- Algo, Don Jeremías.

- Muito bem. Depois da sesta, dê-lhe o petiço Sapo. Que ate o carrinho de vara e vá tirando essa palha dos cochos e a jogue nos valões da porteira branca.

- Sim, senhor.

Para ganhar do "maior" o lado das casas, aproximei-me de seu cavalo, tirei-lhe o arreio, virando os xergões para que arejassem, e perguntei a Goyo onde devia soltá-lo.

- Naquele potrerinho onde está a cevada.

O inglês me olhou sorrindo enquanto eu me dirigia ao bebedouro levando seu cavalo.

- Com buçal ou sem buçal? - perguntei a Goyo.

- Sem buçal.

Não posso dizer minha alegria quando, à mesa já flanqueada por vinte homens, tomei lugar entre Goyo e um gringuinho velho que cuidava da horta.

- Cozinheiro - disse Goyo -, passe um prato e uma colher ao mensal novo.

- Mensal novo? - riu o rapaz que naquele dia havia feito troça de meu pedido de trabalho. - Será para carregar lixo?

Dei-me conta de que aquelas palavras, que em outro poderiam ter sido maldade, não eram mais que estupidez, e aproveitei a ocasião, não querendo fazer Goyo mentir, ele que prometera bom resultado para quando eu tomasse confiança.

- Para carregar lixo? - repeti. - Cuidado, não vá ser que algum dia amanheça nos valões.

E, como senti que riam, recordei meus dias de popularidade no povoado.

- Má inclinação você tem - continuei, olhando o cabelo crespo e desordenado de meu interlocutor. - Se eu fosse o patrão, mandava cortar essa juba para rechear peitorais.

Uma risada geral acolheu meu discurso. Quando ela terminou, um dos homens mais velhos me repreendeu com altura:

- Muitas leis parece que você tem, mas é bom não querer voar antes de criar bem as asas. Você é muito cachorro para mijar como os cães grandes.

Um olhar me bastara para saber quem me falava, e dessa vez baixei a cabeça, dizendo mansamente, como convém quando se fala com um mais velho:

- Não creia, senhor; também sei respeitar.

- Assim deve ser - concluiu o velho, e depois de uma breve pausa voltou a correr a brincadeira de ponta a ponta da mesa.

Passei toda aquela tarde carregando palha dos cochos para os valões, por um trecho de umas dez quadras. Quando chegava ao galpão, o galponeiro carregava o carro, deixando cravada na carga a forquilha. Nos valões, eu brandia o instrumento, que depois vinha matraqueando de uma maneira ensurdecedora sobre as tábuas do carro vazio.

A comida me encontrou meio dormindo, mas o cansaço que me expunha a alguma troça passou despercebido no silêncio geral.

No quarto de Goyo acomodaram-me um catre. Eu não tinha colchão nem peça alguma para ajeitar-me naquele leito pouco amável; mas, sendo a fadiga o melhor dos colchões, deitei-me envolto em meu poncho sobre a lona nua e áspera, sem me importar com mimos. Por um momento pensei em minha escapada, evoquei a casa de minhas tias, suas figuras, minhas rezas. O sono caiu sobre mim como uma meda de palha sobre um tico-tico.

Don Segundo Sombra

Sinopse

Tradução brasileira de Don Segundo Sombra, romance de formação de Ricardo Güiraldes e clássico da literatura argentina, em torno de Fabio Cáceres, da vida de resero, da pampa e da figura mítica de Don Segundo. Edição consolidada pelo projeto Literunico / Copa.

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