Universo da obra
Universo da obra
Que estância, que missa! Já podíamos olhar para todos os lados sem divisar mais que uma terra baia e magra, como abobalhada pela febre. Lembrei-me de uma noite passada ao lado de minha tia Mercedes, sempre minha tia. Os ossos pareciam querer sobrar-lhe ao couro, e ela estava mais afundada que mula de nora. Mas melhor é que nos sangrem os mutucas e não lembrar dessas coisas.
Havíamos deixado a tropa num potreiro pastoso, antes que nos mandassem para a costa, fazer noite e descansar num posto.
Bendito seja o posto! De longe o vimos alvejar como um ossinho na planície amarela. De um lado tinha um álamo, mais pelado que palha de vassoura; do outro, três paus brancos em forma de palanque. A terra do pátio, desigual e cascosa, mais que assentada por mão de homem parecia endurecida pelo pisoteio da fazenda que, quando o rancho ficava só, vinha lamber o sal do branqueamento.
Don Sixto Gaitán, homem seco como um baixo salitroso e enrugado como tira de rebenque, vinha nos dando, aos pouquinhos, dados sobre a estância. Eram quarenta léguas em forma de quadro. Para o lado da manhã estava o mar, que só a gente baquiana alcançava por entre os cangrejais. Em direção oposta, terra adentro, havia bom campo de pastoreio; mas isso ficava muito afastado do lugar em que nos encontrávamos.
Bendito seja se me importava algo dos detalhes daquela estância, que parecia atirada no esquecimento, sem povoações dignas de cristãos, sem alegria, sem graça de Deus.
Don Sixto falava de sua vida. Ele passava temporadas no rancho solitário. A família estava lá, num posto perto das casas. Tinha um filhinho embruxado que os diabos queriam levar.
Olhei para Don Segundo, para ver que efeito lhe fazia essa última parte das confidências. Don Segundo nem se mexia.
Disse a mim mesmo que o paisano do rancho perdido devia ter o entendimento extraviado e deixei aí as reflexões, porque bastante tinha com olhar o campo e antes teria desejado fazer perguntas acerca do mar e dos cangrejais.
Embora o arreo seja bom e não tenha sovado o corpo do resero mais que o devido, sempre se desmonta com gosto dos apertados cojinilhos para ensaiar passos desacostumados. O palanque, com seus postes brancos, chamou mais minha atenção de perto, enquanto eu desamassava a manotaços o chiripá e afrouxava as juntas.
Don Segundo me disse, rindo:
- São espinhas de um peixe de que você ainda não comeu.
- Faz mais de cinquenta anos - explicou Don Sixto - que a baleia, talvez extraviada, veio morrer nestas costas. O patrão mandou levar a ossaria para as casas, "para adorno", dizia ele. Aqui ficou este palanquezinho.
- Veja que bicho para assar com couro - disse, temeroso de que estivessem me tomando por bobo.
- Estas são três costelas - concluiu Don Sixto, acrescentando para cumprir seu dever de hospitalidade: - Entrem, se gostam; na cozinha há erva e apetrechos para servir... eu vou juntar umas bostas e alguns ossinhos para o fogo.
Meia hora de uma conversa interrompida pelo lacrimejar e pela tosse que me impunha a fumaceira espessa do esterco, ganhei o campo sob pretexto de ver para onde se havia recostado minha tropilha.
Mais vale o campo, por feio que seja, do que estar tossindo à beira do fogo como velha rezadeira.
Minha tropilha se havia afastado caminhando com a cautela de quem revisa campo para comprar, despontando os pastos, olhando às vezes em derredor ou ao longe, como buscando um ponto de referência. O picazo em que eu ia montado relinchou. A égua madrinha ergueu a cabeça, espalhando um tropel de notas de seu cincerro. Todos os cavalos olharam para mim. Por que estávamos assim desconfiados e como buscando abrigo?
Quase entreverado com meus pingos, deixei-me ficar olhando o horizonte. A égua Garúa farejou para o mar, e nos pusemos a seguir aquele rumo, como uma obrigação.
- Campo feio e desamparado! - disse em voz alta.
Íamos por um pajonal descolorido e duro, que os cavalos cheiravam depreciativamente, com algo de alarme. Também eu sentia um presságio de hostilidade.
Cruzávamos umas lagoazinhas secas. Não sei por que pensei em lagoas, dado que nenhuma diferença de nível existia com o resto da pampa.
- Campo bruto! - disse outra vez, como respondendo a um insulto imaginário.
De trás de uns juncais, voou de golpe uma bandada de patos, apertada como tiro de munição. O baio Comadreja plantou os quatro cascos numa sentada brusca e bufou como mula. Ficamos todos quietos, num aumento de receio.
Atrás dos juncais, vimos azulada uma chapa d'água de umas três quadras. Voaram bandurrias, teros-reais e chajás. Pareciam ter medo e ficaram nos vigiando do outro lado do charco. Sabiam algo mais que nós. O quê?
Garúa trotou dando uma volta, seguida por Comadreja, e baixou para a água. Nós ficamos à beira do pajonal.
O barro negro que rodeava a água parecia picado de varíola. Milhares de furinhos se apertavam em manada uns contra os outros. Uns poucos caranguejos passeavam de perfil, como fugindo de um perigo. Pareceu-me que o chão devia sofrer como animal bichado.
- Ahã - disse -, um cangrejal - e me perguntei por que me dera naquele dia por falar em voz alta.
Como se minha palavra houvesse sido voz de mando, voou de um só voo a bicharada. Garúa e Comadreja, castigadas por súbito terror, correram para nós. Duvidava dos meus olhos. Garúa havia perdido suas quatro patas e avançava apenas arrastando-se sobre o ventre. E o barro se abria como um sulco de água. "Morreu a égua", disse a mim mesmo. Mas Garúa, atirada sobre o costilhar, remava com as quatro patas, avançando como se nadasse, com tanta rapidez que não dava tempo à terra, desmoronada em sinuosa ferida, de se juntar atrás dela. Aquilo fez um ruído surdo e lúgubre até que a égua pisou firme. "Linda madrinhazinha baquiana", murmurei com emoção e recordei que me fora vendida por um paisano do Rincón de López. Sim, mas e meu baio?
Comadreja se havia detido diante da queda de Garúa. Duas vezes tentou jogar-se ao cangrejal para vencê-lo no bruto, mas teve de voltar atrás, depois de quase se perder totalmente, salvando-se a pura energia, com gemidos de esforço.
Sem perder tempo, toquei minha tropilha em sua direção, recordando o caminho seguido havia pouco pela égua. Encomendei-me a Deus para que não me deixasse desviar nem um metro da direção que recordava. Numa atropelada alcancei com ânsia o lugar em que estava Comadreja, que se entreverou com seus companheiros, e ao grito de "Volte!", saí, égua na ponta, para o lado do campo firme.
Passado o aperto, seguimos como rapazes castigados, arqueando o lombo e com as cabeças muito baixas.
Chegando ao rancho, eu pensava: casa é casa, em qualquer parte que esteja e por pobre que seja.
O rancho, antes tão miserável, pareceu-me, ao voltar da paisagem, um palácio. E senti bem seu abrigo de lar humano, tão seguro quando se pensa no lá fora.
Embora ainda fosse cedo, meu padrinho e Don Sixto preparavam a comida no pátio. Perguntaram-me por meu passeio.
- Lindo, apenas. Quase perdi o baio - respondi, e, interrogado, relatei o percalço.
Don Segundo comentou a modo de conselho:
- O homem que sai sozinho deve voltar sozinho.
- E aqui estou - concluí com aprumo.
Entardecia. O céu estendeu umas nuvens sobre o horizonte, como um paisano acomoda suas coloridas xergas para dormir. Senti que a solidão me corria pelo espinhaço, como um fiozinho de água. A noite nos perdeu em sua escuridão.
Disse a mim mesmo que não éramos ninguém.
Como sempre, andávamos de um lado para outro, em afazeres de último momento. Íamos do arreio ao rancho, do rancho ao poço, do poço à lenha. Eu não podia deixar de pensar nos cangrejais. A pampa devia sofrer por aquele lado e... Deus ampare as ossadas! No dia seguinte estão brancas. Que momento sentir o chão afrouxar! Ir-se sumindo pouco a pouco. E o lamaçal que deve apertar os costilhares. Morrer afogado em terra! E saber que a bicharada lhe arrancará a carne aos beliscões... Senti-los chegar ao osso, ao ventre, às partes, convertidas numa almôndega de sangue e imundícies, com milhares de cascas dentro, revolvendo a dor numa vertigem de voracidade... Bendito seja! Que presente o frescor da terra do pátio através das botas de potro!
E olhei para cima. Outro cangrejal, mas de luzes. Atrás de cada um daqueles furinhos devia haver um anjo. Que quantidade de estrelas! Que grandeza! Até a pampa resultava pequena. E tive vontade de rir.
Comemos, sem dizer palavra, em uns pratos de zinco, uma roupa-velha em que o sal do charque ofendia nossa boca. A bolacha era como poste de quebracho e gritava como porco quando lhe metíamos a faca. Para pior, eu não tinha sono. Fiquei tomando mate na cozinha. O pavio do candeeiro, cansado de tanta gordura, queria cair por momentos, e a chama crepitava a seu capricho. Duas vezes o endireitei com o lombo da faca. Por fim o deixei, temendo que me entrasse raiva e eu cedesse à tentação de dar no aparelhinho uma prancha de revés para que fosse alumiar os demônios.
Don Segundo tendia cama lá fora, e Don Sixto já estava no dormitório, para o qual havia levado minhas xergas, crendo assim cumprir com o forasteiro.
Bela cortesia, fazer a gente dormir num aposento fedido e seguramente povoado de bicharada miúda!
Apaguei o candeeiro, despejei a erva no fogo que se consumia e fui deitar-me em meu arreio, na outra ponta do quarto de Don Sixto.
Não achava posição e me removia como churrasco sobre a lenha, sem conseguir dar com o sono. Era como se houvesse pressentido a estranha e lúgubre cena que ia se desenvolver entre as quatro paredes do rancho perdido.
Deve ter passado algum tempo. A lua derramou pela porta uma mancha quadrada, branca como geada matinal. Vislumbrava os detalhes do aposento: as paredes desiguais de barro, o teto de palha, quebrado em partes, o piso de terra cheio de corcovas e buracos, os cantos em que negrejava uma que outra covinha de mineiro.
Minha atenção foi repentinamente chamada para o lugar onde dormia Don Sixto. Eu ouvira algo como uma queixa e um ruído de caronas. Antes que imaginasse sequer o que podia ser aquilo, vi-o confusamente, de pé sobre suas xergas, numa postura de espanto.
Sentando-me de um só golpe, fiz costas na parede, desembainhei meu punhalzinho, que havia, como sempre, deixado pronto entre os bastos postos como cabeceira, e encolhi as pernas de modo conveniente para poder me erguer num impulso.
Olhei. Don Sixto deu com a esquerda um manotaço no ar. Foi como se houvesse agarrado algo. "Não", disse, rouco e ameaçador, "não hão de me levar, seus covardes". Com a larga faca que apertava na direita, atirou ao ar dois golpes como para partir o crânio de um inimigo invisível. Tive a ilusão de que aquilo que tinha aferrado com a mão esquerda lhe assentava um forte puxão. Cambaleou alguns passos. "Não", voltou a gritar, aterrorizado, mas firme em seu propósito de não ceder, "anjinho... não hão de levá-lo".
Com mais sanha, atirou pontadas em diferentes direções; depois golpes de direita, de revés, com uma violência superior a suas forças. Outro puxão o chamou até a metade do quarto. Com mais desespero clamou: "Meu filho... meu filho não há de ser de vocês". Compreendi o terrivelmente angustioso daquela alucinação. O homem defendia seu filho embruxado com a desesperação de quem não sabe se fere. Mas como podia ser aquilo? Contudo, vi pela terceira vez e claramente os puxões e golpes com que o faziam perder o equilíbrio: Don Sixto caía ao chão, voltava a incorporar-se e se esgrimia novamente contra o vazio, repetindo seu estribilho: "Não, não hão de me levar".
A luta inverossímil, da qual eu só via um combatente, recrudesceu em violência. Os safanões aumentavam, as facadas se multiplicavam a torto e a direito, os gritos de desesperada negação se repetiam com maior frequência. As forças de Don Sixto diminuíam enquanto o tom da voz chegava, por sua angústia, a se me tornar intolerável. Eu queria ajudá-lo, mas uma covardia, um aniquilamento desconhecido, opôs-se aos esforços que fiz para me levantar. Não podia sequer fazer o sinal da cruz. O horror me puxava os cabelos para trás das têmporas. Debilitava-me num suor copioso.
Pensei em Don Segundo e não pude chamá-lo. Como não ouvia? O pobre Don Sixto, já exausto, caíra perto de mim, a umas quartas, e lutava com uma tenacidade que duplicava meu desespero.
Por fim a luz da lua foi interceptada. Compreendi que meu padrinho estava ali. Escutei sua voz tranquila: "Nomeie-se a Deus". Vi-o entrar; tomou Don Sixto por um braço, fazendo-o ficar de pé. "Sossegue, bom homem, já não há nada." Também eu pude me mover e me aproximei para sustentar Don Sixto que, embora a luz não bastasse para ver claro, aparecia demacrado como por vários dias de doença. "Sossegue", repetiu meu padrinho. "Acompanhe-me para fora; já não há nada." Como a um ébrio, tiramo-lo para a noite.
Don Segundo o aproximou do arreio em que ele mesmo estivera dormindo. O homem caiu como desjarretado. "Deixe-o estar", disse-me meu padrinho, "e você tire suas xergas e deite-se para dormir".
Com receio entrei no quarto, benzi-me, fui ao canto de minhas pilchas e manoteei, arrastando o que quis vir comigo. Já Don Segundo dormia, com um cojinilho de travesseiro, sobre o piso do pátio. O outro estava atirado como potrinho morto. Dormir? Como se por dentro eu estivesse para dormir! Nunca pensei que se pudesse ter tanto medo junto.
Só ao clarear, quando meu padrinho, incorporando-se, deu-me a garantia de que nem tudo havia morrido, pude fechar as pálpebras.
Pouco depois despertei num sobressalto. O sol já aquecia um pouco o corpo, e um ventinho terno se coava entre a roupa.
Don Segundo havia aproximado sua tropilha e tosava um de seus cavalos.
Não vi nem sinal de Don Sixto. Como o sol sabe varrer o medo, não me restava de minha angústia noturna mais que um peso nos nervos.
Endireitei meus passos para o poço. O chirrido da roldana, o golpe do balde na água, o canto das goteiras enquanto eu recolhia a corda, cujos últimos trechos me esfriaram de água as mãos, cantavam-me familiares palavras de otimismo. Enxaguei bem a cabeça, o pescoço, os braços até o cotovelo. Em seguida senti melhor o vento e o sol. Minha força de sempre corria em grandes impulsos por meus membros.
A manhã era linda, dourada, ágil. O deserto se alegrava de seu descanso fresco. Uns teros passaram, muito alto, gritando sua alegria. Ouviram-se, longe, uns balidos. Uma nuvem de gaivotas, chimangos e caranchos girava como pião de ar sobre alguma ossada, lá para o lado dos cangrejais. Que diabos, a vida não afrouxa nem se aflige porque a um animal ou a um homem a noite trouxe um mau momento!
Como eu já havia preparado o mate, fui convidar Don Segundo.
- Bom dia, padrinho.
- Bom dia.
Don Segundo riu, olhando-me:
- Já voltou a alma ao corpo?
Atrevi-me a perguntar:
- E Don Sixto?
- Foi esta manhã ver o rapaz que está doente. Quem sabe como o encontra.
- Por quê?... Trouxeram-lhe uma má notícia?
- E que notícia mais má você quer que a de ontem à noite?
- Avise, Don!
Tive de ir buscar a chaleira para seguir a ceva. Não conseguira maiores dados sobre o enigma do sucedido. Por que meu padrinho estava tão seguro da gravidade do filho de Don Sixto? Acreditava em bruxarias? Inútil esquentar a cabeça; eu já me dera conta de que Don Segundo não me responderia, naquela manhã pelo menos. Mas que homem esse que eu não acabaria nunca de conhecer! Saberá também magia? Esses contos que contava, contava a sério? E eu, acreditava ou não acreditava? Parece-me que sim, pelo medo que me davam essas coisas e por minha pouca vontade de me meter em averiguações.
Montei o Picazo em pelo e fui buscar meus cavalos. De volta, encilhei e, tocando unidas as tropilhas pela frente, marchamos para o potreiro vizinho, onde no dia seguinte devíamos recolher fazenda alçada. Não pude deixar de me despedir do fatídico ranchinho, que já tomava seu aspecto de osso perdido, e, virando-me sobre o arreio, gritei-lhe:
- Adeus, velho matrero. Queira Deus que o pampeiro te vente com todo o pulgueiro e tuas penas de pangaré e teus diabos e bruxarias!
Tradução brasileira de Don Segundo Sombra, romance de formação de Ricardo Güiraldes e clássico da literatura argentina, em torno de Fabio Cáceres, da vida de resero, da pampa e da figura mítica de Don Segundo. Edição consolidada pelo projeto Literunico / Copa.
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