Leia agora
Don Segundo Sombra

Universo da obra

Don Segundo Sombra

Capítulo 10 · Don Segundo Sombra

IX

10 de 28 ≈ 10 min de leitura

IX

Goyo teve de arrastar-me pelo menos uns três metros, puxando-me pelos pés, para conseguir me despertar:

- Você é dorminhoco mesmo... eu já estava por fazer em você a prova que se faz no tatu para tirá-lo da toca.

- Já vamos?

- Daqui a pouco.

Querendo incorporar-me, fiz um esforço inútil.

- Não consegue se endireitar?

- De gatinhas - respondi, enquanto conseguia tomar posição de gente.

- O que lhe dói? - ria Goyo.

- A pancada - aleguei, para não confessar minha fadiga.

- Onde, aqui?

- Afa! - exclamei, retirando rapidamente o braço que Goyo apertava. Mas aquilo era, na realidade, uma farsa. O que me doía era o ventre, as virilhas, as coxas, as espáduas, as panturrilhas.

- Será que ficou empasmado?

- Assim que eu me mexer, vai passar.

Fazendo um sentido esforço, saí caminhando sem dar mostras de meus sofrimentos. Mal queria clarear o dia nublado.

- Teremos chuva?

- Sim.

- Onde está Don Segundo?

- Na tropilha, encilhando.

Guiado pelos cincerrinhos, caminhei até ver a grande silhueta do paisano, avultada pela noite.

- Bom dia, Don Segundo.

- Bom dia, rapaz. Estava esperando você para conversar.

- Diga, Don.

- Vai voltar a encilhar seu potrinho?

- E por que não?

- Bueno. Eu vou ajudar você para que não ande servindo de diversão para a gente. Aqui ninguém vai nos ver, e você vai fazer o que eu mandar.

- Como não, Don Segundo.

Dos tentos de sua encimeira vi-o tirar o laço. Depois tomou meu buçal, revisou o cabresto, que era forte, e ordenou-me que o seguisse.

Na luz incerta da madrugada chuvosa, dirigiu-se ao meu cebruninho fazendo a armada. O petiço meio dormido não teve tempo de escapar. O laço se apertou no alto do pescoço, e Don Segundo, sem se dar sequer ao trabalho de "jogar às virilhas", conteve sua presa.

- Vá aproximando seu arreio.

Quando voltei, encontrei já meu potrinho sujeito a um poste por três voltas de cabresto e enredado nas rédeas.

Com paciência, Don Segundo foi colocando baixeiras, bastos e cincha. Quando puxou o correão, o potrinho quis debater-se, mas já era tarde. Os cojinilhos completaram rapidamente a encilhada.

Assombrado, eu olhava o domínio daquele homem, que tratava meu petiço como a um cordeiro guacho.

Enquanto apertava o cinchão e desatava o cebruninho do poste, trazendo-o para o meio da praia, Don Segundo me ensinou:

- O homem não deve ser bobo. Da gente gineta que você vê agora, muitos foram chapetões e aprenderam à força de malícia. Assim que subir, charqueie sem asco, que eu não vou andar contando, e não afrouxe até se sentir bem seguro. Entendeu?

- Ahã.

- Bueno.

O cavalo de Don Segundo estava a dois passos, pronto para me apadrinhar. Antes de subir, olhei em torno, pois, apesar dos conselhos do homem que entre todos merecia meu respeito, me teria incomodado que outros me pegassem trapaceando.

Tranquilizado por minha inspeção, subi cautelosamente, não sem que me tremessem um pouco as pernas. Mal estive sentado, a dor das virilhas e das coxas tornou-se quase insuportável; mas era mau momento para ceder, e me acomodei o melhor possível.

- Não o mova, para ver se me dá tempo de subir.

Como se houvesse entendido, o petiço ficou tranquilo até que meu padrinho estivesse ao meu lado.

Don Segundo ergueu o rebenque. O petiço levantou a cabeça e pôs-se a correr sem tentar mais defesa. Ao redor da praia demos uma grande volta. Pouco a pouco fui me envalentonando e cutuquei o petiço, buscando a corcoveada. Dois ou três corcovos longos responderam ao meu convite; resisti-os sem apelar ao recurso indicado.

- Já está manso - disse.

- Não o procure - respondeu simplesmente Don Segundo, a quem minha manobra não escapara. E, colocando-se alternadamente a um e outro lado, levou-me até o lugar em que os demais tropeiros estavam tomando o primeiro mate com uns mates, à beira do caminho.

Receberam-nos com gritos e aplausos.

Inchado de orgulho como um peru, rematei meu trabalho puxoneando o petiço segundo as ordens de meu padrinho:

- Agora para a esquerda... Agora para a direita... Agora firme, até que recue.

E eu me cevava em cada puxão, fazendo tremer a venta de minha vítima, tal como vira os outros fazerem.

- Está bom. Pode desmontar. Agarre-se ao fiador do buçal e abra-se bem para cair longe.

Cheio de confiança, executei-me.

- Moço leve! - exclamou Pedro Barrales.

Só quando quis desencilhar percebi que, por haver me excedido nos puxões, tinha as mãos rasgadas, das quais a esquerda me sangrava abundantemente.

- Você se feriu - disse Horacio, tendo visto meu olhar. Deixe seu redomão, que eu vou lhe baixar os couros.

Não me fiz rogar, porque sentia umas fortes pontadas que me subiam até o cotovelo. Envolvi a ferida com um lenço que Pedro me ajudou a atar.

- As rédeas estão ressecadas - disse a modo de comentário.

- Deixe isso estar - interveio Goyo - e venha tomar uns tragos do chifre, que você os ganhou.

Com explicável alegria, recebi aquela oferta, que me pareceu o mais rico dos prêmios.

Meia hora depois, como se esgotassem os elogios, as palmadas e a erva, voltamos a nossas impassíveis atitudes de tropeiros. Mas eu levava dentro um tesouro de satisfação, que saboreava a grandes goles com o ar jovem da manhã.

Entretanto, os nubarrões amontoados no horizonte haviam recoberto o céu e, quando o arreo em marcha voltava à estreiteza do beco, as primeiras gotas soaram de modo opaco e precipitado.

Como, apesar da hora cedo, sentíssemos calor, foi antes um gozo aquele tamborilar fresco. Alguns começaram a acomodar seus ponchos; eu esperei.

Olhando o céu, deduzimos que aquilo era prelúdio de algo mais sério.

A terra se pusera a despedir perfumes intensamente. O pasto e os cardos esperavam com paixão segura. O campo inteiro escutava.

Logo, um novo crepitar de gotas ergueu ao rés do beco uma sutil poeirada. Parecia que nosso caminho se tivesse iluminado de um tênue resplendor.

Dessa vez acomodei o calamaco, preparando-me para resistir ao aguaceiro.

A chuva se precipitou, interceptando-nos o horizonte, os campos e até as coisas mais próximas. Os tropeiros se distribuíram ao longo da novilhada para fechar mais de perto a marcha.

- Água! - gritou Valerio, misturando-se a peitadas entre os brutos.

De minha parte, entretive-me em sentir sobre meu corpo o martelar fechado das gotas, perguntando-me se o poncho me defenderia delas. Meu chapéu soava oco, e logo de suas bordas começaram a formar-se goteiras. Para que estas não me caíssem no pescoço, requintei sobre a testa a aba, baixando-a atrás a fim de que o fiozinho escorresse pelas costas.

A primeira reação diante da chuva, segundo mais tarde pôde argumentar minha experiência, é rir, embora muitas vezes nada de bom traga consigo a perspectiva de uma molhadura. Rindo, pois, aguentei aquele primeiro ataque. Mas logo tive de deixar de pensar em mim, porque a tropa, desgostosa com aquele aguaceiro que a cegava de frente, queria dar-lhe a anca e se fazia rebelde à marcha.

Como os demais, tive de meter-me entre eles, distribuindo sopapos e rebencaços. A cada grito, a boca se me enchia de água, obrigando-me a cuspir sem descanso. Com os movimentos, dei-me conta de que meu ponchito era curto, o que me proporcionou o primeiro desgosto.

À meia hora, tinha os joelhos empapados e as botas como aljibe.

Comecei a sentir frio, embora ainda lutasse vantajosamente com ele. O lenço que trazia ao pescoço já não fazia de esponja e, tanto pelo peito como pelo espinhaço, senti correrem duas trilhazinhas de frio.

Assim, logo fiquei feito sopa.

O vento que trazíamos de frente recrudesceu, tornando mais duro o castigo; e, apesar de que a seu impulso o ar se tornasse mais limpo, não foi tanto o alívio que não desejássemos um próximo fim.

Acovardado, olhei meus companheiros, pensando encontrar neles um eco de minhas tribulações. Sofreriam? Em seus rostos indiferentes, a água resvalava como sobre o ñandubay dos postes, e eles não pareciam mais feridos que o próprio campo.

O beco, que havia sido uma nota clara em relação aos prados, estava lúgubre. Diante da tropa, a trilha rebrilhava acerada; atrás, tudo ia ficando trilhado por duas mil patas, cujas pisadas soavam no lamaçal como mastigação de ruminante. Os cascos do meu petiço resvalavam, dando maior moleza ao seu passo. Por trechos, a terra dura parecia tão envernizada que refletia o céu como um arroio.

Duas horas passei assim, olhando em torno de mim o campo hostil e brunido.

As roupas, grudadas ao corpo, eram como febre em período álgido sobre meu peito, meu ventre, minhas coxas. Tremia continuamente, sacudido por violentos puxões musculares, e dizia a mim mesmo que, se fosse mulher, choraria desconsoladamente.

De repente, uma abertura se fez no céu. A chuva se desfez num sutil pozinho de água e, como cedendo ao meu angustioso desejo, um raio de sol caiu sobre o campo, correu quebrando-se nos montes, perdendo-se nas baixadas, encarapitando-se nas lombas.

Aquilo foi o primeiro anúncio de melhora que, ao cabo de uma breve dúvida, veio cair em benéfico derramamento solar.

Os postes, os alambrados, os cardos choraram de alegria. O céu se fez imenso, e a luz se decalcou fortemente sobre a planície.

Os novilhos pareciam haver vestido roupas novas, como nossos cavalos, e nós mesmos havíamos perdido as rugas criadas pelo calor e pela fadiga para ostentar uma pele tensa e lustrosa.

O sol logo criou um vapor de evaporação sobre nossas roupas. Tirei o poncho, abri minha blusa e minha camiseta, joguei o chapéu na nuca.

A tropa, farejando o campo, fez-se mais difícil de cuidar. Iniciamos algumas corridas, arriscando a costalada.

Uma vida poderosa vibrava em tudo, e me senti novo, fresco, capaz de suportar todas as penúrias que a sorte me impusesse. Entretanto, a vitalidade sobrante ficou agachada em nossos corpos, pois dela teríamos necessidade para suportar os próximos inconvenientes; e, sem nos espalharmos em bulhas inúteis, voltamos a cair em nosso ritmo contido e voluntarioso:

Caminhar, caminhar, caminhar.

Don Segundo Sombra

Sinopse

Tradução brasileira de Don Segundo Sombra, romance de formação de Ricardo Güiraldes e clássico da literatura argentina, em torno de Fabio Cáceres, da vida de resero, da pampa e da figura mítica de Don Segundo. Edição consolidada pelo projeto Literunico / Copa.

Don Segundo Sombra

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Ir para o carrinho
Mercado de Don Segundo Sombra

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral Don Segundo Sombra Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
0Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 10 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir