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Don Segundo Sombra

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Don Segundo Sombra

Capítulo 13 · Don Segundo Sombra

XII

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XII

Era nossa noite de despedida. Mateando em roda, depois da ceia, havíamos esgotado perguntas e respostas a propósito de nosso caminho do dia seguinte.

Breves palavras caíam como cinzas de pensamentos internos. Estávamos embargados por pequenas preocupações a respeito da tropilha ou dos aperos, e era como se o horizonte, que nos ia preceder na marcha, se fizesse presente pelo silêncio. Recordei meu primeiro arreo.

Perico, a quem repugnava toda inação, acusou-nos de estar acanhados como pintos quando há tormenta.

- Ou vamos dormir - dizia - ou Don Segundo nos faz uma relação dessas que ele sabe: com bruxas, aparecidos e mais embrulhos que negócio de turco.

- Desde quando sei contos? - retrucou Don Segundo.

- Bah! Não se faça de mais bobo do que é. Conte aquele da raposa com o inglês e a viúva estancieira.

- Deve ter ouvido da boca de outro.

- Dessa mesma tromba mentirosa eu ouvi. E, se não quer contar esse, conte-nos o da pardinha Aniceta, que se casou com o Diabo para ver-lhe a cauda.

Don Segundo acomodou-se no banco como para falar. Passou um momento.

- E então? - perguntou Perico.

- Oh! - respondeu Don Segundo.

Pedro levantou-se, o rebenque ao alto, tomado pela tira.

- Negro indigno - disse -, ou conta um conto, ou lhe faço chispar as cerdas de um talaço.

- Antes que me castigue - disse Don Segundo, fingindo susto para seguir a brincadeira -, sou capaz de lhe contar até as varíolas.

Os olhares iam do rosto de Pedro, salpicado de cicatrizes, à expressão impávida de Don Segundo, passando assim de uma expressão jocosa a uma admirativa.

E eu admirava mais que ninguém a habilidade de meu padrinho, que sempre, antes de começar um relato, sabia manobrar de modo que a atenção se concentrasse em sua pessoa.

- Conto não sei nenhum - começou -, mas sei de alguns casos que aconteceram e, se prestarem atenção, vou relatar-lhes a história de um paisanito apaixonado e das diferenças que teve com um filho do Diabo.

- Conte, então! - interrompeu um impaciente.

"Diz o caso que às margens do Paraná, onde há mais remansos que tocas numa vizcachera, trabalhava um paisanito chamado Dolores.

"Não era homem nem grande nem forte, mas era corajoso, o que vale mais."

Don Segundo olhou seu auditório como para assegurar com uma imposição aquele axioma. Os olhares esperaram assentindo.

"Além de corajoso, esse moço era meio afeiçoado às saias, de sorte que, ao cair da tarde, quando deixava seu trabalho, costumava aproximar-se de um lugar do rio onde as moças vinham banhar-se. Isso podia ter-lhe custado uma rebencada, mas ele sabia esconder-se de modo que ninguém desconfiasse de sua picardia.

"Uma tarde, como ia em direção a um sombra-de-touro, que era seu esconderijo, viu chegar uma moça tão linda e fresca que parecia uma madrugada. Sentiu que o coração lhe corcoveava no peito como raposa na armadilha e a deixou passar para segui-la."

- A um pântano caiu um cego pensando subir a um cerro - observou Perico.

- Conheci um pialador que de apressado se enredava na presilha - comentou Don Segundo -, e o moço de meu conto talvez fosse da família.

"Já cego pela vista da prenda, seguiu nosso homem para o rio e, chegando, viu que ela andava nadando pertinho da margem.

"Quando desconfiou que ela ia sair da água, abriu os olhos como coruja, porque não queria perder nem um pedacinho."

- Tinha sido como mosca para charque - gritou Pedro.

- Cale-se, barraco! - disse eu, metendo-lhe um soco nas costelas.

"O mocinho que estava olhando sua prenda, encandeado como os pássaros brancos com o sol, levou de improviso o maior susto de sua vida. Pertinho, como daqui ao fogão, da flor que estava contemplando, havia pousado um flamingo grande como uma ema e vermelho como sangue de touro. Esse flamingo ficou batendo asas diante da moça, que procurava abrigo em suas roupas, e de repente disse umas palavras em guarani.

"Logo em seguida, a paisanita ficou da altura de um cabo de rebenque."

- Cruz, Diabo! - disse um velhinho que estava encolhido contra as brasas, benzendo-se com braços duros de louva-a-deus.

"Isso mesmo disse Dolores e, como não lhe faltavam tripas, desceu dentre os galhos de seu sombra-de-touro, com o facão na mão, para dar um avanço no bruxo. Mas, quando chegou ao lugar, este já havia aberto voo, com a chinita feita novelo de medo entre as patas, e pareceu a Dolores que não via mais que o resplendor de uma nuvem colorida pela tarde, sobre o rio.

"Meio bobo, o pobre rapaz ficou dando voltas como borrego atordoado, até cair no chão e ficar, de comprido a comprido, mais estendido que couro nas estacas.

"Só meia hora depois voltou a si e recordou o que acontecera. Nem dúvidas teve de que tudo era magia, e de que estava embruxado pela china bonita que não podia apartar de sua memória. E, como já se fizera noite e o susto cresce com a escuridão, o mesmo que os arvoredos, Dolores pôs-se a correr em direção às barrancas.

"Sem saber por quê, nem seguindo qual trilha, encontrou-se de repente numa peça iluminada por um candeeiro imundo, diante de uma velhinha enrugada como uva-passa, que o olhava igual se olha um jogo de cordas de presente. Ela se aproximava bem perto, como revistando-lhe as costuras, e o apalpava para ver se estava inteirinho.

"- Onde estou? - gritou Dolores.

"- Em casa de gente boa - respondeu a velha. - Sente-se com confiança e tome fôlego para me contar o que o traz tão extraviado.

"Quando se recompôs um pouco, Dolores disse o que havia sucedido diante do rio e deu uns suspiros como para expulsar do peito um mal.

"A velhinha, que era sábia nessas coisas, consolou-o e disse que, se a atendesse com um pouco de paciência, contaria a ele o conto do flamingo e lhe daria umas prendas virtuosas, para que fosse em seguida salvar a moça, que não era bruxa, mas filha de uma vizinha sua.

"E sem demora já entrou a pegar o relato pelo mais curto.

"Há uma ponchada de anos, dizem que uma mulher, conhecida nos pagos por sua má vida e suas bruxarias, entrou em tratos com o Diabo, e desses tratos nasceu um filho. Veio ao mundo esse bicho sem pele, e contam que era tão feio que as próprias corujas apagavam os olhos de medo de ficarem vesgas. Aos poucos dias de nascido, sua mãe adoeceu e, como viu que ia em direção à morte, disse que queria lhe fazer um pedido.

"- Fale, meu filho - disse-lhe a mãe.

"- Veja, mamãe, eu sou forte e sei como me desenredar na vida, mas a senhora me pariu mais feio que meu próprio pai e nunca poderei crescer por falta de couro em que me esticar, de sorte que nenhuma mulher quererá ter amores comigo. Peço então, já que tão pouco me agraciou, que me dê um feitiço para eu poder consegui-las.

"- Se não é mais que isso - respondeu-lhe a querida do Diabo -, preste bem atenção e não terá de que se queixar:

"Quando desejar alguma mulher, arranque sete cabelos da cabeça, atire-os ao ar e chame seu pai dizendo estas palavras: aqui se segredaram tão baixinho que nem no ar ficaram sinais do dito.

"Pouco a pouco você vai sentir que já não tem aparência de gente, mas de flamingo. Então voe diante da prenda e diga estas outras palavras: aqui voltaram os segredos.

"Logo verá que a moça fica, quando muito, com umas duas quartas de altura. Então a levante para trazê-la a esta ilha, onde passarão sete dias antes que se rompa o encanto.

"Mal concluiu de falar isso, já a morte refreou a bruxa querida de Añang, e o monstro sem pele ficou órfão.

"Quando Dolores ouviu o fim daquele relato, começou a chorar de tal modo que parecia que os olhos iam se lhe derreter.

"Compadecida, a velha disse que sabia de bruxarias e que o ajudaria, dando-lhe umas virtudes para resgatar a prenda que o filho do Diabo lhe havia roubado com tão más leis.

"A velha tomou o chorão pela mão e levou-o a um aposento do fundo da casa. No aposento havia um armário grande como um rancho, e de lá tirou a senhora um arco dos que souberam usar os índios, umas quantas flechas envenenadas e um frasco com uma água branca.

"- E que vou fazer eu, pobre desgraçado, com estes três nadas - disse Dolores - contra as muitas bruxarias que decerto terá Mandinga?

"- Algo se deve esperar da graça de Deus - respondeu-lhe a velhinha. - E deixe-me dizer como há de fazer, porque senão vai ficando tarde:

"Estas coisas que lhe dei, leve-as e, esta mesma noite, vá para o rio, de modo que ninguém o veja. Ali vai encontrar um bote; meta-se nele e reme para o meio da água. Quando sentir que entrou num remanso, levante os remos. O redemoinho fará o senhor dar umas voltas, para soltá-lo numa corrente que tira em direção às ilhas do encanto.

"E já me resta pouco a lhe dizer. Nessa ilha tem que matar um caburé, e para isso lhe dei o arco e as flechas. Ao caburé tire o coração e jogue-o dentro do frasco de água, que é benta, e também arranque do bicho três penas da cauda para fazer um molho que pendurará no pescoço.

"Em seguida saberá mais coisas do que posso lhe dizer, porque o coração do caburé, mesmo sendo tão pequenino, está cheio de bruxarias e ciência.

"Dolores, que não deixava de ver em sua memória a moreninha do banho, não titubeou um momento e, agradecendo à anciã sua bondade, tomou o arco, as flechas e o frasquinho de água, para correr ao Paraná entre a noite escura.

"E já ganhou a margem e viu o barco e saltou nele e remou para o meio, até cair no remanso que o fez rodar como pião três vezes, para começar depois a correr águas abaixo, com uma ligeireza que lhe deu calafrios.

"Já estava por dormir quando o barco costeou do lado do laço e seguiu correndo de lindo. Dolores se endireitou um tanto e viu que entrava na boca de um arroio estreito e, num descuido, ficou como enredado nos juncais da margem.

"O rapaz espiou um momento, para ver se o barco não mudava de parecer; mas, como ali mesmo ficava cravadinho, desconfiou que devia estar em terra de encanto e apeou-se do pingo que tão lindamente o trouxera, não sem fixar bem onde ficava, para poder servir-se dele na volta.

"E já entrou numa arboleda macuca, que não deixava passar nem um raiozinho da noite estrelada.

"Como havia muito mato e raízes de flor-do-ar, começou a se enredar até ficar como pialado. Então tirou a faca para caminhar abrindo uma picada, mas pensou que era à toa procurar seu caburé àquela hora, e que melhor seria descansar aquela noite. Como no chão é perigoso dormir nesses pagos de tigres e jararacas, escolheu a mais forte das raízes que encontrou à mão e subiu para cima, arranhando-se nos galhos, até achar como que uma rede de folhas.

"Ali acomodou seu arco, suas flechas e seu frasco, dispondo-se ao sono.

"No dia seguinte, despertou-o a gritaria dos papagaios e a bulha dos pica-paus.

"Esfregando os olhos, viu que o sol já estava apontando e, para o mesmo lado, divisou um palácio grande como um cerro e tão reluzente que parecia feito de prataria velha.

"Ao redor do palácio havia um parque, cheio de árvores com frutas tão grandonas e luzentes que ele podia vê-las clarinho.

"Quando concluiu que tudo era verdade, o paisanito recolheu seus pertences e largou-se pelos galhos.

"Abrindo caminho a facadas e a puxões para desbravar uma trilha, chegou por fim ao fim da selva, que era onde principiava o jardim.

"No jardim achou uns pêssegos como melancias e arrancou um para comê-lo. Assim saciou a fome e enganou a sede e, havendo cobrado novas forças, começou a procurar seu caburé, embora sem muita esperança, porque esse não é pássaro que alguém tenha visto com o sol alto.

"Pobrezinho Dolores, que não esperava as penas que devia sofrer para alcançar sua sorte. Assim é o destino do homem. Ninguém começaria o caminho se lhe mostrassem o que o espera.

"Nas manhãs claras, quando ele muda de pago, olha um ponto diante de si e é como se visse o fim de seu andar; mas que há de ser, se ao alcançá-lo o campo segue adiante sem mudanças! E assim vai o homem, perseguindo o que alcança com a vista, sem pensar no desamparo que o espreita atrás de cada lombada. Tranco por tranco, ampara-o uma esperança, que é a quarta que o ajuda nos repechos para ir caminhando rumo à sua ossada. Mas para que falar de coisas que não têm remédio?

"O paisanito de meu conto acreditava conseguir sua sorte apenas esticando a mão, e graças a isso venceu seis dias de penas e tormento. Muitas vezes pensou em voltar, mas recordava sua morena do rio, e o amor o puxava para trás como laço.

"Só no sexto dia, à hora da oração, viu que ao redor de uma laranjeira revoluteavam uma porção de passarinhos e disse para seus adentros:

"- Lá deve se achar o que você procura.

"Gatinhando como jaguar, chegou ao lugar e vislumbrou o bicho parado num tronco. Já havia matado dois ou três passarinhos, mas seguia de puro vício partindo a cabeça dos que se lhe punham a tiro.

"Dolores pensou no anão malparido, rodeado das mulherzinhas embruxadas.

"- Filho de Añang - disse entre dentes -, vou fazer você sossegar!

"Apontou bem, esticou o arco e soltou a flechada.

"O caburé caiu para trás, como gringo derrubado por um corcovo, e os passarinhos levantaram voo como se houvessem rompido um fio. Sem perder de vista o lugar onde o bicho caíra, Dolores correu a buscá-lo entre o pasto, mas não achou mais que umas gotas de sangue.

"Já ia se acovardar quando, a uns dois tiros de laço, voltou a ver uma roda de passarinhos e, no meio, outro caburé. De medo e de raiva, atirou apressado, e a flecha saiu para cima.

"Três vezes errou do mesmo modo e não lhe restava mais que uma flecha para ganhar a partida ou deixar sem prêmio todas as penas passadas. Então, compreendendo que havia bruxaria, tirou um pouquinho de água de seu frasco, borrifou sua última flecha e atirou dizendo:

"- Nomeie-se a Deus.

"Desta vez, o pássaro ficou cravado no mesmo tronco, e Dolores pôde arrancar-lhe três penas da cauda, para fazer um molho e pendurá-lo no pescoço. E também lhe tirou o coração, que jogou quentinho no frasco de água benta.

"Em seguida, como lhe dissera a velha, viu tudo o que devia fazer e já tomou por uma rua de flores, sabendo que iria sair no palácio.

"A umas duas quadras antes de chegar, agarrou-o a noite, e ele se deitou para dormir sob o mais cerrado de um monte de laranjeiras.

"No outro dia, comeu das frutas que tinha à mão e, como começava a clarear, caminhou até pertinho de uma fonte que havia diante do palácio.

"- Daqui a pouco - disse - virá o flamingo para livrar-se do encanto, que dura sete dias, e eu farei o que devo fazer.

"Mal concluiu essas palavras quando ouviu o ruído de um voo e viu cair à beira da fonte o flamingo, grande como uma ema e vermelho como sangue de touro.

"A custo aguentou a vontade que tinha de atirar-se sobre ele ali mesmo e agachou-se mais baixo em seu esconderijo.

"Enquanto isso, o passarão, parado numa pata à beirinha mesma da água, olhava para o lado por onde ia sair o sol e ficou como adormecido. Mas Dolores, que não largava seu frasquinho, sabia o que aconteceria.

"Nisso assomou o sol e o flamingo teve um desmaio, que o tombou de barriga para cima na água, de onde logo quis sair na forma de um anão.

"Dolores, que não esperava outra coisa, levou a mão à cintura, tirou a faca, esparramou de um empurrão o monstro, pisou-lhe o pescoço como a um terneiro e, por fim, fez com ele o que devia fazer, para que aquele bicho indigno não andasse mais cobiçando mulheres.

"O anão saiu gritando para a selva, com as virilhas sangrando, e quando Dolores foi olhar o palácio já não ficava senão uma fumaceira e um tropel de mulherzinhas do tamanho de um filhote de ema de quinze dias que vinha correndo em sua direção.

"Dolores, que logo reconheceu sua moreninha do Paraná, arrancou o molho de penas que trazia pendurado no pescoço, borrifou-as de água benta e desenhou em sua prenda uma cruz na testa.

"A paisanita começou a crescer e, quando chegou à altura que Deus lhe havia dado antes, lançou os braços ao pescoço de Dolores e lhe perguntou:

"- Como você se chama, meu noivo?

"- Dolores. E você?

"- Consuelo.

"Quando voltaram do abraço, lembraram-se das tristes companheiras, e o paisanito as desembruxou do mesmo modo que a sua noiva.

"Depois as levaram até onde estava o bote e, de quatro em quatro, foram cruzando o rio até as quatro últimas.

"E ali ficaram Dolores e Consuelo, mão a mão com a felicidade que ela havia ganhado por bonita e ele por corajoso.

"Anos depois, soube-se que o casal enriqueceu e tem na ilha uma grande estância com milhares de animais, colheitas e frutas de toda espécie.

"E o anão, filho do Diabo, Dolores o tem acorrentado ao frasco do encanto, e nunca esse bicho malfeitor poderá escapar daquele palanque, porque o coração do caburé tem o peso de todas as maldades do mundo."

Don Segundo Sombra

Sinopse

Tradução brasileira de Don Segundo Sombra, romance de formação de Ricardo Güiraldes e clássico da literatura argentina, em torno de Fabio Cáceres, da vida de resero, da pampa e da figura mítica de Don Segundo. Edição consolidada pelo projeto Literunico / Copa.

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