Universo da obra
Universo da obra
No caminho de luz projetado pela porta para a noite, os homens se apinhavam como varejeiras numa ferida. Pedro me empurrava pela frente e entramos, mas minhas pobres roupas de resero me tiravam aprumo, de modo que nos acanhamos bem à beirinha da entrada.
As moças, modestamente recolhidas em atitude de pudor, eram tentadoras como frutas maduras, que esperam, em traje chamativo, quem as tome para gozá-las.
Corri a vista sobre elas, como se corre a mão sobre um jogo de boleadeiras trançadas. Uma a uma passaram sob minha curiosidade sem retê-la.
De repente vi minha mocinha, vestida de vermelho-vivo, com lenço celeste no pescoço, e me pareceu que toda a sua coqueteria era só para mim.
Um acordeão e duas guitarras iniciaram uma polca. Ninguém se movia.
Sofri a ilusão de que toda a paisanada não tinha mais razão de ser que suas mãos, inábeis no ócio. Eram aqueles uns vultos pesados e fortes, que as mulheres deixavam mortos sobre as saias e que os homens levavam pendurados dos braços, como um estorvo.
Nisso, todos os rostos se voltaram para a porta, à maneira de um trigal que se arqueia olhando vento abaixo.
O patrão, homem fornido de barba grisalha, dava-nos as boas-noites com sorriso zombeteiro:
- Vamos ver, rapazes, a dançar e divertir-se como Deus manda! Você, Remigio, e você, Pancho, o senhor, Don Primitivo, e os outros: Felisario, Sofanor, Ramón, Telmo... sigam-me e vamos tirando companheiras.
Por um momento nos sentimos empurrados de todos os lados e tivemos de abrir espaço aos nomeados. Sob a voz nítida de um homem, os demais se sentiram unidos como para uma carga. E, em verdade, não era pouca façanha tomar uma mulher pela cintura para aquela gente que, sozinha, em família ou com algum companheiro, vivia a maior parte do tempo separada de todo trato humano por várias léguas.
Um tropel se formou no centro do salão, remoinho inquieto, e se espalhou para as cadeiras, estorvando-se como fazenda sedenta numa aguada.
Cada homem dobrou sua importância com a da escolhida. O acordeonista arrancou a tocar uma valsa rápida.
- A dançar pela direita e sem encontrões! - gritou com autoridade o bastonero. E os pares, tomados de longe, os pés próximos, o busto atirado para trás como marcando sua vontade de se evitar, começaram a girar, desafiando o cansaço e a tontura.
A festa havia começado. Depois da valsa tocaram uma mazurca. Os moços, os velhos, os rapazes, dançavam seriamente, sem que uma careta delatasse seu contentamento. Gozava-se com um pouco de assombro, e estar assim, em contato com os tecidos femininos, sentir sob a mão algum espartilho de rigidez arcaica ou a carne suave, e ser um só em movimento com uma moça turbada, não eram motivos para rir.
Só os aloucados supriam o grito necessário de toda emoção.
Eu me enervava ao lado de Perico, surpreso como numa igreja. Brigavam em mim os desejos de tirar minha mocinha de vermelho e a vergonha. Calou-se num intervalo o acordeão monótono. O bastonero bateu palmas:
- A polca da cadeira!
Um prestativo trouxe o móvel, que ficou desairado no meio do aposento. O patrão iniciou a peça com uma chinita de verde, que, depois de dar duas voltas, envaidecida, foi sentada na cadeira, onde ficou em postura de retrato.
- Que cotorra para minha gaiola! - dizia Pedro; mas eu estava, como todos, atento ao que ia acontecer.
- Feliciano Gómez!
Um paisano grande queria disparar, enquanto o empurravam para o meio, onde ficou como borrego que perdeu o rumo de um golpe.
- Deixem que ele olhe para a isca! - gritava Pedro.
O moço fazia o possível para seguir a farra, embora se adivinhasse nele a perturbação do bom homem tranquilo, nunca posto em evidência. Por fim tomou coragem e deu seis passos largos, que o enfrentaram à mocinha de verde. Foi olhado insolentemente dos pés à cabeça pela moça, que depois girou com a cadeira, deixando-o às suas costas.
O homem se dirigiu ao patrão com censura:
- Também, senhor, a uma madrinha como esta não se acasala mancarrão tão feio.
- Don Fabián Luna!
Um velho de barba longa e pernas tortas aproximou-se com desenvoltura para sofrer o mesmo desaire.
- Quando não é feio, é velho - comentou com bom humor. E soltou uma gargalhada como para espantar todos os patos de uma lagoa.
O patrão fingia-se acovardado.
- Alguém mais bem-parecido e mais moço, então - aconselhava Don Fabián.
- Isso mesmo; nomeie o senhor.
- Talvez o reserito...
Não ouvi mais e sentei como potro sobre peia segura, mas estava contra a parede e não pude atravessá-la para encontrar a noite, na qual teria desejado perder-me.
A atenção geral me fez recordar minha audácia de menino do povoado. Com passo firme me aproximei, levantei o chapéu sobre a testa, cruzei os braços e quebrei a cintura.
A moça pretendeu intimidar-me com sua já repetida manobra.
- Quanto mais me olhar - disse-lhe -, mais certo que me compra.
Em seguida saímos para dar, dançando, nossas duas voltas regulamentares, margeando a fileira de mirones.
- Que gosto terão os porteiros? - disse a moça como para si, ao deixar-me na cadeira.
- À direita usamos os chapéus - comentei a modo de indicação.
À direita deu ela três passos, voltando a ficar indecisa.
- Pelo lado do laço desmontam os nações - insisti.
E, vendo que meus sinais não eram suficientemente precisos, recitei o versinho:
"A cor da minha querida é mais branca que coalhada,
mas quando lhe dizem envido, fica toda avermelhada."
Desta vez fui entendido e tive o prêmio de meu descaramento quando saí com minha moreninha dando voltas, não sei se ao compasso.
À meia-noite vieram bandejas com refrescos para as senhoras. Também se serviu licor e algumas sangrias. Alfajores, bolos, tortas fritas e empanadas foram trazidos em cestas de vime claro. E as que queriam jantar algum prato de carne assada saíam para a tenda.
Os homens, por sua vez, aproximavam-se do despacho dos frascos, que havíamos contemplado com Pedro, e ali faziam gasto de genebra, anis Carabanchel e cana de pêssego ou ginjada.
Desde esse momento se estabeleceu uma corrente de idas e vindas entre as tendas e o salão, animado por uma renovação de alegria.
O acordeonista foi substituído por outro mais vivaz, sob cujos dedos as polcas e mazurcas saltavam entre escalas, trinados e firulas.
As brincadeiras já se davam em voz alta, e as moças riam, esquecendo sua exagerada rigidez.
Tirei umas quatro vezes minha menina de vermelho e, ao compasso das guitarras, comecei a lhe dizer floridas galanterias, que ela aceitava com prazerosos rubores.
Nos intervalos voltava para meu lugar, ao lado de Pedro Barrales, que me divertia com seus comentários.
- Você é bobo - dizia-lhe eu -, está afundado e triste como leitão a quem tiraram a teta.
- Não vê que sou louco como você, para andar sapateando sobre as lajotas.
- Louco?
- Se a água ferve na sua cabeça!
E, como eu fingisse ressentimento, tomava-me pelo braço para consolar-me com acento afetuoso:
- Não se zangue comigo, irmãozinho. Você é como a baixada da Cruz; tem seus retalhos ruins e seus retalhos bons.
- Valham-me os bons - concluía eu, voltando ao meu fandango.
Entretanto, a animação crescia, e já nos era quase necessário um aperto de ritmos quando o bastonero bateu palmas:
- Vamos ver, um gato bem cantadinho e dançarinos que saibam florear!
O acordeonista deu lugar ao violeiro que ia cantar.
Os quatro dançarinos se colocaram perto dos músicos. As mulheres olhavam o chão, enquanto os homens requintavam a aba de seus chapéus.
Começaram a rasguear os moços das guitarras. As mãos de pulsos frouxos passavam sobre o encordoamento com compassado vaivém, e um golpe mais forte marcava o acento, cortando como um talho o borrão rítmico do rasgueado.
O chicoteio intermitente do acento ia irradiando valentias de tambor no ambiente. Os dançarinos, de pé, esperavam que aquilo se fizesse alma nos descansados músculos de suas espáduas bravias, na lisura de seus ombros lentos, nas longas fibras de seus tendões potentes.
Gradualmente, a sala ia se embebendo daquela música. Pareciam curadas as paredes brancas que encerravam o tumulto.
A porta batia com energia seus quatro golpes rígidos no muro, abrindo-o à noite feita de infinito e de astros, sobre o campo que nada queria saber fora de seu repouso. Os candeeiros tremiam como velhas. As lajotas preparavam som sob os pés dos sapateadores. Tudo se havia dobrado ao macho império do rasgueado.
E o cantor expressou ternuras em notas tensas:
"Só uma escadinha de amor me falta.
Só uma escadinha de amor me falta.
Para chegar ao céu, minha vida, de tua garganta."
As duas mulheres, os dois homens deram começo à dança.
Os homens caminhavam com ágeis galanteios de galo que arrasta a asa.
As mulheres tomaram a dianteira no círculo descrito e olhavam, coqueteando, por sobre o ombro.
O quadro deu uma volta, o cantor continuava:
"Voe a infeliz, voe, ai, que me embarco
num barco pequeno, minha vida, pequeno barco."
As mulheres tomaram entre os dedos as saias, que abriram em leque, como querendo receber uma dádiva ou proteger algo. As sombras flamearam sobre os muros, tocaram o teto, caíram ao chão como farrapos, para serem pisadas pelos passos galanos. Uma pressa repentina enraiveceu os corpos viris. Depois do leve sussurro das botas de potro, trabalhando um escovilhado de prelúdio, os calcanhares e as plantas traquetearam um ritmo que multiplicou de impaciência o amplo acento das guitarras empenhadas em marcar o compasso. Agitavam-se como breves águas as pregas dos chiripás. As mudanças adquiriram solturas de corcovo, comentando em sonoros contrapontos o dizer dos encordoados.
Repetiam-se o passeio e a sapateada. Um só rasgueado bateu quatro compassos. Outra vez os passos longos descansaram a dança. Voltaram a soar calcanhares e esporas numa escassa sobra de agitação. As saias femininas se abriram, mais suntuosas, e o percal brilhou como pequenos campos de trevo florido, a fina tonalidade de seu luxo agreste.
A dança morreu sobre um ponto final, marcado e duro.
Algumas mulheres faziam caretas de desagrado diante das danças paisanas, que queriam ignorar, mas uma alegria involuntária era senhora de todos nós, pois sentíamos que aquela era a mímica de nossos amores e contentamentos.
Por minha vez, fiz parte do quadro com Don Segundo e minha escolhida.
Era um gato com relação.
Quando ficamos isolados no silêncio, soletrei claramente meus versos:
"Para vir a este baile pus uma estrela por guia,
porque soube que aqui estava a prenda que eu queria."
Pela direita demos uma volta e sapateamos uma mudança. Quieto esperei a resposta, que veio sem tardar:
"De amores você me fala, eu de amores nada sei,
mas se em amor é sábio, me parece que aprenderei."
Por sua vez tocou o turno a Don Segundo, que avançou para sua companheira, desafiando-a com firme voz de ameaça:
"Uma, duas, três, quatro,
se não me quer, eu me mato."
Concluída a volta, respondeu com grande indiferença e encolhendo os ombros a volumosa Dona Encarnación:
"Uma, duas, três,
mate-se se quiser."
Entre zombarias e galanteios seguiu o jogo dos versos.
Dançamos um triunfo e um prado e, enardecidos, entreveramo-nos cada vez mais com minha morena, lançando-nos palavras que, por irem em rima, nos pareciam dissimuladas.
Uma moça cantou. Um homem tinha de responder com uma relação, porque era de uso. Mas quem se atreve a declamar uma versada jocosa, passeando de uma ponta do salão à outra diante do silêncio dos demais?
Don Segundo ficou de repente no centro da roda.
A curiosidade emudecia os mirones. Meu padrinho tirou o chapéu e passou o antebraço pela testa, em sinal de trabalhoso pensamento. Por fim, parecendo haver encontrado inspiração, lançou um olhar circular e prorrompeu com voz forte:
"Sou um carneiro velho do rebanho de San Blas."
Deu uma volta, como se prestasse à observação:
"Já me viram pela frente..."
E tomando lentamente direção à porta de saída, concluiu com desgano:
"...agora me olhem por trás."
Minha moreninha era indubitavelmente a prenda mais vivaz da festa e, como o amanhecer já nos sugeria um desejo de brando descanso, não deixava de me afogar em seus olhos faiscantes e no riso carnoso de seus lábios, dispostos à resposta terna.
Um pouco perturbado por meus próprios galanteios e pelo consentimento dela, tentei apartá-la, convidando-a a tomar um refresco na tenda. Quando, com uma manobra hábil e custosa, pude levá-la até ficarmos escondidos da gente pela lona do improvisado boliche, tomei-lhe a mão, pretendendo sem mais aviso dar-lhe um beijo. Lutamos por um momento e me senti rudemente afastado diante de seu olhar de zanga.
Voltamos ao baile sem que me ocorresse uma artimanha para desagravá-la e, embora eu fosse pedir-lhe três peças consecutivas, negou-se com pretextos miúdos.
Raivoso, pensei no trato benévolo da de verde.
Pouco depois eu estava muito bem de relações com minha nova amiga, e até me acusava de ter sido um bobo em desperdiçar meu tempo com a outra.
Ternamente, ao concluir uma polca, apertei-lhe os dedos, mas eu devia estar de má pata naquela noite, porque ela se plantou em atitude altaneira, dizendo-me:
- O senhor pensou que sou vassoura de varrer sobras?
Adeus a todos os meus prazeres da noite. De repente, a gente que me acotovelava começou a pesar-me como um cavalo que nos apertou na rodada.
Abracei-me à companhia de Perico.
- Veja, veja - dizia-me ele, apontando um par de gringos que passava dançando aos saltos. - Que gaúchos, se vão como arrancando pregos com os calcanhares!
E, ao notar minha seriedade, voltou para mim suas brincadeiras:
- Não vê que andar pulando à toa não leva a nada bom? Enlamearam você, irmão? Pobrezinho! Ficou com a pontezuela caída.
E Pedro afrouxava o lábio inferior com expressão que tentava aproximar, o mais possível, à de um freio com pontezuela.
De golpe, fui-me pelo dia já alto estender meu arreio e dormir algumas horas.
Tradução brasileira de Don Segundo Sombra, romance de formação de Ricardo Güiraldes e clássico da literatura argentina, em torno de Fabio Cáceres, da vida de resero, da pampa e da figura mítica de Don Segundo. Edição consolidada pelo projeto Literunico / Copa.
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