Universo da obra
Universo da obra
Depois de dois dias de marcha, sem peripécias, chegamos ao povoado de Navarro, num domingo pela manhã.
Tomando uma rua povoada, passamos pela praça diante da igrejinha baixa e apeamo-nos num armazém para fazer a manhã.
Por ser dia festivo, havia gente aos montes, e um antigo amigo de meu padrinho se aproximou para saudá-lo com muitos agrados e lembranças.
Nunca me agradaram os ajuntamentos, e menos ainda quando o álcool se prodigaliza, de sorte que apertei a barriga contra o balcão, a fim de ocupar pouco espaço, e espiei o que acontecia em torno sem me misturar.
Ouvi que o desconhecido amigo de Don Segundo lhe falava de rinhas de galos, instando-o a ir naquela tarde como testemunha de uma vitória quase certa sua sobre um forasteiro de Tandil.
Uma hora passou para mim sem diversão, vendo entrar e sair o paisanaje domingueiro, que nos olhava de soslaio, observando com dissimulo o porte selvagem e rude de meu padrinho.
Para mim todos os povoados eram iguais, toda a gente mais ou menos da mesma laia, e as lembranças que tinha daqueles ambientes, apressados e inúteis, causavam-me antipatia.
O relógio marcou o meio-dia e, por um corredor estreito, passamos do despacho de bebidas ao comedor, mais tranquilo.
Num lugar sombreado, sentamo-nos para comer.
Haveria ao todo umas vinte mesas, com toalhas manchadas por violáceas recordações de vinho. Os talheres eram de um metal duvidoso, e os garfos tinham as pontas tortas de tanto bater contra as louças rudes em busca de algum bocado esquivo. Os copos eram de vidro espesso e turvo. No vasto recinto bocejava uma desesperante atonia.
O garçom nos saudou com um sorriso de cumplicidade que não conseguimos compreender. Talvez lhe parecesse excessiva calaverada, para dois paisanos, almoçar na "Fonda del Polo".
- Sirva-nos do que houver - ordenou Don Segundo.
Eu olhava ao redor.
Num lugar central, três espanhóis falavam alto e duro, chamando a atenção para suas caras de baturros ou caixeiros de loja. Vizinho à entrada, um casal irlandês esgrimia os talheres como canetas; ela tinha mãos e rosto sardentos, como ovo de tero. O homem olhava com olhos de peixe, e seu rosto estava cheio de veias rebentonas, como a barriga de uma ovelha recém-coureada.
Atrás de nós, um jovem rosado, com pálpebras e lacrimais remelentos de mancarrão pombo, devia ser, pelo traje e pela atitude, representante de alguma casa cerealista.
- Eu vi as romarias de Giles - dizia um dos espanhóis - e não se diferenciam em nada das daqui.
Outro, da mesma mesa, dialogava com um vizinho sobre o preço dos porcos, e o cerealista intervinha, opinando com grossos erres alemães.
Tratando de fazer-se esquecer por um momento, um homem grande e gordo, solitário diante de sua toalha carregada de manjares, calava, comia e bebia. Só levantava de vez em quando a cabeça do prato, e então parecia encher-se de satisfação o comedor aborrecido.
Uma vez se interrompeu para chamar o garçom, dizer-lhe sabe-se lá o quê a propósito de uma garrafa e palmear-lhe o lombo com proteção carinhosa.
No canto oposto ao nosso, como empurrada pelo ruído, uma dupla de crioulos olhava em silêncio. Um deles tinha uma onda hosca caída sobre o olho esquerdo, e os dois estavam tostados de muito ar.
Comeram apressados. À sobremesa riram sem vozes, as bocas sumidas nos guardanapos.
Mas um dos espanhóis relatava o suicídio de um amigo:
- Veio de uma farra, sentou-se à beira da cama em que a mulher dormia, pegou o revólver e diante dela: paff!
O das romarias seguia pesadamente suas comparações com Giles.
Com grande contentamento pagamos nossa comida, embora cara, e saímos ao sol da rua.
Ao passo fomos para o rinhedeiro, que Don Segundo conhecia, e metemos os cavalos num curralão, onde lhes afrouxamos a cincha.
No mesmo curralão havia umas gaiolas cheias de cacarejos, e o público, que como nós chegara cedo, comentava o sangue e o estado dos animais.
Acomodamo-nos no redondel, como patos ao redor do bebedouro.
Chegou o juiz, que se sentou diante de uma balança pendurada sobre a cancha. Vieram os donos com seus respectivos galos, que se pesaram pendurando-os envolvidos num lenço. Depois escolheram-se as esporas, fez-se o depósito dos quinhentos pesos apostados, e cada qual saiu para calçar seu campeão.
Don Segundo explicou-me em poucas palavras as condições da luta.
Esperamos.
Um pouco aturdido pelo movimento e pelas vozes, eu olhava o redondel vazio, limitado por sua cerca de pano vermelho, e os cinco anéis de gente colocados em arquibancada, formando funil aberto para cima.
No intervalo de espera, discutiram-se as probabilidades em favor de ambos os animais. Seria a rinha, ao que parecia, um combate rude e parelho. Os galos eram de igual peso, de igual talhe. Cada um pisara três vezes a arena para sair vencedor.
O público enumerava os detalhes da pesagem, procurando algum indício de superioridade. O bataraz falhava no bico, levemente quebrado para a ponta, do lado esquerdo, mas tinha não sei que tranquilidade que o giro não compensava com sua maior viveza.
A expectativa se fez mais tensa quando os combatentes foram depositados, em postura conveniente, pelos donos, no círculo.
Soou a campainha.
O giro havia caído levemente ao chão, as asas ladeadas como chapéu de valentão, o pescoço meio encolhido em arqueio interrogante, firme no inimigo a pupila de azeviche engastada num anel de ouro.
O bataraz, mais tosco em alardes, aproximava-se a passos curtos, alta a cabeça agitada em pequenos sacudões de chama.
Fecharam-se três ou quatro apostas sem importância. O dinheiro estava no giro.
Num arranque brusco, os galos encurtaram distâncias. A dois centímetros, os bicos se travaram num rápido jogo de fintas. As cabeças tremelicavam, subindo, baixando.
E o primeiro choque soou como guascaço nas caronas.
Aproveitando os revuelos, que desnundam o combatente, julgamos os corpos, as coxas, a respectiva capacidade de violência ou ligeireza. Depois olhamos em silêncio, para traduzir nossa opinião em aposta.
- Trinta pesos no giro!
- Dou cinquenta a quarenta com o giro!
A usura me pareceu um insulto de compadre aproveitador, que se vale de uma tara para se envalentonar. O bataraz sentia seu defeito no bico. Espiei minuciosamente.
O giro carregava firme, o papo colado ao contrário, que lhe dava um pouco o flanco, cruzando o pescoço. Mas o bataraz, quando se sentia picado nas penas do cogote, safava do encontrão baixando a cabeça quase ao chão, de modo que as esporadas passassem por cima, sem feri-lo. Maldizei o dono que largava ao rinhedeiro um animal tão nobre em condições desvantajosas.
Brilhavam as cabeças envernizadas de sangue. Afanosos, os bicos buscavam as verrugas das cristas ou algum rasgão de pele para assegurar o bote.
As apostas, dando usura, caíam com persistência de goteira.
Vinte, trinta minutos passaram angustiosamente, sem que variasse o aspecto do combate. Minhas simpatias estavam com o bataraz que, não se havendo empregado a fundo, resistia às cargas do giro, incapaz de lhe inferir ferida grave. Mas saberia meu favorito empregar seu vigor caso tomasse a ofensiva?
Minha atenção se fizera sutil. Meus olhos, como meus ouvidos, percebiam até as fibras íntimas as duas vidas que, a poucos passos de meu assento, batalhavam à morte.
Pertinazmente o giro seguia empurrando com o papo, agravando assim o assobio de sua respiração penosa, e notei que afrouxava em seu jogo de bico.
- Quinze a dez dá o giro!
Novamente a usura me dava no rosto sua bofetada.
- Pago! - respondi.
- Vinte a quinze no giro!
- Pago!
E assim, não sei quantas vezes, tomei posturas em que arriscava dinheiro penosamente ganho em minhas rudes andanças. Alguns do público me olharam como se olha um louco ou um bobo. Para eles, o giro não tinha senão que insistir em seu trabalho, acentuando sua vitória até o aniquilamento do bataraz. Ferido por esses olhares que me tratavam de novato e excitado pelo empenho de meu dinheiro, concentrei-me na luta até identificar-me com o galo em quem havia posto meu carinho e meu interesse.
Fiz meu plano. Era necessário permanecer na defensiva, evitando o golpe decisivo, salvando-se em meia hora de resistência e atirando para baixo a cada bicada do contrário.
O bataraz parecia haver me entendido.
De repente, um murmúrio de surpresa sufocou o público. O giro havia perdido a ponta do bico. Um triangulinho vermelho jazia na terra varrida do rinhedeiro.
- Igualaram-se os bicos! - não pude deixar de gritar, acrescentando com insolência: - Vou trinta pesos direto no bataraz!
Mas a praça se havia virado como guaiaca vazia.
- Trinta a vinte e cinco contra o despontado - dizia outro.
Reprovei-me com raiva por não haver aproveitado a usura para jogar mais. Daquele momento em diante, os partidários do giro se fariam ariscos.
Extenuados por quarenta minutos de luta, os galos descansavam escorando-se no peso do inimigo.
Com segurança, o bataraz tomou a iniciativa, agarrou-se a uma bicada de penas ensanguentadas, golpeou duas vezes, duramente, sem largar.
O giro cacarejou como galinha apedrejada e começou a dar voltas da direita para a esquerda, o pescoço lastimosamente esticado, a respiração travada num ronco de coágulos. Em sua cabeça carmínea e como verrugosa, desaparecera a pequena lente hostil do olhar.
- Está cego e louco! - sentenciou alguém.
Com efeito, o animal ferido, depois de repetir seus círculos maquinais, como em busca de uma mosca imaginária, bicava o pano do redondel, dando as costas ao combate. Em sua cabeça como esvaziada só vivia um ardente bordoneio, cruzado de dores agudas como punhaladas.
Mas nenhum cristão ou selvagem é capaz de imaginar a sanha de um galo de rinha. Cego, privado dos sentidos, o giro continuava batendo-se contra um fantasma, enquanto o bataraz, paciente, buscava concluí-lo num golpe decisivo.
Entretanto, o cansaço, força incontrastável cujo coma sentíamos cair no rinhedeiro, fazia-se quase perceptível ao tato. Era algo que se enredava nas patas dos combatentes, prendia seus botes, oprimia-nos as têmporas.
- A hora? - perguntou alguém.
- Faltam dois minutos - pronunciou o juiz.
Compreendi que o relógio se convertia em meu pior inimigo.
Meu galo se esgotava, enredando-se nas asas e na cauda do giro. E inesperadamente este se refez, situou seu adversário pelo tato, deu-lhe um encontrão que o atirou ao chão.
- Cinquenta pesos no meu galo giro! - vociferou o dono.
- Pago! - respondi, esquecido de minha compaixão recente.
E o bataraz voltou sobre o golpe, fortalecido de raiva, tomou uma bicada, cravou as esporas certeiras no crânio cego e deforme.
O giro se deitou lentamente, num entorpecimento de morte, cacarejou apenas, esticou o pescoço, cravou o bico quebrado.
Soou a campainha.
Os homens enormes entravam no redondel.
O dono do giro ergueu uma massa sangrenta e mole.
O outro acariciava um vulto de músculos ainda ferventes de raiva.
Para mim se estendiam mãos carregadas de cédulas, também como cansadas. Fiz um rolo volumoso, que guardei no tirador, e saí ao curralão.
Ali encontrei meu bataraz, ainda assentado na mão de seu dono, que o acariciava distraidamente, conversando com um grupo sobre as vicissitudes da luta.
E vi que o galo olhava curiosamente ao redor, voltando a nascer para a calma surpresa da vida ordinária, depois de um delírio que o possuíra, talvez apesar dele, como um irresistível mandato de raça.
Don Segundo tomou-me o braço e o segui para a rua, na cauda da gente que se retirava.
Uma vez a cavalo, dirigimo-nos, ao cair da tarde dourada, para um posto de estância onde Don Segundo havia parado por ocasião de alguns arreos.
Meu padrinho zombava de minha audácia no jogo, pretendendo que, em caso de perda, eu não teria podido pagar as apostas.
Tirei com orgulho o pacote de pesos do tirador e contei, apertando-os bem num canto para que o vento não os levasse.
- Sabe quantos, Don Segundo?
- Você dirá.
- Cento e noventa e cinco pesos.
- Já tem para comprar uma estânciazinha.
- Uns potros, sim.
Tradução brasileira de Don Segundo Sombra, romance de formação de Ricardo Güiraldes e clássico da literatura argentina, em torno de Fabio Cáceres, da vida de resero, da pampa e da figura mítica de Don Segundo. Edição consolidada pelo projeto Literunico / Copa.
Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.
Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!
Capítulos disponíveis para continuar a leitura.
Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!
Conhecer as 100 RelíquiasAinda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.
Durante a leitura, abra Menu para ajustar a experiência sem sair do capítulo. As preferências de aparência ficam salvas neste aparelho.
Recursos identificados como “em preparo” aparecem para antecipar a evolução do leitor, mas ainda não executam uma ação.
Posso mostrar leituras em destaque, clássicos e Relíquias disponíveis agora no Literúnico.
Escolha um caminho
Dúvidas desta página
As explicações do Aurélio são respostas cadastradas pelo Literúnico.