Universo da obra
Universo da obra
Horacio despertou-me bruscamente, sacudindo-me pelos ombros.
Meu primeiro pensamento foi para o dia anterior: minha fuga, o êxito de minha artimanha para preceder Don Segundo na estância de Galván, a recepção de Goyo e a apresentação que fez de mim à peonada como mensal novo, o incidente da mesa.
Alvorecia, e já, pela pequena janela, vi as nuvens do nascente salpicarem-se de tons dourados, longas e finas como pétalas de girassol.
Baixei os pés do catre, levantei-me com esforço sobre as pernas moles como queijo, ajustei minha faixa, esfreguei os olhos, cujas pálpebras eu sentia mais pesadas do que se as houvessem picado os mamangavas, e me encaminhei, arrastando as alpargatas, para a cozinha. Tinha frio e o corpo quebrado de cansaço.
Em torno do fogão quase apagado, a peonada terminava de matear, e ganhei três amargos que me despertaram um tanto.
- Vamos - disse um, e como se não se houvesse esperado senão aquela voz, nós nos espalhamos desde a porta em rumos diferentes.
O primeiro olhar do sol me encontrou varrendo os chiqueiros das ovelhas com uma grande folha de palma. Não era muito honroso, em verdade, fazer correr as bostas ressecadas sobre os tijolos e juntar alguns fiapos de lã sarnenta; no entanto, eu estava tão contente quanto a manhãzinha. Fazia meu trabalho com esmero, dizendo a mim mesmo que por ele eu era como os homens maiores. O fresco apressava meus movimentos. No céu desbotavam-se as cores derrubadas pela luz do dia.
Às oito chamaram-nos para o almoço e, enquanto, a dentes, despedaçava um pedaço de churrasco, espiei meus companheiros, de quem tudo queria adivinhar nos rostos.
O domador, Valerio Lares, era um tape forçudo, calado e risonho; eu teria desejado fazer-me seu amigo, mas não queria ser metido. Além disso, ninguém falava, porque o escasso tempo de que dispúnhamos queria ser aproveitado por cada um da forma mais útil.
Concluído o almoço, o cozinheiro me disse que ficasse para ajudá-lo, e foram saindo todos, até deixar vazio o grande aposento cujo significado parecia resumir-se no fogão, sob cuja campânula tomou lugar a panela, rodeada de chaleiras como uma ema por seus filhotes.
O cozinheiro não foi mais loquaz que no dia de minha chegada, e passei a manhã fazendo de ajudante, os olhos constantemente atraídos pela silenciosa silhueta do domador que, vizinho à porta, cosia umas rédeas de couro cru.
Já devia ser perto de meio-dia quando ouvimos umas esporas rasparem os tijolos de fora. A voz de Valerio saudou alguém, convidando-o a entrar para tomar uns mates. Curioso, assomei, vendo o mesmo Don Segundo Sombra.
- Passeando? - perguntava Valerio.
- Não, senhor. Disseram-me que aqui havia umas éguas para domar e que o senhor estava muito ocupado.
- Não quer entrar na cozinha?
- Bueno.
Os dois homens se aproximaram do fogão. Don Segundo deu bom-dia sem parecer reconhecer-me; ambos tomaram assento nos pequenos bancos, e a conversa continuou com grandes pausas.
Voltando-se para mim, Valerio ordenou com autoridade:
- Vamos, rapaz, traga um mate e sirva Don Segundo.
- Este?
- Não. Esse é de Gualberto, que é meio manhoso. Pegue aquele outro sobre a mesa.
Encantado, pus uma chaleira ao fogo, ativei as brasas e enchi o poronguito na ervateira.
- Doce ou amargo?
- Como cair.
- Doce, então.
- Bueno.
Aproximei um banco para mim e, enquanto a água começava a fazer gorgolejos, contemplei Don Segundo com certo ressentimento por não ter sido, em seu cumprimento, um pouco menos distraído.
Como ninguém falava, atrevi-me a perguntar-lhe:
- Não me reconhece?
Don Segundo me olhou sem se dignar a fazer esforço para me dar gosto.
- Eu fui - acrescentei - quem espantou seu redomão ontem à noite nas chácaras do povoado.
Longe da exclamação que eu esperava, meu homem pôs-se a observar-me com atenção, como se esperasse encontrar algo curioso em meu semblante.
- A língua - disse - parece que você a tem descascada.
Compreendi, e meu rosto se acendeu. Don Segundo temia uma indiscrição e preferia não me conhecer. Por um longo momento ficamos em silêncio, e o diálogo interrompido entre o forasteiro e o domador voltou a arrastar-se lentamente.
- São muitas as éguas?
- Não, senhor. São só oito.
- Disseram-me que os animais desta cria costumam sair frouxos de cincha.
- Não, senhor; são só meio enjoativos.
A campainha chamou para a comida. Don Segundo seguia chupando a bomba, e eu já havia trocado duas vezes a erva.
Foram caindo os peões, abotoados de calor, mas alegres por terem concluído por um tempo o trabalho. Sendo quase todos conhecidos do forasteiro, por algum tempo não se ouviu senão cumprimentos e bons-dias.
Pouco dura a seriedade numa estância quando nela trabalham numerosos rapazes inquietos e fortes. Goyo tropeçou nos pés de Horacio. Horacio lhe arrojou pela cabeça um pelego. A gente abriu roda para aqueles mocetões incômodos, acostumados a andar golpeando-se por todos os cantos.
- A dedo tisnado, covarde! - convidou Horacio, e ambos os esgrimistas passaram, por turno, os dedos sobre a pança da panela.
As pernas abertas numa guarda curta, que permite rápidas esquivas e investidas, o braço adiante como se o resguardasse o poncho, a direita movediça em curtas fintas, Goyo e Horacio buscavam marcar-se.
A chacota parou quando Horacio levou ao rosto as pontas do lenço que trazia ao pescoço, querendo dissimular a risca de fuligem que enviesava sua face.
- Você é muito pesado - dizia Goyo.
- Sua irmã já deve ter contado.
- Desde quando comemos porco em casa?
Interrompeu a bulha a entrada do patrão, homem de aspecto ríspido. Don Segundo adiantou-se até ele, dizendo-lhe o objeto de sua vinda. Saíram para conversar, e a cozinha ficou como em missa.
Don Segundo comeu conosco e disse que havia se acertado para começar a doma naquela mesma tarde. Valerio se ofereceu para tocar as éguas ao curral quando caísse um pouco o sol, para que sofressem menos.
- Se precisar de algum maneador, rédeas ou o que se ofereça, eu posso lhe emprestar o que quiser.
- Muito obrigado. Creio que tenho tudo.
Apesar de minha fadiga, não pude dormir a sesta, pensando em como faria para assistir à domada. Sabia que o patrão havia recomendado a Don Segundo o maior cuidado, visto seu peso, mas até onde se pode evitar que um potro corcoveie?
Chegado o momento, arranjei-me para levar aos valões umas cargas de arames quebrados, ferros velhos e varas partidas. Fazendo o caminho, cruzaria pela praia e talvez me coubesse a sorte de presenciar o trabalho.
Adivinhei o que havia previsto. As três primeiras éguas saíram mansas, dando trabalho só aos padrinhos. A quarta quis livrar-se do vulto que pesava em seus lombos, mas foi vencida pelas mãos potentes do domador, que a impediam de baixar a cabeça.
A quinta foi trigo de outra roça e, como não pudesse correr, corcoveou furiosamente, às voltas, do modo mais duro e perigoso.
Tive a pechincha de que isso coincidisse com uma volta minha dos valões, e de perto ouvi o grito abafado da besta, o soar das caronas, o golpear descompassado das patas contra o chão, em cujo apoio a égua buscava desesperadamente o brusco contragolpe. O corpo do homem grande estava como aparafusado nos bastos, enquanto a cara bronzeada dizia o esforço e a boca entreaberta arquejava breves palavras:
- ...Deixe-a desse lado... achegue-se à direita para ver se endireita... agora sim!... até que se deságue!
Os padrinhos tratavam de seguir aquelas ordens, embora não houvesse outro remédio senão ficar à distância, esperando intervir de modo eficaz. A égua já não gritava. Don Segundo calou-se. Era como se ambos estivessem atentos a um intenso trabalho mental, feito de manhas e surpresas, de resistência e bizarria.
O animal, já entregue, resistiu passivamente aos puxões que deviam amaciar-lhe a boca. Don Segundo desmontou num salto ágil, que o colocou a distância prudente. Sua respiração buscava, profundamente, satisfazer a ânsia de ar, levantando seu tórax vasto. Tinha as mãos ainda encolhidas de haver estrangulado as rédeas; as pernas moldadas pelo arreio arqueavam-se sobre os pés, como para solidificar seu equilíbrio, e seus ombros atirados para trás, a fim de desimpedir o peito, pareciam comprazer-se em sentir sua capacidade de domínio.
Lastimosa, a égua, cujo pescoço suado mal podia sustentar a cabeça, arquejava afanosamente, os flancos trêmulos e vazios.
- Esta não é como a zaina - disse Valerio, com certa satisfação.
- Não, senhor - replicava Don Segundo com sua assombrada voz de falsete -, esta é alazã.
De repente recordei que estava em meu petiço Sapo, com meu carrinho de vara à cincha, abrindo a boca diante dos próprios olhos do patrão, e um susto repentino me fez castigar o pobre pangaré, tomando rumo às casas ao compasso do férreo canto da forquilha, que tremelicava sobre as pranchas do carrinho. Dá-lhe música, irmão, e mexe esses ossinhos!
À hora da oração, o senhor mandou me chamar para que lhe servisse uns mates, sob a sombra já escura de um pátio de paraísos. Para isso tive de ir à cozinha de dentro. A cozinheira, que me entregou o poronguito, fez-me longas recomendações, dizendo-me quase que o patrão me comeria se visse nadar uns palitinhos na boca de prata. Desagradavelmente, lembrei-me de minhas tias. Para que serviam as mulheres? Para que os homens se divertissem. E as que saíam feias e gritonas? Para a graxaria, seguramente, mas tinham pena delas.
O patrão perguntou-me de onde eu era, se tinha família e se fazia muito que saíra para trabalhar. Respondi aproximadamente a verdade, com medo de pisar em alguma armadilha e ser mandado ao povoado.
- Que idade você tem?
- Quinze anos - respondi, acrescentando-me um.
- Está bem.
Soaram os últimos chupões na bomba.
- Não sirva mais... Volte para a cozinha e mande Valerio.
Houve grande contentamento na cozinha depois da comida. No dia seguinte seria domingo, e a gente preparava sua ida ao povoado. Os rapazes se faziam brincadeiras certeiras, sendo conhecidos os amores de cada um. Os que tinham família iam embora naquela mesma noite, para voltar na segunda de madrugada. Os posteiros talvez também se decidissem pela pequena viagem para fazer alguma compra necessária; mas os mais ficariam decerto em seus ranchos, "fazendo sebo", ou viriam às casas principais jogar uma partida de bocha, na cancha que havia sob um plantio despejado de amoreiras.
Os mais velhos protestavam, dizendo que já não havia corridas de argolinha, nem carreiras, nem entretenimento algum. Meio dormindo, acomodei-me num canto, perto de um grupo formado por Don Segundo, Valerio e Goyo, que queria aprender o ofício, e escutava quanto podia os comentários do trabalho brutal, cheio de sutilezas e manhas.
Atento às lições, eu me balançava para trás sobre meu pequeno banco, com maquinal vaivém de berço. Pouco a pouco, as vozes foram se tornando como pensamentos confusos do fogão em vias de apagar-se, e eu sentia muito patente um pé, porque o tinha pisado com o outro.
Aquela pressão da alpargata me era agradável e, ao imprimir ao meu banco seu lento balanço, meu peito do pé sofria com prazer o áspero contato da tosca sola de corda.
Minhas tias seguramente me teriam ralhado por tão curioso entretenimento, mas estavam tão longe, tão longe, que eu mal ouvia suas vozes afundadas numa reza singularmente grave... por que tinham minhas tias aquela voz de padre?...
De repente, o banco, no qual eu acabara por adormecer, caiu para trás bruscamente. Minhas costas comprimiram um feixe de lenha, e os pequenos galhos, ao se quebrarem, cravaram-se em minhas costelas como esporas.
Tradução brasileira de Don Segundo Sombra, romance de formação de Ricardo Güiraldes e clássico da literatura argentina, em torno de Fabio Cáceres, da vida de resero, da pampa e da figura mítica de Don Segundo. Edição consolidada pelo projeto Literunico / Copa.
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