Leia agora
Don Segundo Sombra

Universo da obra

Don Segundo Sombra

Capítulo 8 · Don Segundo Sombra

VII

8 de 28 ≈ 8 min de leitura

VII

Com a saída do sol, veio o fresco que nos trouxe uma alegria ávida de traduzir-se em movimento. Deixando o rio às nossas costas, cruzamos a rinconada de um potreiro para entrar, por uma porteira, no beco.

Naquele caminho, que corria entre seus alambrados como um arroio entre suas barrancas, o andar da tropa se fez tranquilo e o perigo de um desbande mais remoto.

Segurando meu petiço, coloquei-me a uma beira e esperei a chegada de Goyo para dar expansão ao meu estado comunicativo.

- Se quiser, volte para trás - disse-me.

- Bueno.

Sem me mover, deixei a tropa passar. Os novilhos caminhavam com pausa e sem cansaço. Uns poucos mugiam, olhando para a estância. De vez em quando, uma chifrada produzia um vão de alguns metros que voltava a se preencher, e a marcha seguia pausada, sem cansaço. Ao me defrontarem, as bestas faziam uma curva à distância, observando-me desconfiadamente. Muitos se detinham, as narinas erguidas, farejando com curiosidade.

- Rapaz! - gritou Valerio. - Estou vendo que já o enxergo atravessado sobre o arreio, com as nádegas para cima para que o fresco as alivie.

- Por mim, que alivie - respondi, sem querer dar o braço a torcer.

- Sim - acentuava gravemente Valerio -, para começar, todos somos bons.

Assaltado por dúvidas, repeti o dizer de Valerio: "Para começar, todos somos bons". Ver-me-ia eu vencido depois de meu primeiro ensaio? Só o futuro poderia dizê-lo; por enquanto, longe de acovardar-me, senti uma grande coragem e tive a certeza de que me havia de quebrar a alma antes de ceder às fadigas ou esquivar algum perigo do arreo.

Enquanto eu me afirmava em minha resolução, vi que chegávamos a um boliche. Era uma única casa de forma alongada. À direita ficava o despacho, peça aberta mobiliada com um par de bancos compridos, nos quais nos sentamos como andorinhas num fio. O vendeiro alcançava as bebidas por entre uma grade de ferro grosso, que o enjaulava em seu vasto aposento, revestido de prateleiras embandeiradas de garrafas, frascos e latas de toda espécie.

O chão estava povoado de pacotes de erva, garrafões de vinho, barris de diversas formas, cojinilhos, xergões, bastos, laços e outros artigos usuais. Entre aquele acúmulo de volumes, o vendeiro fizera um caminho, como a fazenda faz uma trilha, e pelo estreito espaço ia e voltava trazendo os copos, o tabaco, a erva ou as peças de encilhar.

Diante do despacho havia um par de colunas de material, sustentando uma ramada que unia o abrigo da casa ao de um pátio de paraísos nodosos. Mais longe se via a cancha de taba.

Diante da venda, o beco se alargava em ampla bolsa, coisa que tornava fácil o cuidado das tropas.

Por volta das oito desmontamos para nos refazer com algum alimento.

Começava já a fazer calor e trazíamos uma lassidão de fome, pois estávamos em movimento havia cinco horas com apenas uns mates no bucho.

Horacio e Goyo arrumaram um fogão e prepararam o churrasco. Os demais entraram no despacho, saudaram o vendeiro conhecido de outras viagens, e pediu este uma genebra, aquele um carabanchel.

- O que você vai tomar? - perguntou-me Don Segundo.

- Uma cana de pêssego.

- Vai lhe esfolar o gargalo.

- Deixe estar, Don.

Em silêncio, esvaziamos nossas taças.

Por turno, um pouco mais tarde, "tumbiamos", e eu meti outra cana no corpo.

Repostos e alegres, preparamo-nos para seguir viagem. Don Segundo e Valerio mudaram de cavalo. Valerio encilhou um colorado gargantilha que todos cobiçavam por sua pinta vivaracha e pela finura de suas patas e mãos.

- Que pingo para uma corrida de argolinha! - dizia Pedro Barrales.

- Meio desobediente, só isso - comentou Valerio -, e capaz de me fazer uma travessura quando eu o toque com as esporas.

- Algum dia tem que aprender.

Assim que concluiu de montá-lo e o tocou com as esporas, Valerio viu que não se enganara. O gargantilha se levantou "como leite fervido".

Valerio, de corpo pequeno e ágil, seguia à maravilha os laços de uma corcoveada sábia em voltas, sentadas, arremetidas e sacudões. Seu poncho compassava a bela raiva do bruto, que em cada corcovo mostrava a esbelteza de um salto de dourado. Seus flancos se encolhiam, trêmulos de vigor. Sua cabeça quase riscava o chão em sinais negativos, e seu lombo, encurvado, sustentava muito acima a sorridente dominação do ginete.

Por fim, a mão destra pôs fim à luta, e Valerio riu, ofegante.

- Não lhes disse?

- Hum! - comentou Pedro. - Não é bom dar muita corda.

- Se eu deixo, decerto se me faz bellaco.

- Seria pecado... um pingo tão parelho.

Enardecido pelo espetáculo, alentado pelas duas canas que me bailavam na cabeça, recordei meu projeto de havia pouco.

- Quem me dá uma mãozinha para encilhar meu potrinho?

- Para quê?

- Para montá-lo.

- Vai se fazer trilhar.

- Não faz mal.

- Eu te ajudo - disse Horacio -, nem que seja só para tomar café esta noite no velório.

Com risos e ao compasso de ditos espirituosos, agarraram e encilharam meu petiço mais depressa do que era necessário para que eu pensasse em minha temeridade. Horacio tomou o potrinho pela orelha, deu-lhe uns safanões.

- Quando quiser, irmão.

Com sigilo me aproximei, pus o pé no estribo e boleei a perna, tratando de não despertar cedo demais as cócegas do cabruninho.

As brincadeiras me punham nervoso. Para onde iria sair o petiço? Como eu preveniria o primeiro movimento?

Era preciso concluir de uma vez e, tomando minha coragem com as duas mãos, depois de me haver acomodado do modo que julguei mais eficiente, dei a voz de mando.

- Soltem de uma vez!

O petiço não se moveu. De minha parte, eu não via muito claro. Diante de mim adivinhava um pescoço magricela, ridículo, um pouco torto. Ao mesmo tempo notei que minhas mãos suavam e tive medo de não poder me firmar nas rédeas.

- Para quando? - perguntou atrás de mim uma voz que não soube a quem atribuir.

Como uma vergonha, pior que um golpe, senti o ridículo de minha espera e, ao acaso, soltei sobre a cabeça do petiço um rebencaço. Experimentei um doloroso puxão nos joelhos e desapareceu para mim toda noção de equilíbrio. Para mal dos meus pecados, joguei o corpo para a frente, e o segundo corcovo me foi anunciado por um golpe seco nas assentadeiras, que se prolongou pelo corpo em desconcertante sacudida. Abri muito os olhos, prevendo a queda, e desta vez joguei-me para trás, pois vira o caminho subir em minha direção, já não encontrando com o olhar nem o pescoço nem a cabeça do petiço.

Outra e outra vez se repetiram os trancos, que pareciam querer desgrudar-me os ossos; mas, sentindo os joelhos firmes e alentado por um "agora!" de meus companheiros, voltei a dar um rebencaço em meu potro. Mais e mais sacudões se seguiram com pressa. Parecia-me que já eram cem, e as pernas se me acalambravam. Um joelho me escapou da garupa; julguei-me perdido. O arreio desapareceu debaixo de mim. Desesperadamente, vendo-me suspenso no vazio, atirei um manotaço sem rumo. O golpe me castigou o ombro e a anca com uma violência que me fez perder os sentidos. A duras penas, entretanto, alcancei pôr-me de pé.

- Você se machucou? - perguntou-me Valerio, que não se apartara de meu lado durante minha má gineteada.

- Nada, irmão, não me fiz nada - respondi, esquecendo a deferência que devia ao meu capataz.

A uns trinta metros, Don Segundo havia laçado o fugitivo, e corri em sua direção.

- Segurem-no para mim!

- Para chorá-lo depois como finadinho? - riu Goyo.

- Não, sério, segurem essa maula que vou fazê-la soar a relhaço.

- Deixe-o para amanhã - ordenou-me Valerio, sem brincadeiras. - Veja que temos de marchar, e o trabalho não é diversão.

- Parece-me - disse Don Segundo - que, se este não sossegar, vamos ter que mandá-lo para a gaiola das tias.

Horacio trouxe-me embuçalado o petiço de Festal filho.

Don Segundo Sombra

Sinopse

Tradução brasileira de Don Segundo Sombra, romance de formação de Ricardo Güiraldes e clássico da literatura argentina, em torno de Fabio Cáceres, da vida de resero, da pampa e da figura mítica de Don Segundo. Edição consolidada pelo projeto Literunico / Copa.

Don Segundo Sombra

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Ir para o carrinho
Mercado de Don Segundo Sombra

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral Don Segundo Sombra Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
0Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 8 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir