Universo da obra
Universo da obra
Na pampa, as impressões são rápidas, espasmódicas, para depois se apagarem na amplitude do ambiente, sem deixar rastro. Assim foi que todos os rostos voltaram a ser impassíveis, e assim foi também que esqueci meu recente fracasso sem guardar seus naturais dissabores. O beco era semelhante ao beco anterior, o céu permanecia tenazmente azul, o ar, embora um pouco mais quente, cheirava do mesmo modo, e o passo do meu petiço era apenas um pouco mais vivaz.
A novilhada marchava bem. As tropilhas que iam adiante chamavam sempre com seus cincerrinhos claros. Os balidos da madrugada haviam cessado. O traqueteio das pesunhas, em troca, parecia mais numeroso, e o pó levantado por milhares de patas ia tornando-se mais denso e branco.
Animais e gente se moviam como captados por uma ideia fixa: caminhar, caminhar, caminhar.
Às vezes um novilho se atrasava mordiscando o pasto do beco, e era preciso fazer-lhe uma atropelada.
Influenciado pelo balanço coletivo daquela marcha, deixei-me andar no ritmo geral e fiquei numa semi-inconsciência que era torpor, apesar de meus olhos abertos. Assim me parecia possível andar indefinidamente, sem pensamento, sem esforço, embalado pelo vaivém acalentador do passo, sentindo em minhas costas e meus ombros o aperto do sol como um conselho de perseverança.
Às dez, a pele das costas me dava uma sensação de efervescência. O petiço tinha suado o pescoço. A terra soava mais forte sob as pesunhas sempre leves.
Às onze, eu tinha as mãos e as veias inchadas. Os pés me pareciam adormecidos. Doíam-me o ombro e a anca golpeados. Os novilhos marchavam mais pesadamente. O pulso me latejava nas têmporas de maneira embrutecedora. Ao meu lado, a sombra do petiço diminuía desesperadamente devagar.
Ao meio-dia, íamos caminhando sobre nossas sombras, sentindo assim maior desamparo. Não havia ar, e o pó nos envolvia como se quisesse nos esconder numa nuvem amarelenta. Os novilhos começavam a babar longos fios mucosos. Os cavalos estavam cobertos de suor, e as gotas que caíam de suas testas salgavam-lhes os olhos. Eu tinha vontade de dormir num renunciamento total.
Por fim chegamos à estância de um tal Don Feliciano Ochoa. A sombra do arvoredo nos refrescou deliciosamente. A pedido de Valerio, deram-nos permissão para soltar a tropa num potrerinho pastoso, provido de aguada, e descemos dos cavalos com as roupas moldadas às pernas, caminhando como patos recém-despeados. Rumo à cozinha, as esporas entorpeceram nossos passos arrastados. Cumprimentamos a peonada, tiramos os chapéus para aliviar as frontes suadas e aceitamos uns mates, enquanto no fogão colocávamos nosso churrasco de reseros e atiçávamos o fogo.
Não tomei parte na conversa que logo se animou entre os forasteiros e os das casas. Tinha o corpo ressecado como carne de charque e não pensava senão em tomar alguma coisa e deitar-me, ainda que fosse nos tijolos.
- Continuarão marchando quando acabarem de comer?
- Não, senhor - respondeu Valerio. - O tempo está muito pesado para os animais... Pensamos, antes, com sua licença, tirar uma sesteadinha e caminhar um pouco de noite, se Deus quiser.
Que prazer indescritível me deu aquela resposta! Instantaneamente senti meus membros se alongarem num descanso aliviador, e toda a minha boa disposição voltou a mim como por magia.
- Lindo! - exclamei, cuspindo pelo canto da boca.
Um dos peões me olhou sorridente:
- Deve ser novo no ofício.
- Sim - disse como para mim -, sou um novo que vai se gastando.
- Oh! - comentou um velho. - Antes de se gastar, você tem que ir para cima.
- É apressadíssimo - replicou Pedro Barrales. - Hoje já montou um potrinho; ia despencando pela espádua, mas não queria baixar o rebenque. É dos que morrem matando.
- Bom rapaz! - disse o velho, com os olhos risonhos de simpatia. - Tome um mate doce por gaúcho.
- Terei merecido quando ele não me derrubar, Don.
- Será amanhã, então.
- Quem sabe - interveio Goyo - se não seria melhor que o soltasse.
- Claro! - sublinhei. - Para ver como correm pelo campo meus vinte pesos.
- Não - voltou a intervir o velhinho -, é ladino demais no retruque.
- Oh - assegurou Don Segundo -, se é por bico, não há cuidado. Antes de se calar, é mais provável que lhe inche o focinho. É da mesma lei dos papagaios barranqueiros.
- Já me castigaram - concluí, encolhendo os ombros como para prevenir um golpe, e não falei mais.
Um menino de uns doze anos se havia sentado perto de mim e olhava minhas esporas, minhas mãos feridas na gineteada, meu rosto coberto pela terra do arreo, com a mesma admiração com que dias antes eu observara Valerio ou Don Segundo. Sua ingênua prova de curiosidade admirativa era minha cédula de resero.
Para que eu dormisse a sesta, o mesmo menino se ofereceu para me mostrar um lugar apropriado, e lhe fiquei quase tão agradecido por isso quanto por suas manifestações de muda simpatia.
Por volta das quatro, estávamos outra vez no beco. As despedidas haviam sido cordiais, depois de uns poucos mates, e eu me sentia como recém-parido por haver banhado o rosto num balde e sacudido a terra com um saco.
Aos mancarrões soava a água na barriga, e a tropa, tendo tido tempo de deitar-se e provar uns bons bocados de grama, encontrava-se mais bem-disposta.
Tinha, além disso, a promessa próxima do frescor noturno, e isso de ir melhorando paulatinamente até alcançar um descanso mantém desperta a esperança fundada.
Como em nossa saída da estância, fui até diante das tropilhas, de onde me entretive olhando o caminho e as moradias distantes, para gravar tudo em minha memória, acumulando assim meus primeiros valores de futuro baquiano.
A duas horas de marcha, como íamos passar diante de um posto, Goyo chegou até mim para transmitir-me uma ordem de Valerio.
- Venha comigo... Vamos carnear um cordeiro e depois alcançamos a tropa.
- Não sirvo, irmão, para esse trabalho.
- Não faz mal. Você vai se acostumando.
Enquanto o arreo seguia seu caminho, apeamo-nos no rancho, cujo dono nos recebeu como velhos conhecidos.
- Um borrego? - disse, quando Goyo lhe explicou nossa necessidade de carne. - É para já.
Não houve discussão pelo preço.
Goyo era baquiano e ligeiro. Minha atarefada inutilidade o fazia rir sem descanso. Mal eu rasgara o couro de uma pata, sua faca, vindo pela barriga, já me ameaçava com a ponta. Com talhos longos e certeiros, separava o couro da carne e, uma vez aberta a brecha, metia nela o punho, com o qual rapidamente procedia ao despojo da besta. Fazendo primeiro um círculo com a lâmina ao redor das juntas, quebrou as quatro patas na última articulação. Entre o tendão e o osso do garrão, abriu um olhal em que passou a presilha do cabresto e, aproximando-se de uma árvore, atirou por sobre um galho a ponta oposta, da qual me pendurei com ele até que ficasse suspensa a rês.
Rapidamente abriu a barriga, tirou em voltas e reviravoltas o sebo de tripa, despojou o ventre dos restos, o tórax dos bofes, fígado e coração.
- Para isso me chamou? - perguntei, estupidamente inativo, envergonhado de minhas mãos, que pendiam também como desperdícios.
- Agora você vai me ajudar a levar a carne.
Concluída a carneada, metemos cada qual nosso meio borrego num saco de aniagem, atamo-lo aos tentos e, despedindo-nos do posteiro, que mandou trazer uns mates por uma chinita magra e arisca, fomos em trote de zorrilho até alcançar a tropa, que por certo não se havia distanciado muito.
Mais abatido por minha ignorância de carneador que pelo golpe da manhã, fui de novo para diante, mascando raiva. Horas antes eu vira o bom lado da taba, quando o menino da casa de Don Feliciano olhava assombradamente minhas pilchas e posturas de resero; e não me lembrara de que o ossinho tinha outra parte designada por nome desdoroso. Essa eu via apenas quando minha imperícia de novato topava com uma das tantas realidades do ofício. Quantos outros desenganos me esperavam?
Antes de andar me fazendo de taita, tinha por certo que aprender a carnear, laçar, pialar, domar, correr como gente no rodeio, fazer rédeas, buçais e cabrestos, lonjear, tirar tentos, pôr botões, tosquiar, tosar, bolear, curar o mal do casco, a haba, os formigueiros e sei lá quantas coisas mais.
Desconsolado diante desse programa, murmurei a título de máxima: "Uma coisa é cantar sozinho e outra coisa é com guitarra".
Nesses transes me assaltou a tarde numa rápida fuga de luz. Acovardado por minha solidão, voltei-me com os outros para saber a que horas comeríamos.
Jantamos em campo aberto. Perto do beco havia uma baixada com uns salgueiros, de onde trouxemos alguns ramos secos. O resplendor da chama deu a nossos semblantes uma aparência severa de cobre, enquanto, acocorados, formávamos um círculo de espera. As mãos, manejando a faca e a carne, apareciam luzentes e duras. Tudo era quietude, salvo o leve cantar dos cincerrinhos e os estranhados balidos da fazenda.
Na baixada coaxaram as rãs, quebrando o uniforme sussurro dos grilos. Os chajás delatavam nossa presença a intervalos preguiçosos. Os galhos verdes de nossa lenha assobiavam, para estourar como bombas distantes de quermesse. Sentia a dor do cansaço mudar de lugar em meu pobre corpo, e parecia-me ter a cabeça apertada sob um cojinilho.
Não tínhamos água, e era preciso sofrer a sede por algumas horas.
Novamente, ao andar da tropa, prosseguimos nossa viagem.
Acima de nós, o céu estrelado parecia um olho imenso, cheio de luminosas areias de sonho. Cada passo propagava uma manada de dores por meus músculos. Quantos vaivéns do passo eu teria ainda de aguentar?
Já não sabia se nossa tropa era um animal que queria ser muitos, ou muitos animais que queriam ser um. O andar desarticulado do enorme conjunto me mareava; e, se eu olhava para a terra porque meu petiço mudava de direção ou torcia a cabeça, sofria a ilusão de que o chão inteiro se movia como uma informe massa carnosa.
Eu teria querido poder dormir em meu cavalo como os reseros velhos.
Ninguém se ocupava mais de mim. A gente ia atenta ao animalaje, temendo que algum se retardasse. Ouvia-se de vez em quando um grito. Os teros chilreavam à nossa passagem, e as corujas começaram a brincar de esconde-esconde, chamando-se com gargantas de veludo.
Nenhuma moradia se avistava.
De repente me dei conta de que havíamos chegado. Perto já, vimos a grande aparência escura de umas casas, e o beco se alargou como um rio que chega à lagoa.
Goyo, Don Segundo e Valerio iam rondar, segundo ouvi dizer.
Estávamos nos locais de uma feira, à beira de um povoado.
Perto das tropilhas, desenfreei meu petiço e virei-lhe o arreio.
Sob um cobertizo de zinco, atirei minhas pilchas ao chão e me deixei cair sobre elas, como cai um pedaço de barro de uma roda de carreta.
Um rebencaço quase insensível caiu-me sobre as espáduas.
- Faça-se duro, rapaz!
E julguei haver reconhecido a voz de Don Segundo.
Tradução brasileira de Don Segundo Sombra, romance de formação de Ricardo Güiraldes e clássico da literatura argentina, em torno de Fabio Cáceres, da vida de resero, da pampa e da figura mítica de Don Segundo. Edição consolidada pelo projeto Literunico / Copa.
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