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Don Segundo Sombra

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Don Segundo Sombra

Capítulo 15 · Don Segundo Sombra

XIV

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XIV

Tosei meus cavalos, assobiando de contente, e acomodei minhas prendas com prolixa satisfação. Os pesos, que eu sentia inchar meu tirador, davam-me um aprumo de rico, e passei a manhã ajeitando quanto tinha para pôr tudo à altura de minha riqueza.

Iríamos a uma feira, ruidosamente anunciada pelos rematadores locais, e, como ali encontraria muita gente do rinhedeiro, não queria desmerecer a fama adquirida com minhas apostas, expondo uma pobreza desalinhada.

Às onze saímos do posto, despedindo-nos de nossos amigos hospitaleiros, e nos dirigimos, cruzando o povoado, para os locais do remate.

Tomamos uma rua deserta. Passamos a galope pela praça principal e, a duas quadras, paramos diante de um armazém. Aos lados da entrada, cavalgando uns pacotes de erva, luciam suas cores vistosas uns sobrepostos bordados.

Atamos nossos cavalos a dois grossos postes de quebracho, polidos pelos cabrestos, e entramos, pois meu padrinho queria fazer umas compras. Havia cheiro de selaria, erva e graxa.

O vendeiro se agachava para escutar o pedido, como cão diante de uma vizcachera.

- Dois maços de tabaco "La hija del toro" - disse Don Segundo.

- Picadura?

- Ahã!... Uma mecha para o isqueiro, um lenço desses negros e aquela faixinha que está sobre o pacote de bombachas.

Surpreendeu-nos como uma pancada uma voz autoritária:

- Dê-se preso, amigo!

Na porta erguia-se a figura desengonçada de um policial, cujas mangas sublinhavam os escassos galões de cabo.

Fazendo-se de desentendido, Don Segundo abriu os olhos para procurar em derredor o homem em causa. Mas não havia senão nós.

- É com o senhor que falo!

- Comigo, senhor?

- Sim, com o senhor.

- Bueno - replicou meu padrinho, sem se apressar -, espere-me um momento, que assim que o patrão me despachar eu o atendo.

Atônito diante daquela insolência, o cabo não achou resposta. O patrão, em troca, pressentindo confusão, desordenava com mãos trêmulas seus trastes, completamente esquecido dos pedidos que lhe haviam sido feitos.

- A faixinha está ali - dizia meu padrinho com paciência. - Esse lenço florido não... aquele outro negrinho que tocou agora há pouco.

Sentindo-se vergonhosamente esquecido, o cabo voltou a si:

- Se não vem por bem, vou tirá-lo à força!

- À força?

Don Segundo pensou um momento, como se de repente lhe houvessem proposto fazer cruzar mulas com gaivotas.

- À força? - repetiu, revistando o cabo franzino com seu olhar de homem fornido. E depois, parecendo compreender:

- Bueno, vá procurando os companheiros.

O cabo empalideceu sem dar seguimento a uma intenção de passo.

Don Segundo ajeitou sem pressa seu pacote, saiu, não sem despedir-se do vendeiro azarado, e montou a cavalo. O cabo ameaçou um manotaço nas rédeas, que ficou a meio caminho.

- Não - disse Don Segundo, como se se enganasse sobre os desígnios do cabo. - Deixe estar, que desde o ano passado sei andar sozinho.

Lastimosamente, o policial sorriu, festejando a piada.

Num grande salão sem móveis, diante de um enorme mapa da província, estava sentado o comissário barrigudo e bigodudo.

- Aqui estão, senhor - disse o cabo, recuperando coragem.

- Aqui estamos, senhor - repetiu Don Segundo -, porque o cabo nos trouxe.

- Os senhores são forasteiros, não? - inquiriu o mandão.

- Sim, senhor.

- E em seu povoado se passa galopando diante da delegacia?

- Não, senhor... mas como não vi bandeira nem escudo...

- Onde está a bandeira? - perguntou o comissário ao cabo.

- A bandeira, senhor, nós emprestamos à Intendência para a festa de sábado.

O comissário voltou-se para nós:

- Que ofício têm os senhores?

- Reseros.

- De que partido são?

Como se não entendesse o caráter político da pergunta, meu padrinho respondeu sem pestanejar:

- Eu sou de Cristiano Muerto... meu companheirinho, de Callejones.

- E as libretas?

Do mesmo modo que fizera uma piada com nossa procedência, Don Segundo inventou um personagem:

- Estão com Don Isidro Melo, lá.

- Muito bem. Para outra vez já sabem onde fica a delegacia, e se esquecerem, eu lhes ajudarei a memória.

- Não há cuidado!

Do lado de fora, quando estivemos sós, Don Segundo riu de boa vontade:

- Bom cabo... mas não para rebenque.

A feira era para mim uma novidade. Quando chegamos, estavam concluindo de classificar a fazenda em lotes, dispondo-os nos currais. Aquilo parecia um rodeio dividido em quadros pelos alambrados como massa para fazer pastéis. A peonada que levava e trazia os lotes era numerosa e, tanto entre eles como entre os peões das estâncias, viam-se paisanos luxuosos em seus aperos e vestuário. Que facões, tiradores e rastras! Que cabeçadas, buçais, estribos e esporas! O dinheiro já me doía no tirador.

À sombra de um ombu, ao lado do grande galpão do local, assava-se a carne para os peões e o pobrerio. Havia o que escolher entre os assadores que aqui espetavam uma costela de novilha, ali um meio capão ou um cordeirinho inteiro, de rins gordurosos.

Os donos da feira, assim como os estancieiros e clientes de consideração, tinham lá dentro uma mesa longa acomodada, com muitos copos, guardanapos, jarras, frascos e até garfos. Lá dentro também, vizinho ao comedor, havia um despacho de bebidas com seus escassos fregueses.

Com meu padrinho, aproximamo-nos de um cordeiro de pele dourada pelo fogo. Carninha saborosa e tenra! "Pena não ter duas barrigas", dizia com desconsolo Don Segundo.

Assim que suas mercês da mesa se fartaram de embuchar, saiu o rematador e sua comitiva num carrinho descoberto e começou a função. O rematador fez um discurso cheio de palavras como "pecuária nacional", "porvir magnífico", "grandes negócios"... e "deu princípio à venda" com um "lote excepcional".

Ao redor do carrinho, a pé ou montados em cavalos dos peões da feira, estavam os ingleses dos frigoríficos, barbeados, vermelhos e gordos como frades bem comidos. Os invernadores, tostados pelo sol, calculavam ganhos ou perdas, puxando o bigode ou coçando a barba. Os açougueiros do lugar espiavam uma pechincha, com cara de rapaz que vai levantar as miudezas de uma carneada. E o público, formado pela gente de estrada e de estância, conversava de qualquer coisa.

Sem alternativas passou a tarde. A garganta do rematador já não dava mais de tanto gritar, e meus ouvidos de tanto ouvi-lo.

Começavam a marchar as tropas.

Um homem da feira, que conhecia Don Segundo, falou-nos para um arreo de seiscentos novilhos destinados a um campo grande das costas do mar. O paisano encarregado de entregar o lote era um velhinho de barba branca, petiço e tagarela. Depois de nos mostrar a fazenda, convidou-nos a tomar a rodada. Ia montado num picacinho overo que eu cobiçara toda aquela manhã, vendo-o trabalhar. Aos poucos, enquanto nos dirigíamos ao despacho, fui sondando a possibilidade de uma compra, que as perspectivas do longo arreo tornavam quase necessária. Mas o homem nos falava dos novilhos:

- Boa animalada, senhor, e bem tocadinha.

Diante do galpão, desmontou do picazo pela paleta, e soou o luzido jogo de botões de seu tirador quando, tocando o chão, seus pés apararam o peso do corpo com golpe surdo.

Entramos.

Nosso homem encarou um ancião meio ébrio:

- Aqui havia de estar você, fazendo gargarejos como sapo no barro.

- Com as copas que você me paga, não? - respondia o velho, de sorriso envinado e olhos vagos.

- Vim ao mundo justamente para manter bêbados!

- Por que não entra para a polícia, irmão?

Enquanto tomávamos nossas sangrias, voltei a falar do picazo:

- É ponderado para o trabalho.

- Veja, senhor, não é por dizer, mas tenho uns pingos meio bonzões. Este que monto é um dos mais melhorzinhos e corajoso para a pancada. Vez passada, quando era redomão, eu trazia umas vacas por conta de um inglês Guales. Vinha cuidando delas por xucas, quando veja só que, cruzando perto de um posto, atravessa-se no beco uma senhora para salvar uns patinhos. Já começou a me remoinhar a fazenda. "Saia para o lado, senhora", gritei. "Que eu saia para o lado?" "Sim, senhora, digo-lhe isso como um serviço." "E a mim, que me importa a sua fazenda?" Eu estava pertinho dela e ia me entrando raiva de vê-la tão inteiramente teimosa, quando, para melhorar, começou a me mandar, com mãe e tudo, aos infernos. Deus me perdoe! Fechei as esporas no picazo e a levantei pelos elementos.

Embora a prova fosse boa para o cavalo, pareceu-me aquele proceder um tanto selvagem. Sem dar minha opinião sobre o tal sucesso, seguindo a conversa, resultou que me tornei dono do picazo por cinquenta pesos.

De repente, o velho bêbado, esquecido por nós em seu canto, começou a observar meu padrinho muito sorridente. Com expressão de quem medita uma picardia, interpelou-o:

- Como vai, Ufemio?

- Quem é você? - interrogou meu padrinho, com um tom que me fez compreender que não ignorava a filiação do bêbado.

- Já não conhece seus irmãos?

- Deve ser pelos muitíssimos que tenho nas vendas.

- E vai me negar que é Ufemio Díaz?

- Dias?... e alguns meses - consentiu meu padrinho.

- Gaúcho velhaco! - disse o bêbado, adiantando-se para nós. - Sou Pastor Tolosa, conhecido por Lazarte, velho vizinho do Carmen de Areco... e você é Segundo Sombra. Não se lembra? - insistiu, mostrando a cicatriz de um talho que lhe cruzava a testa. - Eu era diabo para a faca. Agora sou velho e qualquer bobo me grita - apontava com a barba para nosso companheiro de mesa. - Naqueles tempos, só um touro como você era capaz de me cortar.

O homem sentou-se conosco à mesa. Meu padrinho o olhava, sorrindo-lhe como se sorri a uma lembrança, e o deixava falar.

- E se lembra das festas na casa de Raynoso, onde nos conhecemos?

- Lembro, ahã... mandaram que eu cuidasse de você porque era meio aplicado ao frasco e, de lambuja, afeiçoado ao barulho.

- Ahã!... e veio cuidar de mim, gaúcho sagaz... e no fim foi você que meteu o bochincho. Mais de quatro saíram cortados, e apagaram as luzes a ponchaços, e o mulherio fugia aos gritos... e você nem um arranhão arranjou no entrevero. Que tempos! E um dia, para nos provarmos, brincando, deixou-me de lembrança este passarinho que me canta todas as manhãs: bicho-feio! bicho-feio!

Ríamo-nos todos.

Meu padrinho levantou-se, e deu-se um grande abraço com aquele velho amigo, que queria seguir a conversa dos anos passados. Não tínhamos tempo. Trabalhosamente nos despedimos. Entregaram-nos a tropa, e marchamos com os demais peões ao cair da noite.

Tropinha mansa e linda. Um mês de arreo devemos contar, embora sem maiores contratempos. Os animais que levávamos eram magros e dispostos. Contudo, três dias antes de entregar o arreo, passamos um mau momento. A fazenda vinha sedenta, pois nos faltavam aguadas naturais e estancieiros conhecidos que nos tirassem do aperto.

Havíamos passado uma noite de tremendo peso, defendendo-nos dos mosquitos com um foguinho de biznaga pobre demais. O campo suava por toda parte quando saímos de manhã.

Depois caiu um golpe de chuva. As reses se nos alvoroçaram. Nos charcos que o aguaceiro deixara, amontoavam-se, sujando logo a água, não chupando mais que barro.

O capataz ia aflito com aquele desespero do animalaje, que para pior não podia senão aumentar com o sol e o movimento.

Por volta das dez, enfrentamos uma estância.

Não houve nada a fazer. Os animais, depois de farejar com ânsia, largaram-se a correr pelo beco. Inutilmente quisemos apurá-los para que passassem direto. Numa porfia incontível, atropelaram os alambrados, que primeiro resistiram, fazendo-os cair. Até os enredados não cediam em seu empurrão, apesar de se talharem ou caírem de lombo. E em seguida, que havíamos de segurá-los pelo campo!

As casas estavam perto e, atrás de um potrerinho alfalfado, havia um banhadão bordado de salgueiros. Separavam-nos dele outro alambrado e uma cerca de canas. Corríamos sem esperança diante dos brutos sedentos. O alambrado sofreu a mesma sorte que o anterior, e a cerca de cana não pôde senão ranger e quebrar-se diante da avalancha cega.

As bestas afundavam na água, bebendo atropeladamente. Outras se deitavam. Outras passavam por cima delas, com perigo de afogá-las. Nós não tínhamos outra tarefa senão impedir as montoneras e ordenar, no possível, aquele tumulto.

Os peões da estância, que haviam ouvido o tropel ou visto a disparada, ajudavam-nos.

Veio o patrão, e nosso capataz, ofegante das corridas e algo assustado, explicou a coisa, propondo pagar os danos.

Por sorte, o homem tomou bem nosso involuntário assalto e, longe de se incomodar, mandou sua gente nos acompanhar depois de saciada a sede da fazenda.

Tivemos de degolar um animal demasiado estragado nos arames e curar alguns outros.

Salvo isso, tudo seguiu como antes, até chegarmos ao destino.

Don Segundo Sombra

Sinopse

Tradução brasileira de Don Segundo Sombra, romance de formação de Ricardo Güiraldes e clássico da literatura argentina, em torno de Fabio Cáceres, da vida de resero, da pampa e da figura mítica de Don Segundo. Edição consolidada pelo projeto Literunico / Copa.

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