Universo da obra
Universo da obra
- ...depois fique quieto.
Fiz um grande esforço para compreender o que aquilo queria dizer. Vislumbrava que era algo para mim e que eu devia escutar. Mas que queria dizer? E que era aquele rosto de homem, louro, por certo conhecido, e aquele outro de mulher, no qual eu deixava ficar meus olhos com prazer, recordando um sentimento nebuloso de gratidão, talvez? Uma luz me feria, e tudo me parecia hostil, menos a expressão daqueles dois rostos.
Oh, a dor de não poder compreender e a sensação de estar carregando um mundo de pesos vagos que, no entanto, apareciam como meus! O que era certo? Havia pouco eu vivia num mundo leve e tudo se explicava:
Estávamos na estância de Galván, sob os paraísos do pátio; o patrão, pondo-me uma mão sobre o ombro, dizia:
- Você já correu mundo e se fez homem, melhor que homem, gaúcho. Aquele que conhece os males desta terra por havê-los vivido temperou-se para domá-los.
Vá, apenas. Ali o espera sua estância e, quando precisar de mim, estarei perto. Lembre-se...
Perto de nós havia uma roseira florida, e um cão overo me farejava as botas. Eu tinha o chapéu na mão e estava contente, muito contente, mas triste. Por quê? Haviam me sucedido coisas extraordinárias, e eu sentia quase como se fosse outro... outro que ganhara algo grande e indefinido, mas que tinha ao mesmo tempo uma impressão de morte.
Mas bem supunha que isso não era certo. Verdade era meu estado abrumador de incompreensão e a luta matadora em que me empenhava para despojar-me daquela torpe ignorância. A luz me atribulava; mais longe havia sombras, e algo se movia nelas, fazendo-me presumir que eu devia concentrar minha atenção em seu sentido.
- ...depois fique quieto.
Cheguei a uma lembrança como a uma aberta no mato:
- Patrocinio!
- Fique quieto, apenas, e não se mexa.
Doía-me todo o lado direito do corpo, e a cabeça, também do lado direito.
- Que tenho?
- Quebrou a clavícula e machucou a cabeça. Parece que o costilhar está contundido.
Recordei: o touro, o puxão... E entrei claramente na compreensão do sucedido e do atual.
Pedi um copo d'água e olhei ao redor.
Estava numa peça asseada de rancho, deitado num catre. Patrocinio, sentado num banquinho baixo, espiava-me de vez em quando. Uma moça desconhecida, bonita, entrou com um jarro d'água e me ajudou a endireitar a cabeça para beber. Por amor-próprio eu teria querido me desenvolver sozinho, mas pelo prazer que me dava sua mão, erguendo-me a cabeça, e por um estranho sentimento de gratidão para com seu sorriso afetuoso, calei-me.
O inútil e brutal esforço para compreender havia desaparecido. Eu estava contente. Não podia me mover.
- Bendito seja! - disse. - Ainda a ossada não se me negou para viver.
Patrocinio ria. Eu também. Sentia-me tão agradavelmente inútil que adormeci.
Ao despertar, foi o mais amargo.
Sem me lembrar de meu mal, quis incorporar-me, e o corpo inteiro me gritou de dor.
- Não se mexa, companheiro - advertiu-me uma voz.
Num canto do quarto, aclarado pelo amanhecer, vi o paisano que no rodeio havia caído raboneando uma vaca. Sentado sobre uma xerga, com as costas apoiadas na parede, fumava devagar, soltando suas nuvens de fumaça. Compreendi que não havia dormido e pensei que estava na mesma postura desde o dia anterior, lá pelo meio-dia. "Gaúcho duro", disse em meus adentros, e prometi aguentar sem queixa minha parte de dor.
- Não se acha melhor? - perguntei-lhe.
- Igual, apenas.
- Dormiu?
- Até agorinha, não.
De golpe, e pela primeira vez, esmagaram-me as ligaduras com que haviam imobilizado meu braço. Uma tira de couro de ovelha, com lã para dentro, segurava-me, passada em oito sob o sovaco direito e sobre o ombro esquerdo, toda a parte superior do peito e a espádua. A tira teria uns quatro dedos de largura e apertava que era um contentamento.
- Peiaram-me de lindo - disse em voz alta.
- Foi o outro forasteiro - explicou o machucado -, esse que veio com o senhor.
Tomei confiança, porque o que Don Segundo fizera, bem feito devia estar. Que mais queria? Quebrado da clavícula, com os costilhares contundidos e um golpe na cabeça, eu não podia achar-me como em baile.
Patrocinio trouxe uma chaleira quente, sentou-se no meio da peça e esteve nos cevando doces por mais de uma hora. Para que eu pudesse dormir, colocou uns pelegos atrás da minha cabeça. Ao cabo daquele momento de tranquilidade e conversa, caiu uma curandeira do pago. Era uma velhinha seca como charque e arqueada do espinhaço. Veio para meu lado, saudou-me com tanto carinho como se me houvesse parido, revisou minhas vendas, disse-me sem desvendar que eu estava quebrado bem no meio da clavícula, que tinha uns arranhões no costado direito e que o talho da cabeça ia fechar logo. Depois perguntou quem me havia arrumado como estava e disse que não era necessário mudar nada. Eu a olhava com cada olho como patacão boliviano, sem compreender como sabia tão bem tudo sem sequer me revisar. Pôs a mão sobre minha cabeça e disse:
- Que Deus o abençoe, filho. Dentro de três dias, com licença da Virgem, virei vê-lo. Pode se endireitar se esse é seu gosto, porque está vendado por alguém que sabe e não tem perigo nenhum.
Sem me dar tempo para responder, foi-se arrastando as alpargatas para acudir o outro homem. Fez que ele erguesse a ceroula mais acima do joelho, disse a Patrocinio que trouxesse um cabresto ou um correão e pediu a um dos paisanos que por curiosidade se haviam aglomerado na porta que se aproximasse para ajudá-la.
- Está deslocado - disse.
A velhinha fez que Patrocinio se colocasse atrás do enfermo, passando-lhe o maneador por baixo dos braços, sobre o peito, e segurasse quando o outro paisano puxasse pelo pé, no momento em que ela avisasse.
"Vão estaqueá-lo", pensei com angústia.
- Agora! - disse a velhinha, e, no momento em que o paisano puxou pelo pé e Patrocinio fazia força para trás, ela se apoiou com as duas mãos sobre o joelho enfermo. A dor deve ter sido meio regular, porque de zaino que era o ferido ficou mais amarelo que patinho recém-saído do ovo.
- Está bom - disse a curandeira, e aconselhou que levassem o homem para seu rancho, em algum carrinho ou zorra, porque teria uns vinte dias sem se mover. Dito isso, vendou-o com uns trapos e, depois de agraciá-lo com um "Deus o ajude", tendo-lhe posto a mão sobre a cabeça, foi-se quebradinha do espinhaço como havia entrado.
Mal a curandeira se despediu, vi entrar a moça que, poucas horas antes, me ajudara a tomar água. Em seguida pôs-se a andar de um lado para outro, risonha, ajeitando o companheiro golpeado para que pudessem levá-lo. De minha parte, não a perdia de vista nem um momento. Que chinita mais linda e armadinha! Era de altura regular, tinha uma cara descarada e alegre como canto de pintassilgo, e cada movimento do corpo insultava meus olhos como um relâmpago. Adivinhando minha intenção, olhou-me de soslaio e riu. Seria das casas? Em que boa hora eu havia me quebrado! Contanto que a convalescença durasse ao menos meio mês.
Pouco depois tiraram o paisano, colocando-o sobre um couro de vacuno erguido por dois homens. Levantei-me no quarto só e fui até a porta para presenciar sua partida. Num carrinho de vara, o das carneadas, acomodaram-no, com as costas firmadas contra um dos bastidores.
- Que melhore! - gritei-lhe.
- Igualmente - respondeu. - Agora vamos lindo, apenas! - e soltou as necessárias nuvenzinhas de fumaça, para nos convencer de que continuava sendo o mesmo.
Foi-se o carrinho, e a gente que o despedia entrou na cozinha, para matear, seguramente. Eu também queria ir; não sentia dor nenhuma e, como não me haviam despido, joguei o lenço ao pescoço, mordi uma ponta para poder fazer o nó, ri de minha inabilidade de manco e me aprontei para endireitar à cozinha, que ficava em outro rancho menor, fazendo esquadro com a casa. Antes de chegar à porta para sair, topei com a mocinha risonha.
- Onde vai tão bom? - perguntou-me.
- Bom?... Bom sou, apenas. Manco tenho para um tempo, quando muito, e já o estou sentindo.
- Vai andar laçando outra vez?
- Não... mas as moças vão me procurar briga quando me virem assim, tão incapaz.
- Pobrezinho. Verdade que não está em condição de alçar moças na garupa.
No meio de sua zombaria havia uma aproximação. Eu não queria deixar-me tomar por infeliz, mas já me entravam vontades de procurar-lhe o lado terno. Sério, perguntei-lhe:
- A senhora é daqui?
- Sou de onde mais me agrada.
- E por onde lhe agradaria?
- Aqui mesmo.
- Bendito seja! Eu também seria daqui enquanto a senhora o fosse!
- Deus me livre!
- Deus me livre? Serei tão desgraçado e de tão má presença que nem uma peninha me tenha?
No jogo de puxa e afrouxa, continuávamos sorrindo. Ela se pôs séria e me disse cordialmente:
- Sente-se nesse banquinho. Vou trazer um mate para cevar-lhe, assim não anda caminhando por aí mais do que deve.
Foi-se, obedeci sentando-me no banco e esperei uns dez minutos.
Chegou com uma chaleira, o poronguito e uma ervateira, acomodou-se numa cadeira baixa e, com grande seriedade, como se de repente houvesse perdido a fala, concentrou-se nos preparativos da ceva.
Eu a olhava com uma fome de meses e com a emoção de todo paisano que só por rara casualidade fica frente a frente com uma mulher bonita. E se era bonita! E seus gestos hábeis, e as caretas coquetes de flor de pago que se sabe admirada. E as delicadezas das mãos diligentes. E o mudar de posturas, de puro vício, para ver se me mareava melhor e me tinha preso à sua vida como fita de suas tranças.
O tempo passava.
- Está séria a coisa - disse com malícia.
- Não. Se tudo vai ser chacota.
- Oxalá!
Mudou de tema, sempre zombeteira:
- Dormiram bem no rancho do baixo?
Pensei que o rancho do baixo devia ser o do embruxado.
- Que homem é esse? - perguntei, recordando a magreza seca de Don Sixto Gaitán.
- Um homem bom. Pobre... agorinha tivemos notícias dele. Na noite em que vocês estiveram no rancho, morreu-lhe um filho que estava doentinho.
- O que me diz?
- O que ouve. A qualquer homem pode morrer um filho.
Então, assustado com aquela coincidência e minha lembrança, contei-lhe a loucura de Don Sixto.
A moça se benzeu. Lembrei-me do fim daquela relação que diz:
Quisera lhe dar um beijinho
onde você diz inimigos.
- Mas por que milagre - exclamei - nasceu uma flor num pago tão tioco?
Admitindo com naturalidade o galanteio, explicou-me:
- Eu não sou daqui. Vim com meu irmão Patrocinio para ajudar nestes dias. Aqui há três mulheres que, se o senhor as visse, não andaria gastando saliva com uma pobrezinha esquecida de Deus como eu.
- Não sou Deus - comentei - para esquecê-la tão fácil quando eu me for.
- Bajulador - disse-me, sem riso nem aparente emoção.
- Não sei se...
Nisso entrou Patrocinio.
- Como vai esse corpo, cunhado? - interpelou.
Cunhado? Eu o havia chamado assim todo o dia anterior, sem saber que privilégio isso significava.
- Sabe que vai lindo? - disse-lhe. - Nem sequer me lembro da pancada.
- E eu que pensei que chegaria finado. Umas três vezes o senhor desmaiou pelo caminho. Lembra-se do trabalho que tivemos para erguê-lo no cavalo?
- E como vou me lembrar, se vim morto o caminho todo?
- Não, senhor. Por trechos se compunha e, quando lhe pus o maneador para segurar o braço, o senhor me ajudava e dizia: Mais acima... agora vai bem... assim mesmo.
Fiz todo o possível para recordar aquilo, mas foi inútil. Devia ter falado dormindo. Que longa minha perda de consciência!
Patrocinio dirigiu-se à irmã:
- Vá, Paula, que na cozinha devem estar precisando de você.
Submissamente, a prenda ergueu seus apetrechos e se foi. Patrocinio se sentou e voltou a me falar de meus cavalos:
- E então, cunhado, fechamos negócio?
- Como anda o baio?
- Manco, apenas.
- E tem tanta pressa de trocar de dono?
- Vou lhe dizer, cunhado. Amanhã volto para o rancho.
Adeus, pensei. Vai-se o amigo e a moça, e eu tenho de ficar como tatu de presente nestas casas, onde nem conhecidos tenho. Com razão diz o refrão que "não há golpeado que dê com as casas". Abobalhado pela notícia, nem me ocorreu remédio para a desgraça e me larguei a morto.
- E bueno. Leve-os.
- Temos que nos arranjar pelo preço.
- Será o que o senhor disser.
- Oitenta pesos pelo baio e o lobuno?
- São seus.
Patrocinio ficou um momento como pensativo, depois, despedindo-se com um "até agorinha", deixou-me só.
Levantei-me e dei uns passos pelo quarto, rocei um banco com a perna e, raivoso, atirei-o longe com um pontapé.
Saí para fora. Passei perto de Paula e fiz como se não a visse. Por trás das casas, cruzei a sombra dos paraísos e me apoiei sobre um poste do alambradinho que cercava o pátio, olhando para o campo. Manco ou não manco, coxo e ainda que sem cabeça, eu também iria embora no dia seguinte. Já estava recansado daquela terra descortês, e não haveria diabo que me segurasse, ainda que tivesse um facão de três braçadas.
Tirei o chapéu, cocei a cabeça e pus-me a assobiar um estilo:
Eu me vou, eu me despeço,
eu já me afasto de vós,
fique meu rancho com Deus.
Ao longe vi que Patrocinio aproximava minha tropilha. No dia seguinte, pensei, eu iria com ela. Não há querência melhor que o lombo de seus cavalos para um resero, nem cama mais acomodadinha que suas xergas e seus pelegos. "Não preciso de mais fêmeas que minhas pulgas", disse a mim mesmo.
A voz de Paula me increpou brincalhona:
- Ouça, moço. Vão se lhe ensolarar as lembranças.
Pondo o chapéu, encaminhei-me para ela, desejoso de despejar-lhe em cima meu despeito.
- E a senhora não vai ter tempo de acomodar seus enfeites para amanhã.
- Estamos em baile?
- E como não? De algum modo devemos festejar a despedida.
- Quem se vai? O senhor? Não o vejo tão garboso para que o contratem.
Sua voz se havia posto no tom da minha. Pela primeira vez observei nela um gesto de ácida altivez:
- Por mal composto que eu esteja - repliquei, sem querer ceder -, hei de ir embora assim que vocês forem.
- Vocês?
Os braços me caíram como asas de avestruz cansado. Não compreendia e julguei que devia ter um aspecto regularmente bobo.
- Não vai com Patrocinio? - perguntei.
Encolhendo os ombros e franzindo desdenhosamente os lábios, ela me desafiou:
- Ainda não tenho dono que ande me mandando.
Tradução brasileira de Don Segundo Sombra, romance de formação de Ricardo Güiraldes e clássico da literatura argentina, em torno de Fabio Cáceres, da vida de resero, da pampa e da figura mítica de Don Segundo. Edição consolidada pelo projeto Literunico / Copa.
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