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Don Segundo Sombra

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Don Segundo Sombra

Capítulo 22 · Don Segundo Sombra

XXI

22 de 28 ≈ 20 min de leitura

XXI

Do dia já não restava mais que uma barra de nuvens iluminadas no horizonte quando, por uma lombada, enfrentamos os paraísos velhos de uma tapera.

Don Segundo, revisando o alambrado, viu que podia dar passagem num lugar em que dois fios haviam sido cortados. Talvez uma tropa de carretas tivesse escolhido o sítio para fazer noite, aproveitando um roubinho de pasto para seus animais. Não se via ao redor nenhuma povoação, de sorte que o campo era como de quem o tomasse, e as arvorezinhas, embora em número de quatro somente, deviam ter derrubado algum ramo ou galho que nos servisse para fazer fogo.

Fizemos passar nossas tropilhas para o campo e, depois de termos dessencilhado, juntamos umas biznagas secas, uns punhados de folhas caídas, uns gravetos e um tronco de boa grossura. Acendemos fogo, aproximamos a pavita, na qual despejamos a água de um chifre para matear, e, tranquilos, armamos um par de cigarros da guaiaca, que acendemos nas primeiras labaredas.

Como havíamos feito o fogão perto de um tronco caído de tala, tivemos onde nos sentar, e já dizíamos a nós mesmos que a vida de resero, apesar de tudo, tem suas partes boas como qualquer uma. Creio que a afeição de meu padrinho pela solidão devia influir em mim; o caso é que, rememorando episódios do meu andar, aquelas liberdades perdidas na pampa me pareciam o melhor. Não importava que o pensamento eu o tivesse meio dolorido, empapado de pessimismo, como fica empapada de sangue a manta que chupou a dor de uma pisadura.

De tão grande e tranquilo que era o campo, algo nos presenteava de sua grandeza e de sua indiferença. Assamos a carne e a comemos sem falar. Pusemos sobre as brasas a pavita e cevei uns amargos. Don Segundo me disse, com sua voz pausada e como distraída:

- Vou te contar um conto, para que o repitas a algum amigo quando ele andar na má.

Cevei com mais lentidão. Meu padrinho começou o relato:

"- Isto era no tempo de Nosso Senhor Jesus Cristo e seus apóstolos."

Fiquei um instante à espera. Don Segundo nos deixava cair, assim, num reino de ficção. Íamos viver no fio de um relato. Sairíamos de uma parte para outra. De onde para onde?

"- Nosso Senhor, que, segundo dizem, foi o criador da bondade, costumava andar de povoado em povoado e de rancho em rancho, pela Terra Santa, ensinando o Evangelho e curando com palavras. Nessas viagens, levava por ajudante São Pedro, a quem queria muito, por crente e serviçal.

"Contam que, numa dessas viagens, que muitas vezes eram duras como as do resero, quando estavam para chegar a um povoado, a mula em que ia Nosso Senhor perdeu uma ferradura e entrou a mancar.

"- Repara - disse Nosso Senhor a São Pedro - se não vês uma ferraria, que já estamos entrando no povoado.

"São Pedro, que ia olhando com atenção, divisou um rancho velho de paredes rachadas, que tinha em cima da porta uma tabuleta dizendo: 'ERRARIA'. No mesmo instante contou ao Mestre, e pararam diante do curralão.

"- Ave-Maria - gritaram. E, junto com um cuzquinho ladrador, saiu um ancião esfarrapado que os convidou a entrar.

"- Boas tardes - disse Nosso Senhor. - Poderias ferrar minha mula, que perdeu a ferradura de uma mão?

"- Apeiem-se e passem adiante - respondeu o velho. - Vou ver se posso servi-los.

"Quando, já na peça, se acomodaram sobre umas cadeiras de pernas quebradas e tortas, Nosso Senhor perguntou ao ferreiro:

"- E qual é teu nome?

"- Chamam-me Miséria - respondeu o velho, e foi buscar o necessário para servir aos forasteiros.

"Com muita paciência andou esse servidor de Deus farejando em suas gavetas e suas bolsas, sem achar nada. Acovardado, ia voltar para pedir desculpa aos que estavam esperando, quando, revirando com a bota um monte de lixo e desperdícios, viu uma argola de prata, grandona.

"- Que fazes aqui, tu? - disse-lhe, e, recolhendo-a, foi para onde estava a forja, acendeu o fogo, derreteu a argola, fez a martelo uma ferradura e a pôs na mulinha de Nosso Senhor. Velho sagaz e ladino!

"- Quanto te devemos, bom homem? - perguntou Nosso Senhor.

"Miséria o olhou bem de alto a baixo e, quando acabou de filiá-lo, disse:

"- Pelo que vejo, vocês são tão pobres como eu. Que diabo vou lhes cobrar? Vão em paz pelo mundo, que algum dia talvez Deus me leve isso em conta.

"- Assim seja - disse Nosso Senhor e, depois de se despedirem, os forasteiros montaram em suas mulas e saíram ao sobrepasso.

"Quando já iam retiraditos, diz a Jesus esse São Pedro, que devia ser meio lerdo:

"- Verdade, Senhor, que somos ingratos. Esse pobre homem nos ferrou a mula com uma ferradura de prata, não nos cobrou nada, por mais que seja pobríssimo, e nós vamos embora sem lhe dar sequer uma prenda de amizade.

"- Dizes bem - respondeu Nosso Senhor. - Voltemos até sua casa para conceder-lhe três graças, que ele escolherá a seu gosto.

"Quando Miséria os viu chegar de volta, acreditou que a ferradura se havia desprendido e os fez passar como antes. Nosso Senhor lhe disse a que vinham, e o homem o olhou de esguelha, meio com vontade de rir, meio com vontade de disparar.

"- Pensa bem - disse Nosso Senhor - antes de fazer teu pedido.

"São Pedro, que se acomodara atrás de Miséria, soprou:

"- Pede o Paraíso.

"- Cala a boca, velho - respondeu-lhe por baixo Miséria, para depois dizer a Nosso Senhor:

"- Quero que quem se sente na minha cadeira não possa se levantar dela sem minha licença.

"- Concedido - disse Nosso Senhor. - Vejamos a segunda graça. Pensa-a com cuidado.

"- Pede o Paraíso - voltou a soprar por trás São Pedro.

"- Cala a boca, velho metido - respondeu-lhe por baixo Miséria, para depois dizer a Nosso Senhor:

"- Quero que quem suba em minhas nogueiras não possa descer delas sem minha licença.

"- Concedido - disse Nosso Senhor. - E agora a terceira e última graça. Não te apresses.

"- Pede o Paraíso, teimoso! - soprou por trás São Pedro.

"- Queres ficar calado, velho idiota? - respondeu-lhe Miséria, zangado, para depois dizer a Nosso Senhor:

"- Quero que quem se meta na minha tabaqueira não possa sair sem minha licença.

"- Concedido - disse Nosso Senhor e, depois de se despedir, foi-se.

"Tão logo Miséria ficou só, começou a cismar e, pouco a pouco, foi lhe entrando raiva de não ter sabido tirar mais vantagem das três graças concedidas.

"Também serei tonto! - gritou, atirando contra o chão o chambergo. - O que é, se agorinha mesmo se apresentasse o demônio, eu lhe daria minha alma, contanto que pudesse pedir-lhe vinte anos de vida e dinheiro à discrição.

"Nesse mesmo momento, apresentou-se à porta do rancho um cavalheiro que lhe disse:

"- Se quiseres, Miséria, eu posso te apresentar um contrato, dando-te o que pedes.

"E já tirou do bolso um rolo de papel com escrituras e numerozinhos, muito bem acondicionado. E ali leram juntos as letras e, estando conformes no trato, assinaram os dois com muito pulso em cima de um selo que o rolo trazia."

- Estourou a égua o laço! - comentei.

- Agora verás. Fica quieto para aprender como segue o conto.

Olhamos ao redor, a noite, como para não perder contato com nossa existência atual, e meu padrinho prosseguiu:

"- Tão logo o Diabo se foi e Miséria ficou só, apalpou a bolsa de ouro que Mandinga lhe havia deixado, mirou-se no bebedouro dos patos, onde viu que estava moço, e foi ao povoado comprar roupa, pediu quarto na fonda como senhor e dormiu essa noite contente.

"Amigo, havia de ver como mudou a vida desse homem. Tratou com príncipes e governadores e alcaides, jogava como ninguém nas carreiras, viajou por todo o mundo, teve trato com filhas de reis e marqueses...

"Mas bem dizem que depressa passam os anos quando se empregam desse modo, de sorte que se cumpriu o ano vigésimo e, num momento casual, em que Miséria viera rir-se de seu rancho, apresentou-se o diabo com o nome do cavalheiro Lilí, como da outra vez, e pelou o contrato para exigir que lhe fosse pago o combinado.

"Miséria, que era homem honrado, embora meio tristonho, disse a Lilí que o esperasse, que ia lavar-se e vestir roupa boa para apresentar-se ao Inferno como era devido. Assim o fez, pensando que, afinal, todo laço se corta e que sua felicidade terminara.

"Ao voltar, encontrou Lilí sentado em sua cadeira, aguardando com paciência.

"- Já estou arrumado - disse-lhe. - Vamos indo?

"- Como havemos de ir - respondeu Lilí - se estou grudado nesta cadeira como por encanto!

"Miséria lembrou-se das virtudes que lhe concedera o homem da mula e entrou-lhe uma risada tremenda.

"- Endireita-te, pois, frouxo, se és diabo! - disse a Lilí.

"À toa este fez a cadeira corcovear. Não pôde alçar-se nem um tiquinho e suava, olhando para Miséria.

"- Então - disse-lhe o que foi ferreiro -, se queres ir embora, assina-me outros vinte anos de vida e dinheiro à discrição.

"O demônio fez o que Miséria lhe pedia, e este lhe deu licença para que se fosse.

"Outra vez o velho, remoçado e endinheirado, voltou a correr mundo: tratou com príncipes e magnatas, gastou dinheiro como ninguém, teve trato com filhas de reis e de comerciantes fortes...

"Mas os anos, para quem se diverte, fogem depressa, de sorte que, cumprido o vigésimo, Miséria quis dar fim cabal à sua palavra e rumou ao pago de sua ferraria.

"A tudo isso Lilí, que era meio linguarudo e alcoviteiro, havia contado nos infernos o encanto da cadeira.

"- É preciso andar de olho alerta - havia dito Lúcifer. - Esse velho está protegido e é ladino. Dois serão os que vão buscá-lo no fim do trato.

"Por isso foi que, ao apeiar no rancho, Miséria viu que o estavam esperando dois homens, e um deles era Lilí.

"- Passem adiante; sentem-se - disse-lhes - enquanto eu me lavo e me visto, para entrar no Inferno como é devido.

"- Eu não me sento - disse Lilí.

"- Como quiserem. Podem passar ao pátio e baixar umas nozes, que seguramente serão as melhores que terão comido em sua vida de diabos.

"Lilí não quis saber de nada, mas, quando se acharam sós, seu companheiro lhe disse que ia dar uma volta por baixo das nogueiras, a ver se podia recolher do chão alguma noz caída e prová-la. Pouco depois voltou, dizendo que havia encontrado uma parelhinha e que, ao comê-las, ninguém poderia negar que eram as mais ricas do mundo.

"Juntos foram para dentro e começaram a procurar sem achar nada.

"Nisso, ao diabo amigo de Lilí se havia esquentado a boca, e disse que ia subir na planta para continuar se regalando com o manjar. Lilí advertiu-o de que era preciso desconfiar, mas o guloso não fez caso e subiu às árvores, onde começou a tragar sem descanso, dizendo de tempos em tempos:

"- Mas que boas! Mas que boas!

"- Atira-me umas quantas - gritou-lhe Lilí, de baixo.

"- Lá vai uma - disse o de cima.

"- Atira-me outras quantas - voltou a pedir Lilí, tão logo comeu a primeira.

"- Estou muito ocupado - respondeu-lhe o comilão. - Se queres mais, sobe na árvore.

"Lilí, depois de cismar um pouco, subiu.

"Quando Miséria saiu da peça e viu os dois diabos na nogueira, entrou-lhe uma risada tremenda.

"- Aqui estou às suas ordens - gritou-lhes. - Vamos quando vocês quiserem.

"- É que não podemos descer - responderam-lhe os diabos, que estavam como grudados aos ramos.

"- Bonito - disse-lhes Miséria. - Então assinem-me outra vez o contrato, dando-me outros vinte anos de vida e dinheiro à discrição.

"Os diabos fizeram o que Miséria lhes pedia, e este lhes deu licença para que descessem.

"Miséria voltou a correr mundo, e tratou com gente graúda, e atirou dinheiro, e teve amores com damas de primeira...

"Mas os anos entraram a disparar, como antes, de sorte que, ao chegar o ano vigésimo, Miséria, querendo dar pagamento a sua dívida, lembrou-se da ferraria em que havia sofrido.

"A tudo isso, os diabos no Inferno haviam contado a Lúcifer o sucedido, e este, zangadíssimo, lhes havia dito:

"- Caneco! Não lhes preveni que andassem com esmero, porque esse homem era por demais ladino? Desta volta que vem, iremos todos ver se nos escapa.

"Por isso foi que Miséria, ao chegar a seu rancho, viu mais gente reunida que numa jogada de taba. Mas essa gente, acomodada como um exército, parecia estar à ordem de um mandão com coroa. Miséria pensou que o próprio Inferno havia se mudado para sua casa e chegou, olhando como pato para o arreio, a esse povoado de diabos. 'Se escapo desta', disse a si mesmo, 'é certo que já nunca perco.' Mas, fazendo-se de muito sereno, perguntou àquela gente:

"- Querem falar comigo?

"- Sim - respondeu forte o da coroa.

"- Ao senhor - retrucou Miséria - não assinei contrato nenhum, para que venha tomando velas neste enterro.

"- Mas vais me seguir - gritou o coroado -, porque eu sou o Rei dos Infernos.

"- E quem me dá o certificado? - alegou Miséria. - Se o senhor é o que diz, deve poder fazer, decerto, que todos os diabos entrem em seu corpo e que o senhor se torne uma formiga.

"Outro teria desconfiado, mas dizem que aos maus a raiva e o orgulho sabem perder, de modo que Lúcifer, cego de furor, deu um grito e no mesmo momento passou à forma de uma formiga, que levava dentro todos os demônios do Inferno.

"Sem demora, Miséria agarrou o bichinho que caminhava sobre os tijolos do piso, meteu-o em sua tabaqueira, foi para a ferraria, colocou-a sobre a bigorna e, com um martelo, arrastou-se a bater nela com toda a alma, até que a camiseta ficou empapada de suor.

"Então refrescou-se, mudou-se e saiu a passear pelo povoado.

"Bem haja, velhinho sagaz! Todos os dias colocava a tabaqueira sobre a bigorna e lhe dava tamanha surra, até empapar a camiseta, para depois sair a passear pelo povoado.

"E assim foram-se os anos.

"E resultou que já no povoado não houve brigas, nem pleitos, nem alegações. Os maridos não castigavam as mulheres, nem as mães os filhos. Tios, primos e enteados se entendiam como Deus manda; não saía a viúva, nem o porco; não se viam luzes más e os enfermos sararam todos; os velhos não acabavam de morrer e até os cães ficaram virtuosos. Os vizinhos se entendiam bem, os baguais não corcoveavam mais que de alegria e tudo andava como relógio de rico. Ora, se nem era preciso baldear os poços, porque toda água era boa."

- Ahahá! - apoiei alegremente.

- Sim - arguiu meu padrinho -, não vá te apressando.

"Assim como não há caminhos sem aclives, não há sorte sem desgraças, e veio a suceder que advogados, procuradores, juízes de paz, curandeiros, médicos e todos os que são autoridade e vivem da desgraça e dos vícios da gente começaram a ficar murchos de fome e foram morrendo.

"E um dia, assustados, os que restavam dessa corja se endireitaram para a casa do Governador, a pedir-lhe ajuda pelo que lhes sucedia. E o Governador, que também entrava na partida dos castigados, disse-lhes que nada podia remediar e lhes deu um dinheiro do Estado, advertindo-os de que era a única vez que o fazia, porque não era obrigação do Governo andar ajudando-os.

"Passaram uns meses e já os procuradores, juízes e outros bichos iam minguando por terem passado os mais a melhor vida, quando um deles, o mais pícaro, veio a maliciar a verdade e convidou todos a voltarem à casa do Governador, prometendo-lhes que ganhariam o pleito.

"Assim foi. E quando estiveram diante do magnata, o procurador disse a Sua Excelência que todas essas calamidades aconteciam porque o ferreiro Miséria tinha encerrados em sua tabaqueira os Diabos do Inferno.

"No ato, o mandão mandou trazer Miséria e, na presença de todos, largou-lhe um discurso:

"- Ahá, és tu? Bonito andas pondo o mundo com tuas bruxarias e encantos, velho indigno! Agorinha vais deixar as coisas como estavam, sem te meter a redimir culpas nem castigar diabos. Não vês que, sendo o mundo como é, não pode passar sem o mal, e que as leis e as enfermidades e todos os que vivem delas, que são muitos, precisam que os diabos andem pela terra? Neste mesmo momento vais a trote e largas os Infernos da tua tabaqueira.

"Miséria compreendeu que o Governador tinha razão, confessou a verdade e foi para sua casa cumprir o mandado.

"Já estava por demais velho e aborrecido do mundo, de sorte que ir-se dele pouco lhe importava.

"Em seu rancho, antes de largar os diabos, pôs a tabaqueira na bigorna, como era seu costume, e pela última vez lhe deu uma boa esfrega, até que a camiseta ficou empapada de suor.

"- Se eu os largar, vão andar incomodando por aqui? - perguntou aos mandingas.

"- Não, não - gritavam estes de dentro. - Larga-nos e te juramos não voltar nunca por tua casa.

"Então Miséria abriu a tabaqueira e os licenciou para que se fossem.

"Saiu a formiguinha e cresceu até ser o Maligno. Começaram a brotar do corpo de Lúcifer todos os demônios e, de repente, num tropel, tomou essa diabrada por essas ruas de Deus, levantando uma poeirada como nuvem de tormenta.

"E agora vem o fim:

"Já Miséria estava nas últimas baforadas do cigarro, porque a todo cristão chega o momento de entregar a ossada, e ele bastante a havia usado.

"E Miséria, pensando fazê-lo melhor, foi se deitar sobre suas enxergas para esperar a morte. Lá, em seu quartinho de pobre, achou-se tão aborrecido e desganado que nem se levantava sequer para comer nem tomar água. Devagarinho foi se consumindo, até que ficou duro e como ressecado pelos anos.

"E agora é que, tendo deixado o corpo para os bichos, Miséria pensou no que lhe restava fazer e, sem demora, porque não era tonto, o homem se endireitou para o Céu e, depois de uma viagem longa, bateu à porta dele.

"Assim que a porta se abriu, São Pedro e Miséria se reconheceram, mas ao velho pícaro não convinham essas lembranças e, fazendo-se de porco manco, pediu licença para passar.

"- Hum! - disse São Pedro. - Quando estive em tua ferraria com Nosso Senhor, para conceder-te três graças, eu te disse que pedisses o Paraíso e tu me respondeste: 'Cala a boca, velho idiota'. E não é que eu te guarde rancor, mas não posso te deixar passar agora, porque, tendo-te oferecido três vezes o Céu, tu te negaste a aceitá-lo.

"E, como ali mesmo o porteiro do Paraíso fechou a porta, Miséria, pensando que de dois males é preciso escolher o menos pior, rumou para o Purgatório, a provar como andaria.

"Mas, amigo, ali lhe disseram que só podiam entrar as almas destinadas ao Céu e que, como ele nunca poderia chegar a essa glória, por tê-la negado na oportunidade, não podiam guardá-lo. Cabia-lhe cumprir as penas eternas no Inferno.

"E Miséria se endireitou para o Inferno e bateu à porta, como antes batia na tabaqueira sobre a bigorna, fazendo chorar os diabos. E abriram-lhe, mas que raiva não lhe daria quando se encontrou cara a cara com o mesmo Lilí.

"- Maldita minha sorte - gritou -, que onde quer que eu ande hei de ter conhecidos!

"E Lilí, lembrando-se das surras, saiu que queimava, com a cauda como bandeira de comissaria, e não parou até os pés do próprio Lúcifer, a quem contou quem estava de visita.

"Nunca os diabos tinham levado tamanho susto, e o próprio Rei dos Infernos, lembrando também o rigor do martelo, pôs-se a gritar como galinha choca, ordenando que fechassem bem todas as portas, não fosse entrar semelhante velhaco.

"Aí ficou Miséria, sem entrada em lado nenhum, porque nem no Céu, nem no Purgatório, nem no Inferno o queriam como sócio, e dizem que é por isso que, desde então, Miséria e Pobreza são coisas deste mundo e nunca irão a outra parte, porque em nenhuma querem admitir sua existência."

Uma hora teria durado o relato, e a água havia acabado. Levantamo-nos em silêncio para acomodar nossas prendas.

- Pobreza! - disse, esticando minha manta onde ia me deitar.

- Miséria! - disse, acomodando o cojinilho que me serviria de travesseiro.

E me larguei sobre este mundo, mas sem sofrer, porque logo em seguida estava como tronco derrubado a machadadas.

Don Segundo Sombra

Sinopse

Tradução brasileira de Don Segundo Sombra, romance de formação de Ricardo Güiraldes e clássico da literatura argentina, em torno de Fabio Cáceres, da vida de resero, da pampa e da figura mítica de Don Segundo. Edição consolidada pelo projeto Literunico / Copa.

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