Universo da obra
Universo da obra
Sentindo-me merecedor dos mesmos apelidos que o velho ferreiro, encilhei de madrugada um dos meus três cavalos. Pouca coisa para um resero. Como eu iria ganhar a vida? Ninguém quereria me contratar em tal estado de inutilidade. Um gaúcho a pé é coisa boa para ser atirada ao valo do lixo.
A manhã não dizia nem palavra. A vacaria que devia haver naqueles campos, vista sua riqueza de pastos, ainda não havia começado a viver, e a duras penas uns passarinhos cantavam baixinho, como uma torneira que goteja.
Um céu cinzento, enrugado como as areias da praia que conheci nos maus pagos das minhas aventuras, anunciava tormenta. A tormenta que sentíamos na moleza dos correões, das rédeas e da lonja do rebenque, mais frouxa que muco de peru.
Mas que descanso mais lindo o daquela noite, e que gosto mover-se no ar grande que nos caía de todos os lados no corpo, como carinho!
Ali íamos, sempre pelo beco ou cortando campo, na cola dos nossos pingos, acostumados a bisbilhotar novidades com as orelhas em pé.
Chegamos, depois de quatro dias de marcha, a uma estância nova.
O arvoredo tenro mal assomava umas varas do chão e as casas caiadas, frescas, pareciam grandes com seu mirante pretensioso e seus caminhos e canteiros, luzentes como roupa de domingo.
O patrão era jovem. Andava bem montado e seu trato com o paisanaje dava confiança.
Disse-nos que tinha uns potros baios, caso quiséssemos dar-lhes os primeiros galopes, e que, sendo doze, regalava dois pela amansadura.
Antes que meu padrinho tomasse cartas no assunto, ofereci-me para a changa. Que diabos! Eu era forte e tinha fé em mim. Minhas primeiras provas já estavam feitas e, embora aquele fosse meu estreamento de domador, eu sacudiria o pó sobre os bastos como se fosse acostumado. A necessidade, dizem, tem cara de herege, e eu não andava em condições de me mostrar mais delicado do que era. Não veria o outro lado, o da sorte? A ocasião se apresentava como eu a esperara durante muito tempo. Dois baios são princípio de uma tropilha de baios, e aquela coincidência com meus desejos me infundiu audácia.
Quando ficamos sós, meu padrinho me filiou de soslaio, sorrindo. Aguentei com indiferença aquele princípio de troça e, como visse meu padrinho que meu compromisso não saía de uma tolice, mas de necessidade, disse-me que ele podia aliviar-me do trabalho, tomando por sua conta cinco dos doze baguais.
Por sorte foi assim. Os sete potros me deram trabalho suficiente.
Eu os encilhava apressado, como num sonho, seguindo ao pé da letra os conselhos de Don Segundo que, ao meu lado, ora alcançando-me alguma pilcha, ora apadrinhando-me, guiava-me passo a passo, sabiamente. Agarrávamos um por turno e, embora me coubesse o primeiro e o último, eu tinha a ilusão de uma tarefa por partes iguais, sem contar a vantagem de descansar entre animal e animal.
Éramos quatro no curral de paus a pique. O patrão, a cavalo entre nós, não nos perdia passo, nem desperdiçava ocasião de ajudar-nos com alguma brincadeira. Como seria ele num aperto?, perguntava-me por dentro.
Que susto eu tinha quando encilhei o primeiro! As pernas me escapavam de debaixo do corpo e eu me atrapalhava com os detalhes, que por sorte eram todos previstos por meu padrinho.
O mais velho dos homens que nos ajudavam, montado num tostado atarracado, laçava os potros que nós derrubávamos com um pial, para embuçalá-los e pôr-lhes as rédeas no chão. Depois os amarrávamos a um pau, com duas ou três voltas de maneador, e lhes púnhamos os couros. De minha parte, não perdia os potros de vista, espiando indícios que pudessem me anunciar algum perigo: seria frouxo de cincha, iria me bolear? Enquanto isso, ao encilhar, tinha que me cuidar de coices, manotaços, arremetidas e quedas.
Tudo está em começar bem, porque logo o otimismo cresce e a gente se ajeita com maior empenho, desde que não queira se sobrar.
- Não os provoquem - havia dito o patrão -, mas, no que corcovear, lenha até afrouxar!
Por que então eu haveria de provocar o de crinas brancas, que me tocou de estreia? Deixei-o correr, sem me gastar de entrada, e o rematei na volta com uns puxões bem sentidos.
- Ganhaste uma - disse-me o patrão.
E, embora não respondesse nada, senti-me como envergonhado. Eu me acreditava, em verdade, capaz de ganhar algumas que não se me apresentassem tão fáceis.
Por certo, os baios resultaram menos duros de pelar do que poderiam ter sido, mediando pior sorte. Corcoveavam direito ou sem maior empenho e eu já quase estava ficando com vergonha e vontade de lhes buscar briga, quando um, o quinto, veio me tirar o gosto na medida em que eu podia pedir.
O patrão sorria.
Dado que o bicho era um dos que serviam de pagamento pelo trabalho, maliciei uma cilada. Como, se não tivesse algum defeito ou manha de chucro, o haviam escolhido para se desfazer dele, sendo o de melhor presença?
Não querendo passar por tonto, disse alto ao homem do tostado:
- Este é o de provar os forasteiros, não?
O paisano não respondeu senão meneando a cabeça, e o patrão conservou seu sorriso. Muito bem. Queriam na bruta?... Pois na bruta andaríamos. Mas a jogada estava feita verdadeiramente com picardia, pois, sendo o potro um dos que iam ficar em minhas mãos, eu não queria estragá-lo com uma rebenqueada maior.
Deixou-se encilhar sem muitas cócegas. Mau cheiro eu ia tomando do negócio.
Todos estávamos como em missa.
Enquanto o tiravam para a praia e o agarravam pela orelha, ajeitei as botas, para poder sustentar com mais firmeza os estribos, e ajustei bem a vincha, não fosse o cabelo vir me cegar no melhor.
Quando lhe boleei a perna, senti que tinha o lombo arqueado como o de um barril e me acomodei o mais forte que pude. Colhendo-me bem firme, disse devagar, sem ostentação, pois o assunto não estava para bravatas:
- Largue-o, nada mais.
Maliciava atrás de mim o sorrisinho do patrão, mas não era coisa de perder a cabeça. Num segundo de tempo pensei em cruzar-lhe o focinho com um lonjaço e descartei tal propósito, pois com isso me poria à disposição de qualquer capricho do animal. Melhor era estudar-lhe os vícios. Por sorte, meu padrinho tomou a iniciativa.
- Firma-te! - disse-me, e envolveu as patas do potro com um arreadorazo.
O animal se lançou, manoteando o ar, e travou-se em dois corcovos duros, para voltar-se contra mim, num cimbrão, sobre o lado do laço, com o que perdeu o pé. Quis abri-lo, mas alcançou a me apertar o tornozelo por um momento, pois logo se endireitou, ficando à espera como no princípio. No entanto, algo eu havia perdido, e era que sentia o pé dolorido; algo também havia ganhado, e era que, apesar de tratar-se de um reservado, ele não pôde, em sua astúcia e baquia, me desacomodar nem um tiquinho.
Meu melhor ganho estava em que Don Segundo já havia visto do que se tratava. Compreendi-o porque me disse:
- Não lhe baixe o rebenque.
Pela segunda vez o açoitou pelas patas, e o baio se lançou. A partida ia lhe resultar mais dura, pois, mandado por meu padrinho, cruzei-lhe o focinho com um rebenque e, quando como antes se cravou a corcovear, miudei-lhe açoites pela cabeça sem lhe dar folga. Tão logo quis parar, Don Segundo o apurou a laçaços, para tirar-lhe a manha de voltar-se sobre o corcovo. Entrando no jogo, aumentei a dose de lonja, coisa que me permitia fazer estalar o rebenque, ao mesmo tempo que atordoava o bruto. E, vendo minha resistência aos sacudões, esquentou-me o corpo e comecei a espancar o baio, no compasso, repetindo como um estribilho o dito do patrão:
- No que corcovear, lenha! E lenha! E lenha!
E saímos pela praia, já sem sentadas nem voltas, arrastados por uma furiosa corcoveada. Não houve nada a fazer: nós a tínhamos ganhado desde o primeiro puxão, e a seguimos ganhando até o fim. As rédeas não me serviam para me firmar, porque o bruto sacudia tanto a cabeça que chegava a me bater nos estribos. Mas no próprio compasso da rebenqueada eu havia encontrado uma base de equilíbrio, que não perdi até voltar à própria porta do curral, onde de um puxão fiz o baio sentar sobre os garrões. E já lhe baixei os couros.
O patrão se aproximava de nós a cavalo. Com satisfação, vi que já não sorria, passando, ao contrário, uma mão pensativa sobre o bigode.
Com um tom de elogio me disse:
- Que padrinho tens, rapaz!
- E - respondi -, não me ajudando o corpo, com alguma coisa eu devia contar para um aperto.
- Não é que te falte com que te desempenhar - retrucou -, mas aquele homem - insistiu, aludindo a Don Segundo - não me parece ser como qualquer um dos muitos que somos.
Em silêncio, concluímos nossa tarefa. O último dos baguais se sacudiu um pouco, mas, depois do passado, pareceu-me um brinquedo.
Deixando os doze animais palanqueados com fortes sogas, fomos para a estância.
O ofício de domador tem seus descansos, graças a Deus, e, embora a peonada andasse em suas tarefas de campo e não fossem mais que dez da manhã, nós tínhamos o direito de matear ou arrumar nossas lonjas e arreios nas casas, sem receber ordens de ninguém.
Como eu tinha o tornozelo um pouco inchado e dolorido, por causa do aperto, fui até um poço, perto da cozinha, tirei um balde de água e, com uma canequinha, depois de me descalçar, pus-me a refrescar a parte golpeada.
Aliviadinho pela água e com o corpo meio desencaixado por causa da doma, fiquei sem outro pensamento senão banhar a dor por um longo tempo.
Olhava o galpão grande, a trilha que dele arrancava até o poço, os currais um pouco afastados, as cabeceadas que davam ao vento umas casuarinas novas que assinalavam o princípio do monte, um casalzinho de cabecinhas-pretas que vinha beber no sulco de água, nascido seguramente das baldeações...
O homem que nos havia ajudado de manhã, laçando os potros, veio do lado do galpão pela trilha, até parar diante de mim:
- Tenho um recado para o senhor - disse-me.
- O senhor dirá.
- É do ofício?
- Que ofício?
- Domador.
- Não, senhor, sou resero. Somente assim, quando a ocasião se oferece de ganhar uma changa...
- E não gostaria de ficar aqui, de domador? Manda-me o patrão para lhe oferecer o trabalho. Eu já estou velho e levo trinta anos no ofício. Aqui vêm domadores pelo tempo da amansadura, e se vão. O patrão, até agorinha, não quis contratar nenhum para que ficasse.
Fomos caminhando até o galpão. A proposta me lisonjeava, mas viver separado de meu padrinho me parecia impossível.
- Para mim sozinho é o recado?
- Para o senhor sozinho.
Sob o beiral do galpão, pus-me a espalhar minhas pilchas a fim de que arejassem. Don Segundo não estava. O patrão veio logo depois e, olhando para o homem do tostado, perguntou:
- E então?
- Ainda não me respondeu. Eu lhe dei o parte.
- Como te chamas? - perguntou-me o patrão.
- Quisera sabê-lo, senhor.
O patrão franziu o cenho.
- Não sabes de onde vens tampouco?
- De onde virá esta mantinha? - comentei como para mim.
- De modo que nem teus pais quererás nomear?
- Pais? Não sou filho senão do rigor; fora disso, casta não tenho nenhuma; nos meus pagos alguns me chamam "o Guacho".
O patrão puxou os bigodes, depois me olhou de frente. Nunca ninguém me havia olhado tão de frente e tão por partes.
- Razão de sobra - disse-me - para que fiques comigo.
- Sinto deveras, senhor, mas tenho compromissos que não posso deixar de cumprir. O senhor me desculpará..., e muito obrigado de todo modo.
O homem se foi.
Sentamo-nos com o domador, sob o beiral. Parece que o dia estava especial para os conselhos, pois meu companheiro, depois de ter batido o chão pensativamente com o rebenque durante um tempo, disse-me:
- Veja, mocinho. Não é que eu queira me meter em seus assuntos, mas não rejeite a oferta antes de pensá-la. O patrão, embora seja meio mandão para o trabalho, é serviçal quando quer. Mais de um homem saiu do campo com sua tropilha ou sua majada... e até eu mesmo, embora trabalhando forte, é certo, consegui assegurar minha tranquilidade para minha velhice e meus filhotes. Don Juan é generoso na ocasião. Sabe abrir a mão grandona, e é fácil que lhe resvalem uns patacões.
- Veja, senhor - respondi no ato -, não é que eu queira desmerecer ninguém, nem que ignore o que vale uma vontade, mas vê aquele homem? - disse, apontando Don Segundo, que vinha do curral, trazendo devagar seu chiripá, familiar para mim, seu chambergo pequeno e uns maneadores enrolados. - Pois bem, esse homem também tem a mão larga... e, Deus me perdoe, mais larga quando sacou a faca...; mas, igual ao seu patrão, sabe abri-la muito grande, e o que nela se pode achar não são patacões, senhor, mas coisas da vida.
O domador se levantou, bateu-me nas costas e foi-se, de repente emudecido. Eu fiquei muito brando.
E que diabos me havia vindo de golpe, para que quisessem que eu ficasse, e me batessem no lombo, e andassem comigo com considerações?
Tradução brasileira de Don Segundo Sombra, romance de formação de Ricardo Güiraldes e clássico da literatura argentina, em torno de Fabio Cáceres, da vida de resero, da pampa e da figura mítica de Don Segundo. Edição consolidada pelo projeto Literunico / Copa.
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