Universo da obra
Universo da obra
A lagoa fazia na margem uns flequinhos crivados. Pela parte média, nuns juncais ralos, gritavam os pássaros selvagens.
Uma grande fadiga pesava em meu corpo e em meus pensamentos, como um fastio de seguir sempre no mundo semeando fatos inúteis.
Eu ia passar um momento triste, o momento que em minha vida representaria, mais do que qualquer outro, um desprendimento.
Três anos haviam transcorrido desde que cheguei, como um simples resero, para me transformar em patrão de minhas herdades. Minhas herdades! Podia olhar ao redor, em redondo, e dizer a mim mesmo que tudo era meu. Essas palavras nada queriam dizer. Quando, em minha vida de gaúcho, pensei andar por campos alheios? Quem é mais dono da pampa que um resero? Sugeriu-me um sorriso o simples fato de pensar em tantos donos de estância, metidos em suas casas, corridos sempre pelo frio ou pelo calor, assustados por qualquer perigo que lhes impusesse um cavalo arisco, um touro embravecido ou uma tormenta de vento forte. Donos de quê? Alguns retalhos de campo figurariam como seus nos mapas, mas a pampa de Deus havia sido bem minha, pois suas coisas foram minhas amigas por direito de força e baquia.
Está visto que em minha vida a água é como um espelho em que desfilam as imagens do passado. Às margens de um arroio resumi outrora minha infância. Dando de beber a meu cavalo na picada de um rio, revisei cinco anos de andanças gaúchas. Por último, sentado sobre a pequena barranca de uma lagoa, em minhas posses, consultava mentalmente meu diário de patrão.
Se ao receber meu campo das mãos de Don Leandro eu tivesse seguido meu sentir, andaria ainda deixando o rastro de minha tropilha por terras de eterna novidade. Duas coisas me decidiram então a mudar de parecer: os conselhos de meu tutor, apoiados em claras razões, e o reforço que destes me chegava pela boca de meu padrinho. Argumento mais sólido foi receber de Don Segundo a aceitação de ficar no campo.
Quase demais está dizer que, nos dois primeiros anos, vivi no rancho de meu padrinho. Desde minha chegada, por certo, não olhei a casa principal como residência de escolha. Conservava eu muito vívido um instinto selvagem, que me fazia fazer cama ao relento e escapar de todo confinamento. Também continuei levantando-me ao alvorecer e deitando-me ao cair do sol, como as galinhas.
A casa grande e vazia, povoada de móveis sérios como minhas tias, não me via senão de passagem. Seus vastos aposentos seguiam sendo do outro homem, cuja memória eu não podia me acostumar a encarar como a de um pai. E, além disso, parecia-me que também ela ia morrer, significando sua presença apenas uma lembrança fria. Se eu tivesse me atrevido, teria mandado derrubá-la, como se degola, por compaixão, um animal que sofre.
Como o potreiro a cargo de Don Segundo ficava lindando com o campo dos Galván, reuníamo-nos frequentemente com Raucho. Nossa amizade se havia selado logo, oferecendo-nos como prenda de simpatia o gosto de trocar potros. Ele me deu os primeiros galopes a uns baios, que me presenteou para entabular a tão desejada tropilha dessa pelagem. Eu lhe correspondi de igual modo e em igual quantidade, com uns alazões. Mutuamente servimos de padrinhos durante a amansadura. Nosso companheirismo, por certo, não poderia ter se cimentado melhor, nem de modo mais gaúcho. Para dois rapagões que andavam a cavalo, de sol a sol, era uma forma de estar sempre presentes um para o outro.
Nosso trato era frequente na casa de Don Segundo, sem contar os dias em que Don Leandro nos chamava a seu lado, para nos ensinar o manejo de um estabelecimento. Mas na casa de meu padrinho passávamos os melhores momentos, mão a mão com o mate ou uma guitarra no meio, enquanto o grande homem nos contava fantasias, relatos ou episódios de sua vida, com uma admirável limpidez e graça que tentei evocar nestas lembranças.
Foi em consequência dessas conversas que Raucho acabou me influenciando com gostos seus. Sabia uma barbaridade quanto a leituras e livros. Emprestando-me alguns, falava-me longamente deles. Mas que diferença! Enquanto eu me via limitado não só pelo idioma mas por minha falta de costume, ele lia com extraordinária facilidade, tanto em francês, italiano e inglês quanto em espanhol. Ao lado disso, Raucho me parecia às vezes uma criatura livre de dores, sem verdadeiro batismo de vida. Outro motivo de sua conversa era o de suas aventuras e diversões. Que acreditava que iria encontrar? A vida, a meu entender, estava tão cheia que querer acrescentar-lhe novas combinações me parecia lamentavelmente infantil. Meus argumentos simples nada podiam contra sua fantasia, e no fim eu o deixava desafogar-se a seu gosto. Meu nascimento, por outra parte, impedia-me de encarar qualquer amorio como uma diversão.
Com tudo isso, pouco a pouco, eu ia formando um novo caráter e novas afeições. A meu andar cotidiano somava minhas primeiras inquietudes literárias. Buscava instruir-me com tenacidade.
Mas não quero falar de tudo isso nestas linhas de alma simples. Basta dizer que a educação que me dava Don Leandro, os livros e algumas viagens a Buenos Aires com Raucho foram me transformando exteriormente no que se chama um homem culto. Nada, entretanto, me dava a satisfação potente que eu encontrava em minha existência rústica.
Embora não me negasse aos novos modos de vida e encontrasse um acre gosto em meu aprendizado mental, restava em mim do passado algo inadaptado e arisco.
E essa tarde eu ia sofrer o pior golpe.
Olhei o relógio. Eram cinco. Montei a cavalo e fui para o lado do beco, onde encontraria meu padrinho. Resultava já impossível retê-lo, depois de tanta insistência inútil. Ele era feito para ir-se, sempre, e três anos de permanência em um lugar o haviam saturado de imobilidade. Demais sentia eu em mim a sugestão absorvente de todo caminho para não compreender que, em Don Segundo, rastro e vida eram uma só coisa. E ter eu que ficar!
Cumprimentamo-nos como sempre.
Lado a lado, tranqueando, fizemos uma légua pelo beco. Entramos num potreiro, para cortar campo, e chegamos até a lomba chamada "do Touro Pampa", onde havíamos combinado nos despedir. Não falávamos. Para quê?
Ao toque de sua mão rude, recebi um mandato de silêncio. Tristeza era covardia. Voltamos a desejar-nos, com um sorriso, a melhor das sortes. O cavalo de Don Segundo virou a garupa para o meu, e realizei, naquela divergência de direção, tudo o que ia separar nossos destinos.
Vi-o afastar-se ao tranco. Meus olhos adormeciam no familiar de suas atitudes. Por um tempo ignorei se via ou evocava. Eu sabia como levantaria o rebenque, abrindo um pouco a mão, e como jogaria o corpo para a frente, iniciando o impulso do galope. Assim foi. O trote de transição sacudiu-lhe o corpo como uma alegria. E foi o compasso conhecido dos cascos trilhando distância: galopar é reduzir lonjura. Chegar não é, para um resero, mais que um pretexto de partir.
Pelo caminho, que fingia um arroio de terra, cavalo e ginete repecharam a lomba, difundidos no cardal. Por um momento a silhueta dupla se perfilou nítida sobre o céu, enviesado por um esverdeado raio de entardecer. Aquilo que se afastava era mais uma ideia que um homem. E bruscamente desapareceu, ficando minha meditação separada de seu motivo.
Disse a mim mesmo: "agora vai baixar pelo lado da canhada. Só quando cruzar o rio, eu o verei assomar no segundo repecho." O anoitecer vencia lento, seguro, como quem não está turbado por um resultado duvidoso. Umas nuvens tênues faziam longas estrias de luz.
A silhueta reduzida de meu padrinho apareceu na lombada. Pensei que era muito cedo. No entanto era ele; eu o sentia porque, apesar da distância, não estava longe. Minha vista se cingia energicamente sobre aquele pequeno movimento na pampa sonolenta. Já ia chegar ao alto do caminho e desaparecer. Foi se reduzindo como se o cortassem de baixo em repetidos talhos. Sobre o ponto negro do chambergo, meus olhos se aferraram com afã de fazer perdurar aquele vestígio. Inútil: algo nublava minha vista, talvez o esforço, e uma luz cheia de pequenas vibrações se estendeu sobre a planície. Não sei que estranha sugestão me propunha a presença ilimitada de uma alma.
"Sombra", repeti a mim mesmo. Depois pensei quase violentamente em meu pai adotivo. Rezar? Deixar simplesmente fluir minha tristeza? Não sei quantas coisas se amontoaram em minha solidão. Mas eram coisas que um homem jamais confessa.
Centrando minha vontade na execução dos pequenos fatos, dei volta a meu cavalo e, lentamente, fui-me para as casas.
Fui-me, como quem se dessangra.
Tradução brasileira de Don Segundo Sombra, romance de formação de Ricardo Güiraldes e clássico da literatura argentina, em torno de Fabio Cáceres, da vida de resero, da pampa e da figura mítica de Don Segundo. Edição consolidada pelo projeto Literunico / Copa.
Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.
Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!
Capítulos disponíveis para continuar a leitura.
Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!
Conhecer as 100 RelíquiasAinda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.
Durante a leitura, abra Menu para ajustar a experiência sem sair do capítulo. As preferências de aparência ficam salvas neste aparelho.
Recursos identificados como “em preparo” aparecem para antecipar a evolução do leitor, mas ainda não executam uma ação.
Posso mostrar leituras em destaque, clássicos e Relíquias disponíveis agora no Literúnico.
Escolha um caminho
Dúvidas desta página
As explicações do Aurélio são respostas cadastradas pelo Literúnico.