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A evolução do feminismo

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A evolução do feminismo

Capítulo 11 · A evolução do feminismo

A mulher nas diversas modalidades do amor

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A MULHER NAS DIVERSAS MODALIDADES DO AMOR "Sempre entendi que o amor é o mais poderoso e o menos estudado sentimento humano." MANTEGAZZA. Parecerá á primeira vista, atentando na provável significação da epígrafe que encima este capítulo, que o texto desenvolvido sob a sua impulsão, envolve assunto por ventura estranho á índole principalmente feminista deste nosso livro. Devemos objetar, preventivamente, que estabelecendo nós o critério de assinalar os dotes da alma feminina, cuja influência é inegável nas suas variadas funções sociais, não podíamos nem devíamos ocultar essa face preponderante da existência da mulher — actuando nos destinos da humanidade. O pensamento acima indicado do grande scientista e pensador italiano, Mantegazza, em poucas palavras confirma e sanciona o nosso natural raciocínio. Para desenvolver o melindroso e vasto assunto dependente desse pensamento saído da admirável pena do aludido e distinto psicólogo, sen- timos que nossa extremamente débil pena hesita para o conseguir de uma maneira precisa e satisfatória. Mantegazza, o admirado escritor e mestre sobre esse sentimento que êle acha o mais poderoso da humanidade, se muitas vezes lançava mão do realismo scientífico para a elaboração das suas obras, outras vezes as entrececia sob o colorido das mais sedutoras tintas platonicamente românticas. Os primeiros representantes da nossa espécie não conheciam o amor; este sentimento é uma conquista, e de todas a mais sublime, da civilização. U m explorador que residiu muitos anos na Africa, diz que nunca viu um selvagem manifestar a mínima prova de ternura por uma mulher, dar ou receber qualquer carícia provando, de parte a parte, o menor grau de amor ou afeição. Igualmente é verificado por testemunhos dignos de fé que na língua dos selvagens não existe palavra alguma que exprima o delicado sentimento do amor. Os raros casos que na aparência parece virem cm contradição desta teoria, como, por exemplo, o da índia brasileira, Paraguassú, além de serem simplesmente esporádicos, são exemplificados por índias já mais ou menos iluminadas pelo facho vivificador da civilização; e nem se pode provar que o casamento com o náufrago português, Diogo Alvares — o Cammurú — fosse impulsionado pelo delicado sentimento do amor ideal. V Em ao encontro desta asserção o distinto historiógrafo, poeta e filólogo Dr. João Ri- beiro, no seu artigo intitulado: «O Indianismo tia Literatura), publicado em 1923. Depois de rebater scientíficamente a mania da época de Gonçalves Dias, de Alencar e outros autores — o primeiro cantando pela poesia o suposto amor pátrio dos índios, e A'encar sublimando pelo romance o amor ideal sexual dos mesmos, o escrupuloso historiador brasileiro classifica o facto de: pura ficção e imitação da literatura francesa representada, neste sentido, por Chaieaubriand'. E conclui João Ribeiro muito judiciosamente: «Gonçalves Dias e Alencar conheceram o índio através das crónicas dos padres e pelos dicionários imperfeitos que então havia. Os erros de palavras e de etnologia, os absurdos que semearam, podiam oferecer margem a comentários pitorescos, sem dispêndio de pedantismo. Por igual, são monstruosas as paixões e as ideias que emprestam ao selvagem, dando-lhe altos sentimentos de amor, de piedade, de ação e de patriotismo, que nunca tiveram. A pobre gente foi tiansformada em nação de heróis, como nas antigas fábulas e legendas clássicas. Toda essa literatura tamoia, isto é, antiportuguesa e aliada casualmente ao francês, foi desaparecendo aos poucos e dela já não resta vestígio apreciável". (1) (1) Quando o chefe do governo turco atual — Mustaphá Kemal, se divorciou de sua mulher Latifé Hanoam, ela, numa entrevista concedida ao representante do "Herald and Tribune" em Smyrna, em 1925, confirmou a ausência do verdadeiro amoi ideal fora dos países civilizados, nesta comprobativa confissão: "A nossa

Com efeito, admitir sentimentos tão delicados, ideias tão elevadas na rude organização psíquica dos selvagens, é humanamente impossível. O amor sexual mais durável é o ideal, emquanto se sustenta — flagrante paradoxo! — no pedestal da ilusão; se este cai, o amor morre 'e com êle toda a ventura que ilumina e alimenta o sonho dos idealistas. Por isso os experientes afirmam que o casamento mata o amor. Quanto mais longa fôr a durabilidade da ilusão, tanto mais durável é a felicidade terrena. E quem não compreende o pensamento de dAnnunzio: "É mais fácil viver sem pão do que sem ilusões"? A ilusão e o sonho embalam irresistivelmente a nossa existência moça, que não acredita nos dolorosos espinhos da realidade — que mata o amor porque é filho da ilusão. O Dr. James Darcy, na sua bela conferencia sobre Dante, realizada no Rio de Janeiro em 14 de setembro de 1921, referindo-se ao amor do genial poeta florentino, por Beatriz, exprime sumariamente, em poucas palavras, esse poderoso sentimento que, quando empolga uma alma, a envolve ao mesmo tempo na suprema felicidade e no mais amargo sofrimento — exteriorizando esta intensa definição: "A vida só tem duas cousas irrevogáveis: o amor e a morte." união foi um casamento de amor, no sentido em que conheci essa expressão no ocidente. É terrível ver destruídos assim nossos sonhos dá felicidade!" Ora,se nos países bárbaros não existe o amor ideal dos civilizados, como se pôde crer que exista nos selvagens?

FJexa Ribdro sente que o amor é a única verdade da vicia. Dante, no último canto do Paraíso, diz que "o Amor move o Sol e os outros astros". Com o se sabe, a doutrina positivista tem "o amor por princípio". É á transcendente filosofia de Platão saturada de idealismo puro, que devemos a supremacia do ideal, que realça todos os actos da nossa vida e nos coloca no mais elevado ponto que podemos atingir sobre a terra — isto é, acima e a salvo de toda a grosseria materialista. É natural que se dê o seguinte facto, que podemos sustentar sem receio de controvérsia: é no sexo feminino onde mais durável e mais intenso brilha, sublimando-lhe a existência, esse idealismo que é muitas vezes o sustentáculo — embora efémero — ela felicidade do coração humano. A base desta opinião, a que nos amparamos, achamo-la em vários autores, como, por exemplo, em Augusto Comte ao preconizar os casamentos castos, fundado Em vários motivos dentre os quais se salientam os seguintes: o de pessoas que reciprocamente se amam, mas que, ou pela idade, ou para evitar a propagação de taras na humanidade, vivem felizes permutando-se esse belo amor etéreo, esse belo amor moral. E é o que tem mais longa vida — talvez pela sua aproximação da amizade. Aqueles que não admitem a beleza do amor ideal nem acreditam na sua existência, são incapazes de o sentir. O amor puramente ideal tanto enobrece quem o sente como quem o inspira.

Mantcgazza também exalça a pureza no amor — advogando, portanto, o platonismo. A prova desta afirmação é o seu livro primorosamente escrito: "As Três Graças". Se o amor de Dante por Beatriz não fosse pura e simplesmente platónico, e, por consequência, insatisfeito — pois nem sequer foi correspondido, não seria impelido a produzir a "Divina Comédia". Esse admirável arrojo do século XIV, veio-lhe do profundo sentimento da sua alma duplamente martirizada — pois Beatriz, como afirmam vários biógrafos, além de não partilhar o grande amor do poeta, era pobre de espírito. N a mesma categoria podemos abranger lindas e imortais obras de arte que têm por principal impulso a grandeza e sublimidade do amor ideal — pois que «As grandes ideias vêem do coração." Merecemos crítica, em tempo, por opinarmos que o amor era a principal mola que animava e desenvolvia a arte,— por parte de uma crítica singular que teve por alvo a contradição. Entretanto, Novicow vai mais longe: diz que o amor é o único incentivo da arte, e exprime-se da seguinte forma: "Basta dirigir o olhar mais superficial em roda ele nós, para vermos como a mulher é o elemento fundamental da poesia, da música e de quási toda a literatura. Não só a mulher é a inspiradora ela arte, mas é ainda quási que exclusivamente o seu objecto. Desde que se trata de amor, os poetas concebem as estrofes mais ricas, os músicos os motivos mais harmoniosos, os pintores as nuanças mais suaves, os reman- cistas as páginas mais eloquentes. Suprimi o amor, estes fogos de artifício extinguem-se, cai-se nas trevas." (1). E mais adiante repete: "O laço entre o génio criador e o amor tem sido reconhecido desde muito tempo no domínio da arte e da poesia. Os pintores, os músicos e os literatos são, sobretudo, inspirados pelo amor. É um dos principais elementos do culto da Arte para o comum dos mortais. Quando uma mulher tem um lugar importante no nosso coração, tornamo-nos mais sensíveis á beleza ele um quadro, de uma estátua ou de uma melodia. Desde que o amor foge, 3 nossa sensibilidade diminui". Muitos c vários psicólogos de todos os tempos e de todos os povos, reforçam esta teoria; até o grande orador sacro, Pe. António Vieira, se exprimiu por meio desta bem lançada afirmativa: "A formosura entretém os olhos, as dádivas enchem as mãos, a descrição lizonjeia os ouvidos, os regalos saboreiam o gosto, o poder e a majestade fazem dobrar os joelhos — mas sujeitar o coração... só o amor." Diz-nos a história que durante os primeiros séculos da hégira se constituiu no Egipto, entre os muçulmanos, uma sociedade onde se poetisava o amor e a mulher; emquanto existiu foi a impulsora de obras notáveis na poesia e na arte. Além de tudo é este sentimento o mais forte impulsor ela ambição, e sem ambição não há progresso. (1) Ocioso é objectar que, assim como o amor dá a essencial inspiração á arte masculina, igualmente inspira e enriquece a arte feminina

Maptegazza, o convicto apologista do amor, diz que há amores eternos — ainda que raros: os dois representantes de sexos diferentes conhecemse, amam-se, e unem-se pelos laços matrimoniais; vivem, envelhecem e morrem, aniando-se. Que ventura! É o Paraíso na terra. O ilustre escritor e scientista brasileiro Dr. Austregesilo diz "que o amor é a força de maior intensidade que move o coração; e que todas as lutas e dores humanas tiveram por origem o amor — simbolicamente representado pelo erro paradisíaco". Leon Denis, um dos mais distintos escritores que têm brilhado na propaganda do Neo-Espiritualismo, no seu livro profundamente scientífico: "O Problema do Ser e do Destino", dedica uma scintilante página ao Amor, na qual se salientam estas expressivas afirmações: "A todas as interrogações do homem, a suas hesitações, a seus temores, a suas blasfémias, uma voz grande, poderosa e misteriosa, responde: Aprende a amar! O amor é o resumo de tudo, o fim de tudo. Desta eminência estende-se e desdobra-se sem cessar sobre o Universo a imensa rede do amor tecida de luz e ouro. Amar é o segredo da felicidade. Com uma só palavra o amor resolve todos os problemas, dissipa todas as obscuridades. O amor salvará o mundo." E mais adiante solta esta sentida e significativa frase: " O amor é imortal como a própria alma." Benito Mussolini acha que "o amor é uma coisa santa."

Sócrates conclui que "o amor imortaliza- a beleza e o génio." Quem ama com um amor intenso, intenso é o seu sofrimento. A propósito diz-se que na "Phedra", de Racine, quando ela pregunta á sua serva: "Que é isso a que os homens chamam amor?" A serva responde: "É o que há de mais doce e mais amargo ao mesmo tempo." Guerm Junqueiro confirma este fenomenal contraste: «Toda a alegria pura vem do amor, e todo o amor inclui o sofrimento". A estes eloquentes pensamentos corresponde estoutro de Fénelon: "Os verdadeiros afectos* são toda a doçura e toda a amargura da vida". Acha-se tão bela a palavra — amor — que sempre se prefere dar a todo o afecto familial, a toda a dedicação — seja qual fôr a sua natureza — tão eloquente denominação. Todos os psicólogos verificam a superioridade de amar, na mulher. Mantegazza a este respeito sintetiza: "O homem quer ser amado; a mulher quer, sobretudo, amar." E continua: "Ai de nós, se, por uma falsa educação, aviltamos a fonte ela vida humana! Ai de nós se recusamos a Eva o mais santo direito, o direito de amar e ser amada! — porque amar e ser amado é a mais sublime de todas as cousas humanas." Ah! todos os homens deviam ter um tanto de psicólogos para melhor compreenderem a alma feminina e lhe respeitarem o seu muitas vezes desrespeitado sentimentalismo! Lutero, atraído por este delicado assunto, di- zia: "Facilmente se acha mulher; mas mulher amante, eis o difícil, a verdadeira graça de Deus. Q u Em encontrar este tesouro deve agradecer ao Senhor." Nós temos observado que as pessoas inclinadas para o amor ideal — as mais sentimentais — têm um carácter mais gêneroso e mais propenso ao bem, uma alma mais acessível a tudo o que pode dignificar o sentimento humano. A mulher verdadeiramente amante, ainda que o objecto do seu amor a faça sofrer, ainda que êle se degrade, acha sempre em sua alma maravilhosos e gênerosos recursos que aniquilam a própria inteligência, para o indultar, porque, como muito bem pensa Mantegazza: "O homem amado é para a mulher um deus — e os deuses não se discutem, adoram-se I" Acham vários sociólogos modernos que para a completa vitória do feminismo, o problema mais difícil de resolver é o amor. A maneira por que o resolvem diversos evolucionistas, não é, absolutamente, realizável; é, mais ou menos sofísticamente, o amor livre. (1) Se o amor fosse um sentimento firme talvez tivessem um certo fundo de verdade scientífica as suas avançadas teorias; mas a inconstância do coração que, além de humano, é masculino?... Tal resolução pode agradar apenas a algum infantil e inexperiente espírito feminino; mas a razão e a observação de quanto é (1) Mantegazza, Novicow, Sergi — emfim, todos os sociólogos modernos," clamam: "A mulher tem direito á felicidade — por consequência, ao amor". efémero o sentimento do amor, a repelem. Por mais que os feministas de ambos os sexos agitem o delicadíssimo problema de dar mais liberdade á, mulher, nunca ela a deve ter completa em tal sentido. (1). No amor livre, embora mais ou menos legalizado como o preconcebe Novicow e quejandos psicólogos, a mulher seria fatalmente pasto do ludíbrio masculino e repudiada por todos os que fizessem dela um verdadeiro joguete social — dos autores da sua irremediável decadência, pois seria este um caminho facilmente resvaladio para o abismo da jirostituição. Por qualquer forma, pois, que se encare o melindroso problema, não achamos solução airosa para a eterna mártir do amor. A história oferece-nos frisantes exemplos de mulheres amantíssimas, cuja retribuição é de revoltante negativa. U m deles, pertencente ao século XVII e considerado o primeiro no género em todo o mundo, pelos principais investigadores franceses e portugueses, incluindo Stendhal e Filinto Elysio, é o demonstrado pela ilustrada freira portuguesa, (1) Temos a este respeito um exemplo bem frisante na Rússia dos Soviets — onde nos primórdios do seu governo houve dissolução de muitos lares, divórcios frequentes e numerosas uniões livres. As crianças eram cruelmente abandonadas, e em seguida protegidas pelo Estado. Mulheres de 20 anos se divorciavam quatro e mais vezes! Hoje a reação é salutar e o governo russo promulgou leis que põem um paradeiro a tal anarquia moral. Hoje não há mais na Rússia criança? abandonadas; em consequência dos factos indicados, há ali casas de protecção á infância desamparada, sustentadas e dirigidas pelo governo.

Mariana Alcoforado, em cujas cartas reputadas um monumento de sinceridade e angústia amorosa, (1) dirigidas ao capitão francês Conde de Saint Léger — mais tarde Conde de Chamily, que serviu em Portugal, ás ordens de Shomberg, nas guerras da Restauração — o formoso coração da freira sangra dolorosamente ao embate da grosseira, indiferença com que o homem tão extremosamente amado corresponde aos clamores soluçantes da vítima. (2) O elegante e garboso Mr. de Chamily, em quem distintos patrícios seus reconhecem pouca inteligência e um espírito banal, — incapaz, portanto, de compreender a delicadeza do sentimento da freirinha — colocou a ambição da sua carreira social acima da singular paixão que inspirou a Mariana Alcoforado, embora lhe dilacerasse a pobre alma; casou por conveniência e chegou a (1 ) O Conde de Sabugosa e alguns investigadores seus contemporâneos emitem a opinião — fundada em provas dignas de ser aceites — de que as cinco célebres cartas de Mariana Alcoforado foram escritas em francês. U m dos argumentos em que o referido historiógrafo se escuda é o seguinte: o Conde de Chamily não podia conhecer suficientemente o português; e a freira, para ser bem compreendida, ter-lhe-ia escrito no idioma dele, pois as mulheres instruídas daqueles tempos manejavam facilmente algumas línguas — principalmente a francesa. (2) O Conde de Sabugosa, nos seus estudos históricos sobre o sentimentalismo português, conclui á Júlio Dantas, pois diz: "Eram assim sentimentais os portugueses; saltavam por sobre todas as conveniências para satisfazerem as aspirações do coração."

Marechal de França. (1). Razão tinha Limayrac quando dizia: "O coração da mulher amante é um santuário de ouro onde muitas vezes impera um ídolo de barro." Quando a natureza dota uma mulher, com uma alma delicada e afectuosa, é simplesmente para a escravizar á dôr! Há, pois, no mundo, assassinos de mais grave e antipática responsabilidade, mais merecedores de um castigo do céo e da terra, que os homicidas vulgares: — são os que matam as ilusões. Os que dão morte física põem termo ás dores humanas; os que matam ilusões — único sustentáculo da esperança e da felicidade — proporcionam uma morte tão durável como a vida da Vítima: "porque se sofre mais pela morte de uma ilusão que pela perda de uma realidade." Esperança! — único e frágil esteio da existência dos infelizes! Quando se concebe um desejo, uma aspiração, um plano cuja realização a crua realidade frustrou, dizemos: não me resta uma esperança! O nosso sentir desabafa assim em face do impossível. Mas na nossa imaginação torturada e sequiosa, no íntimo da nossa alma aflita e anelante existe sempre um ponto de interrogação: — Quem sabe?... Na nossa época, porém, — vá esta opinião sincera, filha da experiência — as mulheres, em regra, são mais práticas que sentimentais. (2) (1) Sempre os mesmos... (2) E é talvez por esta razão que a conhecida escritora portuguesa Ana de Castro Osório, pensa: "Nós

Nós vemos modernamente esse namoro frágil e sem a mínima importância psíquica — o flirt, que é a morte do mais delicado sentimento humano, na maioria dos indivíduos de ambos os sexos, que viram qual grimpa ao impulso de todos os ventos, e terminam essa vaporosa espécie de passa-tempo, com a mesma facilidade com que a principiam. O amor ideal não desvaloriza a moral de quem o concebe; tal como a mulher pura o sente, não c terreno: vem do Céu, porque é santo. Cristo foi imensamente amado por Maria Madalena, e que êle correspondeu a essa dedicação prova-o esta passagem da Sagrada Escritura: Quando Marta — irmã de Matia Madalena, a recriminou porque ela abandonara os deveres caseiros para seguir Jesus, o amorável Nazareno respondeu-lhe: "Maria escolheu a melhor parte." E é por isso que 5. João Evangelista nos transmitiu este divino pensamento: "Deus é amor, e quem não ama não conhece Deus." Uma opinião masculina interessante •— tão interessante que até trescala a napoleónica — é a que sustenta que todo o espírito, principalmente o feminino, necessita de um fetiche a quem adore; que para sua íntima satisfação e felicidade deve sentir um ser mais ou menos superior a si próprio; seja de que natureza fôr essa superioridade, todo o espírito precisa de um objecto, cm suma, que lhe dê razão a um culto: para uns — a pátria; para outros — Deus ou um ídolo qualquer, e para as mulheres somos, em geral, menos sujeitas a ilusões que os homens." a mulher... o objecto do seu amor (1). Com relação a esta, porém, tal fetichismo corre o risco de ser muito abalado pela onda crescente e invasora do feminismo... E é sob esta impressão que os antifeministas lamentam — principalmente os poetas — a masculinização introduzida na educação da mulher moderna, convictos de que o feminismo é a morte da atração feminina como inspiradora da poesia e da arte, e clamam di ri— gindo-se ás mulheres: "Por alguns miseráveis direitos vós vos expondes a perder o nosso amor!" (sic). De encontro a esta apóstrofe vem Charles Turgeon: "Jamais o amor da política fará com que a mulher renuncie á política do amor". Com a igualdade dos sexos não é somente a mulher que fica mais completa — fica-o também o homem, pelos recursos que ela lhe presta com essa igualdade. Não receiem os oposicionistas o absurdo fenómeno de perder a atração feminina; ela existirá sempre sexualmente recíproca; desde a mais calma á mais irresistível, desde a mais inocente á mais intencional, ela é tão natural — pois que é humana — que subsistirá e suplantará todos os entraves através dos anos e da infalível — ainda que lenta, evolução. Com o progresso do feminismo não muda o coração feminino — embora mais fortalecido e mais independente — muda, sim, o seu espírito á medida que vai quebrando um por um os elos da cadeia que a retinham amarrada ao poste da ignorância e da inferiori- (1) Tantos rodeios para segurarem a submissão feminina — prestes a escapar-se-lhes da mão... dade. Aproveitamos a oportunidade para contrapormos ao receio dos antifeininistas esta objecção mordaz ele Salomão, fundada na atração natural da mulher, e dirigida ao seu sexo (dele): "A própria fuga vos não serve de muito, porque, se a vistes antes de fugir, não fugireis para longe...' Acontece ás vezes verificar-se que na alma feminina o amor pátrio suplanta o amor sexual. Isto, porém, é excepção á regra. Temos á mão um exemplo transmitido pelo telégrafo nos primeiros tempos da grande guerra... Umalemão casado com uma francesa faria sinais rádiotelegráficos da torre Eifel para o exército patrício. A esposa, que via a sua amada pátria em perigo, foi denunciá-lo ás autoridades competentes — que o mandaram prender. No momento, porém, em que a prisão se efectuava, acordou na sua consciência de esposa o amor conjugal — caindo ao -mesmo tempo com uma síncope, o que não tira de reconhecer que nesta mulher o amor pátrio se impôs de preferencia ao amor sexual. Duvidamos, todavia, da veracidade deste despacho telegráfico; mas, si t\on é vero, cm tempos anormais tudo é provável. Estes casos são meramente esporádicos. Em geral as mulheres colocam o amor sexual acima do da pátria e da família. Senão, vejamos: Em princípios de 1921, quando algumas regiões rhenanas eram ocupadas pelos patins franceses, em consequência do Tintado de Veciajiles, efectuaram-se casamentos entre esses poaus — oficiais e soldados — e asloiras gi'ctchens, não obstante o justo antagonismo que existia entre as pátrias deles e delas. Este facto acarretou complicações internacionais, cm face ele leis francesas e alemãs. De forma que o direito francês considerava legítimos, e legais, estes casamentos, nas regiões ocupadas, procedidos pelas autoridades militares. As autoridades alemãs, pelo contrario. (julgavam esses casamentos ilegais em face do direito privado alemão, e atentatório ao Tratado de Vcrsailles relativo ao direito internacional. Quando uma gqetchen se tornava noiva de um poilu, era evitada pelo meio social em aue vivia; e seus pais ou parentes que davam o respectivo consentimento, eram excluídos da sociedade. Este antagonismo, em seguida á vitória dos aliados, tem sua razão de ser. Mas é este um caso suficientemente eloquente para provar a verdade acima exposta. O tema principal que ora sinceramente desenvolvemos, iinpele-nos, naturalmente, a atingir diversas variantes que dele podem derivar, e por isso nos propomos realizar várias digressões que mais ou menos se relacionam com o seu ponto de partida — com o seu principal assunto. Dizem os criminologistas, impelidos pela verdade das estatísticas, que a inclinação para o crime é, na mulher, quatro ou cinco vezes menos desenvolvida que no homem. E a Dra. russa M.me Tamowsky, estabelecendo, há anos, o equilíbrio crirninológico entre os dois sexos, concluiu que a prostituição é o sucedâneo dos crimes que as mulheres não cometem. Diz Lombr\)so que se se compara as mulheres criminosas com as normais, vê-se que as criminosas se aproximam muito mais dos masculinos normais que das mulheres. E que a feminilidade se não encontra nos criminosos masculinos senão numa proporção inferior á normal. Criminologistas e sociólogos em evidencia, como: Adão Smith, Daniel Stern, Michetet, Darwin, e outros — incluindo o próprio Schopenhauer — verificam a supremacia da mulher sobre o homem, não só na superioridade do desinteresse como na inferioridade da inclinação criminosa. Não se afirme, inconsciente e impunemente, que o feminismo é um passo para o amor livre — donde a mulher pode resvalar para o abismo da prostituição; pois em alguns países asiáticos onde, se há feminismo deve ser ainda incipiente — mes- m o porque dele só aproveitam as mulheres de classes sociais elevadas, a mulher tem sido uma lastimável escrava, como na China e Japão — segundo afirmam cronistas bem informados — onde ao abjecto comércio da prostituição se entrega uma oitava parte das mulheres, de cuja degradação é responsável directo o absolutismo paterno: Tanto neste caso como no de casamento, elas obedecem ao pai, que as vende; são, consequentemente, degradas vítimas da monstruosa ambição paterna. Para a queda da mulher nesse ignóbil precipício pode concorrer uma certa influencia cou- sequente do atavismo — ou de uma supervívencia dos costumes selvagens, e mesmo bárbaros, onde a licenciosidade campeia infrene — não implicando o facto, absolutamente, a idea de deshonra. Reclama a sociedade, por meio do seu natural porta-voz, a imprensa, a ação da polícia para afastar do oentro das cidades essas infelizes a quem a sorte marcou com o ignominioso sinete incandescente da prostituição — apontando-as, como realmente são, um asqueroso cancro social e como lastimáveis exemplares transgressores dos bons costumes; mas a imprensa não faz a mínima alusão aos homens, que vivem no seio dessa sociedade reclamante, fruindo todas as deferências honrosas — sendo eles sempre, indubitavelmente, a causa primordial dessa chaga eterna e incurável. Indague-se todas as causas que arremessam a mulher ao abismo do bordel, e chegar-se-há á conclusão de que a mulher é a menos culpada. São frisante prova desta verdade os frequentes suicídios — a que essas infelizes recorrem nos lupanares (1). Quantas vezes ela entra inocente, amante e esperançosa pela dourada porta do mais embalador idealismo, e sai pela (1) Em um conjunto de bons conselhos aos jornalistas, publicados na imprensa moralizadora e relativos á dignidade e sinceridade com que se deve fazer o jornal moderno, e dos quais é autor o Sr. Rogers Woodruff, de New-York, sobressai o seguinte: "Respeitem-se, absolutamente, o nome e a reputação da mulher. Ainda que se trate de uma dissoluta, merece, pelo menos, a nossa piedade." porta infamante elo prostíbulo; a qual, por fim, também se lhe fecha, sempre impelida pela forte rajada elo infortúnio, desde o mais repugnante abismo Em que precipitadamente tomba, até ao abandono fatal mais completo, mais injusto c mais imoral ainda — restando á vítima sacrificada a última etapa do tortuoso caminho desvairadamente percorrido da sua acidentada existência:— o hospital. E quantas vezes é ainda o amor ideal — esse gêneroso impulso vindo mais do céu que da terra, que arranca ao bordel algumas dessas vítimas da mais repugnante degradação social, e as rchabilita! Quando, em 1874, a escravatura branca tomava proporções assustadoras, uma benemérita inglesa — Josefina Butter, foi á França no sublime intuito de salvar as mulheres desse abismo e arrancar dele as que lá haviam caído — vencendo altiva e caridosa todo o escámeo que os prejudicadas lhe arremessavam. Lutou e venceu, e em 1876 fundou a "Federação Abolicionista Internacional" contra a regulamentação ela prostituição; e como complemento da primeira instituição foi fundada a sociedade "Amiga das Meninas", com sede em Ncufchqtel, de protecção ás incautas, criando em todo o mundo escritórios e casas de abrigo e refúgio, Em consequência deste salutar movimento, vários Congressos se realizaram para o mesmo nobilíssimo fim: em Londres—em 1899; em Amsterdeum—em 1901; em Paris—em 1902; em Berlim, Zurich e Neufchajel, sucessivamente em 1904, e por fim a Conferência Internacional de Paris em 1905. No Congresso de Zi\rich figurou como vicepresidenta uma mulher digna por todos os títulos: M.me Vinccnt. Em uma comissão cxtra-parlamentar nomeada pelo ilustre Loubet, em 1903, encarregada de estudar as relações de Estado com a prostituição, figuravam: o ilustre Senador Berangcr, doutores Laudouzy, Fiaux e 'Auganheur; os sociólogos Comte e Giele, e de uma mulher e digna publicista com direitos bastantes para figurar numa comissão oficial administrativa: M.™e Avril de Sainte-Croix — que por sua vez fundou a Casa Libertadora, dAuteuil, para acolher as mulheres perdidas que se achassem com coragem de voltar ao trabalho, á vida honesta. Foi esta benemérita feminista que na Conferência de 1905, como representãnfa do "Conselho Internacional das M u - lheres", formulou esta pregunta: "A regulamentação da prostituição foi favorável ou nociva á escravatura branca?" Aberto oficialmente o "Congresso Internacional", foi presidido pelo senador Bcrangcr, e aí se tratou da repressão á escravatura branca; estavam presentes 300 delegados de Estados estrangeiros e associações nacionais. Em 1906, o senador Beipngcr fundou a "Obra das Gares", semelhante á "Amiga elas Meninas" de Ncufchatel, para vigilância das estações ele caminhos de ferro (1). (1).Na Rússia d'hoje o governo da União das Republicas Soviéticas e Socialistas — que na época atual dá todas as garantias ás famílias constituídas legalmente

No século XIX já era importante na America do Norte o papel das ligas femininas contra o tráfico das mulheres. Passando a outro assunto continuaremos a escalpelar essas infalíveis e infamantes nódoas sociais de que só a mulher é acusada. Várias vezes — quando a oportunidade o reclama, a imprensa acusa e anatematiza a mulher que dá a morte ao próprio filho recem-nascido, acompanhando a acusação com todas as demonstrações de íntima revolta e nas quais reclama da justiça um castigo severo. (Só para ela, entenda-se...) Não há dúvida que é uma mãe desnaturada — embora obrigada a tal extremo por necessidades imperiosas nas quais sobressaem, invencíveis, não só, muitas vezes, o seu estado de pobreza, como os preconceitos que lhe impõe essa mesma sociedade que >ao mesmo tempo a perdeu e a condena; mas o que, em geral, não vemos nunca por — combate a prostituição, colocando nos lugares públicos, cartazes com os seguintes dizeres: "Não é, absolutamente, admissível a prostituição numa Republica de trabalhadores. A prostituta é um caracter burguês, não é uma amorosa: é uma ambiciosa e não é admissível a burguesia num regime de desinteresses". Além dos cartazes são realizadas por ordem do governo conferencias públicas indicando todas as consequências da prostituição, razão pela qual se diz muito tem esta ali diminuído. H á estabelecimentos do Estado com o único fim de amparar as mulheres necessitadas, facilitar-lhes trabalho, e sobretudo — instruí-las — tendo em vista este pensamento de Lenine: "A maior fonte da prostituição é a ignorância.' parte da imprensa, em tais denúncias públicas (salvo raríssimas excepções), — onde não faltam as mil razões fulminantes elo costume alusivas ao facto criminoso, é a mais leve referencia ao principal responsável do crime — ao pai desnaturado do inocente, que se soube acobertar e isentar de toda a responsabilidade, expondo á justiça e á descaroável execração pública, unicamente a mulher que teve a fraqueza ou a desdita de o acreditar e, — o que é mais revoltante ainda! — na maior parte das vezes, de o amar! Acharíamos mais consentâneo com a própria consciência e o dever de moralizar as massas, que, tanto a imprensa — que tem, certamente, essa elevada missão, como os escafandros de todos os tempos que buscam e rebuscam os motivos de ofensa á moral, para os trazer á tona perante a sociedade ávida de emoções, se pronunciassem no sentido de chamar á responsabilidade esses pais sem consciência nem dignidade, em vez de atinarem todo o peso do remorso e do opróbrio somente sobre a mulher — eterna vítima da sua natural ternura, da sua compleição afectiva, (1) deixando impunemente na sombra, gozando os favores dessa mesma sociedade — porque tais factos não o desvalorizam o homem, o único causador' dosdeslizes femininos. N Em cm' tão grave conjuntura aceitam a igualdade dos sexos! Sempre a mulher mergu- (1) É um facto reconhecido pela experiência, não só dos psicólogos, como de todos nós, o ser a mulher muito mais emocionável que o homem.

Ihada na noite eterna dessa maldita inferioridade! 1) Espraiando o assunto devemos registar que Em vários Congressos feministas muito se tem tentado contribuir para que as leis garantam a responsabilidade paterna — o que já se conseguiu em vários países. Legisladores liberais e modernos têm-se preocupado seriamente e conscienciosamente com tão importante assunto social, como é o ela investigação da paternidade, tendo resultado já alguma cousa de proveitoso — graças á persistente e salutar ação das leaders feministas. Em 1929 veio-nos de Genebra' a boa notícia de que a Sociedade das Nações se responsabilizara jiela protecção a todos os filhos ilegítimos, esperando poder igualá-los, legalmente, em todo o mundo e em todo o sentido, aos legítimos. A comissão respectiva de protecção ás crianças, logo que a humanitária lei fosse um facto daria margem a uma convenção internacional submetida á assinatura de todos os povos. A sanidade desta lei evitará abusos e crimes. Apesar destas verdades amargas, toda a vida (1) Não há muito — 1925 — em Santos, uma infeliz moça tiroteou mortalmente o pai de um seu filhinho, porque êle não anuiu aos seus rogos, justos e insistentes, de registar, como era do seu dever, a inocente criança. Em maio de 1028 suícidou-se, ingerindo lisol, no Rio de Janeiro, uma moça abandonada, tendo envenenado primeiro a filhinha de seis mezes. Não é difícil achar o responsável por este duplo crime... E como estes casos, quantos da mesma natureza?! os homens levafn a acusar de incompreensível o coração feminino (1). AAas se, dada essa incompreensibilidade, ainda assim êle é frequente impunemente traído, e prejudicado, que faria se eles pudessem ler nele como em fácil livro aberto? É inegável que o coração feminino devia ser verdadeiramente blindado como os automóveis da guerra, isto é, fortemente protegido, inexpugnável, contra o embate inevitável das engenhosas seduções masculinas visto que a sedução é, como já alguém a definiu: uma mentira em amor. Igualmente acusam,a mulher de pérfida, mentirosa, hipócrita... sem reflectirem que são cies a causa de tais defeitos. A mulher que se considera inferior perante o homem, porque só tem deveres — ao passo que êle tem todas as regalias. necessariamente há de enganar e mentir — é a consequência lógica das leis que tudo exigem dela. Demais, falta-lhes a eles a autoridade moral em tal matéria; um homem, De Béliste, usando de toda a sua franqueza, mete a mão na consciência e diz: "O homem mais sincero não mostra, na maioria dos casos, a verdade senão de perfil..." (2) (1) Em 1925 passou pelo Rio de Janeiro o príncipe árabe Cassinah-Med, que havia dois anos percorria o mundo, estudando a psicologia das mulheres... (2) Poderá parecer um tanto exagerada a exposição oportuna de pensamentos masculinos; nós o fazemos exactamente por serem dessa autoria — o que m. Ihor justifica e reforça a nossa débil argumentação combativa.. •

E falta-lhes a autoridade moral porque um dos seus reconhecidos fracos é o andarem sempre a cantar loas á virtude feminina — e é exactamente a virtude, em geral, o que eles menos buscam e apreciam; eles deixam-sc dominar — dizem-no todos os sociólogos de ambos os sexoo — não pelas virtudes da mulher, e sim pelas suas seduções. As mulheres que através dos tempos mais têm dominado os homens e o mundo, não pertencem, em geral, á classe 'das virtuosas. Abstemo-nos de as mencionar, porque demais são elac conhecidas nas páginas inapagáveis da historiei. Os sociólogos modernos de ambos os sexos — principalmente do masculino — querem a extinção do casamento indissolúvel, querem legalizar um casamento novo, mais adaptado á nossa época evolucionista, á moderna mentalidade, mais conforme á justiça entre os dois sexos. Verdadeiros revolucionários Em psicologia e sociologia, qúereihá-supressão-de preconceitos obsoletos e dar mais liberdade ao sexo feminino. Na Rússia de Lenine, isto é, nos princípios elo regime sovietista, a cerimónia matrimonial era mais ou menos o amor livre: limitava-se a registar no burcau oficial que os noivos desejavam viver como marido e mulher. (1). Que nós caminhamos para um futuro de mais liberdade para o sexo feminino, tudo o demonstra. Onde iremos parar... (1) As autoridades dos soviets favorecem a instituição matrimonial dando aos casados -— cama, roupa da mesma, 40 jardas de linho, 80 libras de trigo e trem de cozinha. O casal recebe também cartões oficiais que lhe não sabemos! Pela nossa parte, se nos revoltamos contra a escravização secular feminina, e se queremos que a mulher assim como os seus deveres são iguais aos elo homem, iguais devem ser os seus direitos, não quer isto significar, absolutamente, que ela possa ou deva ter as mesmas liberdades no amor. Nós registamos apenas as manifestações flagrantes da evolução e a opinião dos evolucionistas. Mas observaremos: — antes que novas leis sejam formuladas para a libertação de preconceitos de que a mulher tem sido escrava, dê-se aos dois sexos um a educação conveniente e aprópriada para puderem compreender e usofruir essa liberdade outorgada por leis modernas e justas. São mais ou menos estas as teorias expressas por Novicow e quejandos sociólogos contemporâneos. Seria um verdadeiro saneamento moral no matrimónio, o realizar-se este somente por amor, apesar de não ser o amor cousa possível de grande duração. Ainda que efémero, porém, nós não podemos conceber o casamento que não seja realizado pelo sentimento — legalizado sob a permitem comprar nos armazéns bolchevikis o mobiliário de que precisa, pelo preço do custo. Não sabemos se esta prodigalidade subsiste apesar da grave crise da fome que a Rússia atravessava em 1922 a ponto de produzir factos como o que nessa época nos foi transmitido telegraficamente de Helsingfors, e cuja consumação impele a íntima revolta: "O governo dos Soviets de Moscou, sob pretexto de praticar um acto de humanidade, mandou sacrificar cento e desasete crianças atacadas de môrmo por terem comido carne de cavalos contaminados por este morbus.'* ação ela reciprocidade do afecto. Pois que quanto menos opressor fôr o casamento, mais raro se tornará o adultério. Guerra Junqueiro reforça esta opinião dizendo: "Casar sem amor é profanar o mais respeitável de todos os sentimentos; é um verdadeiro suicídio moral". A distinta — e extinta — escritora portuguesa, Maria Amália Vaz cie Carvalho, dizia que a primeira condição para que duas pessoas sejam felizes é esta: entenderem-se. M.e Roland definia o casamento — "associação em que a mulher se encarrega, ordinariamente, ela felicidade de duas criaturas". Mantegazza diz que em um casamento infeliz é raríssimo que a culpa seja toda elo marido ou da mulher, que na maior parte dos casos a culpa é deles ambos. Mas Jacques Bertillon tinha opinião diferente, pois asseverava em 1884: "Em regra geral, os homens são quatro vezes mais insuportáveis maridos do que as mulheres insuportáveis esposas. N um casamento em desordem, o grande culpado é o marido." E Victor Hugo proclama: "As culpas das mulheres, dos filhos, dos criados, dos fracos, dos indigentes e dos ignorantes, são culpas dos maridos, dos pais, dos amos, dos fortes, dos ricos e dos sábios." Em regra, os maridos são todos, tradicionalmente, mais ou menos autoritários. Não há muito que na solenidade de um casamento, depois de realizadas as cerimónias civil e religiosa, um dos convidados com pretenção a espirituoso, pediu ao noivo recem-casado permissão para falar, em segredo, com a noiva; êle acedeu, e, virando-se para os presentes, com um ar ele convicção e orgulho: "Foi o meu primeiro acto ele autoridade marital." — Tão arraigado está ainda entre nós o preconceito napoleónico da obediência ao marido, preconceito advindo de uma lei que iguala a mulher aos menores e aos alienados, sem individualidade e sem independência, portanto; felizmente já estamos longe do século de Napoleão, cujas teorias vão sendo esmagadas pelo século XX. Já depois de Napoleão, em pleno século XIX, Augusto Comte — o "divinizador da mulher" — aprovava a máxima de Aristóteles, o antigo filósofo grego, que sentenciava: "A principal força ela mulher consiste em superar a dificuldade ele obedecer." Comte desenvolve a seu talante o bem que deriva de tal máxima, aprovando a seguinte hoje paradoxal teoria: "A força do homem é toda de comando, ao passo que a da mulher é toda de submissão." Infelizmente, nenhum destes tendenciosos visionários pode atentar no reverso da medalha... que a nossa época lhe mostra. As leis relativas ao casamento estão sendo modificadas em todos os Códigos modernos, no sentido de formular com mais justiça os deveres e direitos da mulher casada. As leis que têm negado á mulher direitos civis -— submetendo-a, qual criança, ao homem — estabelecem uma contradição legislando, para a realização do casamento, menos idade nela do que nele. Isto ele legislar idades para casar, é outro absurdo que na prática ninguém respeita. Nós vemos que tanto casam os nubentes adolescentes, como os jovens — e como os velhos; a questão está somente na vontade dos representantes dos dois sexos. Byron amava já apaixonadamente sua prima Margarida Parker, tendo êle 12 anos e ela 13. Balzac concedia o direito de amar, ás mulheres de 30 anos, e Finot dava igual direito ás de 50. São, porém, mais frequentes os casamentos de homens velhos com mulheres novas, do que de moços com mulheres mais velhas. Até no casamento está consagrada — teórica e praticamente — a inferioridade do sexo fraco! Em 1924 realizou-se no Estado de Minas Gerdçs o enlace matrimonial de um macróbio de 118 anos de idade, Vicente Ferreira, com uma moça de 23! É o seu quinto casamento! A História oferece-nos muitas vezes sensacionais exemplos passionais fundados nc amor sexual de pessoas entre as quais é flagrante a grande diferença de idade — ora num sexo, ora no outro. U m dos exemplos mais frisantes em «amores celebres», é a paixão de Jean-Jacques Rousseau, de 25 anos pela Sra. Susana de Lorange — de 44, separada do marido e mãe de 10 filhos. Diz-nos a história que apesar de não ser bela nem moça, João Jakes Rousseau a «achava encantadora porque no rosto lhe brilhavam' todas as graças da inteligência». O deus Cupido é sempre representado por um menino — como criança, portanto, e por consequência travesso; muitas vezes êle consegue, inevitavelmente, instalar-se comodamente no cora- ção de pessoas de idade. A propósito do casamento ele Anatole France com uma mulher muito mais nova que êle, o cronista que dá a respectiva notícia em 1920, lembra um pensamento ele Wolf: "Les vingt ans arrivent toujours avec l'âge." Vários observadores afirmam em síntese psicológica, que muitas vezes a fase amorosa dos 20 anos só chega depois de certa idade; e que o verdadeiro amor só existe na idade madura. Procedeu-se, há anos, a um interessante plebiscito em um jornal parisiense, inquerindo se a idade roubaria á mulher a capacidade de amar. Entre as inúmeras respostas que choveram na respectiva Redação — espirituosas umas, e judiciosas outras — todas, claro, de autoria feminina, caiu uma de uma escritora, formulada, mais ou menos, no seguinte irrespondível argumento: "Se todos os outros afectos persistem elevados e intensos no coração feminino, através dos anos, porque não também o amor sexual?" O coração humano não acompanha na idade o indivíduo — é a própria juventude eterna, fenómeno psíquico que não falha. E é inegável que há corações rebeldes que se não submetem ás imposições do tempo. Este fenómeno, porém, é natural que só se manifeste nos indivíduos cuja alma domina a matéria — demonstração que enobrece o próprio caracter. Fonténelle amava aos oitenta anos a esposa de um amigo, que não era muito mais nova que êle. (1) A (1) Talvez tivesse razão Lamartine quando dizia que o homem muito moço é incapaz de amar — porque não sabe o preço a nada, só conhece a verdadeira felicidade depois de havê-la perdido. capacidade de amar nunca se extingue na al- m a humana. D o país das maravilhas, a America do Norte, nos chegam ás vezes notícias de casamentos realizados entre nonagenários e centenários. O scínntilante escritor português da história pátria, Conde de Sabugosa, opina convictamente que " Em matéria de sentimento não são impedimento: nem desproporção de idades, nem a desigualdade de jerarquias, nem muitas outras considerações sociais — insistindo na afirmação de que nunca a idade foi barreira do sentimento. 0 distinto jornalista e escritor português, Raul Martins, sente que se ama toda a vida — que se ama sempre, porque não há idade de amar. A matéria pode perder, com a idade, a sua força natural quanto á atração sexual; o espírito não; para o amor-sentimento não há idade: o sentimento afectivo permanece sempre quási o mesmo, donde se pode concluir que o amor ideal participa de uma scentelha divina. Os casamentos entre pessoas de idade são mais prováveis e mais realizáveis no velho mundo que no novo. Preguntando-se a um pensador até que idade a mulher podia casar, respondeu: "Emquanto tiver dotes para agradar." Se ela, apesar da existência desses dotes — encarados pelo lado moral e físico — não conseguir a união lícita com o ho- m Em amado, é porque os homens — como muito bem disse Lamartine — são tão vaidosos que se envergonham da própria felicidade. A mulher amante — quer como filha, irmã, esposa ou mãe, atravessa todas estas fases da sua existência com a mesma sublime faculdade psíquica, pois que) é natural nela a imperiosa necessidade de amar. A história reflecte muitos exemplos de dedicação fraterna. Lucila, irmã de Chaléanbriand, foi sua companheira inseparável e inspiradora. Henriqueta, irmã de Renan, mais velha qUe êle e sua protectora, igualmente acompanhou e inspirou seu irmão; quando Renan escrevia a "Vida de Jesus", sua irmã acompanhava-o nos seus progressos recopiando as suas páginas. Durante esse trabalho, faleceu; e Renan dedicou esse livro á memória da irmã querida. A primeira confidente e amiga de Balzac, foi sua irmã Laura. Dão-se ás vezes em certos pensadores distintos, contradições interessantes: Augusto Comte, que, inspirado por Clotilde de Vaux, tanto sublimou a mulher, preconizou a "santa lei da viuvez eterna!" — aplicável somente, é claro, ao sexo feminino... Quem, na nossa época de franca tendência para a liberdade, não discordará de tão excêntrica opinião que, a ser aceita e legislada, viria coarctar a principal liberdade individual feminina? Tal idea parece um reflexo supervivsnte dos costumes de povos bárbaros onde as pobres viúvas se faziam queimar vivas para que a sua alma aflita fosse encontrar o esposo lá na eternidade... Cremos que ainda hoje se dão alguns desses deploráveis exemplos na índia, embora muitíssimo raros atendendo á interferência civilizadora europeia. Nunca vimos, em toda a his- tória da humanidade, um só exemplo de tão estúpida e absurda dedicação na viuvez masculina — o que prova dolorosamente a condição da proverbial inferioridade feminina atnavés dos séculos. "Na Roma primitiva, como em toda a parte, a obrigação moral de ser fiel ao cônjuge morto, não era recíproca; a opinião pública censurava somente o casamento da viúva: o homem viúvo nunca se julgou obrigado a não casar. Isto se dava nos países de civilizações patriarcais, indicando um estado social em que a subordinação das mulheres era extrema. No fim da Republica, porém, as leis Júlia e Poppea, cuidadoras, antes de tudo, da manutenção da população, autorizaram a viúva que tivesse três filhos, a receber a fortuna total do marido falecido; e obrigaram a viúva a tornar a casar nos primeiros dois anos da sua viuvez, sob pena de ser submetida a todas as incapacidades legais impostas aos celibatários.".Passou-se de um extremo ao outro! 1 Em. Madagáscar, o último Código malgache — abolido pela conquista francesa — castigava o adultério com oito meses de prisão para o homem, e de quatro para a mulher. Esta desigualdade de penas em benefício da mulher é um facto que nos leva á admiração! O sexo feminino entre os indígenas da ilha, não é considerado, inferior; a lei dá ás mulheres a faculdade de reinar por morte do marido. De todos os trabalhos femininos nenhum é opressor, nem mesmo na classe servil, ás mulheres são ali tratadas com toda a doçura. Letourneau, contando estes factos tão dignos de ser registados, diz que a legislação do casamento malgache é menos bárbara do que se poderia supor; os artigos nela citados figurariam honrosa-.mente em mais de um Código civilizado — onde eles faltam... As leis antigas, é facto comprovadíssimo, só concediam direitos e regalias ao homem; aparecem-nos através da história — escritas em caracteres de fogo — unicamente severas e esmagadoras para a mulher. Na Ronut antiga a palavra — adultério — não se aplicava aos maridos. (Nem hoje — em pleno século XX!) Na história dos Códigos não existe a palavra — adúltero; existe somente no género feminino... V Em a propósito pôr em relevo o Código Penal do México, promulgado em 1929 e que mais parece formulado em tempos medievais que na nossa época: o marido e o pai têem o direito de matar a esposa e filha adúltera e o seu amante. Não é, porém, uma lei completamente regressiva e, por corriqueira, imprópria do século X X; ela apresenta ao mesmo tempo este lado progressista: dá também á mulher o direito de matar o esposo adúltero. Ao menos.., d ) (1) Reproduzimos aqui a descrição dos castigos que os povos antigos aplicavam á mulher adúltera, apesar de ser o facto muito repetido na literatura histórica e por consequência, muito geralmente sabido. E reproduzimo-los porque é nosso intuito, muito justificável, principalmente no momento, aproveitar as oportunidades de frisar e avivar a deplorável situação feminina através do tempo. Eis como ela era castigada: os judeus apedrejavarrt-na; os loncrenses cegavam-na; os budistas en-

Os fariseus de todos os tempos têm um soberbo exemplo nos fariseus de ha vinte séculos que fizeram a Jesus a acusação da adúltera, obtendo em troco a fulminante e igualitária resposta — (cujos princípios conheciam os nossos legisladores que têm formulado tais leis somente contra as mulheres), feita de verdade e justiça — como eram todas as palavras que afloravam aos lábios do divino defensor da mulher: "Aquele que estiver inocente..." Todos desapareceram! E ainda hoje surge bem nitiicfb, na nossa imaginação, o terravam-na viva; os ingleses cortavam-lhe as orelhas; os egípcios, o nariz; e os romanos cortavam-lhe apenas a cabeça. Em uma tribo selvagem — que existe num continente que pgora nos não lembra — a adúltera é comida viva; depois de amarrada a uma árvore, o primeiro a tirar-lhe um pedaço é o esposo ultrujado. Mais modernamente, os nossos Códigos têm autorizado o marido a matar a esposa em flagrante. (O direit® primitivo de Roma autorizava o marido a matar os dois culpados.) Alguns maridos têm-no feito mesmo independentemente de flagrante, até mesmo na simples suspeita, sem a mínima prova e, o que é mais hediondo ainda! — buscam esse pretexto confiados no júri que os absolve, para imolar a pobre esposa, muitas vezes inocente — que esperava encontrar nesse marido, amparo e protecção... U m dos vários exemplos que temos mais á mão, é o de Luiz XV, rei de França, que mandou matar sua mulher Margarida de Borgonha, em 1315, por crime de adultério. Entretanto eles — os adúlteros que, com o seu imoral exemplo são muitas vezes a causa da vingança da esposa, ficam impunes e muito bem reputados na sociedade. Na Abissínia, em casos de flagrante delito, o marido tem ainda o direito de matar — não sua mulher, mas o amante dela, o que atentou contra a propriedade conjugal. Isto sim, achamos mais razoável. quadro encantador ela pecadora ajoelhada aos pés do meigo Nazareno, recebendo dele o perdão e a benção impregnados de suavidade e doçura. Não se suponha, porém, que apresentamos o facto bíblico com a intenção de justificar ou sancionar o adultério feminino; absolutamente não. O facto nos -revolta, como nos revolta o adultério masculino..O nosso intuito é frisar simplesmente a desigualdade da pena respectiva, como lei, e como preconceito; e mesmo porque o adultério feminino se funda, na maior parte dos casos, em casamentos infelizes. Conhecemos um pensamento masculino que vem a propósito: "A fidelidade da mulher que não ama é uma esmola". Não lhes faltando nunca — é claro — no caso de adultério, o contingente obrigado: a seducção por parte do sexo masculino. Deu-se ha pouco tempo um caso em uma cidade do Brasil, que é oportuno registai-, e que veio aumentar o grande número destes tristes e assíduos exemplos. — Uma -senhora casada tiroteou o amante, casado também, em resultado do abandono a que o mesmo a remeteu, e o qual, felizmente para ambos, não morreu. O júri coroou o respectivo processo com um proceder consciencioso e provando compreender bem a melindrosa situação da crimirípsa, pois a absolveu por 5 votos contra 3. As regalias que só os homens têm fruído através dos séculos, está diminuindo um tanto e estão sendo repartidas pelo sexo contrário, com uma certa equidade, mercê das novas reformas paulatinamente introduzidas nos Códi- gos, impelidas pela justa e inquebrantável energia feminista. Em casos semelhantes ao acima apontado, se fizéssemos parte do júri, não só absolveríamos a mulher amante culpada, como condenaríamos o sedutor a perdas e danos. Comentemos: O amante referido, emquanto lhe aprouve desfrutar a sua conquista, não se lembrou do seu estado civil (dele), nem de cousa alguma que lhe servisse de empecilho. Mas, como tudo o que se possui acaba por perder o seu valor real e estimativo, e, o que é mais lastimável ainda, por aborrecer, abandonou-á. Supondo, porém, justas e prováveis vinganças, lembwu-se êle, e lembrou á mulher aborrecida e abandonada, que tinha não sei quantos filhinhos! (Coitado!) O que é facto é que só depois que viu a vítima desmoralizada perante o marido e a sociedade, é que se lembrou do seu próprio estado civil e social. Depois desta'oportuna divagação, continuemos: Séneca, o moralista, era de opinião de que a fidelidade conjugal é um dever igual para os dois cônjuges. Achava odioso que aquele que exige a virtude da honra, de sua mulher, seja o corruptor das mulheres dos ouiros. O distinto escritor português, Carlos de Melo, conta que em um Congresso fesninista realizado em Roma, as oradoras propuseram na ordem do dia uma só moral para ambos as siexos, com a aorovação dos homenis presentes, entre os quais — senadores, deputados e jornalistas; e comenta: "Elas fazem bem reclamando para elas o que nós, homens e autores dos Códigos, tão complacentemente legislamos em nosso direito exclusivo. Seriamente, tudo ponderado, e sobretudo quando se considera a escravidão em que o ho- m Em tem trazido a mulher, mais razão e por consequência maior direito tem a mulher em matar o marido adúltero, do que o homem a esposa adúltera." E Santo Agostinho avançou, não sabemos com que fundamento, que o adultério do marido era sempre mais grave que o da esposa. Não ha muito que vimos em um conceituado jornal carioca as seguintes reflexões, ao historiar um drama de amor que se passou da seguinte forma: O amante, na impossibilidade de viver com a amante — que era casada — matou-a e suicidou-se em seguida. Comenta o aludido jornal: "Se ao marido assistia o direito de assassinar aquela que lhe manchara a reputação, ao amante que razões justificam o seu impulso?" E dizer-se que numa época em que a mulher tanto tem trabalhado e conseguido para a sua emancipação, ainda ha órgãos da imprensa que reconhecem no marido o direito de assassinar a esposa! Ao passo que se o adúltero fôr êle... deve a esposa redobrar de carinho para o compensar... da sua infidelidade, não há dúvida. O casamento indissolúvel — conforme existe ainda em alguns países — tem de.cair, porque a evolução, embora lenta, embora gaste séculos na sua ação ao mesmo tempo demolidora e reconstrutora, é fatal; e esta transformação tem -de darse, mais dia menos dia, com todas as instituições antigas — cujo prestígio recua á medida que os progressos scientíficos e sociais avançam. No México, em meados de 1928, a Câmara local do Estado de 5. Luis de Potosi — Estado ultraprogres-sista nas suas reformas legislativas e sociais — tratando da lei de relações familiais cuja reforma foi sancionada pela Câmara Federal, oferece á discussão duas formas de contractos matrimoniais; o primeiro é designado por — de tempo Indeterminado, que só o divórcio poderá romper; segundo: o casamento por tempo, fixo, para um ou mais anos, á vontade dos nubentes. Se no fim deste contracto matrimonial os cônjuges querem continuá-lo, vão á presença do respectivo juiz legalizar uma prorogação por tempo combinado. Se no fim do contracto vencido não reformarem este perante o juiz, ficam marido e esposa desvinculados sem o mínimo compromisso, recobrando ambos no dia seguinte a sua liberdade. Em princípios de 1929 noticiou a imprensa o facto de estarem sendo adoptados na Rússia os casamentos por estação. Os agricultores casam com camponesas pouco antes das plantações, exploram os seus serviços até á respectiva colheita, e divorciam-se depois... Letourneau diz que durante a Roma protohistórica o casamento foi, de facto, indissolúvel; funda êle esta afirmativa no facto de que ali não houve durante mais de cinco séculos, um divórcio; e que vem em auxílio desta afirmativa a história conservando o nome do primeiro marido que repudiou sua mulher: Spurius Carvitius, que a "reenviou por uma razão demográfica: a causa da esterilidade." Entre os selvagens da America do Sul foram verificadas, no tempo da descoberta, tribos monógamas, como, por exemplo, a dos Guaicurús que habitavam entre o Paraguai e o Brasil (1). Cremos que o divórcio completo é uma transição entre o casamento indissolúvel e o prenun- (1) Uma prova da atual instabilidade do casamento indissolúvel é a seguinte: muitos indivíduos de ambos os sexos — principalmente do masculino, e principalmente na Europa — se subtraem ao casamento. Soubemos que em 1921, na Espanha, por iniciativa do Ministro Cambo, foi apresentado um projecto que lançava um imposto aos homens solteiros. Os opositores fundaram imediatamente uma associação em Salamanca, com o fim de protestar contra a respectiva aprovação. A enorme multidão de celibatários na Itália originou a instituição da lei do imposto sobre os solteiros de 25 aos 35 anos de idade, promulgada em 1926. Em outubro de 1928, o ministro Ciano nomeou o conde Di Cortillaza para dirigir a arrecadação desse imposto. Em 1926 um ilustre e convicto celibatário da actualidade, Mr. Aristides Briand, célebre político francês que tem exercido elevados cargos na sua pátria, declarou aos redactores da revista parisiense "Eve", que devia o seu êxito na vida política, ao facto d? ser solteiro, e termir nou a entrevista còm este precioso pedacinho: "Só, em minha torre de marfim, contemplo as cousas sem paixão, não tenho a tortura de vêr pessoas que me são caras querendo influir, por meu intermédio, na política francesa, sob o pretexto de interessar-se pela minha reputação." ciado pelos sociólogos e idealistas contemporâneos. Mantegazza, o eminente médico e escritor'que há mais de meio século reclamava para a mulher Mr. Briand, como Victor Hugo, pressente a força do sexo fraco... Na Grécia antiga, aos homens solteiros era proibido exercerem cargos civis. No Império Romano eram multados com pesadas quantias. O patriarca Moysès impunha aos israelitas o dever social do matrimónio. Aqui no Brasil começa agora esta medida de saneamento moral e demográfico. Diz-nos a imprensa que foi apresentado á Câmara do Rio de Janeiro um projecto de lei criando pesados impostos para os homens solteiros. Em nossa opinião o imposto dos celibatários devia consignar um fundo de seguro para as mulheres que não acham casamento. Em Vienna fundou-se há tempos uma sociedade de seguros em beneficio das mulheres que, em consequência da grande conflagração europeia — que roubou aos povos nela envolvidos a flor da mocidade masculina — não podem achar marido. Esta sociedade pagará às suas clientes uma pensão anual, como substituição da protecção marital que lhes falta. Este rendimento, é claro, cessa no caso de casamento. Em Siam, na Indo-China, as mulheres solteiras que têm pouca esperança de oòter marido enviam ao governo o seu nome e a sua fotografia, indicando também a fortuna que possuem, e são alistadas entre as noivas estaduais. O homem que cair nas malhas de algum delicto é obrigado s casar com uma delas: se o delicto tem pouca-importância obtém êle uma noiva atraente; dando-se o contrário se o delicto é grave. Existem ainda no globo povos em que as mulheres são compradas para o respectivo casamento! Na Yugo- Slavia, por exemplo, — antiga província turca — onde o número de homens é muito superior ao de mulheres, a igualdade de direitos, (1) reclamava também o divórcio completo como lei saneadora de todos os males advindos dos casamentos impostos e infelizes, e afirmava — autorizado pela sua longa experiência social — que as sociedades que inscreveram o divórcio Em suas leis são, efectivamente, as mais moraliztadoras e que mais alto conceito formam dia liberdade e da responsabilidade humanas; e que á proporção que a moralidade progride e o nível intelectual se eleva, mais raros se tornam os requerimentos de divórcio. persiste ainda o antigo costume de os pretendentes comprarem as suas futuras esposas cujos pais, se são pobres, exigem preços exagerados, pelas filhas. Ali uma mulher bela e robusta vale bem uma centena de libras turcas; se não possui tais predicados vale pelo menos dez libras. Os moços pobres e apaixonados chegam a cntregar-se ao crime do roubo para poderem comprar a mulher amada!

A título de curiosidade mais este pedacinho a provar o horror ao casamento por parte do sexo masculino: Existe na Irlanda uma aldeia — Bret — onde não há mulheres. Vivem ali somente homens maiores de 25 annos, solteiros e viúvos, que fazem todo o serviço dentro e fora de casa — congregados sob o juramento de não casarem. Estes misóginos consideram-se felizes desde que suprimiram as mulheres! Que aberração sai generis! Declara um jornalista de Dublin, que os entrevistou, que tal excêntrica aldeia é simplesmente fúnebre pela ausência completa de mulheres e crianças. (1) Mantegazza era tão devotadamente apologista do sexo feminino, que quasi sempre oferecia os seus livros — pelo menos, os que conhecemos — a senhoras. Ele mesmo confessava ter um culto superior, cheio de respeito, pela mulher.

N)a> Suiça a lei do divórcio só permite segundas núpcias àquele dos cônjuges que hão traiu a fidelidade conjugal. — Perfeita igualdade sexual. Ou a lei não fosse elaborada na justiceira e livre Suiça! Em Portugal, com a mudança de instituições, a mulher portuguesa conquistou quási a completa igualdade á face da lei civil. O governo provisório da Republica, que tinha como ministro da Justiça o Dr. Affonso Costa, conferiu-lhe grandes ganafntias com a lei do divórcio e as leis da família. O decreto da lei do divórcio diz no seu artigo 4.°: "São taxativamente causas legítimas do divórcio letigioso: 1.° — adultério do homem', (1) 2.° — adultério da mulher, 3.° — a condenação definitiva de um dos cônjuges a qualquer das penas maiores fixials dos arts. 550 e 570 do Código Penal. 4.° — as sevícias ou injúrias graves, 5.° — o abandono completo do domicílio conjugal por tempo não inferior a três anos. 6.° — a ausência, sem que do ausente haja notícias, por tempo não inferior a quatio anos. 7.° — loucura incurável quando decorridos pelo menos três anos sob a sua verificação por sentença passada Em julgado, nos termos do artigo 419.° e seguintes elo Código Processo Civil. 8.° — a separação de facto, livremente con- (1) Eis aí uma lei moralizadora, devidamente igualitária e, portanto, verdadeiramente humanitária. Perfeita igualdade de direitos. sentida, por dez anos consecutivos, qualquer que seja o motivo da separação. 9.° — vício inveterado do jogo de fortuna e de azar. 10.° — a doença contagiosa reconhecida' como incurável, ou doença incurável que importe aberração sexual." No art. 35.° do mesmo decreto está estabelecido o divórcio por mútuo consentimento. Os artigos 1, 4, 9, 10, são justamente vantajosos para a mulher. O adultério, quer do homem, quer da mulher, é igualmente punido. A investigação da paternidade é ali um facto e cem produzido grande moralização nos costumes. Com o decreto n. 2, ele 25 de dezembro de 1910, o feminismo em Portugal conseguiu realizar esta sua justa aspiração. A lei da família — que protege a mulher e a criança, e decreta a investigação da -paternidade, é também da autoria do Dr. Afonso Costa, quando ministro da Justiça, que dizia ter posto neste lei a melhor parte da sua alma. Vejamos a humanitária confecção da referida lei. Lei da Família — promulgada pelo Dr. Afonso Costa, em 25 de dezembro de 1910. "O marido não pode exigir, em circunstância alguma, que a esposa lhe seja entregue, e, assim como o marido pode demandar sem autorização da esposa — esta pode fazer o mesmo sem autorização do marido. Sendo mãe, sem ser casada, a investigação da paternidade, para seu filho, lhe é permitida nos casos seguintes: (1) Desde que exista um escrito do pai em que declare expressamente a sua paternidade; Estando o filho na posse do Estado, isto é, sendo reputado também, seu filho, pelo público; No caso de sedução seguida do abuso de autoridade ou de confiança, ou de promessa de casamento, fazendo coincidir a época do nascimento (180 dias mais ou menos), com a época da sedução; No caso em que a mãe e o considerado pai tenham vivido maritalmente durante o período geral da concepção. Sendo a paternidade reconhecida, o filho tem o direito de usar o nome do pai ou da mãe; de ser sustentado por eles; de suceder aos avós ou de ter parte nas respectivas heranças, de acordo com as prescrições do Código Civil. O homem tem ainda ele sustentar a mulher pobre, que lhe deu um filho ilegítimo; e, por consequência, ela pode demandá-lo em justiça, desde que lhe seja permitido propor ação. Esta obrigação não existe, ou é suspensa, (1) As leis actuais russas também permitem a investigação da paternidade, e estabelecem todo o amparo moral e social ás crianças — leis desenvolvidas dentro de bases justas. O Código Napoleão proibiu a investigação da paternidade — anteriormente legislada, embora desfavorável para a mulher — pela Convenção, em 1793. desde que a mulher tenha notoriamente uma m á conduta, ou se, durante o período de gestação ela teve relações com outro homem. Tendo uma boa conduta, a mulher pobre, tendo direito ao sustento, pode também exigir do pai ilegítimo, uma indemnização por todas as despesas causadas pela gestação e parto e por todos os danos que, necessariamente, lhe são advindos por este facto." Pôde haver lei mais conscienciosamente humana? Em julho de 1928 soubemos que o primeite» Ministro da Itália, Sr. Benito Mussolini, incumbiu o Ministro da Justiça de apresentar um projecto estabelecendo a lei do divórcio. Depois disto... será a Espanha o único país da Europa que ainda não promulgou a mencionada lei. O atual Código Civil russo determina no seu Art. 2.°: " O casamento termina pela morte de um dos cônjuges, pelo divórcio ou pela anulação nos casos de erro inicial." No divórcio soviético é suficiente que uma das partes o requeira; mesmo sem o consentimento da outra, está o divórcio legalmente realizado. N a Grécia antiga a mulher recebia no dia do seu casamento uma certa soma para a sua futura viuvez ou para o seu provável divórcio. N a Abissínia o divórcio pode-se realizar de acordo com os desejos de ambos os esposos. Os tibetanos, ao mesmo tempo que permitem o di- vórcio, proíbem um segundo casamento! Donde se conclui que não é o divórcio completo. Na China não existe a lei do divórcio. Os indígenas, que têm por testemunha matrimonial um pau qualquer, realizam o seu divórcio queimando-o. Nos Estados-Unidos a rapidez e facilidade com que se realiza o casamento e o divórcio, constituem na atualidade um verdadeiro escândalo, e um sério receio de consequências futuras. Em 1922 foram julgados 70.000 divórcios, e em 1923, 148.554, isto é, outras tantas dissoluções do lar. Diz uma crónica a este respeito que mais ou menos regula um divórcio para cada 300 habitantes. O juiz Hoffman, do tribunal de divórcio de Cincinnati, culpa a magistratura, que não cumpre o seu dever. U m juiz já chegou ali a permitir 900 divórcios por mês; outro diz que em cada divórcio faz quatro pessoas felizes. Que horror! Em alguns lugares o número de divórcios é superior ao de casamentos! Em Eric Cauntry, por exemplo, uniram-se pelo matrimónio 6.518 pares, e desuniram-se 6.658. Em New-York* diminuição no número ele casamentos foi de 5.075 em relação ao ano anterior. Ultimamente uni comunicado de New-York dá-nos uma média de 8 divórcios por hora realizados nos Estados Unidos em 1929!—do que resultou a separação dos pais respectivos, de 7.793 crianças. Os países que, conforme as mais recentes estatísticas, apresentam maior número de divórcios anualmente, são a America do Nqràs e a.Rússia. Vêem depois a Ukrania e a Hungria — relativamente. Na Europa, segundo a afirmativa dos cronistas, também o casamento vai em decaden- cia. Certamente este fenómeno muito influirá na vida da humanidade civilizada. Apesar das novas leis que tendem a reprimir o divórcio no Japão, é êle ali frequentemente reclamado — sempre, é claro, em Droveito do homem. A mulher nunca o requer porque rouba ao seu (acendrado carinho os queridos filhos da sua alma; e porque só ela fica exposta á censura pública, e ao mais triste isolamento de toda a sua vida. Em quanto que nos outros países o divórcio liberta a mulher do jugo opressor conjugal, no Japão é feito somente em prejuízo da esposa — e para mais completa liberdade do seu dono. Não obstante a sua tradicional dedicação ao marido, quando ela já lhe não agrada, procura êle um pretexto que legalize o repúdio (1). O nnais interessante dos projectos de reformas que as modernas japonesas reclamam, é o que se refere ao matrimónio. Querem elas que este se considere um acto religioso, ao contrário dos costumes antigos, e que se permita a ambos os sexos a liberdade da escolha. (1) Há no Japão sete motivos que sancionam legalmente a conduta marital, quando convém ao marido recambiar a pobre esposa, preconizados pelo moralista Kaibara: desobediência aos sogros; esterilidade, lascívia, ciúme, lepra, verbosidade irrespeitosa e inclinação ao roubo. A esposa repelida, presa ao poste da sua legal sujeição, nada mais pôde fazer que dizer ao seu abjecto senhor — ao transpor o limiar do aposento conjugal: "Sayonara!" (adeus!) Quando conseguirá a onda civilizadora feminista libertar desassombradamente todas as mulheres orientais do seu revoltante cativeiro?

N a Itália, em 1920, oito das nove comissões da Câmara apresentaram relatórios a respeito da questão do divórcio, tornando mais fácil a sepaíação dos esposos. Todos os grupos democráticos votaram com os socialistas em favor da medida. A imprensa católica declarou que o pacto nunca seria aprovado pela Câmara. No mesmo ano o telégrafo nos scientificou do seguinte: — que sob o fundamento de não ter filhos, um casal obteve ali da justiça que fosse anulado o seu casamento; e cuja decisão seria, provavelmente, seguida de numerosos processos de nulidade, sob igual motivo, visto não existir ainda na Itália a lei de divórcio completo. Que a ação do Tribunal foi aplaudida unanimemente jiela imprensa italiana, e que os socialistas pretendiam ajiresentar um projecto á Câmara dos Dejiutados, propondo que fossem compulsoriamente anulados todos os casamentos estéreis. Achamos justo — desde que ambos os cônjuges estejam de perfeito acordo com esse divórcio. Na Bolívia, em setembro de 1923, foi apresentado um projecto que estabelecia a lei do divórcio completo m legislação civil da Republica. Na Bélgica foi decretada uma lei de divórcio completo para os soldados que defenderam na guerra o amado solo da pátria, em vista de terem sido vários de seus lares conspurcados por imorais invasores sem consciência (1). Em março de (1) A guerra, a par de cruciantes consequências, também proporcionou acontecimentos interessantes. U m francês, empregado numa casa comercial do Rio de Janeiro, foi chamado á guerra. Nos primeiros

1924 um telegramma de Londres comunicava que o professor Clarcnce Fishcr, director de uma expedição organizada com o fim de realizar pesquisas históricas em Thcbas, no Egipto, descobriu um papirus, no qual se acha um decreto de divórcio datado de 236 anos antes de Cristo! tempos correspondeu-se com a esposa; mas um belo dia a correspondência cessou. Depois de várias investigações a esposa recebeu um ofício do governo francês comunicando-lhe, em 1917, o falecimento do marido — que tinha tombado gloriosamente nas memoráveis batalhas de Verdun. A viúva, depois de passado muito tempo em que sinceramente chorou a perda do esposo, casou segunda vez. Mas em 1920 aparece-lhe o primeiro marido — facto que a colocou numa situação crítica. Ambos os maridos a disputavam e ela não sabia como decidir! O advogado do primeiro disse que a mulher, legalmente, não era bígama; e que, para intentar uma ação era indispensável um documento que provasse que o primeiro marido estava vivo quando ela passou a segundas núpcias. Não sabemos, afinal, como foi resolvido este interessante caso de bigamia involuntária. Vem a propósito um outro caso de bigamia realizado nos Estados-Unidos, em Kentuky; mas este, além de consciente, é realmente singular! — U m homem casou com duas mulheres, a contento de ambas, e havendo entre os três cônjuges uma invejável harmonia resultante de um verdadeiro amor reciproco — pelo que todos três eram imensamente felizes. Quando este bígamo foi intimado a comparecer em juízo, o juiz lhe disse: "É acusado de bigamia"; ao que o acusado retrucou, com a seguinte pregimta: "Que crime é esse?" — Casamento com duas mulheres." — Sou, no pior dos casos, cúmplice, porque elas também casaram comigo..."

Em 1930 comunicou a imprensa que cerca de 30.000 senhoras casadas belgas, apresentariam um a moção ao Parlamento pedindo, e esperando um a justa modificação nas leis de casamento e do divórcio — pois são ali ainda vítimas do Código Napoleão, que deu ao autoritário marido todas as vantagens — sonegando-as á esposa. Parece-nos digna de ser aceita uma lei de divórcio escrupulosamente organizada, com cláusulas que dificultem, que impossibilitem o abuso de parte a parte; aprovamo-lo porque, aceitar, num momento — na maior parte das vezes irreflectido — uma vida inteira de desconhecido, sendo ela tão preciosa por ser tão curta, faz arrepiar! Mas, repetimos, um divórcio com todas as infalíveis e moralizadoras restricções. Vem a propósito ia seguinte interessante digressão baseada numa apreciação que há pouco vimos em um jornal de Lisboa, e que mais ou menos se resume na análise que segue: No penúltimo quartel do século XIX debateu-se com fervor a indissolubilidade do casamento. Alguns escritores românticos, de ambos os sexos, combateram-na, depreciando o marido e enaltecendo o amante. O aparecimento da peça teatral Divorçons, de Victorien Sardou, em 1880, porém, mostrou prever o resultado da lei do di- O bígamo foi condenado, mas as duas esposas andavam que terminasse tal pena, para voltarem a viver juntos todus três e a fruir a sua singuhr e comum felicidade! vórcio — hoje decretada em muitos países, é que suscitou outras peças teatrais onde, em consequência da fruição dessa lei, os papeis se inverteram: o marido era o romântico, o simpático sempre pronto a perdoar; e o amante... ridicularizado. Conforme o previa o Divorçons, o marido, depois da conquista do divórcio, era o glorificado! Sempre a humanidade a sentir-se atraída para o mais proibido! É certamente herança infalível da tentação paradisíaca... Reatando o fio do assunto sobre a superioridade da dedicação feminina, repetimos que todos os psicólogos, no afecto entre os dois sexos, são concordes em a afirmar. (1) Múltiplos exemplos confirmam esta asserção extraída de uma constante experiência. Temos á mão o seguinte: em 1929 uma moça de 17 anos percorria o Brasil, em trajes masculinos, a pé, arrostando todos os sacrifícios á procura do noivo desaparecido (e quem sabe se atraído para outra...) e tanto andou e tanto sofreu, até que caiu nas malhas da polícia, sem realizar o seu sonho! No próprio amor fraterno há uma cerfca superioridade por parte do sexo feminino. No amor conjugal os exemplos dessa superioridade são muitos e de todos os tempos. Lembra-nos, no momento, um caso emocionante que todo o mundo admirou e que reforça (1) Victor Hugo extraiu da sua experiência esta afirmação: "Muitas vezes em torno de nós são todos inimigos; a mulher é o afecto." a nossa sincera afirmativa: o da esposa do médico Dr. Urbino de Freitas, em Portugal, que não acredita na culpabilidade do marido — indigitado como monstruoso envenenador de parentes ricos da esposa, impelido pela ambição, e o qual a família dela acerbamente acusa; a esposa declara á própria mãe que, sua família, desde aquele momento, era simplesmente seu marido e seus filhos; e, com uma pasmosa e heroioa dedicação de esposa amante e mártir, acompanha seu marido na Penitenciária e em todas as dolorosas estações do seu calvário, admirável no seu procedimento exemplar — o que muito justifica e eleva o sentimentalismo e virtudes da mulher portuguesa. Invertamos os papeis: seria esse marido, em caso idêntico, igualmente dedicado e abnegado? Seria tão intrínseco o seu amor conjugal que da mesma forma o levasse a tão dignificante exemplo? Não o cremos. Eni idênticas circunstâncias talvez sua esposa lhe inspirasse menosprezo e asco. Existe na Dinamarca uma instituição única no género: uma ordem do mérito conjugal, intitulada: "União Perfeita", fundada por uma mulher — a rainha Sofia Madalena no momento do seu casamento com Cristiano VI, em 1732. Porcia — filha do Catão de Utica — suicidou-se quando soube que seu marido Bruto, um dos assassinos de César, se matara. No 1.° século da nosa éra, deu outro exemplo de amor conjugal, Eponina, esposa do chefe Gaulês, Sabino, o qual tentou libertar os Gauleses do jugo dos Romanos. Com o foi vencido chegou a sua casa e incendiou-a pana persuadir que morreu no incêndio; e fez saber a sua mulher que estava oculto num subterrâneo. Esta esposa exemplar fechou-se com o marido no subterrâneo onde, durante 9 amuos, com todo o carinho do seu muito amor o compensou da falta de liberdade. Como fosse atraiçoado, Sabino foi condenado á morte por Vcspasianp, apesar das súplicas e lágrimas de Eponina que, não querendo sobreviver ao esposo c]uerido, e já que o não pôde salvar, insultou o imperador e foi executada. No tempo do imperador Cláudio, Peto foi condenado á morte como conspirador; sua mulher Arria — dama romana — com o duplo fim de o seguir ao túmulo e de lhe dar coragem, cravou no próprio peito um punhal, e arrancando-o apresenta-o a seu marido, dizendo: "Paete, non elolet," (Pelo, não doe). Sem hesitar êle imitou a heróica esposa. E quem não conhece o rasgo de amor conjugal elo século XII, quando Conrado 111, duque de Franconia, tomou a praça de Winsberg? Vencedor, permitiu êle que as mulheres.— elas. somente — saíssem, levando o que de mais precioso tivessem; e elas... levaram seus maridos ás costas — o que tanto comoveu o Imperador da Alemanha que perdoou aos vencidos. Nos tempos modernos — apesar de todas as descrenças que invadem nossa alma — também frequentemente se registam exemplos semelhantes. — Em fins de 1921 um telegrama de Turim dizia lacónica e simplesmente: "A condessa Cnipello, desgostosa com a morte de seu marido pôs termo á existência." No mesmo ano, em consequência da revolução de Kronstadt, entre crs muitos oficiais antibolchevistas fusilados em Arkangel (Rússia), duas senhoras se deixaram fuzilar Em lugar de seus maridos — oficiais que se haviam evadido. Em outubro de 1922 a imprensa publicou este comovente facto: — em Paris, o jornalista e ex-ministro Mareei Sembat faleceu repentinamente. Sua amorável esposa, a notável pintora Georgette Augusti Sembat, não pôde sobreviverlhe e suicidou-se com um tiro na garganta, deixando a seguinte carta eloquentemente dolorosa no íeu laconismo; "Ele partiu há 12 horas; eu estou atrasada." No mesmo ano suicidou-se no Rio de Janeiro, Marieta Somes, com 24 anos, casada com o negociante Luís Tubarão, deixando dois filhos na orfandade; o motivo do seu desespero foi o ver a sua solicitude conjugal recompensada com o abandono do marido. Em 1928 tentou suicidar-se com um tiro no peito, no cemitério de 5. Francisco Xavier — Rio de Janeiro — sobre a sepultura de seu marido, Pura Sardgosa, declarando não poder subsistir á morte de seu esposo. Dizem os naturalistas que estudam a psicologia dos nossos irmãos inferiores, que dentre as classes irracionais são as aves os indivíduos mais inteligentes; e em consequência desse estudo vêem á luz da realidade interessantes casos de amor conjugal. É proverbial a fidelidade da rola, con- servada durante a sua eterna viuvez; nunca aceita segunda união conjugal. Nos periquitos illinois aprecia-se uma tal ternura conjugal, uma lealdade recíproca tão digna de servir de modelo ao género humano, que os indivíduos unidos pelo amor não sobrevivem um ao outro. Este exemplo — quem o duvidará? — coloca estas aves muito acima dos homens — principalmente se as compararmos aos povos bárbaros, onde somente a viúva era obrigada a fazer-se queimar viva! Como entre as diversas espécies de animais não existem só uniões poligâmicas, mas também monogâmicas — como as acima mencionadas, certamente entre estes pássaros tão exemplarmente sentimentais a união monogâmica corresponde ao casamento indissolúvel — que entre efes não há divórcio — o que os coloca acima dos racionais... A espécie de amor que nivela aos racionais Cs irracionais — amor o mais sublime, mais abnegado e o único firme — ê o amor materno. Neste zmor prescinde-se de apontar exemplos — não há exemplos, porque as excepções em fenómeno tão providencial da natureza, são raríssimas. Mas merece ser contado um caso original que se deu no fim do ano de 1924, consequente da guerra de Espanha em Marrocos. A Sra. Leonora Grau, madrilena, tinha na guerra marido e filho. Morto o marido, a Sra. Leonora fez á Virgem promessa da sua vida — se seu filho voltasse ao lar. Nas vésperas de Natal o filho regressou, o que deu á mãe inaudita consolação. Divertiram-se, a mãe proporcionou ao filho tudo quanto podia contribuir para a sua alegria e felicidade. Á noite, depois de terminados os festejos disse ela ao filho: "Agora que voltaste, preciso cumprir a minha promessa." Não prestou o filho atenção a estas palavras, porque as não podia compreender. Mas no dia seguinte apareceu á superfície do rio o corpo da desventurada mãe. Para completarmos a contribuição afectuosa da mulher, vamos analizá-Ia -— embora com escassos exemplos como são aqueles de que dispomos — pelo lado do seu amor ao próximo, dos seus sentimentos humanitários. O gentil e primoroso escritor Coelho Netto, membro da Academia Brasileira de Letras e considerado príncipe da prosa no Brasil, envolve neste sublime conceito o sexo feminino: — "Julga-se uma sociedade, uma época, não tanto pela ação dos homens como pela virtude das mulheres: são tias que reflectem a moral, a cultura, o progresso das nações e a grandeza dos séculos." Para não sermos apodada de suspeita ao perfilhar a abalizada opinião de reputados pensadores e sociólogos, lembraremos a virtude das virtudes: a Caridade — que a mulher exerce impelida pelo seu natural impulso para o bem da humanidade, sublimemente provada na altruística instituição mundial da Cruz Vermelha. Nas grandes calamidades ela pátria ou das naçõe-s estran-. geiras — pois que a caridade não conhece balizas — com a mais abnegada dedicação elas em- — 6t>5 — polgam os hospitais de sangue, todos os estabelecimentos de caridade e saneamento moral e físico — incluindo mulheres laicas e congreganistas. Estas abnegadas no seu religioso mister, prestam em todo o mundo inestimáveis serviços aos enfermos, na humanitária assistência dos hospitais. Esta grandeza d'alma feminina não podia manifestar-se mais bela e superiormente do que na sua sagrada missão de amparar os feridos da grande guerra europeia — onde milhares destas heróicas mulheres sacrificaram a vida pela dos combatentes. (1) A França acorreram nessa dolorosa conjuntura, ambulâncias femininas até dos países neutros, como: dinamarquesas, chinesas, e de várias outras nacionalidades; e algumas houve que ali fundaram hospitais de sangue. Duas senhoras de Melburne fundaram um em Paris, outro na Bélgica. Sras. dinamarquesas mantiveram um hospital Em Paris. As damas chinesas da primeira sociedade de Pekini, fizeram-se acompanhar no seu feito altamente humanitário, pelos seus melhores médicos. Em 1914, logo após a guerra, partiram também para a França a prestar os seus serviços nos hospitais de sangue, grupos de enfermeiras nipónicas. No Japão há várias sociedades da Cruz Vermelha, Ligas moralizadoras, etc. O sexo masculino tem, pois, a hombridade de reconhecer que estas manifes- (1 Sabe-se, por estatísticas fidedignas, que sucumbiram na grande guerra 10.000000 de homens — e alguns milhões de mulheres, tais ações de bondade e humanitarismo são inatas na alma feminina. U m nome legendário de mulher na história da beneficência, é Florence Nightingale, de nacionalidade inglesa, imortalizada por Longfellow com o nome de "Dama da Lâmpada", pois que alumiava o hospital e as almas; e glorificada por Lewis Carroll no seu poema: " O Caminho das Rosas". Bela e rica, desde menina se dedicou a suavizar a dôr alheia — principiando por tratar um cão. Fez o curso de enfermeira e estudou a organização dos principais hospitais da Europa, entrando, por fim, como diaconisa, na escola célebre de irmãs de caridade protestantes — Kaiserswerth, perto de Dusseldorf. N a guerra da Criméa, de 1854, associando os seus desejos aos desígnios do governo inglês, seguiu para o hospital de sangue, de Scutari, levando consigo 38 enfermeiras; ali deparou com grande número de feridos — uns seis mil! — e em cujo trabalho insano não só de enfermeira como de directora do colossal serviço hospitalar — conjuntamente com o cólera que a atingiu em Balaklava — a sua saúde sucumbiu, o que pôs em sentido alvoroço a capital londrina. Escreveu várias obras relativas ao aperfeiçoamento do serviço da ambulância, reproduzidas em centenas de mil exemplares. Nunca aceitou presente algum dos muitos e valiosos que a cidade de Londres lhe oferecia, nem tão pouco o produto de subscrições — que ela pedia fossem empre- gados em aliviar a pobreza e sofrimento alheios. Dentre todas as manifestações gênerosas e justas do povo londrino, ela só aceitou um broche que lhe ofereceu a rainha Victoria, com este significativo dístico gravado: "Felizes os misericordiosos". A Câmara de Londres, conjuntamente com outras honras, concedeu-lhe o título de irmã da cidade (free sister) — que só havia concedido a Lady Burdett Couts. Faleceu esta santa creatura aos 88 anos de idade — tendo posto toda a sua vida ao serviço dos pobres e desherdados da sorte. Seu nome entrou bemdito e glorioso no panteon dos imortais. Madalena Fry, também benemérita contemporânea de Florcncc Nightingale, era então a mestra consagrada no preparo de enfermeiras. Após a guerra europeia, sob a epígrafe: " O livro de ouro das mulheres", vimos a notícia de que na Inglaterra foram celebrados ofícios, na Igreja de 5. Paulo, em honra ele 350 enfermeiras que tinham perdido a vida na grande conflagração. Compareceram a estas cerimónias, representantes de todos os povos aliados, incluindo colónias, bem como para mais de 5.000 enfermeiras e um grande contingente alemão. Em princípios de 1922 dizia-nos uma notícia de Buenos Aires que a milionária argentina Victoria Aguirre pagou a viagem e estadia de um mês e meio, em Miramar, a setenta operários. Em abril de 1923, a princesa assyria, Surma di Mar Shimum, foi a Londres advogar a causa do seu povo, que na guerra contra os turcos e kurdos, tudo perdeu lutando. Acompanhava esta notícia o retrato da magnânima princesa. Em 1924, em Paris, foi citado na ordem do dia o nome de uma heroína — Mme. Bettregieux, vigia de uma usina de Roubaix. — Durante um incêndio que ali irrompeu, salvou esta benemérita seis das crianças confiadas á sua guarda, e morreu quando se atirou á fornalha para salvar dois menores que ainda faltavam. Por proposta do governo francês o nome da Sra. Bettregieux foi incluído no quadro da legião de honra. Em Montreal, no Canadá (1929), uma viúva morreu carbonizada num incêndio por ter obrigado os bombeiros a salvarem em primeiro lugar o seu amigo e companheiro Harriet Barr. Há pouco tempo — em 1925 — a imprensa de 5. Paulo referiu-se, com termos elogiosos, ao comovente gesto de duas artistas: a actriz Auzenda dOlivcira e a corista Henriqueta Conceição, da Companhia Armando de Vasconcelos, que se sujeitaram á transfusão do sangue para salvar uma sua colega — a artista Adelina Sousa, gravemente prostrada no leito de dôr, por forte hemorragia. Ao principiar o ano de 1930 faleceu em Portugal, com 78 anos, a virtuosa e culta senhora Maria Amónia Pinto Bastos, que na grande guerra chefiou corajosamente a Cruz Vermelha portuguesa. As muitas condecorações que lhe ornavam o peito, ganhas heroicamente na Flandres, e a sua abnegada exiscia toda devotada á prática do Bem, dizem o suficiente da formosura da sua alma.

E quantas e quantas mais não têm exercido a caridade, a filantropia, com o mais louvável altruísmo e com risco da própria vida! Nós, porém, temos ele limitar-nos simplesmente a exemplificar, fechando este assunto com o mesmo autor com que abrimos este capítulo: "Ser feliz, eis o primeiro pensamento do homem. Fazer felizes os outros é o primeiro pensamento ela mulher" — Mantegazza. Em princípios de 1926, agitava-se em Paris a idea ela fundação de uma Liga universal denominada "Cruzada do Amor", tendo por objectivo confraternizar todos os países civilizados de forma a opor aos assaltos do Ódio — herança fatal que uma guerra de cruciantes e longas agonias legou ao mundo — a barreira humanitária do Amor. De facto, desde que se desencadeou o ódio reciproco suscitado pela guerra europeia que arrastou na sua funesta vertigem tantas nações para o desespero e para- a morte, não deixou ainda o mundo de se debater ao contacto desse hórrido fantasma que, no seu amplexo asfixiante, tem oprimido todos os continentes. A Sociedade das Nações, tal como tem sido até hoje, falseia a aspiração dos espíritos clarividentes que exigem e proclamam a preparação do campo aprópriado para o conseguimento ela universal federação pela paz. Não é essa a Sociedade das Nações sonhada pelo magnânimo Wilson!...

A dolorosa expressão ela leader mundial feminista, Carrie Chapman Catt, traduz um facto desanimador: " O homem mostrou-se incapaz de evitar a guerra, e mostra-se incapaz de fazer a paz". (1) E é por isso que ela quer o "aperfeiçoamento da humanidade pela cooperação integral da mulher". As feministas norte-americanas — de mãos dadas com as de todo o mundo — depois de terem conseguido o seu ingresso legal ao lado do homem, dedicam-se, abnegadas e heróicas, ao tratamento e cura das duas maiores chagas da sociedade atual: a prostituição e a guerra. Lady Astor, quando soube da perda elo submarino M 1, aproveitando a oportunidade e o ensejo, pensou em formular um apelo ás mulheres de todas as nações afim de propugnarem, junto dos seus governos, pela supressão mundial da classe desses navios — idea a que se associou oficialmente o presidente elo Lloyd — Percy Mackinnon (2) — Mães, apoderai-vos ele uma sã instrução para poderdes formar espírito, coração e caracter da humanidade futura. A par elo heroísmo, (1) A nossa época, o nosso século, são assombrosamente uma época áurea de descobertas extraordinárias que nos permitem fruir um progresso superior á nossa concepção;—só se não descobre um meio de evitar a guerra, de a pôr fora da lei! (2) Não sabemos se este salutar pensamento foi realizado. incuti no ânimo de vossos filhos o mais humanitário altruísmo, preparando assim o terreno do porvir no qual as decisões por meio da guerra sejam substituídas pelas que dimanam do convencimento e da justiça. Irmãs de todos os continentes, irmãs cm sexo, em aspirações e em espírito, que, munidas de uma abnegação exemplar, cruzais a face da terra no decidido e altruístico tentâmen de remodelar moral e socialmente o mundo! — Alçai e imponde convincentemente aos povos o lábaro santo ela Paz. Dedicai as faculdades da vossa inteligência á tarefa sublime de reduzir ao Nada esse espectro assolador tão impróprio da cultura da nossa época. — Que possam, emfim, os espíritos rectos proclamar bem alto a vossa nunca desmentida dedicação á colectividade humana! Congregai todos os vossos esforços — pondo de parte divergências ele opinião e de crenças — aproveitai todos os direitos trabalhosamente adquiridos, na mais grandiosa obra colossal e benemérita. Só assim podereis ascender condignamente ao mais merecido lugar no panteon ela Historia — conquista a mais digna de unia eterna gratidão universal. Só assim podereis justificar a profética expressão de Schuié; " A mulher pode ser proclamada a alma do mundo". Realizai o divino Sonho que alimentou o generoso espírito de Wilson, abrangei toda a família humana no mais fraternal amplexo ele amor — do qual irrompa a Harmonia do Universo. FIM

Como este livro foi terminado em 1920, e como a respectiva impressão demorou mais de 5 anos poi" motivos estranhos á nossa vontade, é possível que nele surjam tópicos mais ou menos inoportunos, e que contenha algumas lacunas relativas ao seu assunto principal. M. C.

Terminada a impressão do nosso livro, devemos ao público que nos lê, uma explicação. — Os originais foram entregues na Casa editora, em 1928. A principal causa da grande demora tem origem em ponderosos motivos por parte do Editor. Sendo impresso na ausência da autora contém alguns erros que o leitor facilmente corrigirá. — Emendamos apenas os mais graves: Pag. 15, linha 27 — a essa guerra. Pag. 18, linha 17 — Pelletan. Pag. 85, linha 22 — quantidade, linha 23 — comandando. Pag. 308, linha 19 — se a encararmos, linha 20 — e como. Pag. 580, linha 16 — e obrigavam. Pag. 581, linha 20 — por consequência. Pag. 603, linha 17 — visto que. M. C.

A evolução do feminismo

Sinopse

Leia gratuitamente A evolução do feminismo, de Mariana Coelho, obra fundamental da história do pensamento feminista em língua portuguesa. Esta versão modernizada e conservadora foi preparada para leitura online no Literunico a partir da edição pública de 1933 preservada pela La Trobe University, com seções internas, fonte integral limpa e estrutura otimizada para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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