Universo da obra
Universo da obra
O CIVISMO DA MULHER NA GUERRA Nenhuma agremiação feminista nem mesmo a das sufragistas inglesas, rotulada com o nome lendário e ilustrada com a figura enérgica de Emeline Pankhurst, podia supor que seria necessária a terrível hecatombe humana dessa guerra fantástica flagelando a humanidade durante quatro longos anos, para que visse coroadas do mais brilhante e surpreendente êxito as suas constantes e por vezes espectaculosas reivindicações. Quando os antifeministas ridicularizavam as sufragistas e, em suma, todas as mulheres que aspiravam á sua emancipação — opinando que o lugar delas era em casa — não contavam com uma guerra de extermínio como a que explodiu em pleno século XX, a qual lhes veio demonstrar que as reivindicações femininas foram, além da sede de justiça que significavam, proféticas e providenciais. Estivessem as mulheres, em tão dolorosa contingência, na mesma apática inferioridade social, e queríamos ver de que forma se resolveria o grave problema da falta de homens nas antihigiénicas trincheiras! Entretanto a vitória feminina no seu estupefaciente procedimento duran- te a guerra, foi um facto, apesar de se reconhecer que, principalmente nos países latinos, ainda hoje se cuida mais da educação masculina que da feminina. A mulher das nações beligerantes provou admiravelmente o valor do seu alevantado civismo e da sua indiscutível capacidade no desempenho de todas as profissões masculinas. A sua ação foi preponderante no aflitivo transe que premeu todo o mundo; não se limitou a desempenhar as profissões dos homens presos nos ensanguentados tentáculos da guerra; ella também provou a sua competência e o seu amor pátrio nas linhas de combate. Ao meditar neste assombroso fenómeno, digno do nosso século, era-se levado a esperar que, depois da guerra, de envolta com outros graves problemas sociais, se impuzesse a resolução do problema feminista. A celeridade pasmosa com que as exigências da guerra precipitaram a atual vitória feminista, corresponde á nossa época de vapor e electricidade •— "em que todos precisamos caminhar ou correr: o que pára está perdido!" O feminismo progride de uma maneira, pode-se dizer assustadora para a ainda grande plêiade dos retrógrados. Todas as variantes do sonho feminista se vão condensando em factos por toda a parte. E cremos, com experimentados sociólogos, que, com a mulher devidamente instruída e emancipada, o progresso mundial marchará •mais depressa. Quando a mulher, para tal fim conscienciosamente educada, tiver conquistado em todos os países — pelo menos nos mais avançados em ideias modernas,—a igualdade civil e política, quando esses países tiverem progredido suficientemente, promulgando as leis respectivas, admiraremos — lançando um olhar retrospectivo á proclamada e romantizada inferioridade feminina, que tantos séculos fosse preciso galgar para se chegar á consecução atual da eminente causa — eminente e justa. E como "a humanidade só progride pelo martírio", dá-se sempre este interessante fenómeno com as grandes causas: só vingam por meio de uma longa e persistente luta, cuja vitória irrompe deslumbrante do martírio imposto, visto que todas fazem mártires, e que o feminismo também se não eximiu nunca á fatalidade desta lei. Que fale por nós a historia antiga e moderna, provando evidentemente que nas grandes conquistas da humanidade, nas grandes evoluções sociais, lá surge inconfundível e brilhante — ainda que talvez menosprezada ou ridicularizada, a eloquente contribuição feminina. O distinto jornalista brasileiro Dr. Assis Chateaubriand, diz: "Nenhuma grande batalha da humanidade foi até hoje ganha sem o concurso da mulher". Em 1793 o notável movimento feminista contava mulheres entusiastas, valentes e gênerosas que lutavam pela causa do seu sexo, e pediam á Convenção, com a coragem máscula de Olímpia de Gouges, direitos sociais e políticos iguais aos dos homens.— pagando a sua justa e audaciosa exigência no cadafalso! (1) Olímpia de Gouges, a apaixonada reivindicadora da liberdade, teve a abnegação de se oferecer para defender Luis XVI. Nas suas reclamações acompanhavanvna a magnânima e preclara Aíme. Roland, Lucile Desm&ulins — esposa de Camilo Dcsmoulins — Sofia Lapierre e muitas outras, que foram á guilhotina (2)—umas em 1793, outras em 1797, porque certamente a sua inteligência e ousadas reivindicações amedrontavam os homens da Grande Revolução, os homens para quem só se impunham os direitos do homem—isto é, os deles... A individualidade de Mme,.Roland — perfil que a história ilumina pondo em relevo a sua enérgica integridade de caracter, uma das vítimas femininas que em várias épocas de terror e em vários povos, têm subido ao cadafalso inocentes e escudadas em um nobre e assombroso estoicismo, sustentou, como Maria Antonieta, a sua atitude digna e sobranceira na prisão como na guilhotina. Alma bondosa servida por uma rara e cultivada inteligência, ela afagava com entusiasmo a (1) As feministas da Revolução francesa, pondo os seus serviços á disposição da mesma, publicavam em editais eleitorais o seu belo programa de ação: "Serviço militar obrigatório para os homens; serviço humanitário obrigatório para as mulheres. A defesa do território confiada aos homens; a Assistência pública confiada ás mulheres." (2) O h! amarga ironia! pelos homens que proclamavam: Liberdade, Igualdade e Fraternidade... ideia de uma Revolução muito diferente da que em 1793 a levou ao patíbulo — em nome da bemdita liberdade que ela sonhara — e que os homens transformaram na ignominiosa cilada do Teiror! (1) A causa feminista, portanto, que conta muitas e abnegadas mártires, teve também o seu baptismo de sangue no último bruxulear do século XVIII — como todas as ideias progressistas que surgem revolucionando os costumes. Mas voltemos á Revolução Francesa de 1793. Entre as muitas mulheres que nela tomaram parte como guerreiras, salientam-se Pauline Léon que propôs á Assembléa pôr em pé de guerra 300 francesas. Mancsse Dupont manda para a fronteira 900 amazonas e patenteia a necessidade de recrutar em Paris um exército de 10.000 mulheres. As revolucionárias denominavam-se cidadãs, e pelejavam ao lado dos homens. Rose Lacombe bateu-se de armas na mão, em 10 de agosto. As amazonas da coronela Mme. Fourier e da capitã Daru, surgiam em quantidade, comandando legiões de homens. Mmee. Moulins substituiu vantajosamente, no comando da guarda nacional, um seu sobrinho aristocrata que não aceitou o cargo. Em Bordeaux milhares de francesas armadas souberam morrer nas barricadas. Em compensação a Revolução vencedora declarou contra a na- (i) A guilhotina, conjuntamente com as feministas que executou, paralisou o movimento feminista que reapareceu forte c impetuoso no século XIX. tureza a actividade cívica das mulheres e fechou os clubes femininos por meio do acintoso decreto de 30 de outubro de 1793, ditado pela Convenção! Perante a história deparamos sempre com esta dolorosa verdade: em todas as grandes revoluções as mulheres tomam uma grande parte nos sacrifícios pelos direitos comuns, mas não obtêm nunca, como compensação devida, melhoria no seu estado social. A sublime ação da mulher contemporânea, tomando parte na luta armada, na grande guerra, não é um caso virgem na história; a diferença está no facto de terem sido os exemplos remotos, esporádicos, emquanto que o.s da atualidaide foram dados em massa pelas mulheres de quasi todos os países em luta. No século X V — supérfluo é recordá-lo — temos o soberbo feito patriótico de Joana d'Are, a simbólica heroína da França e uma glória mundial feminina. O seu amor á pátria mostra-lha ameaçada de invasão estrangeira, e coloca-lhe as armas na mão; ela vence as hostes inimigas e faz sagrar o seu rei — do que resulta ser a grande patriota-mártir queimada viva! Emocionante exemplo do patriotismo feminino, que na atualidade tão sublimemente foi imitado! Á sua grande pátria prova-lhe e eterniza- Ihe a sua gratidão comemorando os feitos da virgem branca com as honias de segunda festa nacional da França, e dando-lhe a solenidade da primeira — o 14 de Julho.
No 1." de Junho de 1919 <D tomaram parte na festa em sua honra ingleses, em cidades francesas; soldados franceses, em cidades alemãs. Sobre o túmulo de Carlos Magno, em Aix-la-Chapelc, a pátria eregiu-lhe uma estátua. E a Igreja católica canonizou-a... No mesmo século XV, Jeanne Laisné, denonada Jeanne Hachette, foi mais uma heroína que a França ostenta na sua história. Defendeu a cidade de Beauvais, sitiada por Carlos o Temerário, servindo-se de uma machadinha como arma — donde lhe veio o cognome de Hachette. (2) Como guerreira notável, desenha-se também num passado ultralongínquo, a imagem arrebatadora da bela Semiranris. A interessantíssima legenda que nos vem do Oriente, nos apresenta por entre fantasiosos relevos próprios da era que precedeu Cristo, o magnífico perfil dessa admirável rainha da Babylonia, tipo inconfundível pela sua excepcional formosura, assombroso talento e máscula bravura, que lhe conquistaram a imortalidade — pois os seus feitos nos campos de batalha salientaram-na entre os primeiros generais. Nas guerras antigas, repetimos, as mulheres, no seu ardor bélico, davam aos soldados li- (1) No fim da guerra. (54) No século XVI, Catharina Maria de Lorena, duquesa de Mantpensúer, irmã dos Guises, tomou parte saliente nas guerras da "Liga". No século XVII, Liusa de Orteans, também duquesa e conhecida por — Mademosslle — tomou parte na guerra civil da "Fronda". ções de patriotismo. Dário, quando levou um exército á Cilicia foi acompanhado pela mãe e pela esposa, e dizia aos soldados, para os animar a combater: "Nossas esposas e nossas filhas aconv panham o exército: — presa oferecida ao inimigo, se lhes não opusermos umia resistência que defenda os seuis corpos." Qinto Curcio diz que não só o rei, mas todos os combatentes levavam á guerra suas mulheres. Durante a guerra de Cyro contra Astyages, a presença das mulheres excitava os soldados á luta; e, se retiravam em desordem, eram por elas exprobrados — o que fazia com que eles retomassem ânimo e pusessem em fuga o inimigo. <D Já na era remota de 480 antes de Cristo, o sexo feminino se mostrava superior ao masculino, no patriotismo que transparecia em todo o seu procedimento bélico. Artemisa, rainha de Halicarnasso, foi incluída por Xerxes, na sua esquadra armada contra os gregos, entre os seus chefes e aliados. Heródoto assegurou que muito activa fora a parte que ela tomou nessa luta e muito auxiliou o rei com sá- (1) A este feito se pôde comparar o seguinte facto histórico de mulheres brasileiras, filhas do Estado de S. Paulo. — Em um sanguinolento combate contra os forasteiros em Minas Geraes, os paulistas, depois de vencidos e acossados pelo inimigo, regressaram a suas casas onde suas esposas os receberem com tal asco pela cobardia de fugirem sem se vingarem das afrontas recebidas, que os referido; combatentes se viram obrigados a voltar;í luta, elegendo para seu chefe Amador Bucno. bios conselhos, que êle, infelizmente, desprezara — o que impeliu Xenofontc a dizer que "nessa guerra os homens se haviam portado como mulheres', e as mulheres como homens. " Marco Aurélio era acompanhado nas suas expedições contra os Bánbaros, de sua mulher Faustino, a quem os soldados deram, p cognome de "Mãe dos acampamentos". Temos, portanto, na historia múltiplos exemplos de mulheres guerreiras, tão gênerosamente imitados na última guerra pelo sexo feminino atual. E não nos é possível registar todos os sublimes exemplos femininos, pois cremos que raro será o país que não consigne na sua história a coragem e patriotismo de mulheres guerreiras. Entre as antigas heroínas hindus a história regista a admirável guerreira Ahalya e compara-a a Joana d'Are. N a guerra de secessão, em 1861, as mulheres norte-americanas também tomaram parte activa nos combates, ao lado do exército — que tinha em armas três milhões de homens! Nas guerras contemporâneas igualmente a mulher tem sempre tomado parte na luta armada. Em princípios do século atual, na guerra desproporcionada da Inglaterra com o Tmnsvaal, sobressaíam as mulheres transvaalianas desempenhando patrióticamente o seu serviço militar. Na China, á revolução que derrubou o Império, associaram-se as mulheres chinesas, que foram arregimentadas e instruídas por chefes masculinos — mas comandadas por mulheres; o número destas revolucionárias foi calculado de 4.000 a 5.000. das quais a maior parte deu a vida pe'0 seu ideal. N a história do Brasil ha vários e interessantes exemplos de mulheres guerreiras, de que apontaremos alguns: W na invasão holandesa, em 1620, tomaram parte na respectiva luta armada, mulheres brasileiras. No cerco da Baia notabilizaram-se as mulheres que souberam repelir, ganhando a vitória, os soldados assaltantes. A índia Clara Camarão, na célebre batalha de Porto Calvo, em 1637, combateu á mão armada e comandou um batalhão de índias igualmente aguerridas. Maria de Sousa também tomou armas na defesa de Pernambuco. Depois de perder três filhos na guerra contra os holandeses, mandou os dois que lhe restavam: um de 13, outro de 14 anos, a salvar a pátria. (2> Maria de Medeiros foi condecorada por D. Pedro com a ordem do Crucificado, porque na Baia tomou parte, nas fileiras dos brasileiros que se batiam pela independência, nos respectivos combates — facto que lhe grangeou a denominação de Joana d!Are brasileira. (1) Algumas mulheres dos tempos coloniais, nascidas no Brasil, são consideradas portuguesas em Portugal—t brasileiras no Brasil, como, por exemplo: Rosa Maria de Siqueira, Maria Úrsula de Abreu Alencastre e Maria de Sousa, são' consideradas portuguesas pela escritora portuguesa Ana de Castro Osório; são consideradas brasileiras pelos escritores brasileircs. (2) Entre os Mohaws, as mães renegam seus filhos quando voltam vencidos de uma expedição. — 91 E temos o simpático nome de Anita Garibaldi, que tomou o nome do grande condoticri pelo respectivo casamento. Correm na história de Anita duas versões quanto ao seu estado civil — ao tempo em que ela conheceu Garibaldi, cada uma das quais exposta por distintos escritores catarinenses: Virgílio Várzea, na sua obra "Garibaldi e a Republica Rio-Grandense" dá Anita como casada com Manoel José Duarte, natural da barra da Laguna( pescador ou embarcadiço — por morte do qual ela se uniu em segundas núpcias a Garibaldi. O capitão de corveta, Henrique Boiteux, na bela revista literária, hoje extinta, "Renascença", dá Anita como solteira — sendo ela e Garibaldi perseguidos por um oficial do exército imperial — João Gonçalves, com quem a família de Anita a queria casar — casamento que ela repeliu pelo seu amor a Garibaldi. Segundo este cronista, o casamento de Anita com Garibaldi realizou-se em Montevideo, em 1881, depois da sua partida do Brasil. A revolução iniciada em 1835 no Estado do Rio Grande do Sul, que durou 10 anos e ficou sendo conhecida pelo nome de Guerra dos Farrapos, chegou a implantar em 1839 a efémera Republica do Estado de Santa Catarina, do qual era filha esta corajosa brasileira—que muito se salientou pela sua coragem varonil, em vários e acesos combates a bordo de navios republicanos, coragem que teve o melhor incentivo na paixão que irrompera, recíproca, entre ela e o futuro unificador da Itália — /. Garibaldi.
Segundo historiam os cronistas, era Anita de estatura elegante e espírito forte — animada por um heroísmo másculo e por sentimentos puros. É de crer que o que deu a esta mulher essa coragem inaudita, que ela manifestou em todos os combates em que tomou parte activa, fosse esse grande amor pois dizem os respectivos cronistas "que se não realizavam muitos feitos e triunfos de um, sem a presença do outro". É aplicável a esse facto o acertado pensamento: "Grandes almas tornam-se maiores pelo amor". Na guerra da unificação da Itália ela combateu ao lado do marido, com tanta abnegação que pela Itália morreu. Em Ravenna os patriotas italianos levantaram um monumento a esta heroína cuja ação compensou, naquelle pais, a de Garibaldi no Brasil republicano. No pedestal da sua querida estátua, lè-se: La pátria famira II mondo fadora. Assim corresponderam á súplica que Garibaldi lhes enviara: "Cidadãos de Ravenna, acolhei as cinzas dia heroína americana, a mártir da vossa libertação. Eu,a confio á vossa guarda. Todos os que a conheceram, todos os ipatriotas vos hão de abençoar. Terra de Ravenna, Terra dos corações miagnânimos, sê leve para a minha Anita!" Em Santa Catharina—seu Estado natal, e em Belo Horizonte, Estado de Minas Geraes, tam- bem lhe erigiram uma herma. Em Junho de 1931, uma neta deste histórico casal, Anita Itália Garibaldi, italiana, realizou na capital do Paraná uma eloquente e brilhante conferencia relativa aos feitos gloriosos de Garibaldi na America do Sul — onde ela gastou dois anos colhendo documentos para cultuar a memória de seus ilustres avós, que no Brasil e na Itália se bateram pelos belos ideais da liberdade sonhada. Na história dos países sul-americanos figuram muitos exemplos de mulheres guerreiras. No Rio Grande do Sul, depois de Anita Garibaldi, vários nomes femininos se têm salientado nas revoluções. Na ultima Revolução, em outubro de 1930, vitoriosa em todo o Brasil, apresentou-se na Capital Federal um batalhão feminino com 78 legionárias mineiras, devidamente fardadas, sob o comando da Dra. Elvira Kemel, no posto de 2.° tenente, e por e organizado no Estado de Minas Geracs. Tinha por porta-bandeira a Senhorinha Esmeralda Alves. Este batalhão, denominado "João Pessoa", foi aclamadíssimo á sua entrada no Rio de Janeiro. Acompanhavamno vários oficiais do Exército. A Senhorinha Leonor Solange, professora paulista, encorporou-se ao batalhão, chegando a ser ferida na linha de fogo. Quando a Brigada "Baptista Luzardo" chegou ao Rio, ia encorporada ao 5o Regimento a Senhorinha Rosa Rodrigues, que fez toda a campanha. No Rio Grande da Sul, a Sra. Teófila Silva de Carvalho equipou os iseus seis filhos, que for- maram na vanguarda das forças revolucionárias. Na história de Portugal, no século XIII, as filhas de Sancho 1 defenderam de armas na mão, os legados de seu pai, contra a ambição de seu irmão Afonso 11, e com os quais fundaram a caridosa obra das Leprosarias. No século XIV Deuhadeu Martins, mulher de Vasco Gomes de Abreu, alcaide-mór de Monsão, foi outra heroína. Na ausência do marido os castelhanos cercaram a praça, e ela tomando o comando salvou a vila. No século XVI, nos gloriosos cercos de Diu — índia Portuguesa — ficaram, imortalizados os nomes de Isabel, Ana e Barbara Fernandes, que combateram á mão armada ao lado dos homens, em defesa da Pátria — dando-lhe, portanto, o seu sangue e o de seus filhos. Ainda no governo de D. João de Castro, na índia, em 1546, contra o formidável ataque de quarenta mil turcos — no segundo cerco de Diu — entre as muitas mulheres que fizeram parte da defesa armada, se tornou notável Isabel Fernandes, cognominada "a Velha de Diu". Helena Peres, em 1648, estando a praça de Monsão rigorosamente sitiada pelas forças de Castela, de chapéu de homem na cabeça, armada de chuço, comandou 30 mulheres igualmente armadas, (de chuços), distribuindo-as pelos pontos mais arriscados das muralhas — pontos em que todas souberam provar ânimo e coragem.
Maria Úrsula de Abreu Afienicastre assentou praça em Lisboa sob o nome de Baltasar Couto Cardoso e militou na índia de 1700 a 1714. Rosa Maria de Sequeira, tendo somente 24 anos, e acompanhada de outras mulheres, defendeu a Nau Senhora do Carmo dos piratas argelinos, quando regressava,a Lisboa — pondo em ação a artilharia contra esses piratas que faziam o cerco da capital portuguesa; e uniformizada como um homem, dava exemplos de coragem máscula — "que faltava a alguns dos embarcadiços"... Em patriotismo, nas contingências de guerra e de manifestações revolucionárias, sempre se salientou nobremente a alma portuguesa feminina. Basta para o confirmar, o Io de Dezembro de 1640. Principiemos pela alma varonil da Duquesa de Bragança, D. Luisa de Gusmão, que, consultada por seu esposo — o> 7° Duque, sobre a revolta que trouxe a Restauração a Portugal e arrancou a pátria ao domínio espanhol, respondeu "que melhor era morrer reinando que viver servindo". O Duque imediatamente acedeu ás palavras de convencimento dos jurados. Como digna representanta da heróica raça lusa, ilustrou o grande momento histórico, com esta espontânea expressão: "Salve-se a Pátria, ainda mesmo que tudo e a própria vida se perca!" As fidalgas D. Felipa de Vilhena e D. Mariana de Lancastre, elas próprias armaram seus dois únicos filhos para a revolução e conquista da liberdade — lembrando-lhes o que deviam ao seu nome e á sua pátria.
Pelos historiadores do 1640, tem sido sempre posta em relevo a contribuição que as mulheres portuguesas — mães, esposas e irmãs dos conjurados prestaram á conspiração de 1640, expressa pela sua abnegada dedicação e heroísmo a que as impelia o seu acendrado amor pátrio, conservando sempre escrupulosamente o sigilo imposto pela parte que tomaram nessa conjuração. O brilhante investigador da história pátria, Conde de Sabugosa, observando que hoje quasi passa despercebido em Portugal o imortal feito da sua Restauração, refere-se com veneração a essas dedicadas auxiliadoras, dizendo: " U m elemento, porém, persiste, que não deixa obliterar nem desvanecer, na alma da Nação, a gloriosa data. É a recordação permanente das figuras femininas que para ela contribuíram, e cujas feições morais são* tão nobremente características da mulher portuguesa". E as damas de Chaúl — cidade indiana — que deram todas as suas jóias para salvar a honra da pátria, no Cerco de Diu. Enviando--as ao vice-rei da índia, D. João de Castro — um dos mais dignos vultos da antiga história portuguesa — e juntando-lhes as suas disse-lhe D. Catarina de Sousa: "Por Catarina, minha filha, lhe mando todas as minhas jóias. Creia que só das jóias de Chaúl pode fazer a guerra dez anos sem se acabarem de gastar. E empenharei minha própria filha, se fôr necessário,. para o serviço de V. S'." Em princípios do século XIX, em conseqúen- cia de uma das invasões francesas, Maria Rosa Lourenço, minhota, partiu com um dos filhos para a vila de Barcelos, e apresentou-se no quartel do regimento de milícias, pedindo para falar ao comandante. Depois de introduzida no gabinete onde êle estava, disse-lhe: — "Sr. Coronel: Eu tenho cinco filhos, dos quais já ofereci três para nos defenderem dos franceses na campanha passada, e ainda têm praça na Infantaria n° 9; um dos outros foi a Braga ajudar a levar as mochilas a seus irmãos, e apesar de êle ter uma lesão em uma perna, assim mesmo, logo que chegue o conduzirei á presença de V. Sa. O quinto e último eilo aqui; é o que me resta; porém, a pátria, senhor, está em. primeiro lugar; se a pátria e a liberdade precisam dele, aí o tem". E impeliu-o para o coronel — que ficou comovido e surpreendido com este rasgo de patriotismo numa mulher do povo! O coronel interpelou o rapaz: — Que respondes tu ao que tua mãe acaba de dizer? Ao que êle respondeu prontamente: — "Que aprovo do coração quanto minha mãe diz e fizer. Se sou necessário para servir a pátria, aqui estou. " E não esqueçamos a célebre Brites de Almeida, a legendária padeira de Aljubarrota que na batalha de 13 de agosto de 1385, quando o exército castelhano fugia, matou 7 soldados castelhanos escondidos no forno — com a pá do mesmo....nos belos tempos do glorioso Mestre de Avis — D. João l.o de Boa Memoria. O insigne escritor portugueês, Camilo Castelo
Branco, aludindo aos grandes momentos históricos de ação patriótica, em que a mulher portuguesa tomava parte importante, dizia que "era mister disputar aos bravos as coroas de louro cívico, para as cingir ás frontes das valorosas matronas que ensinaram aos filhos a honra da morte nos baluartes da pátria rediviva". Os exemplos de mulheres guerreiras vêem desde as idades primitivas; se é verdade que na maior parte das tribos selvagens, a caça e a guerra eram trabalho destinado unicamente ao homem, não é menos verídico que em várias tribos, e até mesmo em vários clans — organização social mais rudimentar — elas tomavam parte na guerra — umas vezes prestando serviços aos homens combatentes, outras combatendo mesmo a seu lado. Estes exemplos têm sido notados através de civilizações antigas e modernas, mas em nossos dias, na guerra que mais pavorosamente convulsionou o mundo, foram em número considerável. Atribuímos, portanto, o fenómeno atual á consequência fatal de leis atávioais, ou de supervivencia. Segundo as narrativas de vários exploradores, informados além de tudo, por primitivos habitantes da America do Sul, a tradição relativa á existência — para muitos simplesmente lenda — das amazonas americanas, não foi mais que o aparecimento de mulheres selvagens guerreiras nas margens do 'grande rio. que lhes tomou o nome. Esta tradição teve curso em tempos mais ou menos remotos, entre os indígenas, que nela acreditavam. O cronista espanhol padre d'Acunha, recolheu-a dos próprios lábios deles. Estas mulheres representariam, nos combates, papel tão activo como os homens — sendo disciplinadas como as Dahomeanas. La Condamine, efectuando no século XVIII a audaciosa descida da Amazónia em jangadas indianas, interrogou os indígenas a tal respeito, os quais lhe deram explicações comprobativas da existência das amazonas. A mesma tradição existia no Oiapoc. Vários viajantes colheram provas do facto na America do Sul. Alguns afirmam até te-ias visto. Humboldt ocupou-se várias vezes da lenda indiana e concluiu, em face do resultado positivo de suas investigações, que, realmente, os espanhoes encontraram nas margens do grande rio, mulheres armadas de flechas, que em diversas ocasiões lhes ofereceram resistência. A maior parte dos dizeres relativos a esta tradição, combinam-se em colocar o país das Amazonas no centro montanhoso da Guiana. Letourneau conclui destes factos: "Devemos repelir esta crença como fábula? Existe hoje na ainda selvagem algum distrito povoado (America por mulheres guerreiras? Pode-se altivamente afirmar a negativa, mas que tenha podido existir outr'ora, a cousa não é impossível. Podem mesmo surgir no futuro provas mais positivas, mais convincentes." Entre os índios habitantes das margens do
Amazonas, as mulheres tomavam parte nas guerras e regalavam-se nos consequentes banquetes antropofágicos que se lhes seguiam. Knivat — antigo viajante do Brasil, fala das mulheres Moifquités, que eram, como êle próprio observou, muito belicosas; e que os Guayamuras as tinham habituado a fazer a guerra. As pesquisas históricas verificaram ainda a existência de mulheres guerreiras habitando, sós, noutros tempos, montanhas escarpadas; este facto, dizem os respectivos cronistas, pode-se ter realizado, acidentalmente, em alguma garganta de montanha onde elas procurariam refúgio depois do extermínio dos seus homens em alguma guerra infeliz — podendo uma associação feminina deste género subsistir mais ou menos tempo. Em algumas tribos peri-mexicanas, as mulheres seguiam os homens na guerra; durante a ação elas permaneciam a seu lado, e muitas vezes tomando-lhes mesmo a vanguarda. Em alguns pequenos Estados da Africa negra as mulheres tomam também parte na guerra como combatentes. As abyssínias de todos os tempos combatem ao lado dos homens. Stanley verificou a militarização feminina junto do lago Alberto Nyanza, no reino da Uganda, na corte de M'téza — monarca que o capitão Speke, conhecido explorador do centro da Africa, tiouxe ao nosso conhecimento no século passado. Alude êle também ás mulheres que formavam a guarda particular do Dahomé. Estas guerreiras, que constituíam um peque- no exército, eram divididas em dois corpos — um, força activa, outro, de reserva. O primeiro era constituído de 3.000 mulheres, aproximadamente, recrutadas entre as mais jovens. O que lhes incutia o espírito guerreiro era simplesmente a educação aprópriada. Nas investigações históricas aparecem muitas vezes exemplos de amazonísmo, donde se pode concluir que a Grécia primitiva tenha tido o respectivo conhecimento e daí surgisse a lenda helénica das Amazonas — para muitos simplesmente mitologia. A propósito do verso dos Lusíadas, Canto 111, Est. 44: "Imitando a fermosa e forte dama" diz o conceituado catedrático e sábio escritor Dr. Mendes dos Remédios, na nota 60, pag. 88 da 3a edição dos Lusíadas: "Fermosa...dama" Penthesiléa, rainha das fabulosas Amazonas, mulheres guerreiras que se dizia habitarem nas margens do Ponto Euxino (Mar Negro), na região onde corria o rio Termodonte. Penthesiléa morreu ás mãos de Aehilks num combate singular para que tinha desafiado o herói grego, quando do cerco de Tróia. A lembrança do Poeta (Camões), é que tem base histórica, pois nesta batalha cooperaram mulheres guerreiras. — Herculano, "Hist. de Pdrtugal" 1, 234". '' Estrabão — o célebre geógrafo grego, diz que na índia antiga, as mulheres que rodeavam o rei e eram compradas a seus pais, acompanha- vam-no na caça e na guerra, montando cavalos ou elefantes e armadas como Amazonas, previamente exercitadas. As mulheres guanches — primitivo povo das Canárias, eram notáveis pela sua energia, força prodigiosa e coragem., de tal forma que nos combates eram, conforme o afirmam vários historiadores, pelo menos tão temíveis como os homcms, e decidiam ás vezes da paz e da guerra, como no Effipto. A s damas de casta nobre gozavam, pois, uma preponderância igual á dos homens da sua classe, em vista de rivalizarem com eles em coragem guerreira. Letourneau, referindo-se a esses factos, conclui que devem ser uma supervivencia, não, sem dúvida, de urna idade amazonense desaparecida, >mas dê um período em que a divisão do trabalho pacífico, e áo trabalho guerreiro, ou cinegético, mão era ainda rigorosamente feita entre os doí<s «sexos. Comentando o assunto, Letourneau opina que não ha incompatibilidade absoluta entre o mister militar e o sexo feminino; porque, se a mulher está habitualmente afastada da caça e da guerra pelas suas funções de maternidade, ela não é orgânica e mentalmente inapta para representar um papel nos conflictos guerreiros. E continua êle, com graça: "Humoristas misóginos têm mesmo pretendido que, psiquicamente, a mulher é mais bem dotada que o homem para se conduzir valentemente nos campos de batalha. "Quais são, dizem cies, os traços de carácter mais úteis para fazer um bom militar? São um medíocre poder de raciocínio e uma forte impulsividade. Ora, uma e outra que podem ser raras no homem, são, em geral, muito frequentes na mulher". Os sábios exploradores que têm estudado os povos onde se observa o amazonismo, tiram a seguinte ilação: "Nas raças e regiões onde as mulheres, por supervívencia, têm conservado algumas aptidões amazónicas ou guerreiras, elas são mais livres, e mais respeitadas que noutras partes pelos homens." Depois destes factos, de que a história nos scientifica, não é concludente atribuir ao atavismo, ou a uma supervívencia, a ação militar das mulheres dos nossos dias, na grande guerra? Façamos uma ronda escrupulosa por todos os povos atraídos a essa grande luta armada, que os envolveu no luto e na dor, principiando pelo civismo — que em tão delicada conjuntura a mulher brasileira demonstrou -- atendendo a que o estado de guerra existente entre o Brasil e a Alemanha não chegou a impelir o brioso exército brasileiro para as frentes europeias. As associações filiais da Cruz Vermelha Brasileira — com sede no Rio de Janeiro, gênerosamente ampararam o hospital de sangue, que o Brasil primorosamente fundou e sustentou Em Paris, e cuja organização e funcionamento mereceram elogios de Mr. Bouricr, sub-secretario da Saúde, pelos serviços que prestou aos feridos — 'elogio que abrangia, consequentemente, a distinta missão médica brasileira que trabalhava nesse hospital, composto dos Drs. Borges da Costa, Parreiras, e Horta Montenegro, os quais a França (agraciou com a Legião de Honra. Em vários Estados da Republica brasileira, principalmente em 5. Paulo, Rio Grande do Sul, e no Rio de Janeiro, muitas enfermeiras da Cruz Vermelha estavam preparadas para seguir com as forças — no caso de que estas fossem dar o seu sangue pela causa dos aliados — e, por consequúencia, pela pátria. São dignos, contudo, de ser registados certos gestos interessantes, ousados uns, simpáticos outros, do sexo feminino brasileiro. A inteligente professora Leolinda Daltro — arrojada feminista do Brasil, em novembro de 1917 apareceu na capital, em surpreendente passeata, com um batalhão feminino de 84 alistadas, formando uma companhia. (Estas exibições á Pankhurst não eram bem recebidas pelo femmismo ponderado). Cremos que os "batalhões femininos da morte", russos, incutiram no espírito destas entusiastas mulheres o contagioso prurido guerreiro e que, quando na Rússia de Leninle o respectivo silencio se fez, o incipiente batalhão feminino brasileiro apenas nasceu... morreu. É oportuno registar a seguinte notícia que em fins de 1921 nos veio do Rio, e a qual nos faz pensar que a mulher atual tenta preparar-se, como o homem, para o combate armado: "No grande concurso de tiro promovido pe- la Liga da Defesa Nacional — que se realizará a 11 de dezembro do corrente, tomarão parte senhoras e senhoritas". Na capital do Paraná, em abril de 1928, na apresentação de provas do torneio inaugural de uma festa desportiva, tomaram parte elementos femininos. Pelo menos o facto é sintomático... Na America do Norte, as melhores atiradoras de espingarda são: Roberta Wright, do "George Washington Col.ege", e Miss Catherine Ludlun — capitã do Instituto Drízel". As moças, nesse país, treinam até na'esgrima. (1) O gesto nvais significativo, porém, mais frisantemente cívico e mais.simpático., pertence á mulher de Aracaju, capital do Estado de Sergipe. Fundaram ali as senhoras solteiras uma associação com. o patriótico fim de não casar com moços que não tivessem prestado á pátria o respectivo serviço militar, de cuja resolução prestaram solene juramento á bandeira nacional! Da importância moral deste facto irradia uma honra imperecível na história do civismo feminino brasileiro, representado pela mulher sergipana — que não só colocou inequívoca e brilhantemente o patriotismo feminino acima do masculino — cujos sorteados em grande parte se eximiam de várias formas ao serviço militar, como se colocou acima (1) Em setembro de 1930 o Ministro da Guerra permitiu, por mei> de uma circular, que as mulheres se inscrevessem no concurso que se ia realizar de 3.ns oficiais do Ministéiio da Guerra, e que, depois de classificadas e nomeadas, teriam as honras de l.o tenente do exército. até do Parlamento do país — onde não passou o projecto de um deputado, que estabelecia a obrigatoriedade, nos documentos de habilitação para o casamento, da prova documentada de que o noivo tinha prestado á pátria o devido serviço militar. <W São estas patrióticas senhoras dignas da pátria do notável filósofo e glorioso poeta Tobias Barreto — desse digno feminista que tanto criticou a equiparação da mulher ao homem perante o direito criminal, e a sua desigualdade perante o direito civil; desse consciencioso feminista que tão brilhantemente provou em vitoriosa polémica sustentada com um scientista do seu tempo — Dr. Malaquias Gonçalves, quanto é errónea a persuasão de que a inferioridade do peso do cérebro da mulher a reduz á sua suposta incapacidade; para este fim apresentou o indiscutível argumento de que o cérebro de Bacon, de Byron e de outros génios que tanto honram a humanidade, pesavam menos que o de muitas mulheres; não havendo, concludentemente, razão para se considerar incapazes por aquilo qu\e, sendo desmentido pela própria sei encho, não prdia ser elevado á categoria intangível de um princípio. Para que a mulher, em geral, lhe seja grata, basta conhecer o denodo, a solicitude com que este acatado apologista das qualidades femininas (1) Nessa época ainda não existia o sorteio, no Brasil, para o serviço militar. O recrutamento então decretado obedecia a medidas previdentemente adoptadas em face da guerra. sustentou e defendeu a sua capacidade no cabal desempenho dos direitos que, até nossos dias, só têm sido concedidos ao homem. Em Portugal, quando foi decretada a mobilização dos homens, as mulheres se apressaram a fazer também a sua. A mulher portuguesa justificou com a mais sublime atitude perante a guerra, a fama que a enalteceu através a história pátria, pelos seus feitos nas mais elevadas lides civilizadoras, e que a colocam á altura da mulher dos principais países civilizados. A mulher portuguesa da atualidade deu um exemplo digno do seu país, do seu sexo e da sua raça. Apenas retumbou nos quatro cantos da vitoriosa terra lusa a declaração de guerra á Alemanha, as mulheres portuguesas, numa simpática e rápida mobilização, imediatamente se arregimentaram para a altruística campanha do progresso e do bem. Logo que Portugal se movimentou para a guerra, organizaram as senhoras de Lisboa várias associações tendentes a auxiliar a pátria: "Comissão Feminina peia Pátria", "Comissão de Assistência aos Soldados Mobilizados" e a importante associação: "Cruzada das Mulheres Portuguesas" cuja actividade e civismo grandes serviços prestaram no trágico momento. W Foi por iniciativa de D. Elzira Dantas Machado, ilustre esposa do então Presidente Dr. (1) Distintos nomes masculinos se associaram a esta grande e patriótica agremiação.
Bernardino Machado, (1) senhora de espírito finamente culto e distinta feminista, que ali se fundou a "Cruzada das Mulheres Portuguesas", da qual era presidenta — sendo secretária geral desta associação que mobilizou todos os corações femininos portugueses, para a patriótica obra da Assistência, a conhecida escritora Ana de Castro Osório. O ex-ministro das finanças, Dr. Afonso Costa, autor da Lei da Família, que dá á mulher a responsabilidade da orientação da família e a direcção moral da sociedade, declarou em pleno Parlamento que era indispensável dar capacidade jurídica á citada instituição feminina de beneficência. A "Cruzada das Mulheres Portuguesas" desdobrava-se em várias e importantes comissões femininas -— eleitas pela Comissão Central: Comissão Administrativa; Comissão de Propaganda; Comissão de Auxílio ás Mulheres dos Mobilizados; Comissão de Assistência aos militares mobilizados; Comissão de Enfermagem para habilitação de enfermeiras para os hospitais de sangue, na França, e para os hospitais militares do país; Comissão de Hospitalização. O ministro da guerra pedia sempre grande número de senhoras. (2) A Escola de Enfermagem pertence, por decreto, á Cruz Vermelha. (1) Mais tarde re-eleito Presidente da Republica Portuguesa. (2) Muitas enfermeiras seguiram para a França a prestar os seus serviços aos feridos portugueses.
A Cruzada instituiu uma casa de Trabalho para dar colocação ás mulheres que a não tinham. Fundou creches onde eram carinhosamente tratados os filhos dos mobilizados; criou o Instituto de Reeducação profissional dos Mutilados da guerra — que tem sido visitado por nacionais e estrangeiros de alta categoria. Era do seu programa fundar escolas profissionais e aldeias modelos em todas as províncias e ilhas do país — bem como realizar em Lisboa um grande Congresso Internacional para estudo dos problemas pedagógicos e educativos da mocidade e da infância. Construir casais para os órfãos da guerra, e trabalhar para que se realize a idea de levantar na Flandres a "Aldeia Portuguesa", monumento que atestará aos pósteros o heroísmo do soldado português. A Cruzada está subordinada á legislação administrativa que vigore em Portugal, e é composta de uma assembléa geral, de um conselho fiscal e de uma direcção. A presidenta geral é ainda a sua principal fundadora, D. Elzira Dantas Machado — protectora desta grande agremiação; a presidenta da direcção é D. Ana de Castro Osório, conhecida escritora e feminista. Passada a guerra, foram os seus estatutos, que estão oficialmente aprovados e com personalidade jurídica reconhecida, reformados de acordo com o tempo de paz. Esta associação de tão largas vistas foi agraciada pelo governo com a Gran Cruz da Torre e Espada. A sua direcção publica boletins mensais e re- latórios anuais, belíssimos no seu consciencioso texto e acentuado fundo patriótico. Em 1921 elegeu sua presidenta honorária a rainha Elizabeth, da Bélgica. Ocupa, consequentemente, um lugar proeminente e de grande prestígio no seio da sociedade portuguesa. Á assistência feminina se deve, em Portugal, a carinhosa fundação das "madrinhas de guerra" cujo atraente papel desempenharam senhoras ilustres da capital portuguesa, e distintas senhoras brasileiras; a qual tinha por fim: animar os soldados combatentes na França e na Africa, com a sua reconfortante correspondência, enviando-lhes leituras amenas, afectuosas dádivas e encarregandose da mútua transmissão de notícias entre os seus ".afilhados de guerra" e respectivas famílias. De todas essas beneméritas senhoras que tanto se desvelaram pela pátria em perigo, a que melhor conhecemos por ser uma escritora distinta, por nos honrar com a sua amizade e por se achar sempre á frente de todo o movimento patriótico, de todas as causas nobres e justas, e que foi a alma da Cruzada das Alui/teres Portuguesas, é Ana de Castro Osório — cuja actividade está sempre ao serviço da pátria, empenhando-se e trabalhando, ininterruptamente, com a sua brilhante pena semípre em movimento, e a sua palavra, pelo desenvolvimento progressista de tudo o que pode valorizar o seu país. Em 1919 o governo português condecorou- a com a Ordem de S. Tiago, acompanhada de um diploma que enaltece os serviços prestados ás le- trás e á Cruzada por esta distinta intelectual — Ordem que só tem sido concedida a pessoas de elevado merecimento, o que prova ser este acto do governo fimdado em grandes motivos de justiça. A junta Patriótica do Norte fundou a "Casa dos filhos dos soldados portugueses" — que tinha a sua sede no Porto. O "Diário do Governo" publicou uma portaria louvando as senhoras presidenta e vogais do "Núcleo Feminino da Assistência Infantil" "pela forma como souberam superintender á assistência das crianças, confiadas àquela benemérita associação. Justo é, porém, que aproveitemos a oportunidade — para que nos não suponham um egoís- m o antipático, de fazer justiça ao sexo masculino representado na guerra pelo exército português. -— Em 1920, o ilustre general Napoleão Ache, que chefiou a missão militar brasileira com sede em Paris, durante três anos, no seu regresso concedeu uma entrevista na capital federal ao "Correio da Manhã", na qual sintetizou o resultado da missão e as suas impressões da guerra e da paz. Quando no decurso da entrevista, se referiu aos soldados francês e belga, com elogios, passou com o maior entusiasmo a Portugal, dizendo: "Portugal é um país que se pode orgulhar de ter conquistado um lugar dos mais honrosos na história da grande guerra". Entusiasmado com a bravura dos soldados portugueses, lembra a batalha de Armentièrcs, oríóe os portugueses sofreram as consequências de uma defecção das linhas inglesas, sendo envolvidos e atacados por todos os flancos! Diz êle; "Artilheiros portugueses foram encontrados agarrados ás peças, tendo esgotado toda a munição!" O Chefe do Estado-Maior das tropas alemãs que travaram eombate com os.soldados portugueses, na Africa, durante a guerra, concedeu uma entrevista á "Pátria" de Lisboa, dizendo entre outras cousas, que o soldado português é admirável de resistência, de valentia, ie de Uma impnessionante lealdade. \ Se bem que pelo motivo da censura telegráfica fossem escassas as noticias relativas ao esforço feminino nos impérios centrais, durante a guerra, algumas, contudo, transpiraram muitíssi- m o interessantes também — relativamente ao seu civismo. Em setembro de 1917 um telegrama de Amsterdam nos comunicava que um alto personagem neutro, procedente da Alemanha, contara que as mulheres alemãs davam os seus cabelos para a fabricação de correias, vendo-se em Berlim muitas senhoras usando gorros, em virtude de se terem despojado do seu belo adorno. Além disto, todos os trabalhos agrícolas foram confiados ás mulheres — que também substituíram os homens, como foguistas, nos navios, nas vias-férreas e nas indústrias. Várias tomaram parte na guerra ao lado dos seus combatentes.
Os alemães aprisionados na Russia afirmaram que no seu exército, as mulheres além de se encarregarem da cozinha, de fazer o pão, e da contabilidade, para que os homens se pudessem entregar ao furioso duelo da metralha, substituíam os soldados sempre que era possível, especialmente na frente russa. Da França nos veio a notícia de que os seus soldados, na frente da guerra abateram um aeroplano pilotado por uma mulher alemã! A aviadora faleceu em consequência dfa queda do aparelho. Em 1917 trabalhavam em Essen, nas usinas de Krupp, 300.000 operários, dos quais 60.000 eram mulheres. Elas acorreram ao chamamento do governo — impelido pela falta dos homens que as exigências da guerra reclamavam para a frente do combate. Queremos simplesmente frisar o patriotismo feminino posto á prova nesta guerra que se inscreveu na história como -o maior flagelo da humanidade, mas da qual resultaram extraordinárias consequências—como que sendo impelida peia mola infalível da regeneração e evolução sociais, transformando um velho mundo num mundo novo; e neste puro intuito de só trazer a lume o civismo da mulher — que em todos os países se mostrou, em geral, superior á educação acanhada que tem recebido, principalmente nos países latinos, abstemo-nos da preocupação de esquadrinhar o lado por ventura antipático da causa que as mulheres alemãs defendiam, porque, embora antipático aos olhos do mundo, em geral, era a causa da sua pátria que estava em jogo. Entretanto, nem todas sancionaram os meios, e os fins, com que, segundo a opinião pública, a Alemanha militarista fazia a guerra. Em abril dte 1918 outro telegrama de Amsterdam participava que a nova liga patriótica "Partido pacifista feminino" e outras organizações alemãs dirigiram uma petição a von HertUng concitando-o a fazer declarações explícitas sobre as disposições da Alemanha, a consentir na independência e evacuação da Alsacia- Lorena e na implantação de um regime constitucional na sua pátria, — sendo a autoridade militar subordinada á autoridade civil. Igual a este gesto foi também o protesto eloquente da socialista Rosa Luxemburgo contra o retrógrado autoritorismo militarista. No meio da subserviência feminina alemã—consequente do imperialismo kaiseriano, a única consciência emancipada que scintilou ao sol da revolução social — da qual surgiu a Republica, foi Rosa Luxemburgo. Este seu protesto atravessou altíssono o espaço quando se levantou contra o militarismo desenfreado! Oh! mas esta mulher pusgou caro as suas profundas convicções, o seu sonho de liberdade e altruísmo! Com quanto nos seja simpática a causa do socialismo moderado, racional, não perfilhamos, absoIutamente> o terrorismo, pela repugnância que nos inspira — pois que não pode achar guarida num bem formado espírito feminino. Consequentemente Rosa Luxemburgo nos parece uma das excepções estupendas que por vezes surgem no scenário das grandes revoluções sociais. Mas também não abdicamos o direito que nos assiste, e cuja elevada significação cala em nossa alma, de admirar todo o adepto de uma causa pela qual êle sacrifica o que tem de mais precioso — a própria existência. Está neste caso Rosa Luxemburgo que, segundo se afirma, é provável fosse assassinada por militares do antigo regime. O seu cadáver foi encontrado, muito depois do seu desaparecimento, juntamente com o de Liebkticcht, seu companheiro de ideais e de lutas, — como chefes da revolta spartacista. Os seus fenerais, realizados em junho de 1919, foram acompanhados, segundo telegramas de Berlim, por mais de 100.000 pessoas. Enviaram ricas coroas a engrinaldar o ataúde da célebre socialista, os soviets da Rússia e da Ungria, e os socialistas da Holanda e da Servia. Os chefes comunistas da Grécia, da Polónia, da Turquia, da Bulgária e da Suiça realizaram orações fúnebres em,sua homenagem. Quando o prosélito de um ideal se lhe sacrifica com denodo e abnegação (até á morte, este ideal cresce e se engrandece na alma do povo, porque o espírito das multidões, obcecado por um a idea, nada admite fora dessa idea. Em março de 1920 diziam notícias de Berlim que fora colocada dinamite sob o assento do carro do capitão Pflung — um dos implicados no as- sassinato de Rosa Luxemburgo, fazendo uma explosão que espalhou por todos os lados fragmentos desse capitão. E em junho de 1921, que a multidão quasi linchara Otto Runge ao sair da cadeia, depois de cumprir a pena a que foi condenado pela acusação de implicado também no assassinato da leader comunista. Em Janeiro de 1929, noticiou Berlim qu; foram calculadas Em 12.000 as pessoas que participaram da grandiosa manifestação socialista comemorativa da morte de Lubknecht e de Rosa Luxemburgo. O facto prova eloquentemente a funda simpatia que esta notável revolucionária grangeára entre o povo. Em 1920 também morreram em Wesel, como cobatentes no exército vermelho, algumas mulheres alemãs. Da Áustria escassearam ainda mais as notícias acerca da dignidade cívica das suas mulheres. Sabemos apenas que duas ilustres senhoras •— de quem vimos a fotografia e cujo nome ignoramos, ingressaram no exército austríaco desde o princípio da guerra. É provável, porém, que o civismo feminino igualmente se manifestasse em todas as suas variantes, pela Pátria reclamadas. Em 1919, depois da guerra, portanto, nos sucessos sangrentos entre austríacos, yugo-slavos e sérvios, a imprensa registou o facto de tomarem parte nos respectivos combates grande numero de mulheres.
D a Itália conhecemos um telegrama de 1918, que copiamos literalmente para lhe não desvalorizarmos o sabor do confronto estabelecido entre os dois sexos, e que dá superioridade ao feminino. "Acabam de ser publicadas interessantes estatísticas sobre assuntos passados durante a guerra, sobressaindo a que se refere ao esforço empregado pelas mulheres em defesa da Pátria. Duzentas mil italianas, somente nas fábricas de munições, deram á Itália o concurso poderoso equivalente a um exército de duzentos mil homens — que foram por elas substituídos com vantagem. Mulheres de todas as classes sociais substituíram os homens desde o trabalho do operariado até ao cabal desempenho nos diversos ministérios e repartições oficiais. Em algumas fábricas de munições o emprego das mulheres representava 9 5 %. O ministério da agricultura, indústria e comércio conferiu medalhas e prémios ás que trabalhavam nos campos — sendo reconhecido o patriótico esforço das italianas no serviço público, nos hospitais e na assistência. Entre as associações femininas tinham lugar proeminente: o "Comité Nacional feminino intervencionista anti-alemão", notável pelo seu trabalho patriótico, e a "Associação Nacional das M u - lheres" com secções em todos os centros importantes da Itália. Em Roma hmdou-se a "Propaganda pela disciplina nacional", visando a resistência moral da pátria.
Na America do Norte, desde a sua entrada na guerra, as mulheres foram encarregadas pelo governo, de todo o serviço da administração da marinha de guerra e do exército, substituindo os oficiais de terra e mar que foram cumprir o dever altruístico de solidariedade humana, que a sua gênerosa pátria se impôs perante a civilização ameaçada. Lindas, com o seu uniforme especial, percorriam as ruas chamando os homens ao alistamento voluntário — fazendo oficialmente a propaganda do recrutamento, e formando imediatamente um grande regimento para a mobilização agrícola. Mary Pickford, a admirada artista da scena muda, foi a primeira que recebeu honras militares na guerra — foi nomeada coronel honorário do 14° regimento de Artilharia de Campo. Quando em S. Francisco da Califórnia foram desmobilizados e dispensados os homens, no seu regresso da França, Mary o foi igualmente. U m coronel agradeceu-lhe, em belo discurso, o interesse que ela sempre sustentou pelo bem-estar do seu regimento — á frente do qual ela marchou. Na França, o mesmo simpático movimento feminino. Quando ias feministas Mme. Marguerite Durant e Aí««. Dieulafoy lembraram, antes da guerra, que as mulheres podiam facilmente substituir os homens em todos os serviços auxiliares do exército, e que assim seriam restituídas ao serviço militar algumas centenas de milhares de soldados utilizáveis, diz-nos o cronista parisiense, transmissor desta notícia, que,a idea não foi, então, bem acolhida pela opinião pública — que achou nisso motivo para zombaria. Mas veio a guerra — a terrível factora da igualdade sexual, que se incumbiu de apelar para a capacidade e patriotismo das feministas... e a opinião pública já não ria! Os primeiros a formular esse apelo ás mulheres foram: Mr. Albert Tomás — ministro das munições, e o bravo general Galieni, abrindo- Ihes as portas das administrações militares. E desde então a mulher é chamada a empregos que ultrapassam as aspirações das feministas militantes mais comedidas. Elas estão se regalando de ver esboroar esse secular castelo de preconceitos que, desde o Gineceu ate á assombrosa guerra mundial, faziam da mulher um ser inferior ao homem. Que diriam os anti, antes da guerra, se as mulheres pedissem, por exemplo, um lugar nas secretarias de Estado? Entretanto, a "A Republica" de Lisboa publicava, oportunamete, no maior auge dessa carnificina humana, a seguinte notícia: "O general Galieni vae confiar a mulheres uma grande parte da secretaria da guerra. A mulher triunfa, como se vê, nas suas reivindicações feministas e é o homem que a chama; aproveita-a, utiliza-a, sem reparar que tem mentido até agora, atribuindo-se uma natureza de excepção. É preciso que a administração não pare e por isso se enfia a manga de alpaca no braço da nossa companheira e se lhe mete uma caneta banal na mão, na mesmíssima mão que até há pouco nos conveio educar para a ociosidade, para passar páginas de novela psicológica... A grande farça que representámos... Fizemos bancarrota." Na primavera de 1916 as mulheres francesas entraram no exército, empregando-se as primeiras nas cozinhas, lavagem e costura. Depois apresentaram-se as recrutas dos escritórios militares. O ministro da guerra, o subsecretário de Estado da Artilharia e das Munições, os serviços da intendência, o«serviços da saúde e a aeronáutica empregaram, ás centenas, mulheres incorporadas aos auxiliares—formando a maioria. Elas trabalhavam em todas as casernas de Paris: preparando refeições para os soldados, trabalhando nos armazéns de vestuário e na alfaiataria, nos escritórios, expedindo a correspondência, distribuindo os cartões de saída, pagando o pret e escrevendo as Ipermissões. Em fevereiro «cie 1917, segundo o que mos comunicou o telégrafo, io governo mobilizou itoda a população de ambos os sexos, entre 16 c 60 antes 'de idade. No Val-de-Grace, o grande hospital de Paris, todos os serviços anexos foram feminizados. A Dra. N. Girará Mangin exerceu desde o princípio da guerra — tendo apenas um descanso de 10 dias, as funções de major-médico de 2." classe. Primeiro no regimento da 21a. região, em cirurgia, depois na região fortificada de Vexdun, nos contagiosos.
No forte de Vinccnnes, em todas as oficinas de construção dos abarracamentos, as mulheres manejavam vigorosamente o martelo, a serra e a plaina. Nas casernas de província o mesmo dignificante espectáculo — e por toda a parte os relatórios dos chefes eram igualmente elogiosos — qualificando o zelo e consciência com que as mulheres agiam, de extraordinários, e confessando que o rendimento do trabalho feminino era infinitamente superior ao dos seus collegas masculinos — e com uma admirável disciplina! Algumas senhoras assumiram o lugar de prefeitos, abandonado: ou por motivo de ocupação alemã, ou porque as respectivas autoridades tinham sido deslocadas para a frente de guerra. Diz um cronista francês: "O número das mulheres empregadas nas fábricas, incluindo as de munições, atingia a meio milhão; outras substituíram os militares nos depósitos e serviços urgentes nos corpos do exército; metade deste número entrou nas secretarias onde prestou as melhores provas e com uma discreção que desmentiu em absoluto a aleivozia, que se tem feito correr como axioma, cie que as mulheres são incapazes de guardar segredo". Não podemos duvidar das informações que a tal respeito nos vinham da Europa e que não podiam ser mais insuspeitas, visto partirem sempre do sexo masculino. Os homens tiveram a hombridade de fazer justiça á outra metade do género humano — que, para dizer a verdade, não estava a isso muito acostumada...
Em 1917 disse-nos o telégrafo que Marcelle Semmcr, de 21 anos de idade, foi uma heroína condecorada com a Cruz de Guerra e a Legião de Honra, por actos de bravura, na retirada dos primeiros dias de guerra. Depois de terem os franceses transposto o Somme e o seu canal, Marcelle Semmer teve a presença de espírito de abrir as comportas, afim de impedir que o inimigo também passasse. Este acto de heroísmo foi executando sob o fogio 'dos alemães, e em consequência di'Sso o coipo do exército inimigo foi detido até á manhã seguinte. Ficando na aldeia, ela pôde reanimar e esconder um certo número de soldados franceses exaustos, ájud'ando-os a fugir com roupas dos civis. Sendo apanhada pelo inimigo a dar de comer a um soldado francês, foi condenada á morte. No momento de ser presa, disse: "Sou órfã, a França é minha mãe, e portanto não me amedronta o morrer". U m obus que caiu sobre os soldados incumbidos de a fuzilar, salvou-a e dispersou os alemães. Escondendo-se num subterrâneo, foi ela salva no dia seguinte ao retomarem os franceses a aldeia. Quando servia de guia a uma patrulha foi de novo aprisionada; mas depois de ter sido trancada numa igreja, conseguiu fugir de noite por um buraco de obus, e alcançou as linhas francesas. O general inglês daquele sector ordenou aos seus soldados que a saudassem sempre que a vissem. Na Sorbonne foi celebrado o heroísmo de Mllc. Senínwcr.
Paul Adam, em um ponderado artigo intitulado: "Eva Radiosa", convencido da capacidade feminina provada mais que suficientemente nas exigências do grande cataclismo, pregunta: " É possível que as mulheres façam as vezes de seus unaridos, seus irmãos, seus filhes? Teem razão as feministas que proclamam a igualdade dos sexos, sob todos os pontos de vista?" E deduz: "A prática atual parece confirmar essa opinião, antes considerada paradoxal e subversiva". Evidenciando a capacidade feminina na lavoura e no comércio, insiste: "Como negar-lhes, a essas calculistas, o direito de serem as representantas ide seus interesses comerciais?" E continua: " Em todas as classes sociais as mulheres foram igualmente sublimes: no campo, na oficina, no hospital, no balcão, no escritório, em toda a parte substituíram o marido; salvaram a riqueza nacional; administraram os bens comuns,; prepararam as armas, assistiram aos que agonizavam. Poderá a Republica, no futuro, declará-las inferiores? Eva sai enaltecida desta grande prova. Com o negar-lhes d'ora avante os mesmos direitos cívicos do homem? Com as suas lições e a sua influencia educaram e aconselharam os soldados cujo heroísmo sobrepuja os mais altos exemplos da antiguidade. Que se lhes poderá agora negar, se não se quizer insultar todos os princípios de justiça? É indispensável afastar os homens das oficinas, onde o seu espírito adormece. As funções de escriturários nos ministérios e administrações se- rão, por toda a parte, exercidos por mulheres instruídas. É preciso que durante o século XX o homem cubra a Africa de estradas de ferro, granjas, fábricas, e que, desta forma, multiplicando a produção do globo, torne a vida universal mais fácil graças á abundância da oferta. Esta é a sua missão. A de escrever cobardemente contas e notas, como um poltrão, já lhe não vai bem. Deixe essa tarefa á nossa Eva, a essa radiosa Eva, tão cauta e valorosa quão admirável na guerra. Bem o merece". E que fizeram as sérvias, as búlgaras, as turcas, as romenas?... Nunca vimos cousa alguma que provasse a sua interferência na guerra — a não ser o facto sabido de terem marchado intrépidas camponesas sérvias, de pá e enxada ao ombro para as trincheiras •— poupando aos soldados acúmulo de trabalho e fadiga, tornando-os, por consequência, mais livres para o combate ao inimigo. Entretanto, em 1921, na guerra greco-turca, a célebre escritora turca Halidedib, dirigiu a organização de diversos batalhões femininos destinados aos trabalhos administrativos na base das forças kemalistas. O exército turco — á data desta notícia- — eontaVa uma representanta <do sexo frágil. Na Rússia republicana os exemplos de coragem cívica foram simplesmente pasmosos e como tais reconhecidos e admirados por todo o mundo •— pois ultrapassaram toda a expectativa! No eximpério moscovita principiou o exemplo por Maria Malko, esposa de um oficial do exército russo, cuja fotografia 'vimos, uniformizada, que combateu ao lado do marido desde o começo da guerra com os impérios centrais, até que este foi morto e ela prisioneira. Só então se descobriu que era mulher. A heróica russa Irma Ivanowa, ao ver os soldados sem oficiais -— que haviam tombado no campo da> honra, pôs-se á sua frente e conseguiu retomar uma trincheira. Foi condecorada com a grande ordem de Santa Genoveva. Em 1917, no momento mais delirante dessa abominável carnificina humana, e quando da Revolução vencedora surgiu o vulto jovem e simpático de Kerensky, a Rússia revolucionária continuou, ao lado dos aliados, a combater os alealemães. Organizou-se, então, em Petrogradd\, um batalhão cie 'mulheres!, ro ou ai se alistou Mmc. Kerensky, esposa do primeiro ministro. Em Odessa organizou-se outro denominado "Legião da Morte'"—ambos perfeitamente equipados e disciplinados, e com a coragem do seu exemplar amor pela liberdade foram, inimitávelmente animosas, combater na frente da batalha. As respectivas informações declararam que estes batalhões prestaram á Revolução inestimáveis serviços. A "União Militar das Mulheres Voluntárias" publicou o seguinte manifesto dirigido aos operários: "Nossos operários devem continuar comtenacidade na luta contra o inimigo, ao qual são alheios os sentimentos e ideais que inspiram a revolução russa, e que só é animado pelas tendências imperialistas de impor a escravidão aos povos. Não condeneis a Rússia, acusando-a de desleal. Recordai que a Rússia se encontra num estado de transição, no qual o seu povo se acha naturalmente de iodo absorvido pela idea de consoilidação das liberdades recem-conquistadas". O batalhão de Petrogmdo combateu com tal sucesso na região de Krevo que o seu valor foi exalçado pelo commandante em chefe das forças masculinas. O "Novoié Vremia" enalteceu as mulheres, que se portaram com a maior valentia e com um notável ascendente <sôbre os soldados... A "Legião Feminina da Morte" sob o comando de.:Mme. Fochkoreva, promovida a 2° tenente pelo ministro da guerra, com igual bravura se bateu no sector de Smorgou, sofrendo muitas baixas. Quando as feridas, enviadas a Minsk, chegaram á estação de Poltava, milhares de cidadãos e soldados, empunhando bandeiras e acompanhados de bandas de música, fizeram-lhes delirante ovação. Os batalhões femininos demonstraram tal heroísmo que os comandantes de corpos dos exércitos confessavam que o exemplo das mulheres obrigava os soldados a redobrar de valor. O oficial comandante, no seu relatório qualificou a conduta guerreira feminina de: "Acima de todo o elogio." A valentia destas mulheres-soldados causava geral espanto! Nas fileiras dos batalhões femini- nos não havia homens; o comando, serviço de administração, de sanidade, etc, eram desempenhados por mulheres. Nas ambulâncias só trabalhavam médicas; entre as enfermeiras lá estava Mme- Kcrcnsky, esposa do chefe do governo; ao sentar praça, prestou juramento de permanecer nas trincheiras de 1.» linha guarnecidas por mulheres-soldados. A disciplina dos "batalhões femininos da morte" era mais rigorosa que nas fileiras masculinas. Elas próprias se impuseram á observância de obrigações que podem ser resumidas da seguinte forma, e que provam ser de um povo evolvido — apesar da autocracia que secularmente o oprimira:*!.0 — a honra, a liberdade e a felicidade da pátria estão Em primeiro lugar; 2.° — disciplina de ferro; 3.° — firmeza de espírito e fé inabalável; 4.° — valentia e coragem; 5.° — pontualidade e rapidez na execução das ordens; 6.° — lealdade a toda a prova no cumprimento de qualquer missão; 7.° — bom humor, bondade, cortezia, boa aparência, limpeza; 8.° — respeito ás opiniões contrárias, confiança mútua, cultivo dós sentimentos elevados; 9o proibição absoluta de toda a rixa e de solucionar as questões pessoais, porque rebaixam a dignidade do combatente.» A comandante, depois de ferida seb vezes durante a guerra, foi condecorada, pelos seus feitos, com: a Cruz de S. Jorge. Nos campos de instrução como no campo de batalha, as mulheres formavam um a organização autónoma; eram comandadas por mulheres, e eram só mulheres empregadas nos seus escritórios militares e a escoltar e conduzir comboios. Nas suas ambulâncias só havia medicas e enfermeiras. As mulheres russas fizeram ás suas patrícias o seguinte apelo: "Cidadãs: a todos quantos é cara a liberdade e a felicidade da Rússia, cumpre lutar contra a obra da sua desagregação. Devemos, nós cidadãs da nova Rússia, relevar as faltas cometidas no nosso exército... masculino, e (o sublinhado é nosso), por uma propaganda esclarecida nas suas linhas, fazer nascer a consciência do dever e o amor á pátria". Tanta beleza de conceitos, tão elevada concepção dos deveres morais e cívicos, tão simpática superioridade de carácter e tanta magnanimidade de sentimentos, estabeleciam um profundo contraste com a tibieza do exército masculino. Essas mulheres de gigantescos ideais, esse punhado de corações de escol — arredando da sua triunfal passagem tudo o que era mesquinho, tudo o que era ignóbil; desbravando altivas o terreno da igualdade dos sexos perante o sofrimento, da pátria; aniquilando, em surtos sublimes, a sombra monstruosa da Autocracia que por tantos séculos espezinhou aquele povo; desdobrando nos mais salutares conselhos a sua pura e íntegra intenção de guiar só para o bem da pátria e da humanidade — tinham fatalmente de ser mártires do seu ousado e belicoso heroísmo. Assim que chegaram aos hospitais de sangue as primeiras combatentes feridas, um jornalista inglês foi entrevistá-las. Todas estavam atacadas de paralisia parcial. Uma delas explicava: "Eu estava muito nervosa, porque se aproximava a hora de dar uma carga, esperando ordem para saltar das trincheiras c atirar de encontro ao inimigo; confesso que estava um tanto assustada; mas, desde que chegou a ordem de avançar, esqueci tudo! Ouvi minhas companheiras gritar cheias de entusiasmo, nenhuma teve medo; e quando saímos das nossas trincheiras, iniciando a carga, o tiroteio era terrível; muitos e enormes obuses caíam em torno de nós. Só tive uma impressão de horror quando vi o primeiro homem morto. Mas, pouco depois, saltava por cima dos cadáveres — sem que isto me impressionasse". Outra pormenorizava: "Eu não compreendia a marcha do combate: via a nossa comandante encorajando-nos e aconselhando-nos a lutar como soldados. De repente, notei que havia um grupo de soldados alemães diante de mim, e que estavam cercados pelo pessoal do nosso regimento; éramos muitas em volta.deles. Então atiraram ao solo as espingardas, terrivelmente amedrontados, levantando os braços em sinal de submissão. Só quando lhes tirámos os revólveres é que eles nos reconheceram, e exclamaram repassados de espanto: "Santo Deus! São mulheres!" A nota mais curiosa, porém, foi que entre os soldados alemães aprisionados pela "Legião Feminina Russa", se achavam cinco mulheres. Diziam os oficiais russos que de parte a parte, na frente oriental, havia mulheres combatendo desde o princípio da guerra e que o número dessas voluntárias aumentava dia a dia. O professor Ross, da Universidade de Wisconsin, que se achava então em Petrogrado, a serviço da Cruz Vermelha Norte-Americana, e que fez várias visitas ás mulheres da "Legião da Morte", mostrava-se profundamente alarmado com esta situação, opinando que a participação das mulheres na luta armada, constituía a mais terrível ameaça á civilização. (?) O público, porém, mostrava-se muito interessado por esta nova forma da ação feminista. Diariamente enorme multidão rodeava a Escola de Engenharia Militar da capital, onde mais de mil mulheres alistadas recebiam instrução militar, preparando-se com actividade verdadeiramente frenética para marchar para as linhas de combate. Em Moscou organizou-se um regimento de mil mulheres; em Kieff e O dessa organizaram outros corpos com efectivos menores, e Kcrensky, atendendo a instantes pedidos autorizou a organização de um corpo feminino de marinheiros para serviço a bordo dos navios de guerra.
Em Retrogrado tornou-se banal encontrar mulhercs-soldados pelas ruas. Seus uniformes não tinham adornos de espécie alguma. Todas usavam o cabelo cortado rente, botas, esporas, trazendo sempre consigo uma dose de cianureto de potássio para se envenenarem caso fossem aprisionadas pelos alemães. O governo provisório da Republica russa, estava resolvido a conceder ás mulheres novos direitos e prerogativas, permitindo-lhes ocupar cargos na administração civil. A Rússia libertada por Kerensky, reconhecendo o que devia ás mulheres que predispuseram e revolucionaram os espíritos contra o czarismo, pelo seu ministro da justiça autorizado pela Duma, chamou da Sibéria — onde esteve deportada e rigorosamente vigiada, durante 50 anos de vida presidiária, a célebre revolucionária Berta Breshkowskaia, denominada entre os seus correlegionários: "mãe da revolução". A contra-revolução da Rússia, porém, chefiada por Lenine — que de mãos dadas com o seu digno sócio Trotzky — (o qual, segundo comunicação telegráfica de abril de 1920, mandou assassinar o próprio pai), mergulhou o país numa longa noite de terror — quebrando tragicamente o encanto com que as mulheres da Republica de Kerensky tão belo realce cívico deram á sua pátria. O gigantesco vulto de Kerensky que surgiu como uma luminosa esperança de salvação da pátria, cai aos golpes de audaciosa política dos contra-revolucionários sedentos da vingança que tinha sua origem na opressão absolutista tsariana, vingança mergulhada nessa assombrosa onda de sangue, considerada pelos que tecem a sua história — inútil ao bem-estar e ao progresso do país. De envolta comi as notícias dessa infernal e longa orgia, tétrica e sanguinária em que os novos governantes envolveram essa infeliz nação, corriam mundo as seguintes graves denúncias — não só por meio do telégrafo como verbalmente por indivíduos vindos de lá — mas cuja veracidade (tão graves elas são), se põe em dúvida. Assim, mil oficial de bordo do vapor Higland? Pride, procedente de Londres, entrevistado no Rio de Janeiro a respeito da Rússia, entre outras cousas disse que o regime do amor livre era ali praticado com a garantia do Estado! que os recém-nascidòs, recolhidos a estabelecimentos dirigidos por funcionários proficientes, eram propriedade do governo,—perdendo, por consequência, a mais bela conquista da civilização: a liberdade! Que as crianças do sexo feminino eram educadas para as fábricas, as do masculino para a guerra. Em março de 1919 comunicava o telégrafo que foi decretada pelos bolchevistas a abominável lei de socialização de todas as mulheres de 18 a 25 anos, e que a "União das Mulheres Russas" residentes na Suiça, enviara uma mensagem telegráfica a Clcmcnceau, apelando para a civilização, afim de que não fossem derruídos os lares da Rússia e perdida ali a noção da honra. Que Mme. Sicgfried, presidenta da "Associação de Mulheres Francesas" dirigira também uma carta ao mesmo ministro pedindo-lhe enérgicas providencias para salvar da deshonra milhares de vítimas inocentes que na Rússia aguardavam os mais cruéis sofrimentos e a mais terrível das vergonhas, comi a lei bolchevista. (1) Outra heroína russa, a senhorinha Dora Kjapían — menos feliz que a heroína francesa Carlota Corday, foi executada Em setembro de 1918, pelo frustrado atentado Em agosto do mesmo ano, contra a vida de Lenine — o chefe terrorista dos maximalistas, baleando-o. Em fevereiro do mjesmo ano, as mulheres russas dirigiramao mundo um protesto contra a paz firmada pelos maximalistas com os impérios centrais. Em 1921 vimos um a gravura Em que se salientavam duas lindas jovens revolucionárias rus- (1) As leis actuais da Rússia, porém, modificaram esse caótico estado de cousas, moralizando as uniões sexuais com o preceituar o casamento. Em janeiro de 1926, um artigo publicado na imprensa indígena e assinado por Paulo Torres, confirma as disposições acima, postas em prática na época mais terrorista do governo soviético. Hoje a lei atual russa estabelece severas garantias aos indivíduos que legalmente se constituam em família. O autor indicado salienta, a propósito, os Artigos do novo Código Civil russo que dão uma certa independência á situação feminina em face do casamento, — parte dos quais exaramos em mais aprópriado lugar deste livro. O novo Código estabelece uma completa igualdade de raças, de religiões e de sexos. sas, que tomaram parte activa na revolução de Cronstadt contra o regime dó Sovict. Salvou-as o asilo protector da Finlândia, pois o governo sovietista, em maio do mesmo ano já tinha executado 7.000 pessoas implicadas nesta revolução! Ainda no mesmo ano soube-se por telegrama de Helsingfors, que em Ai\kangel, entre dois generais e 45 oficiais anti-bolchevistas fuzilados, figuravam duas senhoras que se deixaram fuzilar em lugar de seus maridos — oficiais que haviam fugido. U m grupo de senhoras da "Sociedade Feminima Americana de Serviços Sociais" que chegou a Riga em agosto de 1921 — procedente da Rússia, fez uma narrativa horripilante do caos em que esta nação se debatia. U m facto há um ano publicado em todo o orbe veio confirmar que a mulher russa é muito propensa para as armas. Em junho de 1926, entre os fuzilados pelos bolchevistas, em Kiew, acnava-se o segundo-tenente Sachartschensco -— nome que encobria um combatente feminino: Elisabeth Ivanowna Scultz. Quando rebentou a guerra em 1914 (tinha ela então 20 anos), conjuntamente com outras moças dedicou-se a colaborar na defesa do seu país, como enfermeira — encargo que não satisfazia o seu grande desejo de combater o inimigo, de armas na mão. Com falsos documentos conseguiu sentar praça no regimento de Paulo- grado, e de simples soldado passou a segundoíenente. Nunca os seus camaradas puderam suspeitar do seu verdadeiro sexo. Lutou primeiro contra o inimigo exterior, depois contra o interior: o bolchevismo. Era notável o seu génio belicoso e destemido; não obedecendo á vontade do general seu pai que tentou arrancá-la á vida arriscada que levava, um dia fugiu de casa. N um encontro terrível no front dos Carpatos, entre os russos feridos lá estava com um projéctil no peito o segundotenente Sachartschensco. Este facto deu margem a que se descobrisse o mistério em que Elisabeth andava envolvida. Depois de restabelecida foi condecorada com a medalha de prata ao valor militar. Correndo por todo o Império a notícia sensacional, o Czar quiz conhecê-la e marcou-lhe uma audiência. Esta heroína tornou-se popular. Não quiz voltar á casa paterna, nem tão pouco aceitar cómoda posição no front interior; preferiu os constantes perigos dos combates, solicitando sempre os postos da primeira linha. A paz de Brest-Listowsk foi para ela apenas um rápido repouso. Constituído o exército do general Wrangel, entrou em suas fileiras. Testemunhou a derrota dos anti-bolchcvinstas na Rússia meridional, e acompanhando o grupo de Unger-Stenaberg que procurou levar a luta á Ásia Central, ficou entre os que, recusando render-se, combateriam até ao último cartucho. Atravessando, finalmente, a Rússia por entre os maiores perigos — pois todo o — 136 -r- país se achava já em poder de Lenine, e depois de breve estadia na Polónia, fixou residência em Paris. Quando a imprensa parisiense divulgou as façanhas desta heroína denominando-a "Jeanne d'Arc da Rússia", recebeu ela vantajosas propostas cinematográficas e matrimoniais. U m multimilionário de Chicago ofereceu-lhe a sua mão e os seus milhões de dollars; ela tudo recusou. Desaparecendo, afinal, de Paris, supôs-se que ela voltasse secretamente á Rússia e lá continuasse a luta contra os soviets. O comunicado oficial do fuzilamento do segundo-tenenie SachartschensKo, foi o doloroso epílogo da aventurosa existência militar da destemida guerreira Elisabeth Ivanowna Scultz. Em março de 1930 a "Sociedade de Defesa Civil", russa, propunha-se organizar a instrucção militar de 5 milhões de mulheres destinadas ao aprendizado do manejo de metralhadoras. Atualmente seguem cursos de infantaria 200.000 mulheres; 53.000 frequentavam cursos diversos e 10.090 estudam a guerra química. Existe até atualmente um regimento feminino militante. Nas fábricas de armamento trabalham 800.000 mulheres — que recebem salário igual ao dos homens. O governo bolshe* vista, ao mesmo tempo que deu ás suas mulheres a igualdade politica, obrigou-as ao serviço militar.
O exemplo que as russas deram em defesa da pátria, foi seguido pelas mulheres polacas na defesa de Lemberg (Léopol). N a interessante conquista desta cidade, em novembro ele 1918, também tomou parte saliente uma legião de mulheres — na sua maioria intelectuais, cujo heroísmo muito contribuiu para a libertação da cidade. Diz Robert Vaucher, autor de uma crónica relativa ao cerco de Léopol, pelos ukranianos, que a luta do lado destes era digna dos métodos bolchevistas: eram prisioneiros polacos enterrados vivos; enfermeiras assassinadas; mutilação de cadáveres; fuzilamento de civis pacíficos entregues ao seu lavor; as jovens capturadas eram violadas e obrigadas a servir de escravas; j torturadas mulheres e crianças! A 22 de novembro, as tropas do tenente-coronel Maczinski atingiam já a 3.400 voluntários entre homens, mulheres e soldadinhos de 13 a 17 anos, saídos elas escolas e armados de carabinas maiores que muitos deles. A estes regimentos juntaram-se voluntários de Cracóvia e Varsóvia, principalmente estudantes da Universidade e das escolas superiores, batendo-se com a mais admirável valentia, e sem o mínimo preparotécnico! O h! que sede de independência — "o mais raro dos bens e a primeira condição da felicidade" — como o concebe Flwnmarion. Descrevamos a ação patriótica do ©atalhão feminino polaco, apreciada pelo cronista francês acima indicado — e que foi mais ou menos a seguinte: As jovens mulheres-soldados principiaram por ser estafetas dos correios. Nos primeiros dias de novembro, as estudantes transmitiam ordens de um quarteirão para outro e faziam comunicar entre si os grupos de insurrectos polacos, atravessando, bem fáoilmente mesmo as linhas ruthenas, mas sendo, não obstante, mortas algumas no cumprimento deste seu serviço de ligação. Como, porém, os soldados faltassem, as mulheres-correios pegaram em armas e passaram a meninos, muito fracos para o combate, o papei de agentes de ligação. Durante os mezes de novembro e dezembro, as mulheres voluntárias combateram lado a lado com os homens, sem formar destacamentos oficiais. Quando foram organizados os regimentos de caçadores de Léopol, as mulheres constituíram então uma companhia da infantaria que se encarregou cie um sector da frente ao sul da cidade, em! Kulparkou, onde as viu o general francês Barthelemy quando foi á Polónia na esperança, frustrada, aliás, de conseguir um armistício com os ukranianos. As mulheres foram finalmente grupadas em uma legião de 350. Doze ficaram nos regimentos como metralhadoras •— as mesmas que no ataque de Sokoniki, em abril, foram as primeiras a.entrar, á frente dos homens, no antigo forte austríaco donde romperam fogo contra os ukranianos. Depois de segurada a conquista de Léopol, a legião feminina, retirada da frente fazia o serviço cie guarda dos depósitos de material e de munições, sendo muitas mulheres empregadas no serviço da polícia militar. A artilharia contava no seu serviço três mulheres. A peça e as metralhadoras servidas pelas mulheres-artilheiros foram por elas próprias conquistadas ao inimigo. Elas tiveram, ao todo, 15 mortas e 40 feridas durante os combates. N a sua enfermaria fez várias vítimas uma granada ukraniana. A comandante, "Mine. Zagourska — estatura mediana, olhar brilhante, traços regulares, fisionomia ao mesmo tempo doce e enérgica, tinha o posto de capitão." O batalhão compreendia duas companhias de cinco pelotões cada uma. N a frente, as oficiais e sub-oficiais eram sempre submetidas, pelo comando táctico, a oficiais masculinos. A sua disciplina era irrepreensivel. Alistando-se por um ano, as voluntárias prometiam (e sustentavam a promessa), cega obediência ás ordens dos seus superiores. Tinham soldo igual ao dos soldados. A legião compunha-se de mulheres casadas e solteiras, que, para serem admitidas, tinham de apresentar certificado de bons costumes. Os casos ele embriaguez desapareceram visto que o soldado ou oficial embriagado era conduzido por mulheres á prisão, através das ruas de Leopol; o facto de se verem escoltados por gendarmes femininos que lhes lançavam em rosto o não cumprimento dos seus deveres para com a pátria, muito os humilhava.
Robert Vauchcr visitou a caserna da legião feminina e ficou admiravelmente impressionado com o conforto e alegria que enchiam salas e dormitórios. Diz êle: "Um verdadeiro gorgear de pássaros, alegres tagarelices, chamadas, gritos, rizadas, esfusiavam de todos os lados. Todas estas jovens mulheres que tantas vezes arriscaram a vida,.nada tinham do sombrio pessimismo de M. Henri Barbusse. Á nossa passagem — minha e do capitão de estado-maior, Thadéo Machalski, que me acompanhava, as legionárias colocaram-se em posição de — sentido! de uma correcção perfeita. Á entrada dos ranchos recebeu-nos a sargenta — mão na viseira do boné e tacões juntos. Doirmem numa simples enxerga, no chão. Mas sobre a mesa e as prateleiras das janelas, saindo dos orifícios dos obuses, feixes deflores restabelecem um ornato feminino. As paredes, branqueadas a cal, são ornadas de bandeiras aliadas; as águias brancas abundam, e, por cima de várias camas, imagens e retratos da Virgem, padroeira da Polopiq, protegem as pequenas soldadas que fizeram guarda nessa noite debaixo de chuva e que dormem agora deliciosamente. Numa enxerga perto de mim emerge, de uma cobertura grosseira, a gentil cabeça loira de uma joven legionária — fina como uma Creuse, que, na última noite atirara contra um ladrão, no limiar de um depósito de víveres". Na luta com os bolchevistas, em 1920, ofereceram-se para combater, 125.000 homens, mulheres e meninos. O batalhão feminino do exér- cito polaco tomou parte na defesa de Lonzka, afirmando o telégrafo que grandes contingentes de mulheres tomavam parte nos combates. Na segunda insurreição polaca contra o jugo moscovita, em 1863, notabilizou-se a ação guerreira do sexo feminino, sendo considerada Mlle. Posiavoltow, a Joana d'Are da Polónia. Quanto á mulher russa, devemos consignar o seguinte facto: sempre ela se tem notabilizado — não só como defensora da liberdade e da civilização, mas taurbem pugnando com a mais firme convicção — própria de espíritos gênerosos e cultos, pela igualdade política dos sexos, e pela abolição da pena de morte. Carlos de Melo, brilhante escritor português, aludindo a Sofia Larionof, um dos braços femininos armados por justas vinganças, que em 1906 assassinou o general Mulnn, diz: "Este estoicismo representa a elevação de uma consciência que vai serenamente á morte em cumprimento de um dever". Impelidas pela ação opressora e secular da autocracia — nas suas repressões escolares, administrativas e políticas, em 1904, jovens mulheres, ricas e pobres, anti-militaristas, democráticas e socialistas, animadas pelo amor á liberdade bebido nas escolas, armaram-se: — umas, de revólveres, punhais, dinamite, bombas e veneno; outras, de bondade, atacando a miséria em todos os seus aspectos — e todas cedendo a sua fortuna para o respectivo fim colimado.
As damas aristocráticas apaixonavam-se pelos ideais de Gorki e associavam-se ás paredes dos operários. Va,rvara Nicolalevna Stefanof criou a «Sociedade para a luta contra a monarquia e a revolução". Entre as intelectuais, salientava-se Iva- i{ova Smirnpf, que no "Novoié Vremia" reclamava as reformas infalíveis, anatematizando os inimigos da liberdade. E termina o cronista o seu capítulo que assim põe em relevo o espírito progressista da heróica mulher russa: "Oh! corações de ouro, como nos alentais, como nos dais forças para reagir contra as misérias da vida! Como nos consolais da injustiça, como nos fazeis a existência doce e a esperança funda e sólida!" Em 1919, cinco soldados norte-americanos que foram detidos pelos asseclas de Lenine, em Moscou, para trazerem á America a boa-novet — na expectativa de tornar mundial a revolução, fizeram á United Press, na Finlândia — onde já se achavam em segurança, esta curiosa narrativa' "Sem as mulheres os bolchevistas não teriam vencido; são elas que cavam as trincheiras nas linhas de frente. É comum ver-se uma mulher levando á cabeça enorme peso, ao passo que a seu lado vai um gigante bolcheviki com as mãos nos bolsos... Como são as mulheres que trabalham, os homens alistam-se no exército para não morrerem de fome."
Não nos pronunciamos, absolutamente, sobre o facto da organização de batalhões femininos para o combate armado, como não formulamos Opinião em certos exageros do feminismo; a modesta missão que nos impusemos reduz-se a observar e registar, subsidiando a história. Admiramos, porém, naturalmente, tanta coragem e tanto civismo num sexo até hoje julgado fraco e incapaz de tão grandiosos cometimentos. Se o civismo dessas mulheres, em todas as suas variadas e eloquentes manifestações, não tivesse um valor intrínseco na defesa da pátria, não teriam sido os governos tão pródigos nas concessões que lhea têm feito. E não se pode contestar o quanto •\ npolgam a admiração mundial — o arrojo, a abnegação, a competência inauditas com que as mulheres russas se sacrificavam em holocausto á sagrada causa da Justiça e do Direito — conquistando na história, por êsfe singular heroísmo, e cuja atitude foi a mais arriscada entre o sexo feminino que numa tão grave emergência teve de enfrentar o perigo, um lugar superior ao de todas as mulheres do mundo. Na Inglaterra, desde que o fantasma da guerra principiou a sacudir o globo, acudindo ao chamamento da pátria foram empregadas, só em industrias de guerra cerca de 900.000 mulheres, das quaes 600.000 exclusivamente em munições. Foi ali criada uma instituição ele ambulân- cia feminina de guerra e reconhecida oficialmente, com o fim de operar sob o fogo do inimigo. Nas insinuantes gravuras das revistas inglesas, atraindo um a geral simpatia, vemos: operárias do grande exército industrial a braços com trabalhos pesados, afanosas e sorridentes; nas fábricas de aeroplanos, nas oficinas de fundição, de trabalhos químicos ou de engenharia, onde trabalhavam dia e noite. Vemolas em todas as fases da lavoura resolvendo o problema da alimentação; vemo-las desde o trabalho mais grosseiro, mais material até ao mais delicado e inteligente sempre provando o mais hábil desempenho, com a alegria própria de quem tem a consciência do dever cumprido. Durante a guerra elas fizeram o policiamento das ruas de Londres, o serviço do correio, de automóveis, em suma substituíram vantajosamente os homens em todas as esferas da aplicação, do trabalho e até da sciencia, como — motoristas, dentistas, secretárias, lançando mão muitas vezes do traje masculino porque a isso as obrigava a natureza do trabalho a que se entregavam. Foi organizada pelo ministro da guerra a principal associação feminina " Women Army Auxiliary Corps" com o fim de aumentar o número de homens disponíveis para o serviço militar activo, atingindo o seu efectivo mais de vinte mil mulheres. Além desta grande associação havia outras — umas oficializadas, outras de iniciativa particular, que prestaram valiosíssimos serviços: a "Voluntary Detachement", a "National Union of Women Workers" e muitas outras denominadas " Women Patrol" disseminadas por todo o pais. Havia as "Munition Girls", " Women Police", etc. Quando foram expedidos manifestos solicitando recrutas femininos, elas se apresentaram aos milhares radiantes de entusiasmo. Vários destacamentos femininos trabalhavam activamente atrás das linhas, na frente ocidental. Eram submetidas á disciplina militar e viviam em tendas como os.soldados de linha. Quando cm forma, as mulheres do "Real Serviço Naval" eram inspeccionadas pelo rei Jorge nas docas de Immlnghwn. Desempenhavam o seu papel com tanto prazer, que se entregavam, nos intervalos, ao jogo do tarais e do hockey... Também não faltaram, assim como as mulheres dos países beligerantes e neutros, no seu precioso auxílio aos hospitais de sangue e nas ambulâncias de campanha. Na Fnviçj cooperou um corpo auxiliar ele mulheres do exército britânico. Austin Harrison, um dos maiores escritores ingleses da atualidade, diz que o maior resultado da guerra foi o trazer liberdade ás mu-, lheres inglesas; e que esta descoberta, no interesse da nação, exercerá um a enorme influencia sôbrí a geração futura. Continua este escritor: "Quem descer as ruas de uma grande cidade inglesa salta-lhe logo aos olhos, sob as formas mais diversas e inesperadas, a actividade feminina: — é a carteira; é a pequena telegrafista de uniforme azul listrado de vermelho; é um a jovem com aspecto de oficial de marinha, de boné azul agaloado de ouro, um saco de couro na mão; é uma empregada no gaz ou numa companhia de electricidade; outra trepada numa escada, lavando montras ou verificando um candieiro; outras seguram o volante dos taxis, dos bondes, dos caminhões, e conduzem cavalos dos carros postais. Entre-se num banco, n um tribunal, numa repartição qualquer, pública ou privada, e ver-se-há, inclinadas sobre o papel, mulheres — só mulheres, de cabelos louros ou castanhos." Jovens mulheres de uniforme kaki, muito militarmente substituem os guardiães e fazem os cem passos ao longo das galerias: são voluntárias organizadas desde o princípio da guerra para se ocuparem, em caso de invasão alemã, das mulheres c crianças nas aldeias da costa britânica. Desempenham numerosos deveres, confiados antigamente aos police-men; enviam ao front autos-ambulâncias e cantinas inteiramente dirigidas por mulheres. Por ocasião da terrível explosão de Londres, elas distinguiram-se pela sua solicitude na busca dos destroços, na organização de socorros e no transporte dos feridos. Há diversas companhias de mulheres-bombeiros; á noite, em diversos bairros encontra-se verdadeiras police-men que sabem cumprir com tacto e delicadeza as ingratas funções de agentes dos costumes, e com tal sucesso que a polícia de Londres criou 300 novos postos femininos sob a direcção — não de um, mas de uma comandante, percebendo os mesmos vencimentos que os homens. Outras gerem minas de carvão, de estanho, plantações..." Segundo o grande órgão da imprensa londrina, o Times, são atualmente ali, as mulheres, inteligentes policiais no serviço de investigação, pondo em relevo úteis qualidades femininas. Em consequência da sua acertada conduta, têm conseguido desviar os meninos cia vagabundagem, arrancando da carreira do crime aqueles que aí ensaiam os primeiros passos. A mulher-polícia tem carinho e modos de persuasão que, neste delicado assunto, lhe dão grande ascendente sobre os polícias masculinos — cuja ação é contraproducente. Acham os respectivos cronistas que uma mulher de sentimentos nobres e que compreenda toda a importância da sua delicada missão, é indispensável na regularização dos bons costumes. Em várias nações os respectivos governos têm instituído oficialmente mulheres agentes de polícia, exactamente nas mesmas condições que os homens. (1) Em Lisboa entraram para a força (1) Ultimamente trabalha num novo gabinete preventivo do crime, em New-York, um pessoal todo feminino. Foram designadas para instrutoras e investigadoras deste corpo policial 25 mulheres experimentadas, que têm longa prática com delinquentes de ambos os sexos. Estas mulheres dirigem patrulhas de homens entre o operariado — guiando-os para o trabalho por meio de clubs organizados para tal fim policial algumamulheres com o fim de desviarem as jovens dos perigos morais. Na Russiq também se aMstaram mulheres como policiais; andam fardadas e armadas. Na Revuc de Paris, a bar eme za de Brémont publicou notas interessantes coleccionadas no decurso de uma demorada excursão pela Inglaterra, cuja estatística edificante mostra o ascendente enorme que as mulheres tomaram no trabalho e na nação. Em consequência elo exposto, operou-se nas sufragistas — de cujo partido uma das mais ardorosas chefes é irmã do generalíssimo Frendi, uma completa transformação. Não abandonaram o seu ideal, mas tão inteligentes como patriotas, compreenderam que tinham de fazer propaganda diferente para o bom êxito da sua causa, e puseram a sua organização ao serviço da Defesa Nacional. O seu heroísmo e dedicação mereceram carinhosas homenagens de Lloid Gcorgc, de Balfour, de Chambcrlain e de todo o ministério. Mrs. Pankhurst, a chefe entusiasta das sufragistas, foi encarregada pelo governo de organizar as grandes reuniões populares para animar o recrutamento das voluntárias. Foi falar aos mineiros úo Pais de Gales, aos operários do vale ele la Clydc, no Canadá, e foi a sua União que enviou uma deputação a Lloid Gcorgc para obter a admissão elas mulheres nas fábricas de munições: criou o Registro da Guerra para o emprego das mulheres e fundou a obra humanitá- ria dos "filhos naturais da guerra" — o que muito enaltece a nobreza do sentimento feminino. Quando a Revolução republicana triunfou na Rússia, cujo governo foi presidido por Kerensky, Mrs. Pankhurst corre á Republica russa para assistir ao combate contra o inimigo comum, e a proclamar, convicta e entusiasta, as liberdades outorgadas no seu país — e explicando a homens e mulheres da nova república a atitude da democracia inglesa, em torno da guerra. A "União Sufragista" instalou dois hospitais: um na Bélgica, outro na Servia, e instituiu um corpo de senhoras vigilantes para velarem pelas jovens que corriam o risco dos perigos morais consequentes da guerra. Oh! as terríveis sufragistas!... (1) Inglesas de classe elevada empregavam-se como operárias nas fábricas e como criadas nas cantinas económicas — e manejavam nos campos as pesadas máquinas agrícolas, trabalhando as ricas gratuitamente, é claro. De uma brochura inglesa ilustrada e repleta de gravuras representando as mulheres em todos os seus variados trabalhos, e intitulala: "O trabalho britânico em tempo de guerra", extraímos sumariamente os seguintes conceitos: "Não é exagero afirmar-se que se não fosse a cooperação da mulher britânica, a Alemanha teria alcançado a vitória da guerra. Se tivessem ía- (1 Depois de conduta tf. o brilhante, não se compreende como terminada a guerra a familii Pankhurst se tenha excedido nas suas exigências, chegando a ser presa Sylria Pankhurst, por violento artigo no seu jornal. lhado os seus esforços sem precedentes, que o país lhes pediu, a indústria britânica ter-se-ia afundado e os seus exércitos na frente teriam paralizado. Mais de três milhões de homens foram tirados á indústria, para a defesa da pátria; 25 % do trabalho masculino das indústrias químicas e de engenharia foi desviado para o exército; o pessoal normal dos escritórios, fábricas, caminhos de ferro, manufactura de munições, foi reduzido ao mínimo, ao imperioso chamamento para a guerra. Se as mulheres não tivessem ocupado os lugares dos ausentes, a guerra — primeiro perdida na oficina, teria de ser finalmente perdida nos campos de batalha. Mas as mulheres realizaram um dos grandes prodígios da história! Elas mantiveram a barragem, sem a qual os seus filhos, maridos e irmãos nunca poderiam derruir as linhas alemãs. No momento da maior necessidade, a Grã- Bretanha apelou para as suas filhas e o seu apelo não foi feito em vão. Pelo seu trabalho, pelos seus esforços, pelos seus heróicos sacrifícios, as mulheres da Inglaterra salvaram o país e salvaram o mundo!" O sargento Flora Sandes, inglesa toda devotada á causa da Servia oprimida, que foi combater em sua defesa e do rei Pedro, publicou um interessante livro sobre as suas aventuras como soldado. Alistando-se de novo num regimento da nova avançada para a Servia, foi uma das muitas mulheres que tomaram parte na guerra como com- batentes. N a grande retirada, quando já não eram necessários os seus serviços de enfermeira, acompanhou os sérvios c viveu entre eles por espaço de dois anos. Era muito popular; foi, finalmente, promovida ao posto de sargento. A margem da sua fotografia publicada na revista londrina " O Espelho", em 1917, lê-se — "Sargento Flora Sandes, em Salonica, a Jeansxe dArc dos sérvios, combatendo contra os búlgaros." O general Joffre concedeu a mais alta recompensa a uma inglesa, conferindo o posto de major-médico á doutora Helena Sexton — que era a directora-chefe de um hospital de Auteuil, organizado e mantido á custa de quatro senhoras de Melburne. A doutora Sexton tinha posto igual ao das doutoras Luísa Ganret Artdersen e Flora Mutray, ambas elevadas a esse posto honorário, no "Royal Army Medicai Corp", por Lord Kitchener. A mulher russa e a inglesa, portanto, cada qual no seu género de serviços á pátria foram, entre o sexo que tão brilhantemente se salienta no cumprimento dos seus deveres cívicos, em quasi todos os países em guerra, as que mais realce e impulso deram ao pasmoso progresso feminista. Ê dever nosso fazer esta justiça: se é verdade que as mulheres de todas as nações beligerantes se conduziram á altura de tão melindrosa situação, a supremacia na realização do longo sonho feminista pertence á mulher inglesa.
Dentre as vítimas femininas das atrocidades da guerra, pertencentes ás potencias aliadas, sobresai, pelo pormenorizado descritivo da sua execução na Bélgica, á qual deu margem o seu heróico civismo, a corajosa inglesa Miss Edith Cair// — cuja visão, aureolada pela coroa do martírio, nos surge impelindo a história a evocá-la como um dos mais frisantes exemplos elo humanitarismo feminino — e dando-lhe o lugar destinado aos heróis. (1) Quando o féretro de Edith Cavei chegou a Londres — em 15 de maio de 1919 — foi recebido pelas tropas da guarda, coberto com a bandeira nacional e colocado em uma carreta de artilharia, sendo acompanhado por várias bandas de música e enorme multidão. O solene cortejo seguiu para a aba li;, de Westminster, onde depositou o ataúde de uma das mais simpáticas vítimas da guerra. Na enfermaria de Shoreditch. onde Edith Cavell trabalhou quatro anos, foi-lhe levantado um monumento: um grupo representando a Fé, Esperança c Caridade, com os seguintes dizeres por ela pronunciados: "O patriotismo não basta; elevo pôr inteiramente de parte — o ódio e a animosidade." A França conferiu a Legião de Honra á sua memória. (1) Em 1921, o telégrafo noticiou-nos de Paris que fora preso monsenhor Armand Jeanne. por ter denunciado a enfermeira Edith Cavell aos alemães, durante a guerra. A 5 de abril de 1922, outra notícia da mesma procedência dizia que em Bruxelas foi condenado a morte um dos assassinos da inditosa enfermeira.
Em face deste escrupuloso balanço feminino e feminista, depara-se-nos o grandioso espetáculo — que todo o mundo, deslumbrado, admira — e é que, na nossa época, já as mulheres não representam, nas mais graves manifestações patrióticas, o triste papel de comparsas... "O antifeminismo dentro de pouco tempo será apenas uma recordação histórica."
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