Universo da obra
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INTRODUÇÃO Porque somos feminista? — Eis uma pergunta ingênua de que várias vezes temos sido alvo, por parte do sexo masculino. Respondemos: porque é impossível a realização do progresso, sem a vitória da evolução; e o nosso fim principal é precisar e fomentar o progresso feminino. A evolução do feminismo — que é um dos assuntos mais palpitantes da atualidade, é um dos flagrantes pontos de convergência do progresso — "que é a realização da justiça"—e nós somos evolucionista. Além disso, organizando o trabalho reflectidamente delineado do nosso modesto livro, pensamos contribuir, com uma pequenina e conscienciosa pedra, para a conclusão do majestoso edifício em adiantada construção, do ideal feminista; ir, em suma, em auxílio das dignas companheiras de todo o mundo, para que a completa reabilitação do nosso sexo seja um facto em toda a parte, de forma a colocar, finalmente, a mulher no lugar que lhe compete entre a comunidade humana. Devotada desde muito a esta grande causa, para o que nos sobram motivos — extraídos da experiência própria e da alheia—empreendemos este estudo cujo valor se resume na sinceridade que a ele presidiu, com o fim de concorrermos para a formação completa da história do feminismo, coordenada por penas mais hábeis e mais competentes. Igualmente somos reiteradas vezes assaltada com a mesma aparente ingenuidade, por estoutra interrogação: "Para que querem as mulheres os direitos políticos?" (1) Precisamente para colaborarem ao lado dos homens na elaboração das leis cuja fruição deve ser igual para ambos os sexos, e não como têm sido desde épocas remotas mero privilégio deles, do que resultava o deprimente ab so sobre a outra metade da família humana, pois que a triste situação a que as leis submetiam o sex frágil colocando-o ao nível dos animais — nessas épocas mais ou menos afastadas-— se traduz no direito que o marido tinha desta ominosa cobardia legal: maltratar, vender, trocar c até matar a e posa! Quizeramos dar á explanação do nosso pensamento, não só çi correcção da linguagem como a facilidade na concepção das imagens. Se o não conseguimos, desejamos ao menos s&r, neste justo tentame, o mais clara possível para sermos compreendida por todas as classes so- (1) A audácia de alguns antifeministas — dos tais infalíveis cegos obstinados que não querem ver—tem chegado a ponto de interceptar-nos no percurso das nossas ocupações quotidianas e atirar-nos pouco delicadamente preguntas saloias com a intenção de ridicularizar as nossas convicções feministas... ciais femininas. Motivo por que explanamos, por vezes, prontos da história respectiva com. o quais as classes cultas estão muito familiarizadas. (1) Igualmente nos empenhamos por que este modesto fruto do nosso espírito apareça limpo de todo o faeciosismo. (2) Tivemos em vista, na nossa modesta mias bem, intencionada obra, não grafar uma linha que possa revolver directa ou indirectamente ódios acumulados por essa dantesca tragédia miundial que durou quatro anos e tanto e na qual se degladiaram rancorosa e reciprocamente tantas nações, calcando todos os princípios humanitários. Façamos agora — como pacifista intransigente que somos — somente por suscitar o sentimento da humayva solidariedade. É possível que o nosso trabalho, entretecido com o mais acrisolado carinho, contenha deficiên cias, visto que não podemos saber tudo — não somos infalível. Deve mesmo notar-se no desenvolver do texto, que, naturalmente, sabemos mais de uns países que de outros. Por exemplo: os países (1) Assim como devemos justificar a nossa aparente prolixidade na designação de nomes de lugares e respectivos Estados, pois que a natureza do nosso livro reclama a presença do mesmo em países estrangeiros; além do que representa um documento histórico. (2) Julgamo-nos obrigada a esta declaração, não só atendendo ás causas e consequências da guerra, como por termos de atingir várias vezes, delicados assuntos sociais. E sempre que aludirmos á grande guerra, é claro que nos referimos ao formidável cataclismo que persistiu de 1914 a 1918. mais bem representados são — como è natural que o sejam — Brasil e Portugal. Como nos é impossível pormenorizar talentos femininos que apesar do seu mérito intrínseco ainda não receberam a consagração mundial — ou, pelo menos, nacional, e isto não somente atendendo ás exigências da natureza deste nosso livro, como c principalmente para não ferirmos nem de leve susceptibilidades indirecta c involuntariamente tingidas, limitamo-nos a exemplificar não só a representantes do sexo feminino que se têm distinguido nas sciendas, nas artes, na política c nas letms — dentro e fora de sua pátria — como outros nomes já celebrizados pela história antiga e pela moderna. A nossa dedicação, porém, ao próspero e evoluído Estado do Paraná —que consideramos nosso porque nele vivemos há muitos anos e em cuja instrução temos sempre ocupado um lugar — embora modesto, autoriza-nos a estabelecer neste sentido uma justa excepção a seu respeito. E sempre que as nossas conscienciosas pesquizas o permitam, seguiremos o critério da ordem cronológica. Antes de tudo o espírito tranquilo — e quent diz espírito diz consciência. As digressões históricas a que por vezes é atraído o texto do nosso livro, embora pouca relação tenham com o assunto feminista, permitem, entretanto, o relato de factos interessantes c ma ou menos consequentes da explanação do assunto principal. Em um jornal fluminense achamos, a propósito do nosso principal assunto, este acertado t pico relativo ás transformações sociais consequ tes da grande guerra: "Dentre as novas correntes político-sociais que surgiram e se "tm\ puseram pela ação desenvolvida durante o período da calamidade que ensanguentou o níundo, nenhuma, outra igualou o triunfo alcançado pelo que se convencionou chamar — feminismo" (1). A vida atual, com todos os seus males, c ben que a guerra mundial nos legou, (2) impele a mulher a alargar a sua esfera de ação fora do tradicional acanhamento da vida doméstica. Ela é hoje chamada a deveres sociais diferentes e inadiável pela urgente luta, que tem de sustentar, fazendo assim, concorrência ao homem e, por uma verdadei ra cadeia de diversos elos — que partem desse fort impulso, se foi acelerando e desenvolvendo o movimento mundial que tão fortemente agita o sexo feminino e se denomina: Feminismo (ou humanismo) — movimento que já em fins do século XIX principiou a intensificar-se, c que atualmente cm plena primavera da sua estabilidade real consu (1) Hoje muito bem mudado o termo em — humanismo. (2) Invenções, reforma de leis e o rápido aperfeiçoamento da aviação, emfim muitos e importantes melhoramentos sociais e scientificos,devem-se essa guerra. A maior calamidade mundial que a história regista, fez mais pelo feminismo, em quatro anos, que todas as sufragistas no decurso da sua ruidosa propaganda e do seu por vezes censurável proceder. Foi o principal factor da igualdade sexual — o apavorante fantasma que pouco a pouco vai reduzindo ao silencio os antifeministas incrédulos. mada. O feminismo é a reação tanto mais impetuosa quanto a ação foi despótica, absurda e obstinada. Em regra, a mulher latina — principalmente em alguns países, não se acha ain da satisfatoriamente dispepsia para a conquista da igualdade política; é mais preocupada com\ a nioda, com a elegância no trajar que com os sérios problemas sociais; (1) e porque? porque a sua educação tem sido até hoje meramente feminil — ao passo que a educação da mulher entre as raças saxónias, anglo-saxónias e eslavas, tem sido sempre mais masculinizada, mais aprópriada á conquista da igualdade dos sexos, impelida pela natural evolução e pelo espontâneo impulso da justiça social. Todo o desenvolviment do feminismo c consequente progredimento C seus fins, devem ter por fundamento, nos povos latinos e nos bárbaros — pois que nos outros já não existe tal necessidade — uma sã e aprópriada educação da mulher moderna, para que esta surja aos olhos dos pessimistas digna de ser respeitada, c não ri dicularizada. Pois que, com esta base incontestá vel, sem grande esforço, ela atingirá naturalmen suavemente, a igualdade ambicionada. (2) E' tal o progresso das conquistas femininas, que hoje até a imprensa de todo o mundo acha retrógrado pensar que as aspirações feministas sejam um absur- (1) É sabida a reprovação das feministas dirigentes, aos detestáveis exageros impostos pela moda á toilctte feminina. (8) Fim face da moderna educação já se não pode dar ás mulheres a tradicional denominação de — "plantas de estufa"... do; a prova mais concludente da sua justiça c que o ideal toma corpo, se generaliza c se impõe perante o universo, pois que não ha diques que possam impedir ou neutralizar estas impetuosas correntes progressivas — aurora de um risonho porvir que nos assegura uma nova era equitativa e igualitária. A chama resplandente e impulsora do romantismo transcendental que caracterizava as épocas hoje envoltas nas brumas de um passado distante, extinguiu-se, como era natural. A essa espécie de cegueira estonteante que lisonjeava o exigente coração dos ultraidealistas, veio de encontro a luz clara e decisiva do real, cujo ponto culminante de perfectibilidade nós tentamos atingir, impulsionados por uma razão renovada e esclarecida. Se, pois, tão monumental transição se operasse exclusivamente no sexo masculino, atendendo á sua superioridade sobre o sexo feminino, qual seria a situação da mulher mergulhada na tradicional treva da sua ignorância, tendo, apenas, por amparo e guia o frágil esteio do seu ideal afectivo? Incontestavelmente bem digna de lástima. (I) Para estabelecer o verdadeiro e indispensável equilíbrio social, necessário se torna impeli-la a compreender que a situação que lhe compete é a que deve estar sempre em relação com a evolução (1) A Cavalaria — justas e torneios dos tempos medievais, no seu culto á mulher exageradamente lisonjeiro, aumentavam-lhe a vaidade, sem nenhum proveito para A sua imprescindível educação instrutiva e sociológica. social operada, e que, para poder acompanhar o infalível movimento evolutivo, precisa cultivar e esclarecer o espírito — que deve, consequentemente, atingir um certo e justo paralelo com o espírito masculino. Ao contrário desta reforma exigida pela imposição do momento, a mulher continuaria a ser mais ou menos vítima, sacrificada pelo estulto egoísmo masculino que não tem mais razão de ser. Teem, pois, os chefes de família e os dirigentes da instrução, sobre quem pesa toda a responsabilidade, o dever imperioso e inadiável de preparar solicita e convenientemente o espírito femino, de forma a colocá-lo na altura de compreender nitidamente, e conforme o nosso tempo o exige, a fase de adeantamento a que nos conduziu uma infalível e natural evolução. Palietan tem a convicção de quê "o futuro não terá vencido o passado, senão quando colocar a mulher a seu lado; e que antes disso, não merece a vitória • " Conclui-se, em face da celeridade com que se desenvolvem os factos feministas — incontestáveis e positivos, que de toda a parte surgem — que o movimento feminista, como que impelido fortemente por uma mola propulsora e infalível, irrompeu de todos os pontos civilizados do globo, demonstrando triunfantemente, principalmente desde que a grande guerra convulsionou e submergiu num mar de sangue a humanidade, que o feminismo — a mais surpreendente e ruidosa transformação social do nosso século, d qual assistimos maravilhados, não pôde deixar de ser encarado e recebido como progresso. E o progresso é faial. A memorável conflagração da Europa foi uma verdadeira carta de alforria dada a povos e indivíduos; proporcionou a alguns países a reconquista da liberdade e independência. A colectividade} como o operariado, garantiu grande melhoria na sua longa e oprimida situação económica. Á resolução do problema feminista veio dar um impulso surpreendente — porque surpreendente foi o civismo das mulheres na realização de toda a espécie de trabalho em que substituíram vantajosamente os homens entregues á defesa armada da pátria respectiva. Essa tremenda hecatombe humana, portanto, que convulsionou a terra, não abalou somente convicções, nem transformou instituições somente; ela veio também sancionar c justificar o direito do trabalho — e veio modificar velhas rotinas e preconceitos da sociedade antiga, dando força e amparo aos respectivos prejudicados — transformando essa sociedade decrépita numa esperançosa sociedade nova. Os povos bárbaros, secularmente aferrados a leis retrógradas e absurdas, curvaram se ao influxo da civilização, por meio do contacto com o exército dos povos aliados e civilizados — como aconteceu na Turquia em consequência da ocupação de Constantinopla, do que resultou a reforma da sua Constituição cm 1918. Desde esse momento começou a modificar-se a deplorável situação moral e social da mulher turca — que hoje, finalmente, já se pode comparar com a dos povos civilizados. O brilhante e falecido escritor allemão Max Nordau, apreciando os acontecimentos sociais c políticos da atualidade, advindos da guerra, disse: "Estamos assistindo ao nascimento de um mundo novo, que começa a cristalizar-se no caos." Vivemos há muito da nossa modesta e nobre missão do ensino; não temos, portanto, com a elaboração do nosso presente livro, absolutamente, em mira, a posse e fruição de direitos políticos e pro fissões masculinas — isto é, administrativas. nossa efusiva adesão relativa ás aspirações femininas representa apenas, repetimos, o nosso muito natural desejo de prestar um serviço que vá ao encontro da justa causa que defendemos. Além disso, comove-nos até á admiração, a constante luta sem desânimos nem esmorecimcntos, que abalizadas feministas — as representantes do são feminismo — sustentam não somente para conseguir os direitos civis e políticos ambicionados, mas também e prin cipalmente para promover o aperfeiçoamento moral da humanidade. E por isso elas sustentam a responsabilidade dos seus actos — da sua conduta emfim. Esses direitos que elas reclamam e de cuja posse absolutamente não desistem, não têm por alvo a sua entrada na política, por exibicionismo elas ascendem aos postos legislativos para combater a miséria, o crime e o vício que avassalam a sociedade hodierna — pois que não admite contradição a afirmativa de que a alma feminina é naturalmente mais talhada que a masculina para conseguir a extinção, ou pelo menos a debelação dos males que infelicitam o mundo. Assim é que, em todos os quatro pontos do globo, elas trabalham ininterruptamente sacrificando voluntariamente o se bem-cstar, pela extinção do alcoolismo — para cujo fim realizam Congressos regionais. No Congresso antialcoólico de Milão, cm setembro de 1913, tomaram parte como delegadas muitas e competentes mulheres. Verifica o respectivo relatório que nos Estados Unidos, na Finlândia, Austrália, e Bohemia, onde as mulheres são eleitoras c elegíveis, elas aproveitam os seus direitos políticos para os fins enaltecedorcs da moral, sendo um dos seus fins principais a guerra obstinada ao álcool. (1) Na Austrália só se abrem (1) Em maio de 1921 chegou ao Rio de Janeiro Miss Ana Gordon, presidente da "World Women's Cristian, Temperance Union", cremos que a maior sociedade feminina internacional fundada na America do Norte, e que, segundo a crónica respectiva, desenvolve a sua ação mais intensa desde 1883, tendo sido fundada em 1827. Esta feminista resolveu uma excursão pela America e Europa, fazendo uma persistente propaganda contra o alcoolismo em nome dos interesses da mulher e da sociedade. Miss Gordon fez na capital do Brasil, onde foi lisonjeiramente recebida, uma conferencia sobre os males consequentes do vício alcoólico, citando os grandes resultados já obtidos, e afirmando que na America do Norte o número dos viciados diminuiu 50 o/o. Alimentavam, então, as feministas a esperança de que até 1930 o comércio do álcool estaria extinto em todo o mundo. Miss Gordon é considerada a maior propagandista contra este pernicioso vício. Na sua humanitária excursão foi acompanhada pela sua secretária Miss Dean — redactora da "Te Union Signal", o/gão da aíudida sociedade de temperança. Nos países sul-amerícanos realizou conferencias neste sentido, sempre muito concorridas; em alguns deles foi recebida pelos seus Presidentes. A' bela recepção que lhe fez, no Rio, a as tavernas, que as assembleias de eleitoras permitem. Os mais convictos feministas crêem que as mulheres preparadas moral e intelectualmente, hão de usar dos seus direitos igualitários com uma solicitude mais humanitária e de mais práticos resultados, do que muitos homens. Elas empenhamse pelo melhoramento das operárias, pela sorte da criança, pela extinção da escravatura branca, (1) peia regulamentação da cinematografia» pela melhoria da situação moral e material das libertadas dos cárceres, pela educação sexual, pela assistência a velhos c crianças e, finalmente, aos fracos e desprotegidos — e tendo por principal escopo, no seu vasto programa de saneamento moral c social, a puericultura, a proteção a menores contra os atentados á moral, contra a corrupção, amparo ás viúvas, á invalidez; fundam caixas de seguros maternais, seguros c mutualidades de toda a ordem. Pela pena, em conferencias de uma eloquência bem sentida e brilhante — provando conhecer não só a sciencia da história como também as verdadeiras causas dos delicados problemas sociais da época atual; pela palavra em Congressos por elas criados, e por todos os meios, cmfim, ao seu alcance, muito já elas tcem conseguido, principalmente nos países mais socialmente avançados. E "Associação Cristã Feminina", compareceu o embaixador da sua pátria, Sr. Edwin Morgan. D o Brasil partiu para a Earop(i com o mesmo humanitário fim. Oh! as desequilibradas feministas! (1) Completamente desconhecida na Austrália. todas estas suas virtudes são reconhecidas e pro clamadas por idóneas ecrebrações masculinas. Max Nordau cria que a moralidade social é inteiramente feita da mulher, que é ela que a dese volve, que é a sua guarda. Além de tudo as feministas, nas suas aspirações, não pensam, absolutamente, no absurdo de suplantar o sexo masculino; elas querem, pelo contrário, a igualidade sexual para melhor provarem as qualidades de uma mais condigna companheira nos grandes surtos morais e sociais que devem transformar o mundo. Consequentemente, o salutar programa das feministas, através de cujo prisma elas encaram com dedicação e coragem a reconstrução moral da sociedade, è, realmente, a moderna ciência da Eugenia, posta em ação para conseguir a sublime cura de todas as chagas que atingem a alma humana. •
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