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A evolução do feminismo

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Capítulo 10 · A evolução do feminismo

A ação da mulher na imprensa

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A AÇÃO DA MULHER NA IMPRENSA Deve, talvez, parecer fastidiosa a exposição, embora resumida, do trabalho feminino nos diversos empregos de quási toda a imprensa europeia; entretanto, julgando do nosso dever registar o mais fielmente possível, os interessantes aspectos da evolução do feminismo, resolvemos fazê-la para melhor salientar os progressos da sua evolução, desde os mais remotos períodos até á fase atual — que consideramos a mais importante em consequência do admirável papel da mulher no cabal desempenho de suas funções perante as exigências da grande conflagração. A revista "Jus Suffragii", órgão da "Aliança Internacional pelo sufrágio Feminino", procedeu, antes da guerra, a um minucioso inquérito, acerca do trabalho das tipógrafas em todo o mundo, e cujo questionário foi espalhado por todos os países da União; em virtude do que se apurou o seguinte resultado — tal qual era, mais ou menos, á data do inquérito, e que vamos sumariar: Em Portugal não havia mulheres tipógrafas; eram, porém, empregadas em todos os outros trabalhos ela imprensa.

As que trabalhavam nas tipografias tinham salário inferior ao dos homens, não obstante trabalharem, como eles, 9 horas. Não faziam parte do sindicato dos homens. Na Imprensa Nacional de Lisboa havia 51 mulheres empregadas, das quais somente duas recebiam igual salário ao dos homens. -Na Roménia, em Jussi, havia apenas 10 mulheres empregadas como compositoras, com a mesma aprendizagem que os homens, mas o seu salário inferior... Na Suécia havia mulheres tipógrafas: estavam associadas 29 a 3670 homens, havendo perto de 3.000 desassociados de ambos os sexos. Na Galicia não havia mulheres tipógrafas, porque as associações masculinas não as aceitavam, e ameaçavam de boycot as imprensas que as aceitassem como tais. Havia apenas ajudantes de tipografias, em número de 300. O salário era igual. Na Grã-Bretanha havia umas 70 tipógrafas e cerca de 42.000 homens! O seu salário regulava por 2/3 do masculino... Em Budapest trabalhavam nas tipografias, de 1600 a 1800 mulheres, estando 9 0 % agremiadas em associações. Na Itália eram empregadas como compositoras, nas pequenas cidades, umas 100 mulheres — e sempre contra a opinião masculina e da "Federação do Livro". Em Roma, onde não havia uma mulher empregada, havia 1600 tipógrafos. O homem fazia ali uma guerra constante á coloca- cão tias mulheres nas tipografias. Não conseguia, porém, expulsá-las em toda a parte: várias eram empregadas como compositoras em Udine, Génova e Milão. Na Alemanha, de 1898 a 1907, era limitado o número de mulheres empregadas nas máquinas de composição — para o que eram exigidos quatro anos de aprendizado, e cujo salário mínimo era igual para os dois sexos — motivo da exclusão elas mulheres, desta profissão. A única associação que ali admitia mulheres era a "União dos auxiliares da imprensa", que se compunha ele 7000 homens e 8750 mulheres — sendo a estas proibido o trabalho nocturno. A união dos tipó- grafos denominada "Gutenberg-bund", contava 3229 homens, e não tinha mulheres. O número de mulheres empregadas na Polygraphische Gewcrbe, aumentou de 14.958 em 1895, a 37.908 em 1907. 19,2 % do pessoal das imprensas era composto de mulheres. Os tipófragos obtiveram ali uma tabela entre patrões e operários, e por isso eram considerados como os trabalhadores mais solidamente organizados na A.lemYinha. Na Bélgica não havia compositoras, porque os sindicatos elos tipógrafos se opunham formalmente a que elas entrassem na sua corporação — ameaçando de greve a sua admissão, por temerem a sua concorrência nesta profissão, que é muito bem paga... Em Bruxelas havia 1800 mulheres, que se impunham aos patrões. As escolas de tipografia, á data do inquérito, estavam fechadas para o sexo feminino. Na Dinamarca, em 3150 tipógrafos estavam incluídas apenas 47 mulheres. Em 850 ajudantes nesta profissão — que não fizeram aprendizado, 700 eram mulheres, sendo o seu salário inferior. Dinamarquesas de todas as classes faziam desde 1909 uma activa campanha contra a lei que lhes proibia o trabalho nocturno. Havia ali poucas tipógrafas, e não havia compositoras em virtude de se prolongar por cinco anos o aprendizado. N a Finlândia havia 322 tipógrafas e 1069 homens. O salário era igual para ambos os sexos. Ali as mulheres não só tinham o direito, mas eram obrigadas a pertencer aos sindicatos dos homens. A lei facultava-lhes o trabalho nocturno; não era, porém, por elas procurado — ainda que mais bem pago, N a França as tipógraphas eram 3000, e homens 20.000! O salário, inferior ao dos homens... Eram admitidas nos sindicatos dos tipógrafos, mas não nas mesmas condições em razão do egoísmo masculino. A lei proibia-lhes o trabalho nocturno — salvo nas profissões em que elas tinham reduzido salário... N a Africa, segundo o censo de 1911, o número de tipógrafos da "União da Africa do Sul", seria de 2355 homens e 46 mulheres. O seu salário regulava por 1/3 do masculino, e não eram admittidas na "União dos tipógrafos" nem a aprendizagem alguma. Com o explodir da guerra, claro que tudo na Europa se deve ter modificado extraordinariamente. Com relação ao jornalismo, é-nos grato verificar que as publicações femininas, dissemina- — 5.Y> — das por todo o mundo, se têm multiplicado de uma forma altamente lisonjeira! Há jornais de combate pelos direitos políticos ela mulher e por tudo o que respeita a assuntos femininos e feministas; há os que se dedicam á higiene, á infância, ás modas, á família, á'arte culinária, á floricutura, dirigidos por muitas e muito hábeis jornalistas de todos os países. Em Portugal foi distinta e vigorosa jornalista socialista, Angelina Vidal. Jornalista de mérito é também Alice Moderno, a primorosa poetisa açoriana. Virgínia Quaresma é a primeira jornalista-reporter portuguesa. A educadora açoriana Maria Evelina de Sousa, também se tem dedicado com competência, ao jornalismo. "O Correio de Portugal" — jornal lisbonense— é dirigido e editado por Belmira de Carvalho e Berta Freire, respectivamente. Helena de Aragão fundou e dirige a publicação semanal "Femina". "O Jornal da Mulher" é um excelente mensário devido ao talento de Maria Barjona de Freitas. Esta jornalista pertence á família do p.ntigo e distinto parlamentar do século XIX, Augusto C. Barjona de Freitas, a quem a pátria deve leis importantes, tais como: o casamento civil e a abolição da pena de morte. Helena Guimarães é primorosa cronista. Na Espanha, entre outras, é jornalista ilustre, Ana C. Be mal. Beatriz Galindo é conhecida cronista. Em Fiança, destaca-se dentre várias outras, uma das mais belas cronistas contepora- nea» e admirada intelectual Lucic Delarue MardrllS • É muito trivial ver-se hoje mulheres jornalistas e correspondentes de jornais importantes cruzar países e cidades em propaganda dos mais nobres ideais. N a Inglaterra, em princípios de 1921, o conceituado órgão da imprensa londrina, "Times". enviou a Portugal Mrs. Tusac, como sua representante, para verificar da verdade das notícias pessimistas e falsas propaladas a respeito do aludido país, e que corriam em Londres como verdadeiras; desta delicada incumbência ela se desempenhou com lisonjeiro êxito, visto que representou com inteligência e imparcialidade o seu papel. Miss Eliot, escritora e jornalista, veio ao Rio de Janeiro, em março de 1927, incumbida pelo mesmo jornal de angariar estudos para a organização de um número especial relativo ao Brasil. No mesmo ano passou pelo Rio de Janeiro, procedente de Buenos Aires, a jornalista russa —Princesa Barbara Kesllpsk Pnszyne. Lady Drumond Hey é, ou foi, correspondente especial, na Itália, elo respeitado órgão também da imprensa de Londres: "Daily Express". Até na China há jornais que advogam a causa feminista, como o "Pel King-niu Pau", e a "Revista doà estudantes chineses", nos quais apareciam vibrantes, e até com sabor subversivo, artigos feministas, firmados pela altiva pena da'doutora King Yamei e outras. A Sra. Moto Hani, japonesa, é proprietária de três revistas importantes; dedica-se a empresas editoriais. Seu marido trabalha sob a sua direcção. Quando se realizam as sessões das Gamaras, as tribunas da imprensa estão repletas de taquígrafas, que se incumbem das crónicas parlamentares. Na capital do Japão, circula com êxito a "Revista Feminina da Mulher Japonesa". N a Turquia e outros países, o mesmo movimento jornalístico feminino. Distintas jornalistas no Brasil são as irmãs Rcvocata Heloísa de Melo e Julieta de Melo Monteiro, riograndenses do Sul, que até 1928 — data em que faleceu a ultima — dirigiram a linda revista de arte — "O Córymbo", colaborado por boas penas e que, estando atualmente na segunda fase da sua publicação bimensal, há muitos anos o sustentam e conservam sempre na mesma elevação de ideias relativas á arte, á sciencia, ás letras, aos assuntos sociais da atualidade — como, por exemplo, o progresso do feminismo, que elas muito honram. Desde 1928 é esta revista sustentada com a mes- m a superioridade de vistas pela primeira jornalista indicada. Leolinda Daltro foi redactora e proprietária d'"A Verdade", d'"A Política", e d'"A Tribuna Feminina". Competente jornalista é também Maria Lacerda de Moura; fundou e redigiu proficientemente, em 1923, na capital paulista, onde reside, a bela revista de arte e pensamento: "Renascença", na qual colaboraram experimentadas penas'nacionais e estrangeiras.

Na capital do Estado de 5. Paulo publica-se a magnífica "Revista Feminina", publicação muito interessante pela riqueza e variedade dos assuntos escolhidos e palpitantes que mais podem agradar ao leitor. Sua fundadora e directora é a Sra. Virgilina de Sousa Salles, que vitoriosamente a susU-nta há uns bons 3 lustros. São também jornalistas brasileiras: Andradina de Oliveira, a advogada Dra. Laura de Bezerra, e Maria Amélia Teixeira, residente Em Portugal, onde fundou e dirige com superior inteligência, desde o ano transacto, a importante revista "Portugal Feminino" — com larga distribuição no país e fora d'êle, superiormente colaborada pelo sexo feminino. No jornalismo argentino, salienta-se a Dra. Isabel Creus, escritora e jornalista de uma rara originalidade. Em 1923 ainda era redactora do jornal "La Razon" •— que há muitos anos brilhantemente redigia. É panfletista e jornalista revolucionária — Joana Rouco. N a América do Norte, grandes diários estão confiados a mulheres jornalistas — todas pilotas-aviadores, a par de muitas outras dedicadas ao moderno jornalismo. Segundo o testemunho de alguns historiadores, a 1." mulher jornalista foi a Viúva Cristoffel Van Remunde, belga, que desde 1542 publicava em Antuérpia, em fascículos de 4 páginas, em letra gótica e ilustrados a xilogravura, os mais importantes factos ocorridos no orbe. O respectivo resumo desta notícia dá margem á suposição de que esta mulher foi a 1.' dos mais antigos jornalistas. Igualmente se historia que o primeiro jornal que hasteou a bandeira de combate pela emancipação feminina, foi em 1848 fundado em Berlim, por Luiba Otio, com este título revolucionário: "Mulheres! Libertai-vos!" Em 1853, porém, depois desta destemida feminista ter sustentado repetidas lutas com a polícia, a sua publicação foi suprimida •— sendo destruídos todos os exemplares, num verdadeiro auto de fé. Mas temos, em compensação, o grande consolo de registar que desde 1848 até hoje os progressos do feminismo têm vingado condignamente a valente propagandista! Principiemos pela demonstração do resultado obtido por uma sindicância a que se procedeu ha poucos anos para se saber quantas mulheres estavam empregadas nas redacções de jornais, e que foi o seguinte. — De 420 jornais do mundo,, consultados, respondeu mais ou menos um terço. Destes, 28 não empregavam mulheres; 47 tinham mulheres entre o seu pessoal auxiliar e ocasional; 47 tinham mulheres como correspondentes, 14 tinham mulheres como redactoras. Com o se vê, estas mulheres eram empregadas em jornais de empresas masculinas. Se hoje fizéssemos inquérito idêntico, o número das mulheres jornalistas seria consideravelmente superior — incluindo as publicações femininas. A arrojada tentativa, portanto, de Luiba Oito, cujo jornal semeou com inegável proveito, durante cinco anos,' as suas ideias de libertação feminina, não foi inútil; foi como que o brado de alerta! que convulsionou a alma feminina, arrancando-a á secular letargia em que permanecia mergulhada.... Ó grande Alemanha intelectual — pátria ele Goethe — essa bela alma ele poeta a quem se atribui a tradicional frase: " O eterno feminino nos atrai..." Mãe acolhedora da Sciencia, que, no sentir de Latino Coelho, "deste pátria a todos os talentos!" A eclipsar o brilhante contingente que ofereceste á civilização, despertou em filhos teus, em plena aurora do século XX, no mais furioso desvario militarista, esse atávico espírito guerreiro impróprio ela nossa época — que deve ser de harmonia e de amor — assolando tudo o que se opunha á sua febre de expansão, ao seu longo sonho ele conquista e ele domínio, e — o que te deve ser bem doloroso! — desmentindo o grau que atingiu a tua civilização — espezinhando e depreciando a própria pátria! Por entre a brumosa noite desse pesadelo que durante 4 longos anos nos oprimiu, que vemos? — a batuta mágica de grandes génios como Beethoven, Schumann, Mozart.... que espalharam pelo globo a arte transcendental da harmonia — transformada no manejo do canhão cujo brutal estampido forma, misturado com os gemidos que arranca a milhões de moribundos, o ininterrupto concerto da morte enlutando e assombrando o mundo 1 Os inspirados surtos de imaginação dos teus poetas •— representados no imortal Goethe, convertidos " Em belos voos de gigantescos Zepelins, cujo sopro letal nem sequer poupou os inocentes e os fracos! E como eterna ironia lançada á memória de teus sublimes artistas, nesse ciclópico delírio de insaciabilidade guerreira, nem a arte escapou á sacrílega destruição! Quando o teu sublime poeta Goethe, na hora extrema pedia mais luz, não imaginava que a pátria estremecida correspondesse á sua ânsia de sublime significação, com lúgubres clarões incendiários espargindo a sua luz sinistra por montões de cadáveres — entre os quais tombou também a flor da tua mocidade masculina! Essa luz divinizada que o meigo poeta pedia á pátria no seu sentido reclamo da hora derradeira, desceu ao seu respeitoso túmulo transformada no trágico relampaguear do monstruoso projéctil devastador! O teu próspero comércio, a tua florescente indústria, asfixiados na faina febricitante ele fábricas forjando horríveis e originais instrumentos de morte! O sangue do teu povo, jorrando abundantemente desde o início ao fim da guerra, avolumou-se em rubro mar que há de lavar a mancha hedionda elo imperialismo militarista, que o nosso século fulmina como extemporâneo e retrógrado! — O sol intenso da liberdade, rompendo, emfim, os espessos horisontes de tão feroz conservantismo, fará brotar, cremos, — com a nova seiva criadora de uma salutar recomposição social, das novas instituições, emfim, os seus infalíveis e opimos frutos atraindo a simpatia e a aprovação mundiais. É da formosa plêiade de teus intelectuais que, radiante de abnegação, nos surge aos olhos da alma a imagem inconfundível de Luiba Otto, dessa corajosa mulher a quem cabe a glória de ser a primeira jornalista feminista, galgando mais de meio século, tropeçando, como que impelida por fatal sonambolismo, por entre escombros e ruínas que a guerra semeou na sua passagem, essa guerra que não teve um ideal nobre a impeli-la, que é nódoa indelével a ensanguentar a história da civilização — essa guerra que o mundo diz provocada pelo seu país, e a cujas momentosas exigências, em todas as nações beligerantes, a mulher acorreu enobrecida pelo seu sagrado amor pátrio, pelo seu eloquente heroísmo! Luiba Otto surge-nos agitando o seu arrojado jornal simbolizando a bandeira de combate como prenúncio da vitória feminista — que é já um facto e para a qual não pôde nem deve haver contestação — porque a mulher, seguindo a máxima de que a maior vitória é perdoar, esquece a sua secular e irracional sujeição ao homem cujo egoísmo, amparado por leis desnaturadas e injustas, sempre a escravizou e inferiorizou, e apresenta-se heróica e pressurosa a dar o melhor da sua alma e da sua inteligência pela pátria... de ambos os sexos.

A evolução do feminismo

Sinopse

Leia gratuitamente A evolução do feminismo, de Mariana Coelho, obra fundamental da história do pensamento feminista em língua portuguesa. Esta versão modernizada e conservadora foi preparada para leitura online no Literunico a partir da edição pública de 1933 preservada pela La Trobe University, com seções internas, fonte integral limpa e estrutura otimizada para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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