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A evolução do feminismo

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A evolução do feminismo

Capítulo 5 · A evolução do feminismo

Emancipação feminina

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EMANCIPAÇÃO FEMININA "A emancipação da mulher é um dos fuzis da cadeia imensa que vai da selvageria á civilização". J. Novicow. No meticuloso tratado antropológico de Charles Letourneau, "La Condition de La Femme dans les diverses races et civilisations" — o tratado mais completo no género, que conhecemos, prova suficientemente o seu consciencioso autor, baseado na longa investigação histórica a que procedeu — desde as idades primitivas até hoje, esta irrespondível conclusão que êle classifica "um facto sociológico de primeira ordem": "Desde a origem das sociedades humanas, á excepção talvez da idade de ouro dos clans completamente primitivos, a mulher tem sido sempre mais ou menos subjugada, oprimida e explorada pelo homem ". A fatalidade da lei sociológica que fez a divisão do trabalho, estabeleceu a diferença de deveres entre os dois sexos, dando á mulher os serviços caseiros e, naturalmente, os encargos da maternidade, colocando na arbitrária mão do homem o scetro do domínio — e sentenciando á sua companheira uma existência de submissão — que os legisladores de todos os tempos exageraram a ponto de a reduzirem ao deprimente papel de verdadeira e indefesa escrava. A subordinação legal da mulher, relata-o a história, acha-se em todos os códigos religiosos, civis epolíticos da antiguidade: no Avesta, no Veda, no Alcorão, etc, (1) U m escritor notável, Mr. Jouy, membro da Academia Francesa, testemunhou, pessoalmente, ainda em 1848, um mercado de mulheres. O histórico de tão revoltante espectáculo é o seguinte: — Até 1850 foi mantido, em algumas cidades inglesas, este uso infamante: se algum homem plebeu duvidava da fidelidade da esposa, ou, simplesmente, se se queria desfazer dela, tinha o direito de vendê-la; para isto, levava-a com uma corda ao pescoço ao mercado mais próximo e ali a amarrava a um poste, qual mísero animal, até que chegassem os pretendentes á compra — que eram sempre de baixa condição social, velhos e solteirões aos quais convinha tal negócio. O preço destas infelizes não excedia cinco ou seis shillings. (3.750 a 4.200 rs.) Quando a mulher era nova e bonita, a freguesia chegava a oferecer um guinéu — (15.750 rs.) O mais horroroso do caso, porém, é saber-se que subsistia ainda há pouco em alguns povos, este hediondo costume. — Em março de 1926 publicava a imprensa uni exemplo revoltante:* " O Tribunal de Zerborg (cremos pertencer (I) É claro: eram obra dos homens somente, organizada a seu pel-prazer — para seu uso... e abuso. á Ungria), está resolvendo o seguinte caso: U m negociante humilde de nome Pasman, vendeu, ali, sua esposa, Dirkje Addink, ao seu amigo Beke — de 60 anos, pela quantia de 40 florins! O comprador estava satisfeito com o negócio. A mulher não protestou, mas alguém levou o facto á Justiça". A mulher não protestou, atendendo, naturalmente, não só á sua ignorância como ao facto de considerar, talvez, o indigno caso incluído na prática de tal costume em tal país... Quando pensamos na apologia com que os antifeministas sistemáticos tanto se empenham relativamente á irracional submissão da sua companheira, lembramo-nos sempre com profunda angústia destes casos que nos surgem, na sua pura hediondez, á luz da história, e nos perguntamos: porque é considerada a liberdade dos escravos de côr, um bem moral e social, e porque é que os retrógrados não admitem a evolução que traz a libertação ao sexo feminino? Dizem os tratados de antropologia que a primeira família que o homem constituiu por toda a terra, foi a família materna — cuja consanguinidade foi a primeira notada e compreendida por êle. Letourneau deduz: "Desta convicção dos povos selvagens nos antigos clans, de que o parentesco só era como tal considerado pelo lado materno, veio talvez a época áurea >do matriarcado. (1) De- (1) Organização social que ainda subsiste entre várias tribos africanas e asiáticas, de que é exemplo o Malabar. pois veio o patriarcado que trouxe a obediência ao pai e ao marido, isto é, ao homem — e assim se tem conservado até nossos dias, mais ou menos tirânicamente". Afirmam Lctourneau, Lombroso e vários outros antropologistas, que não existe, em todo o reino animal, princípio algum que justifique a inferioridade relativa da sexualidade feminina — tanto mais que pelo confronto estabelecido entre as raças humanas, vê-se que entre os tipos primitivos, a mulher não diferia sensivelmente do homem. E trazem, a propósito, o significativo reforço do argumento condenatório da inferioridade da mulher, com vários e interessantes exemplos: — que até mesmo entre várias espécies do reino animal inferior, a fêmea é superior em força e formas, ao macho — sendo por êle respeitada, e até temida. Conclui Letourneau que o tipo feminino existente nos povos civilizados, deve resultar, principalmente, da divisão do trabalho e diversidade -de vida; sendo, consequentemente, criado um tipo especial, hereditáriamente transmissível, menos afastado da criança que o homem, e a que se dá o nome de — mulher. Pelos adeptos—masculinos e femininos—da igualdade dos sexos, é várias vezes posta em foco a opinião de Lamark, o conhecido scientista do transformismo, concretizada nesta afirmativa: "A função cria o órgão" — com que provam ser esta decadência feminina consequência hereditária da escassa ou falsa educação que submeteu e infantilizou, durante tantos séculos, o sexo inferiorizado. Conclui-se da convicção de Lamark que, desde que a verdadeira educação não impulsionava o cérebro feminino, não podia ser criado o órgão funcional da hereditariedade intelectual da mulher — dando o facto, como resultante, a sua inferioridade secular na sciencia e na arte. O estudo dos antropologistas levou-os, pois, á convicção de que a inferioridade social,,e, por consequência, também a morfológica, da mulher, partiu, evidentemente, da divisão do trabalho que lhe estabeleceu os misteres caseiros — incumbindo ao homem o trabalho guerreiro e cinegético. Os historiadores, levados igualmente pelas suas investigações, concluem que a mulher começou a ser tratada como um ente inferior, em face do direito romano que a reduziu a uma cousa nas mãos do marido. Neste ponto, parece, á primeira vista, que a história de alguma forma se contradiz, porque, uns historiadores afirmam que desde a época medieval o Cristianismo e a Cavalaria se empenharam em melhorar a sorte da mulher — que até esse momento outra cousa não era mais que uma escrava; — pois que o Cristianismo nos trouxe a purificação dos costumes e nos suavizou a aridez da existência animando a nossa alma com a esperança envolta num alto fim moral; outros, entretanto, provam que foi a própria religião cristã que considerou a mulher inferior ao homem e lhe impôs a submissão; e que a sujeição da mulher pelo Cristianismo outra coisa não foi mais que a continuação dos erros da era pagã. Dentre estes conhecemos apenas: /. Novicow, G. Sergi, Letourneau,

Carlos de Melo, Claire Galichon Em. Trombeta. Letourneau, Carlos de Melo e vários outros cronistas e historiógrafos confirmam o facto de que, a exemplo de S. Paulo, os padres da Igreja tinham geralmente o sexo feminino em muito pouca estima. Verificada, pois, por estes e outros motivos preponderantes, a consequente degeneração forçada do tipo feminino — morfológica e socialmente falando — os respectivos scientistas, apesar de homens, confessam que desde as primeiras civilizações até hoje, toda a sorte de críticas, de injúrias e imprecações têm sido lançadas contra as mulheres, pelos homens de todas as crenças, de todas as categorias sociais, e ide todos os tempos. Ora, desde que está provado que a mulher primitiva era, física e espiritualmente, muito mais igual ao homem que a d'hoje, mais igual até no seu prestígio social, devemos depreender de tais factos.comprovados pela história, que foi a civilização — (como tudo é contraditório neste mundo!) com as suas leis e consequentes costumes e preconceitos, que nos desvalorizou e enfraqueceu colocando-nos, neste vasto planeta, num lugar inferior e doando-nos a concludente denominação de sexo fraco! (1) (1) Neste sentido, a distinta escritora e feminista francesa, Claire Galichon, discorre desta maneira: "Tão íraca é a mulher como o homem; em regra geral todos os seres humanos são fracos; o que os distingue um do outro é que, na média, a mulher comete a falta com escrúpulos e remorsos, enquanto que o homem comete-a sem escrúpulos nem remorsos." A diferença é digna de ponderação...

Afirmam os escritores que historiam os libelos assacados pelos homens contra o sexo feminino — tanto na civilização oriental como na central e ocidental ou americana, nas quais passava como princípio a inferioridade intelectual da mulher, que as causas dessa inferioridade relativa são devidas principalmente ao homem — que quasi sempre a manteve num lugar subalterno, quer limitando-a ás funções domésticas sem cuidar de lhe elevar o nível intelectual e moral, quer recusando-se a fazê-lo quando ela acordou da catalepsia a que, por tantos séculos, esteve acorrentada. Os primeiros intelectuais que ise levantaram a defender a mulher — arrancando-a ao longo e profundo torpor em que a Idade Media a conservou rebaixada pelo sexo masculino, foram: Cristine de Pisan, francesa, em 1401, e Jacopo FUipo Foresti, italiano, em 1497. Dentre os pessimistas mais notáveis com relação ao sexo feminino, do século XIII ao século XIX, salientam-se: fean de Meung, Boccacio, Moliére. Napoleão, Schopenhauer, Nietszche-.. (1) (1) Napoleão recomendou-se ao feminismo com o seu celebérrimo Código; o filósofo pessimista Nietszche, enlouqueceu. Nietszche dizia "que a mulher é feita para amar e obedecer; o homem paia dominar e proteger; que a vontade no domínio é mais forte que a vontade na vida" e afirmava que a ventura do homem se denomina: eu <qiuero; e a da mulher: ête quer; e é preciso que a mulher obedeça..." (Napoleão opinava da mesma forma). Que monstruosidade, dizemos nós! Mas depois de gastar toda a sua vida propugnando pela sujeição feminina e proclamando a sua inferioridade sexual, quando

Jean de Meung foi o autor do famigerado "Roman de la Rose", escrito entre os séculos XIII e XIV, no qual o aludido autor rebaixa cobardemente a mulher. Reagiu Cristine de Pisan com as "Epitres sur le "Roman de la Rose", (1401-02), e o "Trésor de la Cite des Dames" ou "Livro das Três Virtudes" escrito em 1406, livro todo de moral dedicado carinhosamente a todas as mulheres — incluindo até as mais infelizes... Jacopo Filipo Foresti, com o mesmo fim de defender e elevar a mulher, escreveu em 1497 sobre "De Feminis Illustribus". Os nobilíssimos esforços de Cristine e Foresti não foram infrutíferos; o século XVI lhes correspondeu em proveitosa propaganda consagrando o respeito devido ás virtudes da mulher, e enaltecendo o princípio da sua educação. No século XVI, reanimadas pelo influxo -da, Renascença, já era elevado o número das mulheres cultas na Europa; embora, porém, na sua maioria fossem mulheres de alta posição e reconhecido prestígio, não reagiram contra os gratuitos detractores do seu sexo. Vários historiadores as acusam da negligencia com que esqueciam, na doce fruição do seu cómodo bem-estar, as suas irmãs oprimidas. Nesse século estabeleceu-se uma dupla corsentiu aproximar-se a morte dizia a sua mãe: "Mãe, sou um imbecil." O seu espírito abandonou no fatal momento todo o orgulho sexual para humilhar-se, emfim, perante a mulher. As teorias de Nietszche e Napoleão sobrevivem ainda nos povos latinos... rente pró e contra a mulher: no Cristianismo era representada por Tertuliano, S. Agostinho e S. Jerónimo; na literatura pelos misóginos Jean de Meung c Boccacio. Esta corrente se foi desenvolvendo e expandindo ao forte impulso que a descoberta da Imprensa trouxe ás obras literárias do passado. Ainda no século XVI reagiram: Louise Labé, distinta poetisa, Marie de Romicu, Modesta Pozzo di Zorzi, Moderata Fonte — sábia e poetisa que escreveu "II Mérito delle Donne" publicado em Veneza depois da sua morte, provando a superioridade da mulher, sobre o homem. E na alvorada do século XVII, Lucrécia Marinclli, que elevou a mulher e atacou o homem na "Nobiltá ed eccellenze delle Donne e delle Diffetti e maneamenti degli Uomini" publicada em Veneza cm 1601. Depois destas seguiram-se inúmeros defensores masculinos: italianos, franceses, e alguns, poucos, espanhoes, portugueses e alemães — a par de inúmeros e obstinados detractores do sexo pelos mesmos aviltado — vários dos quais foram apanhados em flagrante flutuação pela história cujos elucidativos fragmentos nos colocam em contacto com esse ridículo procedimento. Divagando algo na precisa análise á flutuante opinião sexual dos grandes vultos da antiguidade, indicados pelos historiógrafos na esfera da santidade, da sciencia, da intelectualidade, em suma, mais do que nos reconhecidos misóginos actuais descortinamos—em consequência da respectiva decomposição analítica — uma das principais faces da variabilidade masculina; e da conseguida.1 posse desses interessantes factos antigos resulta uma verdade tão positiva que nem mesmo se pode ocultar sob o manto diáfano da fantasia: é que muitos desses homens da antiga evidencia social, provando a tradicional falta de firmeza nas suas convicções, se 'contradisseram irrisóriamente nas suas desencontradas opiniões ao julgar a debatida e paciente personalidade feminina. Assim, os mesmos que em momentos de fugaz optimismo emitiam conceitos que a endeusavam, a rebaixavam com sentenças depreciativas, nos seus fatais momentos pessimistas. É raro o vulto histórico cujo espírito se exima á sistemática contradição — a principiar pelos sábios da antiga Grécia... pois que esta flutuação vem já de épocas remotíssimas, anteriores a Cristo, alcançando a Idade-Média e continuando — desassombradamente, é claro — daí por diante. Platão, no livro V da sua Republica, concede á mulher a igualdade política e mental perante o sexo masculino. Mas num momento talvez de mau humor ou, quem sabe? de provocada retaliação, reputa-a intermediária do animal e do homem! Até o próprio Balzac, o conhecido apologista e admirador dos dotes da mulher, chegando a colocá-la entre o espírito do homem e o espírito de Deus, se contradisse flagrantemente como autor de vários pensamentos que a deprimem, dentre os quais apreendemos uma a esmo: "Deus enganou-se a respeito da única que teve de governar e que éle próprio teve o cuidado de fazer." E como estes: 5/°. Agostinho, S. Jerónimo... — emfim, nem os santos escaparam á influencia da aludida flutuação, ora julgando bem, ora mal, dâ secular vitima dos mordazes sarcasmos masculinos! — Boccacio, que se havia manifestado espontâneo panegirista do amor feminino, definiu-se francamente contra o sexo nas obras: "II Corbaccio" e "Decamerone" -— obras que flagrantemente estabelecem nítido contraste com outras em que exaltou as virtudes do sexo por êle ultrajado. A mesma interessante oscilação manifestam: Molière, Schopenhauer, Vítor Hugo, etc. Moliére também se não definiu completamente misógino; ao mesmo tempo que manifestou, por vezes, a sua inspiração acariciada ao sopro convincente dos méritos femininos, contraditoriamente <fá a lume as "Preciosas Ridículas" e "Mulheres Sabias", cujas obras êle impregnou de revoltante sarcasmo no quial impunemente, e destituído de consciência, nos envolveu. Mas afinal que conseguiu êle com as suas balofas ironias? — o que neste sentido podia conseguir um poeta de muito valor... cómico. Fez rir e nada mais. Em contraposição publicava a Marquesa de Lambert as suas "Réflexions sur les Femmes". Esta mulher protestou com toda a nobreza d'alma contra a inferioridade a que os homens tentavam reduzir as mulheres, e já antes dela o mesmo tinha feito Mm\e. de Maintenon. Schopenhauer afirmou que o caracter é herança do pai, como a inteligência é herança materna. Entretanto corre mundo esta sua frase contra- ditória, que ficou célebre nos anais de injúrias assacadas contra o sexo feminino: "A mulher é animal de cabelos longos e inteligência curta". (1). Vitor Hugo, que tão dignamente propugnou pelos direitos da mulher, enaltecendo-lhe os méritos, deu-lhe definições desastradas dentre as quais colhemos a mais breve: "A mulher é um diabo muito aperfeiçoado". Todos cobardemente se contradisseram; cobardemente, sim, porque procediam escudados na tradicional certeza da impunidade... Poulain de la Barre, em 1673 manejava a sua adestrada pena em prol das aspirações femininas, declarando-se partidário convicto da igualdade dos sexos; em 1675, porém, refutou-se a si próprio comprovando a excelência... dos homens, isto é — a dele! E para que estender mais a exemplificação? Iriamos longe se pretendêssemos fazer uma explanação mais ou menos completa sobre as contradições em que o sexo contrário frequentemente tem caído, no seu flutuante julgar das qualidades morais e intelectuais femininas. Um pensamento assinado por um nome masculino, definiu-os conscienciosamente: "Os homens são como os relógios, uns se adiantam, outros se atrasam: poucos regulam bem". Faz realmente pena que toda essa fina plêiade masculina de antiga e brilhante importância histórico-social, não possa hoje aparar, na obrigada (1) Hoje sob o império da moda á la Garçone, cai naturalmente a sua bizarra opinião... situação em que o feminismo coloca os seus versáteis e gratuitos detractores, os consequentes e magníficos desmentidos que provadamente lhe oferece a progressiva, justa e condigna reação feminina. E voltemos ao histórico do nosso assunto principal. — No século XVIII, entre os muitos autores que surgiram pela causa feminina, sete eram mulheres, dentre as quais Marie de Jars de Gournay, denominada a sereia francesa e a décima musa, que defendeu calorosamente, em 1626, os direitos do seu sexo, demonstrando a igualdade entre homens e mulheres. (1) Daí por diante a maior parte dos defensores e panegiristas do sexo 'feminino, foram homens — que se dividiam em dois grupos: um que lisonjeava a mulher pelo culto e pelo panegírico, outro — e este mais sensato e de mais seguro resultado, que recomendava a sua elevação pela educação instrutiva e pela igualdade ao homem. Condorcct pugnou pelos direitos da mulher em 1787-88-90 e 93, com a mais estimável convicção. Ane Marie de Schutman demonstrou em 1641, nu- uma "Dissertação" em latim, que a mulher de espírito, virtuosa e inteligente, se poderia aplicar a tudo, até ao ensino e á política. Em 1792 surgiu outra feminista na Inglaterra, Mary Wolzstonccraft, com o seu livro — "Vindication of the rights of Woman" traduzido em fran- (1) A' luta feminista pela igualdade sexual, chama Aí. Léopoll Lacour — Duelo dos sexos. cês, e que foi aceite como o evangelho do sufragismo feminino da época. E como estas, muitos outros intelectuais de ambos os sexos cumpriram, então, conscienciosamente o seu dever, até que surgiu em 1678-84 Antoinette de Bourignon que defendeu altivamente a igualdade dos sexos no seu livro «Obras», proclamando, finalmente, a emancipação feminina. E assim foram continuando estes belos protestos até ao século XIX — momento em que as mulheres verdadeiramente acordaram do sono letárgico em que jaziam. Nesse século apresenta-nos a história uma selecta plêiade de intelectuais na qual predominava o sexo masculino (i) defendendo e proclamando a emancipação da mulher — cuja aspiração impeliu as mulheres europeias de prestígio a tratar seriamente da educação do seu sexo e da reconquista dos seus direitos, já desde 1848 (2). Hoje os ideais feministas invadiram todos os povos civilizados, e até os bárbaros, vencendo a relutância não só dos homens, mas a dos respectivos governos — tal a força de justiça em que esses ideais se baseiam. O grande sociólogo e filósofo francês Fouricr, como convicto adepto do feminismo, também já (1) Não admira que então o número de autoresdefensores do nosso sexo fosse superior ao das mulheres — visto que a instrução começava apenas a generalizar-se nelas. (2) Menard diz que a emancipação da mulher teve princípio muito antes do Cristianismo, quando o matrimónio substituiu a poligamia, e o helenismo elevou a mulher ao lugar de mãe de famíria. proclamou francamente, em 1808, a emancipação feminina. No nosso despretencioso modo de ver encaramos o trabalho profissional da mulher, como a sua principal emancipação. O autor da "Emancipação da Mulher" vem em nosso auxílio quando diz: "Em uma sociedade organizada conforme a natureza das cousas, a mulher será educada desde a infância, com o mesmo objectivo que o homem: viver do seu trabalho, porque deve tornar-se uma unidade económica independente». O alcance filosófico desta importante verdade exposta por Novicow — no que, afinal, nos não dá novidade alguma, é eloquente e é enorme! Vem a propósito repetir a análise — o que nunca será demasiado, da arraigada opinião em que os tradicionalistas ridiculamente se encoiraçam, e que não é só infelizmente, apanágio do homem de baixo nível intelectual, cujo atraso temos, por consequência, de indultar; ela é também afagada com significativo carinho por muitos homens que primam por um a acurada instrução—motivo por que, a estes, absolutamente não perdoamos, e que uns e outros exprimem pela obsoleta e conveniente afirmação: a mulher deve ser apenas dona de casa. Claro que nesta obstinada opinião se sente, latente e ridículo, o medo — da parte de uns, á concorrência a empregos e profissões; •— de outros, á falência ruinosa do seu estulto autoritarismo e superioridade, com relação á sua companheira — ao que eles estão secularmente acostumados. Não podendo ela emancipar-se do seu modesto papel de dona de casa, todo o poder se concentra na mão egoísta do seu senhor, porque a ela lhe faltam elementos até para reconhecer que na sua posição de escrava sucumbiu a altiva dignidade que lhe devia aureolar a fronte. Convém ao homem a tradicional ignorância da mulher — porque é este o único alicerce em que êle pode firmar, tranquilo e confiante, o scetro do seu revoltante predomínio sobre ela. Quasi todos os antifeministas cuja opinião temos auscultado, são desfavoráveis á instrução no sexo feminino — razão por que detestam as feministas, que, como se sabe, são todas mais ou menos instruídas. Se o não fossem, não poderiam nem saberiam ser feministas. E' confirmado por toda a imprensa que quási todas as feministas que ocupam estes cargos rociais possuem uma sóiida instrução, e são portadoras de diplomas universitários. (1) Todas as tentativas masculinas no sentido de casamento pendem para as donas de casa, nas quais elís encontram o costumado instrumento passivo do seu importuno — e inoportuno — autoritarismo. E é por isso que na maior par- (1) Sustentam graciosamente alguns antifeministas, que as mulheres envolvidas no feminismo são, em geral, velhas e feias. Aqui no Brasil, como em todos os grandes centros, o feminismo compõe-se de novas e velhas, bonitas e feias — (mas todas inteligentes), o que, afinal, se dá em todas as colectividades não só femininas como masculinas: compõem-se de todos os elementos. A afirmativa balofa e tendenciosa, portanto, prova simplesmente um despeito mal contido e ausência de uma fina educação. Nós cremos, todavia, que muitos homens são antifeministas "pró-fórma", assim como quem teme arrostar o ridículo do feminismo, que eles acham não assentar bem no sexo forte. tese não associam ás nossas ideias igualitárias, custa-lhes a largar o bastão do "posso, quero e mando". Não queremos, neste nosso franco dissertar, suprimir, absolutamente, as donas de casa; achamos que quando as circunstâncias o exigem, esse deve ser o seu principal e preferível papel, que é todo de atraente poesia — o que não obsta a que sejam evolucionadas. O nosao fraseado baseia-se simplesmente na razão de que nem todas as mulheres estão nas condições de mera sujeição á vida doméstica. Falando um dia com certo cidadão que, felizmente para a causa feminista, pertence ao grande número dos de somenos cultura, mas cuja opinião nem por isso deixa de ser curiosamente simtomática e de achar oportunidade na análise a que acima nos referimos, dizia-nos êle que tinha uma filha de sete anos, e que se via em torturante perplexidade quanto á selecção da escola para onde a deveria mandar, pois que nas escolas modernas só se ensinava vícios! Que vícios? inquerimos, naturalmente atingida por esta surpreendente e ousada afirmativa — visto sermos então, ainda que modesta, proprietária de uma casa de educação. E o mais curioso é que o quidam não se desconcertou com a nossa intencional pregunta; pelo contrário, tomou fôlego, e com a mais desassombrada ênfase, tanto mais grosseira que era a primeira vez que o viamos, retrucou que as educadoras modernas se preocupavam com uma educação que lhe não convinha para a sua filha, porque: ou gostam de bailes, (neste ponto, além de, evidentemente, claudicar, o aguilhão de tão abalizada crítica não nos podia atingir); ou discutem politica e escrevem nos jornais; e êle quer que sua filha seja dona de casa — porque é ao que a mulher deve aspirar; só admite a instrução no sexo masculino. E depois de estender de fond en comble a atrevida catilinária mais ou menos indirecta, terminou por dizer, claramente convicto e satisfeito, que provavelmente resolveria o intrincado problema mandando a pequena para uma escola de freiras. Com o se as escolas congreganistas fossem meras fábricas de preparar serviçais para as mulheres ricas, ou instruídas! Com o se essas escolas fossem ainda o tradicional túmulo claustral da altivez e das faculdades intelectivas da mocidade e da infância! Ora, a mulher que apenas sabe ser dona de casa, é incapaz de viver do seu trabalho, não se pode tornar independente — está fatalmente condenada a ser escrava — ou dos parentes ou dos estranhos, quando não consiga uma miserável pensão para não morrer de fome! De mais a mais que a sua profissão a não inibe absolutamente de ser,. em todo o terreno, muito boa dona de casa. É por estes e outros clamores absurdos que a propaganda feminista caminharia lenta, e seria talvez de um resultado negativo, se a conflagração europeia a não viesse acelerar provando eloquente e lindamente a injustiça com que a educação feminina tem sido conduzida. Sim, porque o feminismo, como se não envergonham de confessar os homens mais sensatos e cultos, é mais uma questão de justiça que de sexo (!). E com que sarcástico desplante repetem constantemente os pessimistas: (oh! eterna e pungente ironia)! — "Que mais querem as mulheres? Não têm elas o primeiro lugar na sociedade, não têm em tudo a primazia...?" Aparentemente, é verdade; mas, no fundo, essas deferências calculadas são concedidas por esmola, com a capa ignominiosa da hipocrisia, de uma humilhante magnanimidade porque dispensada ao ente considerado positivamente inferior, — quando não encobrem a subtil intenção de conquista,lícita ou ilícita... O sexo feminino, ninguém o pode contestar, tem vivido séculos e séculos verdadeiramente asfixiado sob a prepotência masculina de acomodatícia tradição, na qual tem ela impunemente sufocado as suas preciosas faculdades intelectuais e de trabalho. Estamos de inteiro acordo com Voltaire quando afirma que as mulheres são capazes de fazer tudo o que os homens fazem, pois que, diz êle: "a única diferença que ha entre elas e nós, é que elas são mais amáveis". Quando este grande vulto do século XVIII atirou ás massas tão arrojado pensamento, naturalmente digno de espanto na sua época, estava longe de supor que as necessidades de uma guerra futura tão superiormente lho viriam justificar (1) Carlos de Ateio define-o desta forma: "Esta reação consciente contra o anterior estado de cousas, contra a sistemática exclusão da mulher não só dos direitos civis e políticos, mas até da plenitude da sua existência e do usufruto do.-; seus ganhos, constitui o feminismo."

Quanto á capacidade igualitária no trabalho, é preciso que se repise neste baixo abuso infamante: na equiparação do trabalho falha quási sempre a de vencimentos! É uma das principais reclamações do programa das reivindicações feministas: "para trabalho igual, salário igual". E, neste como noutros sentidos, elas já conseguiram muito (!)! Quando o Conselho Municipal de Paris resolveu fixar para os empregados temporários, uma (1) U m caso digno de ser imitado porque encerra uma lição de equidade e justiça, é o seguinte: O Marquês de Jacome Correiaí importante proprietário agrícola e um benemérito da ilha de S. Miguel (Açores), emprega nas suas propriedades trabalhadores de ambos os sexos. U m dia, notando que o trabalho das mulheres era tão rápidr» e perfeito como o dos homens, preguntou ao respectivo encarregado qual era o salário delas; este respondeu-lhe que, embora satisfizesse plenamente, estava determinado que por serem mulheres, ganhassem menos que os homens! Imediatamente teve ordem de equiparar os salários. Os homens reclamaram e queriam também aumento... ao que o ilustre fidalgo português respondeu que aqueles que não concordassem com a equiparação se considerassem despedidos. As feministas reclamam também protecção ao salário da mulher casada, colocando-a ao abrigo de um marido dissipador. As leis obsoletas que proíbem á mulher casada de dispor livremente do seu salário, protegem o marido contra a mulher. As leis francesa, belga, dinamarquesa, norueguesa e filandesa adoptam, em geral, a comunhão de bens, mas isentam desta comunhão o fruto do trabalho da mulher obtido fora da sua actividade doméstica. A mulher francesa, seja qual fôr a sua situação dentro do casamento, tem sempre o direito de dispor livremente do seu salário — constituído por lei uma das espécies de bens incomunicáveis. O Art. 6." do Código Civil da Rússia atual, diz: "O regime matrimonial não trás aos nubentes a comunidade de bens." taxa mínima de 7 francos para os homens e 6 para as mulheres, provocou um veemente protesto escrito de todas as sociedades feministas e por elas enviado ao Congresso Municipal. Aproveitamos este assunto para frizar uma verdade interessante: ha localidades em vários países onde o trabalho feminino é muito superior ao masculino. Em algumas províncias de Portugal, principalmente na do Minho, emquanto a mulher do campo se dedica aos mais pesados trabalhos rurais, o homem fica em casa... Na Baviera dá-se, mais ou menos, o mesmo interessante costume: emquanto a mulher se entrega aos mais penosos trabalhos de alvenaria, o homem scrve-lhe apenas de espectador... A injustiça com que a personalidade feminina tem sido encarada, revela-se até nos códigos judiciários, que dão por nula, nas principais oportunidades, a sua assinatura! Em tudo se salienta, de uma maneira acabrunhadora, a deprimente contradição e injustiça de impor á mulher os mesmos deveres do homem, negando-lhe criminosamente os mesmos direitos, as mesmas regalias. Voltando á desenvolução do principal assunto deste capítulo reafirmamos e reafirmaremos sempre, com inteira convicção, que a verdadeira e principal emancipação feminina é a do trabalho. A mulher educada no preparo de qualquer rendosa profissão — e ela tem provado no respectivo desempenho, que a sua competência é igual á do homem — não tem receio do futuro, nem se preocupa com a idea de que êle lhe proporcione um bom ou mau marido, nem mesmo a oprime a expectativa de não conseguir aquelle que deseja. Amparada pela sua linda profissão, em vez de aceitar o ambicionado marido-arrimo, ela pode escolhê-lo, porque o seu trabalho lhe garante a independência, a felicidade. Seus progenitores não precisam mais de expor a mercadoria, rodeando-a de todos os atractivos para a muitas vezes infrutífera caça — (do que resultam quási sempre casamentos desastrados), porque o seu futuro está garantido pelo seu trabalho. Se, como casada, não pode, por qualquer circunstância, contar com o apoio do esposo, os filhos da sua alma estão a salvo da miséria pela sua profissão; e dentre todos os benefícios que dela resultam, ressalta ainda o principal — que completa a sua mais bela independência: salva-a da prostituição. Felizmente, a principiar — e isso é lógico, pelos países que tomaram parte na guerra, vemos que o trabalho feminino é hoje justamente compreendido, e que, após essa calamidade que assolou o mundo, é um dos principais problemas sociais, que necessariamente atrairão a urgente preocupação dos governos, instigados pelas necessidades inadiáveis do atual momento histórico. Muitas medidas de real alcance, com relação ao problema do trabalho feminino, têm sido já adoptadas em todos os paises adiantados. Ainda ha poucos anos a Camará Municipal de Paris, em circular dirigida a todas as escolas superiores do Comércio, pediu a admissão das mulheres. Todas as escolas aceitaram, até mesmo as de Paris, Leão e Marselha, que a princípio mostravam uma certa relutância. Quanto devemos, consequentemente, á conflagração da Europa, (contristadora e flagrante verdade a confranger-nos a alma)! — que veio proclamar ao mundo inteiro, pela tuba sagrada do mais legítimo patriotismo, quanto pode e quanto vale a mulher — quando judiciosa e convenientemente preparada para arcar com a resolução dos mais urgentes e dolorosos problemas da vida!

A evolução do feminismo

Sinopse

Leia gratuitamente A evolução do feminismo, de Mariana Coelho, obra fundamental da história do pensamento feminista em língua portuguesa. Esta versão modernizada e conservadora foi preparada para leitura online no Literunico a partir da edição pública de 1933 preservada pela La Trobe University, com seções internas, fonte integral limpa e estrutura otimizada para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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