Universo da obra
Universo da obra
O Brasil já foi uma região mal conhecida. Hoje já o não é. Em todos os centros civilizados deixou de ser ignorado. Existe, emfim! E não existe sómente por ser riquissimo de climas, de flora e de fauna, nem por oferecer, nos seus terrenos inexplorados, largo campo às ambições insatisfeitas dos povos do Velho Mundo, nem sequer por haver desenvolvido de maneira collossal as suas producções.
Tudo isso torna conhecido o Brasil. Mas o que mais lhe propaga o nome é a surpreza causada pela sua cultura, ainda há pouco representada de modo inolvidavel e memorando pelos seus delegados na Conferencia de Haia e no Congresso de Higiene de Berlim, Rui Barbosa e Oswaldo Cruz.
O que, além disso, não escapa a ninguem é a supremacia que lhe cabe entre as nações sul-americanas, é a funcção de arbitro da paz do continente, em que o investiram os estadistas da República, entre os quaes se tem de destacar a excelsa figura de Rio Branco.
Para o Brasil de hoje convergem todos os olhares. Deixou de ser a terra do ouro e dos diamantes para se transformar em vasta arena aberta às mais levantadas especulações da intelligencia e às mais audazes e fecundas iniciativas materiaes. O estudo e o trabalho congregam-se para o seu progresso. A liberdade e a paz social acolhem e protegem os desherdados que alli vão buscar pão e esperanças...
As sociedades européas, imbuidas de preconceitos e avassalladas pelos privilegios, trancam o futuro às classes trabalhadoras. Que lhes resta, senão o recurso da expatriação? O caminho é o Oceano; a Chanaan é a America, a livre e egualitaria America, onde o trabalho é toda a nobreza.
Nós, os portugueses, acompanhamos o movimento geral. A nossa America consiste principalmente no Brasil. Nem podia deixar de ser assim. A raça e a lingua são factores decisivos na escolha do destino.
Nenhuma raça revéla maior resistencia do que a nossa, nenhuma é mais soffredora e tenaz.
Como, porém, estamos desapparelhados para a lucta hodierna pela falta de diffusão do ensino, só excepcionaes qualidades ethnicas[1] explicam a posição que ainda cabe à nossa colonia no Brasil. Seria, no emtanto, indigno ocultar, neste momento, que essa colonia se encontra sériamente ameaçada pelos nossos concorrentes. Está, aliás, na consciência de todos esta verdade, que uns calam para lisonjear a nossa colonia no Brasil e outros por não lhe vêrem solução deante da criminosa pertinacia com que os governos dão tudo às clientellas politicas e negam, por sistema, a esmóla do ensino primario aos filhos do contribuinte faminto e esfarrapado!
A obra da escola não se concilia com os interesses do regimen, não há duvida; mas recusem ao povo, forçado a emigrar para não morrer de fome, a instrucção indispensavel para competir com os outros estrangeiros no Brasil e esperem o resultado no volume das remessas de numerario com que acudimos ao nosso balanço economico!
O recurso das remessas do Brasil e a exportação que para esse país fazemos tornaram-se essenciaes à vida portuguesa. E, como nada se fez para dispensar tal dependencia e nada se procurou para assegurar aquele estado de coisas, a nossa gente laboriosa, conscia dos riscos que corremos, mas sem noção exacta do problema, recebe com esperança e enthusiasmo todas as ideias apresentadas por pessoas bem intencionadas.
Isso bastaria para explicar o côro das adhesões à proposta do sr. Consiglieri Pedroso[2], se não interviessem, no lance, a especial categoria, a illustração e o talento do emérito professor. Discordando, em varios pontos, desse plano de aproximação luso-brasileira, dirigi a s. ex. ^a uma carta aberta a que o Mundo deu a sua larga publicidade e na qual se lia:
«O estreitamento das relações de Portugal com o Brasil, dada a vontade que nesse sentido revelam os dois povos, é mais do que facil, porque é inevitavel, porque está nos destinos de ambos.
Imaginar, porém, como deduzo dos considerandos de v. ex. a que, precisando nós da seiva do Brasil, temos meio de lhe conferir uma compensação primacial, qual seja a de evitar o risco da desnacionalização que esse povo corre pela entrada cada vez maior de outros elementos ethnicos, é erro profundo que os factos condemnam de maneira formalissima. E, sobre ser um erro, esse juizo levantará contra Portugal e contra os portugueses a hostilidade das outras colonias e das outras raças, alli na mais intima convivencia e na mais constante fusão com a gente lusitana e luso-brasileira.
Com tal motivo, qualquer esforço de aproximação resultará contraproducente. Não posso, desde que se parte dessa base, dar a minha insignificante collaboração a uma tentativa que tenho por inefficaz, pelo menos.
O Brasil precisa de milhões de estrangeiros. Não lhos podemos dar. Há de procural-os em outros paizes. Mas, como é um país que se sabe governar e que nunca, nem sob este nem sob o antigo regimen, deixou de demonstrar sentimentos patrioticos e ardor civico, não corre o perigo, que v. ex. a entreviu na colonização italiana e alleman, de se desnacionalizar.
Com mais vagar, em um opusculo, hei de deixar demonstrado quanto estão afastados da realidade os que pensam como v. ex. a. Se houvessemos de iniciar negociações com a ideia de evitar esse suposto risco, creia v. ex. a que os brasileiros, cuja hospitalidade tive durante dezeseis anos e cujo espirito conheço, não agradeceriam o aliás generoso empenho, porquanto nelle veriam menos apreço pelas qualidades de intelligencia e de patriotismo, de que, com justiça, se ufanam muito mais do que das riquezas naturaes da sua patria.
Sei que v. ex. a, meu illustre correligionario, só é movido por altos e nobres estimulos. Estou convencido de que só à falta de documentos directos e de observação propria se pode atribuir o desvio do seu grande espirito critico em matéria em que estudos especiaes dão a v. ex. a merecida auctoridade.
Felizmente, porém, entre muitas ideias de real utilidade que constam da proposta de v. ex. a, vejo uma que me garante que o problema, nas suas linhas mestras, tem em v. ex. a o paladino ao lado do qual se poderão alinhar os soldados da democracia portuguesa e os cidadãos da grande República Brasileira.
Refiro-me à ideia de procurar aproximar os dois povos pela adopção de um espirito comum na legislação de ambos. Nesse ponto estou enthusiasticamente com v. ex. a, porque, não podendo a democracia pura, que é a República dos Estados Unidos do Brasil, seguir a evolução regressiva, essa aspiração impõe-nos, a nós portugueses, a marcha progressiva para a situação juridica do Brasil — o que só poderá ser conseguido por uma transformação politica e social, tão almejada por mim quanto por v. ex. a.
E comprehendo com que íntimo constrangimento quem assim sente teria de obedecer às regras protocolares do cargo ao pedir ao joven rei D. Manuel a sua cooperação para um emprehendimento que só pode ser levado a bom termo pelos dois povos e que só se desentranhará em realidades promissoras quando a realeza portuguesa constituir méra recordação historica.
Faço votos porque v. ex. a veja em breve realizadas as nossas aspirações comuns. Se, porém, o nosso esforço interno não chegar para tanto, creia v. ex. a que, para não falharem os seus destinos historicos, o Brasil e Portugal se hão de aproximar cada vez mais e cada vez mais intensamente a democracia brasileira há de exercer fatal ação sobre a nação portuguesa, abreviando os dias do regimen monarchico e apressando o advento da República Portuguesa.
Não há mais eloquente lição do que a dos factos. Não há mais violenta propaganda do que a comparação antithetica dos povos brasileiro e português. E, cada português, que volta à patria, não tarda em sentir a magnitude da ação da República no Brasil e em reconhecer a falta das instituições a que lá se afizera.
Garanto-o a v. ex. a: se não fizermos a revolução, o Brasil há de repúblicanizar Portugal. V. ex. ^a conhece melhor do que eu o poder da osmose social. »
Eis a origem deste trabalho. Julguem brasileiros e portuguêses se as convicções, que ele traduz, carecem de fundamento.
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