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Capítulo 1 · O Livro de Alda

15 de fevereiro de 1893

15 de fevereiro de 1893. E justo. Visto como o Destino houve por bem -— e por meu mal! — atravessar-te no desfecho desse meu ato de loucura, justo é que conheças bem do fundo e bem na essencia a historia que o motivou. É simples, é banal, é velha como o amor, e, como toda a paixão, ridicula. Pelo menos, vae-te parecer isto. Que a pavorosa assolação da minha desgraça não haveria meio de a sopesar na verdadeira medida, de a compreender, de a sentir, de generosamente a acarinhar numa atmosfera de perdão e de clemencia, ao chatinesco egoismo deste fim de seculo, sindicateiro e trocista. 7 Embora... Tudo quanto vou revelar-te mereceria antes, pela sua natureza emocionativa e íntima, pela despolarisação moral que de mim reflecte, pelo espantoso descalabro em que descobre todo o meu ser deliquescendo e ruindo, inexoravelmente, — mereceria antes que eu o conservásse numa fibra do cora

ção ou numa dobra do cerebro, carinhosamente resguardado, como uma planta rara de herbario, que lá. de longe em longe, por esta charneca da vida fóra, eu me désse a contemplar, a reconstituir, a reviver amorudamente, na muda e severa discrição do meu gabi. nete, por alguma dessas torturadas crises em que se compraz a minh'alma contemplativa e doente.. Certo não eram para confiar ao papel estas amarissimas confidencias. Embora. Vão à conta de mais um sórdido fatalismo... Não sei que dolorido impudor, que canalha impulsão, que martirisante impudencia me arrasta assim ao registo publico do meu avil. tamento, à insolente estadeação da propria indignidade. — É talvêz, na sua forma desgorjada e ímpia. um repto sincero vibrado à hypocrisia da moderna. sociedade, um desafio honesto ao cínico rebuço de. chamada opinião publica, 4 moralidade counvenciona das multidões, à supernal velhacaria com qué os ho: mens, em comum, repudiam e condenam a prati ca de prazeres, que cada um depois vae secreta e avi damente deglutir no recato môrno das alcôvas.. E quero crêr tambem que a esta franca e nua peniten. ciação de miserrimas coisas principalmente um im pulso bom e salutar me instiga. — Este exame de cons. ciencia aos quatro ventos será como que o contrite abjurar, a ascoenta repudiação dos erros do passado. No teu almo e nobre coração solenemente comungarei meu querido amigo. Á tua consciência esmolarei c pão ázimo da minha redenção, o arrimo da minh'alma o Fiat voluntas... do meu calvario, o norte do mer futuro. Que melhores projectos queres tu que eu tenha 1 Mas eu Vou mais longe. —- Com este, que te pro

“meto, sudario tragico de vergonhas, este torturado psmetilhar de dores, este feroz auto de fé a meus crapulosos desvaríos, fio mesmo que recupcrarei um pouto, à poder de nôjos e humilhações, a estima de mim proprio; e que, no pilão da evidencia de puro maceradas, as orquideas da vaidade, as rubiaceas da luxuria, as urtigas do pecado, os rainunculos do vício = toda à enliçagem ruim da minh'alma, — hão-de portim numa neutra linfa obliterar-se, é deixar que no meu - coração iluminado e escampe vôlva a repontar e a A reilorir, abstemial, sem macula, o grande tirio azul “da razão, da prudencia e da virtude. serei portanto candidamente sincero e absoluta“mente franco. E porque o.não hei-de ser?... porque “0 não havemos de ser, eu, tu, nós todos?... A natu— reza é sempre nua; nua é a verdade, nua a innocencia. Detesto tanto o que é falso, como me repugna o que é feio. E, mesmo, nesta heroi-comica odisseia de letibulares agruras, a que o dominio da mulher arrasta, “quem ha aí que póssa atirar-me a primeira pedra? Qual de nós não tem pela mulher, uma ou cem vêzes, — varrido o sossego, renegado o devêr, lançado o brio ei — à margem, arriscado a reputação, comprometido a — fortuna?.,.-—- Aí reside, meu caro, a finalidade, a causa, o motivo essencial da nossa existencia, Da vida o incanto, o apanagio é este. Nem verdadeira— mente ha por que nos orgulhemos e folguemos da. “nossa condição de Homem, se não sofrermos muito pela Mulher. Nas sucessivas cartas que vou escrever-te, poderás pois lér ot raslado emocional da minh'alma, e desta autodissecção epistolar, que por castigo me impuz, - parcela a parcela extraírás, descomunal, iumegante,

: ) meu pobre coração hipertrofiado de miserias. Aí terás mais um livro do Amor; não desse amor de convenção, todo bordado nas nuvens, insexual, piégas, que nem os anjos cultivam, nem os deuses aplau-. lem; mas do verdadeiro, o grande, O empolgativo amor humano, — a mais esplendente, a mais triuntal das paixões, e o mais ratural sentimento, — que romba dos costumes, das leis, que desconhece afei-. ções, gratidão, devêres, que atropela à verdade, que marca o limite à virtude; paixão arbitraria, arrogante, absoluta, que tão depressa nos eleva aos uitimos heroismos como nos degrada ás infimas Dbaixêzas:; paixão que é a força das forças, a saude da saude; que é, a um tempo, uma necessidade moral e uma função fisiologica, a páscoa de duas almas e a: confluencia de dois instintos; que na sua rubescente expansão inconsideradamente concede os seus favores à mais sublime como á mais vil das criaturas; e cuja divina, cuja perenal essencia tem o condão unico, singular de na dulcida emissão do mesmo suspiro voluptuoso conjuntamente fazer vibrar, irmãs, acordes, as mais baixas solicitações da nossa carne e as mais finas eterisações do nosso espirito. Ah, meu amigo, como actualmente anda amesquinhada e arrastada a compreensão do amor Já ninguem sabe, já ninguem tem a força de amar. O amor atual ou é hipocrisia, ou calculo, ou simonia, ou deboche. Alimpar, cardar hoje o amor das mil teias de aranha galantes com que a sociedade moderna o abastardou, seria uma tarefa bencmerita a empreender, seria uma das mais belas e arduas missões da filosofia e da moral — podes ter a certeza. Não te passe pela ideia que eu vá tentar seme

lJhante coisa: não tenho pulso para tanto. Limitarme-hei ao simples relato das desordens da minha vida... e não é pequena coragem Imagina pois... Mas são duas da manhã. Com a tumultuaria evocação deste verdadeiro ano terrivel, o coração galopame no peito, a cabeça escalda-me... não vejo 0 papel, não sei o que escrevo. Melhor será ficar-me hoje por aqui, e concentrar-me na pausada ordenação deste largo estendal de ignomínias. "* Amanhã continuarei... se tiver forças para isso.

O Livro de Alda

Sinopse

Leia gratuitamente O Livro de Alda, romance naturalista de Abel Botelho e segundo volume da série Patologia Social. Edição Literunico em pt-BR moderno preparada a partir de fac-símile em domínio público, com teor adulto e crítico sobre degradação social, desejo e exploração.

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