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O Livro de Alda

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O Livro de Alda

Capítulo 3 · O Livro de Alda

18 de fevereiro

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18 de fevereiro. Três vêzes comecei ontem esta carta, e irês vêzes rasguei, exasperado, o lastimoso aranzel de baboseiras que a custo ia espremendo do meu cerebro. Por mais ardidamente que o tentásse, não havia meio de Ser simples, claro, breve; não conseguia verter num estilo impessoal, cristalisar em frias linhas de analise, austeras, largas, a formula pictural dessa noite memoravel... noite de novidade e de febre, noite de pasmo, noite de iniciação, noite de angustia; noite que um negro ponto nodal assinala, na curva da minha vida; noite perfidamente envaginando em capitosas delicias, — como o brincado estojo dum punhal com veneno, — as mais cruas e amargas perversões “da ignominia e do erro; noite que foi para o meu caráter brando, para a minha insciencia mundana, para a minha timidez, para a minha insegurança, um dia de sol deslumbrador supito instilando-me, com a fulgurante realização de preadivinhados gózos, o prolífero germen de irredimiveis infamias. Nestas condições, — bem vês, — ser frio, ser imparcial era dificil. Como poderia eu, como poderia alguem, de animo leve incarar, desdobrar com placidez, - reviver a Sangue-írio a turbadora memoração de cenas tão na sua vida essenciaes?... de protestos que a * fôram sentenças de morte, caricias que fôram abominações, beijos que fôram quedas, risos que fôóram o dobre funeral do seu destino? Quanto mais eu refreava o pensamento, mais de tropel me pulsava o coração, mais embarulhadas,

mais de rodilha me acudiam as ideias, num vento de confusão, num fume de incerteza. Via tudo, sentia tudo tremulando em espiralagens tortuosas, — como da banda de lá duma fogueira. E. agora mesmo, devo confessar-te — ó miseria da natureza humana i — que o balanço dessa noite de azar me desperta bem eatranhos sentimentos; e que, ao passo que meço com borror, e com intransigente odio condeno, da minha ascorosa aviltação o desmarcado alcance, dulcidamente sóbe a amolecer-me a alma, desse instante de ventura inefavel não sei que saudosissima lembrança... Mal a pequena puxou o cordão da campainha, logo uma velha alcouvêta veio abrir, alta, espectral, palmatoria de vidro na mão, lenço escuro, de lã, sobre outro de algodão branco, amarrado ás fontes, inevoado o olhar, os beiços debruando reintrantes as gengivas desguarnecidas, e pigmentando-lhe a garatujada aridêz das faces um livôr esverdinhado. Já a cancela se nos fechava nas costas com estron= do, e a minha introdutora a ordenar: — Ponha a ceia na mêsa, ouviu?... E vá-se deitar, que são horas. A fantasmatica megéra poisou a palmatoria sobre uma mêsa e rodou em silencio pelo corredor, emquanto à rapariga me convidava, atirando longe 0 gôrro, que guisalhou com estrondo: — Esteja á sua vontade. — E numa comica reverencia: — Faça de conta que está em sua casa... Ia a lançar-se ao canapé; mas de repente, desandando: -—— Dá cá um cigarro. Desdobrou-o e embrulhou-o entre os dedos, com uma rapidez e uma perícia como só a muita pratica

+ bol ai ta ER De Rea O VS DAR Ca Sad * 4 é ERR confere: acendeu-o à luz da palmatoria, soerguendo a fimbria de setim da mascara e estiraçando os labios, toda curvada; depois abandonou-se em peso contra um dos angulos do canapé, e atirando ao teto, numa vuluptuosa preguiça, a primeira fumaça: — Então, não se senta?... Que diz à minha casa? — Bem... está muito bem — balbuciei, tartamudo de embaraço e de vergonha. A verdade era que eu nada tinha presenceado ainda, nada tinha visto de igual, em materia de canálhismo galante: e que todo o meu delicado ser, retraído e tímido, amnesiára de pasmo e de receio ante o jnauditismo da situação, ante a imprevista e aspera emoção da inopinada aventura. No entanto, como a mocidade falásse alto e a ardida petulancia dos meus vinte e dois anos recúperásse o seu imperio, já eu me sentára tambem no.canapé, junto daquela esfinge coleante, aspirando-lhe “o aroma, estudando-lhe as formas, procurando-lhe “contactos; e tremulo, implorativo, quente, suplicava: -—— Mas, vamos tira essa mascara. -— À seu tempo... — É tempo de mais Não vês que?... == E er. gui, direita ao loup, a mão, que ela sacudiu com uma palmada. — -—> Abaixo a mão! Espere... Só quando me egcaldo é que tenho pressa. —- Cônversemos primeiro. Acomodei-me e anulei-me, pequeno e humilde, de mãos entaladas nas pernas, absolutamente hipno-* tisado. E ela, muito familiar: =- Sabes que estou com fome? — Depois, mais a alto, para 0 interior; == Isso está pronto, Eternidade?

E como de dentro não vinha resposta, num salto ela ergueu-se, o resto do cigarro para o chão, e vôou corredor fóra. Foi quando eu, livre por um momento da imediata obsessão da esteniante criatura, pude com relativa tranquilidade analisar a casa em quê me achava, — Tudo quanto. pode haver de mais desagradavel, de mais pelintra e banal em materia de habitações mercenarias. Quasi um cosmopolitismo barato de lupanar. Um laborioso arranjo de coisas velhas e inuteis, paredes meias da miseria. Pequenina sala forrada a papel escuro, de ramagens e quadratins claros sobre um fundo rôxo; jogando deploravelmente com o papel, na côr e no desenho, pequenas litografias barbaras, do começo do seculo, com legendas sentiméntaes, desfiavam em deformidades grotescas a lenda de Inês de Castro; sobre as mêsas havia boisinhos das Caldas, conchas e retratos de homens de chapéu desabado; havia ainda ventarolas e flôres de papel de sêda, aplicadas contra a parede ou em suspensões de cartão picado. De mobilia, duas mêsas, um canapé e-cadeiras de palhinha, a um angulo uma chaise-longue esmadrigada. Arrastavam o seu desmazêlo pelos moveis varias roupas de mulher, um chapéu, umas botinas moldadas em tremoço e barro, nauseativamente, Saturando o ambiente, um cheiro essencial a alecrim queimado. Por tim na esfiampada trama de um pequeno tapête do Bolhão, estendido a meus pés, esbatiam-se uns restos de paisagens com um leão dormente. A parede fronteira ao canapé era evidentemente um tabique: demonstrava-o a pequenina porta sem alizares, forrada pelo mesmo papel, que nele abria para o compartimento imediato, e a meia rosacea:

visivel e as caneluras do estuque do teto, que a cercadura do papel interrompia ao alto, bruscamente. Mesquinho aproveitamento de espaço. Era um compartimento — o unico da frente da casa, — partido em dois. Estava nos modernos costumes lisboetas: não tinha por que estranhar. E ainda notei que uma grande litogratia colorida de toireiro, garrida e arrogante, festoava por sobre o canapé a parede, adornada com duas farpas em aspa. Farpas policromas e Tijas, farpas a valer, complicadas dos mais bigarrados enfeites de fitas e flores, a unha de ferro da ponta levemente oxidada. — Sem duvida eram o retrato e recordações, lembranças de algum mestre olimpico do toireio, um destes sêres fortes, excecionaes, felizes, plasticamente belos, depositarios e herdeiros dos atavismos virís da nossa raça, todos coragem, altivêz, desdem, incluindo a vida, e cujo prestigio subjuga as multidões e deslumbra até à alucinação as mulheres latinas... «Amante dela, talvêz?...» pensei numa osga mal represada, num ciume de instinto. E logo de reflectir: «que tinha eu com isso?...» Entretanto, sentia distintamente. ao cabo do corredor, a minha hospeda garrulejando, dando ordens, indo e vindo, batendo rapido o tacão, em geitos leves de passarito. E, tilintando, louças, talheres. E apetitosos anuncios de comida. Por fim, ela bateu palmas e chamou: — Então, minha flôr, não vens?... É preciso ir lá buscá-lo? Avia-te Venci de salto o corredor. E então... Na pequenina sala de jantar, e já sentada à cabeceira da mésa oval que guarnecia o meio da casa, a mi

nha amante de momento, sem mascara, saboreava uma deliciosa canja, pastosa, gôrda, toda em placas louras vaporando um aroma que insalivava a bôca, aperitivo e tonico. Mas que empolgadora visão aquela! Como a tenho presente, como me varre ainda de rôjo a razão, como me inflama os sentidos, como me deliquesce a alma essa turbadora aparição, essa endiabrada figurita de mulher, imperiosa e futill — Cabeça redonda e pequenina, de um córte entre classico e felino, ao mesmo tempo inteligente e animal, sossegada e petulante, maravilhosamente bem corôada pelas frisuras em desordem do cabelo côr de sandalo; uma tarja de velino a testa; a sobrancelha alada, as palpebras muito frescas; os olhos de porcelana, pequenos mas rasgando em amendoa para as fontes, vivos, translucidos, acêsos numa expressão azougada e inconsistente, num como que brilho duro de esmalte, impenetravel; o nariz achatado levemente; carnívora a bôca; o mento raso e breve; a pele alvissima, mordida de sangue, lambida das quentes nuanças da sua penugem doirada; fino, marmoreo, gracil o pescoço; no colo espumoso e deslumbrante, fazendo a junção das claviculas, um pe-. queno triangulo de sombra; e uns grandes seios, Dra-. vos e turgidos, avolumando erécteis sobre o coração, naquele corpito enxuto e vibratil de mulher nervosa. Que te hei-de eu dizer da impressão que sofri 7... — Eu não sei o que se abriu, o que sé rasgou dentro de mim, naquele momento... não sei que aleluia. interior, que enristamento sensual, que ardído canto. triunfante alargou e ergueu todo o meu ser, alvoroçado e tumido, Certo é que emparveci de gozo é de gur= preza; Chocada tão de violencia e de impeto, à minha

E esperta sensibilidade confrangeu-se, falhou 0 seu equi— librio habitual. A hiperestesia da supita emoção para- lisou-a. De iorma que me subiu uma onda congestiva... - € houve um momento em que eu não consegui ver, — compreender, sentir senão através uma confusa am* Pliação de pesadelo. E, assim, não dei bem tino demim, à EuÃo conservo nítida a noção do que fiz durante os pri-meiros minutos. - - Suponho, sim, que fui bem ridiculo... porque “à minha amavel Galateia ria, ria a perder! E eu, com. “um ar imbecil, desatei a rir tambem, mecanicamente. — Elaé quenão cessava de beber, movendo, movendo - rapido a colher, —e disto lembro-me muito bem, — — com grandes rutilações de aneis nos dedos. Entre— tanto, de roda de nós, a Eternidade, impassivel, espectral, muda e deslise como uma sombra, ia mudando Os pratos. ' — Ea rapariga: “ — 6 mulhersinha, já lhe disse, vá-se deitar! Acenda-me a lamparina do quarto e vá-se deitar. “Foi então, quando ficamos sós OS dois, que eu supersticiosamente receei uma desgraça... a antítese imediata e horrivel da minha situação. — Nunca imaginára que se pudésse ser tão soberanamente feliz na — terra! Porque agora a pequena, parando de comer, — fincára o cotovelo á mêsa, e aplicando na conchita da mão o queixo, e a ponta do indicador no labio, num É geito todo seu, com aquela graça infinita dos anjos “de Rafacl e de Murilo, comprazia-se em mé fitar lascivamente, numa clara expressão de desafio. epa — Aqui me tens... sem mascara. — E sem despegar da atitude, fitandd. me sempre: — Então?. j “Eu com o olhar Pregalo, hirto, fundido no dei

não respondi... mas os pés arrastaram-me pêrros no sobrado, aproximando mais a minha cadeira da sua. E a fascinação absoluta daquele olhar problematico e fino, entre divino e sensual, incómodo à força de penetrante, doloroso á força de prazer, continuava sempre. — Agrado-te? — aventurou docemente. Antes mesmo que eu falásse, logo lhe relampagueou pelas feições gaiatas um brilho de convencimento interior, ao passo que pela sua pupila garça uma nevoa de comoção passava. Então a sua mão delicadita e breve correu-me num afago electrico a face, emquanto com a mais gulosa meiguice os labios murmuravam: — Tambem tu me agradas Depois, logo a seguir, num suspiro leve, derivando: — Bem, bem, mas vamos a comer... Deixemos as asneiras p'ra logo. E já novamente garrula, infantil, voltava a comer e a beber, toda gestos e risos, que o tilintido dos guisos do seu disfarce alacremente sublinhava. Era apetitosa e variada a ceia: magnifico mexi- lhão, preparado á moda de Aveiro, espetado ás longas fieiras em palitos adequados, enxuto e fresco, muito picante; e já ervilhas, com O inseparavel paio; galinha, lampreia, lombo de porco, agriões. E os dôces tambem e os vinhos, é de saber. Eu pouco comi, que m'o não consentia a infernal sobreexcitação que me estrangulava o desejo. A minha companheira, porêm, que toda a longa noite foliára, tinha um apetite de pedras e esvasiava um após outro os calices, a fôlego aberto, mal que eu lhos enchia. Quando a servi das ervilhas, antes de provar:

— Ah! é a primeira vêz que cômo ervilhas, este amo. Espera... — obtemperou de repente. Pregou os cotovelos na mêsa, ocultou o rosto nas nãos, cerrando os olhos, numa grande concentração espiritual, num como que recolhimento supersticioso é místico, e eu senti que os seus labios monologavam com sinceridade e ardor uma prece. Depois, ao terminar, como eu formulásse, no-modo como a olhava, minha interrogação muda de espanto: — Não sabes?... A primeira vêz no ano que “5€ cóme uma, coisa de que se gosta, é quando a gente deve pedir ao céu aquilo que mais deseja. “ — E que pediste então 2... — Que me quisésses muito — exclamou com alma. E já, toda afogueda: — Ô filho, desculpa... estou com calor Desabotoou lesta a sua blouse larga de pierroí, atirando as bandas p'r'os lados; e foi quando eu, num quente deslumbramento, pude seguir a prolongação do seu belo colo, alvo e espumante, arredondando em dois promontorios que cresciam, cresciam e gu“ biam, em rijas ondulações, irrequietos, tremulos entre as rendas, prontos a saltar do espartilho... A termos que, dahi por diante, não havia desviar-me da maldita obsessão o olhar inflamado, e todo o meu empenho era vêr se aparecia o resto, o melhor... se “conseguia aplicar os meus conhecimentos de geometria descritiva à determinação da cota mais alta dessas duas estonteantes florações de carne e de pecado. Ela deu conta da minha perturbação; e, de quanpes do em quando: -— Menino então 2...

E como que a recatar O seio, esboçava quaiquer insidioso gesto qué ainda mais O descobria. O caso foi que a hora, o vinho, a ocasião, O exemplo enardectram-me. Com a maior semceremonia, já eu the tocava o braço, acariciava-lhe a cóxa, formulava no olhar meus propositos desonestos. E ela contente — Houve uma ocasião em que, oferecendo aos meus labios um bonbon, meio entalado entre os dela, convidou: o — Vamos queres?... Metade é p'ra til Eu avancéi O meu rosto té face a face com o dela, cortei o bôlo em dois com os dentes... e que deliciosa, que turbadora impressão me ehsUpUu os nervost... a ponto de ficar convencido de que à fundente e mélica doçura que então me inundou a bôcãa, numa caricia fresca e perfumada, fôra, ão devida à um requinte da industria de confeiteiro, mas pura € directa emanação da minha companheira. Mas já ela se erguia de impeto, dizendo: — Isto hoje é dia Re Temos que fazer uma; saude especial. Encaminhou-Sé ã&o Rir -lJouçã, buscar uma garrafa de vinho velho; e eu então num relance aprecndi do seu corpito flexuoso e magro a sublima ide à peregrina elegancia. Ela tinha enchido os copos, bem testes, ver. tendo o licor Horas, com umãá certa solenidade.. Depois: — De pé! Atenção... Bebâmos ao nosso amar Puz-me em pé, de copo na mão. Quando porém ela erguia com arreganho o braço, à farta manga do. seu roupão tombou o galheteiro, e logo uma grande nódoa de azeite arredondou pela toalha.

11==0 LIVRO DE ALDA fa “88 — Demonio! Azar — apostrotou arreliada, num “subitaneo sústo, sem mesmo ter bebido. 2h E, dizendo, amalinou de pasmo e de receio, e imo- Vel, com o braço no ar, Suspensa à respiração, 0 pénsamento opresso e o olhar franzido e doloroso, pôs-se à seguir pavidamente, nã alvura mansa da toalha, o “alastramento vagaroso e compacto daquela mancha enorine. Depois, num repente, dominamdo-se:, — Asneiras! Anda dahi... —epilogou, bebendo “dum trago à arrancando da mêsa. Do Levou-me à cosinha, mesmo ao lado, vêr Se o lume ficava apagado: depois, voltando à sala de jantar, “ túapontei-lheo azeite, e ela: «Tem oleado por baixo... “hão faz mal.» Tomou à palmatoria acêsa, eu apa” guei 0 tandieiro que pendia do teto; passando-lhe o s “méu braço à cinta e arriscando-lhe um beijo na nuca, rimos. pelo corgedor, à salêta da frente; aí ela * abriu à portita falsã do tabique... Estavamos na Sa camara de dormir. Es Propriamente o camarim de uma mulher de prazer, “uma destas criaturas de instinto que só a objectívi“dade preocupa, que fazem consistir no culto do exterior “toda à sciência da vida. -- Aconchegado é pequenino. — A verdadeira bocêta de Pândora, = da luxuria e do — erro. Alcatifado, Predominava nele o carmezim, pois e era esta a côr da alcatifa, do pequeno docel do leito, "da colcha da cama, dos resposteiros, do papel adamas“cado das paredes, da luz que a lamparina irradiava, da - Sanefa sobrepujando as cortinas da janela. E fôra escoo lIhidaa preceito a inflamativa côr, decerto. Nada me;lhór do que a purpura para dar córte e realce à velu* tinea alvura, à fina linha infantil do seu corpo delicado.

Mas havia mesmo conforto, um certo luxo rebuscado e galante no arranjo do misterioso aposento, A mobilia era polida a negro: negro O grande leito à Luís xv, solido, simples; negro O guarda-vestidos, à banquinha de cabeceira, O toucador; negras e filetadas a oiro as cadeiras; negras as misulas, de carvalho € pau-santo talhado, que adornavam as paredes; negro o longo sofá de setim que ocupava à quina do quarto, fronteiro à portita de entrada e com uma fulva pele de leão á frente, fófa e profunda, erguida a ampla cabeça magestosa. as grandes prêsas brancas MOTdendo em scintilancias cruas o sangue da alcatifa. Tambem, á ilharga da ampla cama, que quasi encostava ao tabique, o nosso artelho perdia-se na macia e alta espessidão dum tapete de lã de camelo. Nesse mesmo tabique, junto à cama, € reflectindo-se no €spelho do guarda-vestidos, que lhe ficava fronteiro, havia um outro espelho com moldura, de cristal, MOTdida de ramos fôscos; a mais fina“cassa da India acariciava a janela em magnificentes e voluptuosas prégas, que duas garras de jaguar franziam; resposteiros, colcha e docel era tudo de authentico damasco de sêda, em alto relêvo, largo-franjado, da mais opulenta e discreta espessura; e o estuque banal do teto desaparecia vestido por um Tico tecido indiano, todo em minusculos arabescos de vermelho e oiro, disposto em prégas irradiando duma grande cabeça de querubim com azas, de bronze esmaltado, posta ao centro, de cuja bôca se pendurava, acésa € vinolenta, é em forma de caçolêta etrusca, uma formosa lampada de cristal. Emquanto eu, num dar de olhos, observava O aposento, já ela, meio despida e em frente do grande

Da espelho do guarda-vestidos, desnastrára o cabelo de novo e de novo o prendia com um só gancho soltamente sobre a nuca. Depois, voltada e correndo a mim num transporte, atirou-me os braços ao pescoço e passeiou-me o rosto de beijos calidos, sofregos, cantantes, emquanto me trespassava da tremura de todo o seu corpito em ancia, e me entontecia com o tépido aroma de sandalo que vinha de sôb os seus braços. Sem nada dizer nem fazer, sentado à beira da camas, e com o nó histerico na garganta, emparvecido, atohito, — eu contemplava-a. E ela, muda tambem, num estrangulado impeto, deixára-me... tirára o corpête, as calcitas bordadas, desatacára o espartilho... té ficar vestida só por uma finissima camisa lilaz, que as duas pontas distantes dos seios sustinham, e que ao sentir-se livre, ao desfranzir os mil minusculos refêgos em que se lhe colava ás fórmas, parecia, ela tambern! corrida de vibrações lascivas, tinha estremecimentos iguaes a contracções de labios. E o caso é que a minha amantesita de ocasião era uma pura delicia, um poema inédito ce prazer, O verdadeiro transunto ideal da graça e da beleza! — Miudita e franzina, como já mais de uma vêz te disse, não a opulentavam as redundancias habituaes do sexo, antes parecia o seu corpo, —tão fartamente prostituido, — a fria e tímida carne duma virgem elegantisada a poder de abstinencia e castidade. Era uma conceição singular, um mixto modelar e incomparavel da ideal magreza florentina, em que não ha OSSOS, e da solida librinação lombarda, que exclue a gordura. A mais franca e anadiomenica sintese da tentaÇão, do vicio inteligente, da perversão espiritualisada.

De tanto que ela era corrida e enxuta de tórmas, chês gava a parecer insexual 0 seú corpo andrógino e Irescô. Não tinha cólo, não tinha quadris, não tinha ventre. A soberba linha do seú talhe, que tu seguiá perfeitas mente através a transparescia da camisa, descia quasi vertical é apertando ligeiramente, da turva alada dos ombros, pelos Hancos estéreis, pelas ancas estreitas, pela perha adelgaçada e firme, à fechar-sé é à morrer, por um prodigio de estabilidade inverosimil, no leve arqueamento das suas finas patitás de ave, leves, saltitantes. De sorte que de feminino ela Só tinha ó encanto próprio, à expressão menineira do rosto, à graçã felina dos movimentos, é -— oh meiu Deusl = os dois grandes seios que bruscamente lhe rompiam do peito chato, turgidos é altos, anormaães, sem nenhuma transição de modelado. Alpinuda e gracil tomo as mulheres do nosso li toral do norte. Tipo fisiológicamente bastardo, toda à vida lhe refluira ao Séio; naqueles dois promontorios de carnê e de pecado, luzentes, duros como o marfim é como um fruto trópical quentes e macios, palpitava a diatese sensual e Sé concentravam às energias dinamicas é toda à epicurea e boémia devassidão da estranha criatura. Todo o Seu modo de ser sé resuínia, 56 condensava ali... ali estava à razão da sua estetica, da sua moral, do seú Sentir, do seu querer, tendencias, predilecções, instintos, em súma, todã a finalidade agitada e violenta do seu destino. Eram à Suá sihá, “à sua definição, à sua divisa; a diagnose do Seu tem “peramento e o segredo functional da sua alma. Nessas - Quas estonteantes pontás dê coral, como nós reótoros; duma pilha, se acumulava todo o seu electrico poder ( de sedução; por elas havia de fatal é calidamente

% exercitar-se sobre o Homem o seu acanalhante im. perio, em ondas de paixão, em catadupas de infamia e de veneno. - Com as suas duas grandes têtas espetadas, aquela mulher esguia e fragil era um simbolo; sem elas seria uma pobre figurita, doentia e efemera. Assim éra uma irreprimivel tentação; doutra forma seria um desagradavel exemplar abortivo. Um interessante * caso de hospital, nunca o tormentoso cabo onde irremissivelmente viriam naufragar as boas intenções de tanto desgraçado, como eu... E, assim, ela era bem o produto aberrativo e morbido deste fim de - seculo destemperado e egoista, em que a contumacia no prazer produz toda essa descerebrada legião de ninfomânicas, e a hipertrofia cerebral origina os —“ homens com aparencia de fetos. Emquanto no meu cerebelo em fogo, promiscuamente, estas ideias e impressões fuzilavam, ela fórá à alcova proxima, abrira e fechára rapido uma gavêta E “da comoda, e, com um pegueno embrulho sobraçado, “já novamente diante de mim, ia mudar agora de camisa. A tenue e ampla tunica lilaz mantinha-se-lhe sólta e vertical, pendente das agudas têtas. Mas, pum dar de ombros, Os seios tremeram, as pontas ergueram-se... e então, desprendendo-se, a camisa fluiu maciamente, — Sem uma prisão, sem uma pausa, ao longo do gen corpo esguio, enroscando-se-lhe aos pés como um gato Ee amoroso. Depois, emequanto ela, de braços ao alto, SE enfiava nova camisa, eu pude num relance avistar a - deslumbradora nudez do seu corpg adelgaça do e debil, alvo a um tempo da baça e tenra alvura dos jasmins ú E dos Alpes, & mordido dum bistre sensual, doirado de

mélicas doçuras, crestado de marmoreações ardentes, Tue eram como que a marca rubescente do seu poder, 3 carimbo a fogo da sua dupla condição de anjo e de lemonio. E como ela estava entre mim e o guardavestidos, nesse inolvidavel segundo eu pude ao mesmo tempo apreender, pela visão directa e pela reilexão no grande espelho, em todos os seus contornos, no mais tavoravel relêvo, a flexibilidade ideal, a incantadora graça infantil, a modelação completa e perfeita do delicioso instrumento que a sorte me oferecia ali assim, aspontaneo, irresistivel, aos mais vesanicos vôos da minha fantasia e ás mais abstrusas perversões da minha carne, De sorte que já os dois bravos seios da minha amante retinham, pelas rendas do decóte, uma nova tunica, de uma bela côr de morango retinto, e ainda eu aváramente procurava retêr, de olhos semi-cerrados e concentrado, imovel, a turbadora impressão daquela imagem instantanea e divina. Mas ela, batendo-me no ombro, e com a voz mal segura: — Então seu tonto... Estou com frio Ergui-me de impeto e despi-me tambem: emquanto ela, sobre a cama, soltava as ligas, tirava as meias e lesta deslisava sôb a roupa. Num pronto, eu estava com ela... E agora não tentarei, não poderia mesmo descrever-te o que foi aquele nosso primeiro abraço! — que feroz atracção, que rábidas apetencias, que estrangulada furia nos atirou um contra o outro e colou as nossas bôcas, uniu as nossas respirações, entrelaçou os nossos braços, polarisou acordes os nossos nervos garrotados de prazer, tetanisados na guilhotina da febre e do desejo... Tão pouco poderia deta=

lhar o que foi para mim em surprêzas, revelações e tôrpes episodios, em insalubres apetites, em supremas abjecções, em lances de ignomínia, essa noite abominavel e celeste, empolgadora e terrivel. A mesma congestiva crise nos tomára; doidos, convulsos, lidavamos ambos no mesmo insustavel furor, apostados como que no lascivo empenho de nos penetrarmos, de nos absorvermos mutuamente. Ardidos nesta luta obsidiante, nenhum de nós queria ceder... e eu que tinha a vantagem do meu comedimento anterior, da minha impetuosa e fresca mocidade, então concentrei toda a minha força e todo O meu querer, os mais rubros impetos do meu sangue e as mais calidas energias da minh'alma, no goso e na posse completa, incondicional, daquele belo corpo insaciado e hiante. Neste fervoroso, neste absorvente portiar, todas as outras faculdades anulei a favor do instinto; de sorte que para tudo o mais a minha vida paralisára... amnesiou a memoria, varreu-se-me o espirito... só a animalidade rugia em mim, e o tempo era como se não marcásse. No entanto, lembro-me... — da fluida contusão desse voluptuoso ensopamento uma só impressão me ficou, poderosa, eterna! — lembro-me de que, por cada vêz que raivosos os nossos corpos se cingiam, eu sentia sempre, — sinto-as agora — as suas duas grandes têtas, rijas e avidas como tentaculos, soldarem-se-me ao torax, abarcarem-me os flancos... E assim brusca e tumultuariamente foi como eu rasguei o nevoeiro de misterios e problemas que, uma vêz sondados, endoidecem, e de que teria side tão bom fugir! Assim eu fiz a minha iniciação no erro, ao contacto e ao exemplo dessa mulher de abominação

* de delirio... A termos que não houve recanto iné=s lito da sua carne que os meus cinco sentidos não levassassem, nem particularidade anatomica do seu “OPpo que os meus labios em brasa não mordessem No dia seguinte, já dia alto, veio a Eternidade trazer-nos leite à cama. — Que tal está o dia? — interrogou, num Docejo, a minha companheira. — Ail muito escarunfio, senhora, — observou a velha proxenêta. = Chove? É — Está tudo cerrado... Um verdadeiro dia de cinzas. -—- Bem! — comentou a rapariga, num lampejo de prazer, as alêtas do nariz palpitando de desejo, E para mim, emquanto afastava da testa e dos olhos 9 cabelo: — Não tens que fazer, não? ES — Não... É feriado, — Então, deixa-te estar... — suplicou meigamente. E como que a selar a minha gostosa aquiescencia, ouviu-se pelo quarto o alegre bater de azas de dois beijos.. Ao que, discretamente, a Eternidade pigarrou, voltando o rosto. E, muito ceremoniosa: — Veja a senhora o que determina? — O quê? comer,.. Que massada — Olhe, vá "às compras e arranje q jantar como entender. — A velha rodou silenciosamente, — Quer dinheiro? —- Tenho lá,

— Bem, então Sean as coisas como quizer. Avie-se — Sim, minha senhora. — E olhe, feche a porta... leve a chave. Eseusa de me incomodar depois, quando vier. -— Fique descançada, menina... — assegurou a velha, voltando junto do leito, e agora tomando uma familiaridade em aberta contradição com a submissa atitude de ha um instante ainda. Curvando-se então sobre nós, não se poude ter que não dissesse: -— Fazem bem em gozar, anjinhos... E já junto da porta, num saudoso suspiro: -— Ai tempos, tempos! Estimulada do divertido episodio, a minha amante agitava-se e torcia-se, erguia os joelhos, batia as mãos, ria a mandibula batente. Más breve os meus, dois braços a adstringiam, reacendia-se a furia paro“ xismica dos nossos nervos, a scentelha passional da nossa carne palpitante, e como corolario, mal a Eternidade batêéra com a cancela da porta da escada, e já no quarto voltára a sôar alto o nosso encarniçado resbunar, entre sensual e aflitivo, cortado de monossilabos, avivado de protestos, a que 0 silencio espesso do aposento emprestava valor e que a parcimonio— sa luz do exterior favorecia. ' Depois, grado a grado, veio o quebramento, a sacie. dade, o cansaço. E, com este, uma deliciosa inacção, uma voluptuosa preguiça, uma irresistivel e grata * sonolencia, em que sobre a lassa ruina do meu corpo o cerebro largou desapoderadamente a trabalhar. E então recordei embevecidamente a infinita série de Rue cs e emoções por que acabava de passar...

Bentia-me feliz. Ao invés do que poderia presumirs se do bestialisante efeito de tão nutridas horas votadas ao cêvo exclusivo da care e da júxuria, eu não estava positivamente materialisado. Pelo contrário, uma lucida embriagueZ me erguia e doirava as ideias, dominadoramente. Sentia a verificava muito bem que esta obsidiante e irresistivel criatura, que o mais misterioso e feliz dos acasos me deparára, não era só simpática à minha animalidade, não era só apetecida dos meus sentidos; antes na mutuação celeste dos seus 80z05 havia um não sei quê de eterisante e fino... o que quer que fósse de iluminado e alto, que me afagava o pensamento e me falava ao espirito. Tudo isto porque era magra. Para as almas grosseiras, para os plebeus do sentimento e os escravos do instinto, a opulencia das fórmas e a pujança das curvas são ainda hoje a primeira condição de beleza va mulher. E todavia quanto mais ideal, quanto mais suscstiva e dôce não é a magreza essa ultima quinte senciação da carne, essa sintese sublime de todas as encrgiss boas da materia. Quanto maior jus não teem à nossa adoração e ao nosso culto cstes tipos miudos de mulher, frágeis, ondulantes, —feitos de petulancia e de nervos, de sonho e de misterio, — tipos donde a sensualidade desertou e que o vicio, por muito que os agite, jánais consegue apostemar de mácula; preciosos, divinos sacrarios onde meticulosamente se cristalisa e adensa a verdadeira, a unica espiritualidade do Amor! Digam o que àisserem os materialistas, —- no corbo divino da mulher, por cada celula material que se destibrina, uma nova nota sentimental acorda, uma

— ha nova corda afectuosa larga, tensa e vibrante, a cantar no coração. A plastica cheia e obtusa da Venus de Milo não vale a debilidade emaciada e franzina de Santa Tereza de Jesus. Foi o que eu pensci e ser-ti, muito compenetradamente, nos espaços em que a minha companheira dormitava. Foi esta a derradeira e paradoxal integra“ção de toda a minha filosofia e toda a minha moral, nessas dôces horas silenciosas voluptuosamente conduzida ao sabor da estimulação d.s meus instintos e do furor do meu desejo. Lá muito pela tarde, já quasi noite, jantamos à mêsa. O apetite foi bom, aguçado, para mais, pela nossa camaradagem afectuosa e livre. A Eternidade organisára um pequenino banquete a primor. Predominava o marisco. Num empadão de camarão e lulas, especialmente, ela esmerára-se: — Era O pratô predilecto do seu Carlos! Que homem 1... Ainda na ultima ceia que lhe tizéra, antes daquele anjo partir p'r'o Brazil... — Mas porque a deixou ele, atinal? — aventu: rou, meio distraída, a minha companheira. — Olhe, senhora, intrigas... Imagine que... Mas nós, embebidos como estavamos um no outro, não lhe davamos atenção. E emquanto a velha piedosamente desfiava seu rosario de queixumes, muito puxado a pormenores, cortado de ais e salgado dé abundosas hipoteses de lagrimas, que a ponta da avental subia a alimpar, repetidas vêzes, a rapariga piscava-me o olho de troça, comia do meu prato, fur: tava-me o vinho... e eu sem despegar consumia a sensibilidade e enrodilhava a alma na diabolica transiu cidez dos seus olhos garços, na carnivora expansão d'

sua bôca, na grande sensualidade patente do seu naricão achatado e pálido.; Findo o jantar, já o café foi tomado, a luz acêsa, na mercenaria salêta da entrada. Depois, epicureamente, Os cigarros fumados uns sobre os outros € 0 dialogo aflorando ao acaso ninharias:; emquanto se ouvia dentro um gôrdo correr de aguas pela louça, na cosinha. E ela, ora no meu colo, ora em pé farandulando na minha frente, irrequieta, nervosa, com uma vivacidade irreprimivel, com um admiravel ritmo, "todo instintivo e natural, de movimentos, repetia, comentava os ditos e gaiatamente revivia as parodias que na vespera vira fazer pelas ruas. Duma ocasião, quando sacudia o cigarro no cinzeiro, diz-me ela, apontando um pequeno masso de cartuchos de papel de côr, “que poisava ao lado, gobre a mesma mêsa: — Mal sabes tu 0 que isto é?... — Sei lá! — Eram pós, p'ra jogar o entrudo Estes sobráram. Nã ão sei que subitanea furia de fazer mal me sagudiu, que repliquei com decisão: — Pois não hão-de ficar sem servir! — E, di zendo, tinha-me erguido, e tomando um dos cartuchos avancei de salto p'ra ela. — Estás doido? — acudiu, levemente assustada, recuando. E eu malignamente a insistir: — Foi uma ideia que eu tive agora Anda cá! EX — Que brincadeira tão estupida — Não é — espera,.. Empoada, deves ficar deliciosa

“AB CC = filho, estás doido Larga isso O entrudo já E — acabou... CC Ecomo eu erguia âmeaçadoramente o braço, desatou a fugir pelo corredor adiante. Mas eu segui-lhe estugado os passos, quasi colado com ela; e ha casa “de jantar, como à visse amartanhar-se a um canto, entre o guarda-louta e a janela, subjuguei-a então com à mão esquerda, emquanto, da direita, rapido lhê polvilhava maciamente de branco a crispatura quente do cabelo. Ela, entre agastada é sorridente, mal recobrada “do espanto que lhe fizéra à inopinada agressão, Sa— tudia com as máositas à cabeça, e, meio engasgada do pó, ia exclamando: “ =Besta! quê tal está a criança?... Então não querem vêr! -- Depois, num arranque de vindita: — Eu já te “arranjo! Num segúndo, tinha ela voltado à sala da Trente é lançara mão dos cartuchos... de sorte que agora ns era eu que ficava literalmente éempoado. Natutalmente, quis-me desfortar, empoei-a mais; e ela debatendo-se é furtando-se, em saltos de gata, em coleamentos magneticos, em tegougadas furias de Ieda “amorosa... ela agredindo-me, dominando-me, empulhando-me tambem, o mais encarniçadamente que podia! Assim nesta brava luta bem depressa sé esgotáram as munições, mesmo as de reserva: pot que se recorreú às bocêtas com pó de arrôz, ao gêsso e do cré das facas, aos mesmos pós de goma que hávia na dis- pensa. E nenhum de nós queria ceder... tinhamos * os fatos nojentos, enfarinhadas as mãos, grandes sa“burras brancas de clown nos rostos transtorhados.

E a casa uma lastima. E, toda complacente, a Eternidade, de mãos sôób o avental, lamuriando: — Ora vejam, que preparo Doidinhos... Bons trabalhos me arranjaram! Mas nós porfiavamos sempre no mesmo maligno empenho, no mesmo ascabujado renhir, que uma aspera sensualidade estimulava. Perseguiamo-nos, mo= lestavamo-nos como loucos... toda a casa era pouca para nós...e ante a atoada e febril violencia da nossa arremetida os moveis iam tombando com estrondo. Mudos e abrazados na mesma alucinativa furia, O olhar incendido, alta a respiração, os dentes pêrros, não nos fartavamos de nos premir, de nos sentir bem na posse um do outro, tomados duma insaciada, duma implacavel sanha sensual, que ao mesmo tempo nos derramava uma deliciosa quebreira na fluidez dos musculos dormentes. » Famintos novamente da nossa mutua carne, ébrios de comoção e frementes de desejo, muito tempo lutámos braço a braço, até que, instintivamente, recumbimos no grande sofá de setim negro, dahi, inovelados, estrebuxando, derivámos sobre a pele fôfa do leão, e desta rolámos ainda, ofegantes, exaustos, para cima da alcatifa. — Rompes-me o peito, ladrão! — gemeu a pobresita, numa voluptuosa exoração, que era o sêlo da sua capitulação formal. E fômo-nos deitar... Oh, a horrorosa, a infindavel noite que eu passei Recordá-la é arripiar-me todo na evocação dum longo e aniquilador suplicio, entre celeste e doloroso; é coniranger-me na fixação de violentas e Lediosas coisas, cuja empolgante repetição me sería hoje insuportavel.

Parece-te am absurdo?... Porêm se recordares q meu temperamento, a minha compleição, toda a minha vida anterior, e qual era áquele tempo o lume da minh'alna e o eixo do meu espirito, -- vaes achar natural. A Porque deves saber que ela quis adormecer abracada a mim, tendo o meu braço direito estendido por sob o seu pescoço, e a cabeça no meu colo, peito com peito, as pernas enlaçadas. Faltava-me assim para O repouso a minha posição habitual; « esta circunstancia, junta é excessiva excitação das ultimas horas, Lornou-me o sono dificil. Á madida como ela tranquijamente adormecia, cu começava a sentir-me mal arreliava e sofria do incomodo daquela posição con trafeita, daquela forçada imobilidade que a minha delicada condescendencia inexoravelmente me impunha. Bem cerrava eu os olhos, bem procurava na passividade da inacção represar o espirito este Leimava sempre na sua tumuituaria liça e as palpebras mantinham-se-me invariavelmente leves e altas na penumbra. Dei-me por isso a contemplar, invejoso, resignado, a apostura confiada e inerte da minha rica amante, que eu tinha em absoluto nos meus braços, abandonada num esbagaxamento todo animal, numa lassidão complacente de repouso. — Mesmo assim era bela No fulvo torvelinho do cabelo emmaranhavamse ainda as luxurias recentes, havia paginas vivas € crespas da sua vida... na frescura da face petulante os longos cílios, baixos e unidos, faziam sombra, na bôca franca e resoluta entreabria-se uma frincha de prazer... e o nariz ruílava espaçadamente ao compasso da sua respiração forte e tranquila. Mas tam

betri, à espaçós irregulares, e breve é fugaz tomo um relampago, sacudiasã um leve estreémecimênto, córriá-lhe nos músculos, nos dedos, na face, pelos flantos um tiê nervoso e electrico, = úma como que picada de desejo. Distraia-me isto... E), à Seguir, vá de analisar tambem aó acaso tudo quanto me cabia no campo Visual: à fráânja do docel do leito, que não estava com-. pleta, tinha pedaços arrantádos aí onde ficava ao lante da mão, ãos lados... é O espelho não estava nó meio do tabique... da banda da cabeceira, contavami-sê menos duas rosêtas nos ornatos do papel, “do quê para os pés dá cama. Como já tinha o braço horrorosainênte entorpetido, procurei arredá-lo da posição: é isto em peguehinos satões, à mêdo espaçados, muito de goito que à não acordasse. Mas ela não foi absolutamente insenSível ão meu movimento. Como lhe desarranjei à cabeca, agitou-Se, resbunou qualquer coisa, sem acardat, Ssfregou o hariz e voltoú-me costas, inóvelando-se longe de mim, junto à parede. Respireii... Gomo à tama tra larga, eu podia muito Dem agora ter-me tjuieto e à vontade, ageitar-me ao modo costumado, tal como se estivésse sósinho na minha saudosa tarima dé estudante. Assim fiz... dobrei os jotlhos, Aconcheguei à roupa... Bem! Más O maldito sono É que não vinha! E entretanto eu notei que me apertava hos rins uma sensação vagamente dolorosa, como não era costume. Efeito certamente do desvario anterior, = não Valia nada. Vamos a sósstgar... Ah, mas não, não “Sossegava porque não estava Só... pofque de quando sm quando lá rugiam entre OS lençoes, alvoroçando

me, espertando-me, os instantaneos tremores, os movimentos animaes da rapariga! E aqui novo assunto à minha espertinação: porque, mal que uma dessas magneticas titilações passava, e já eu irresistivel mente me punha à espreita... a vêr quando é que pe — la se mexia outra vêz. E se um novo movimento tardava, eu não me podia ter que não arriscásse 2 entãoo braço a procurá-la, a tocá-la, a assegurar-me de que tinha ali assim, bem na minha posse incondicional, aquela nudez completa e perfeita. - O relogio bateu horas: meia noite. E eu ainda não tinha reparado — o andar da pendula era largo, solene, vagaroso. — Nem por isso ela contava 0 tempo — mais devagar Aí está!... como era misterioso e inag compreensivel este problema do isocronismo porque. sorte de indecifravel sortilegio acontecia que todas as pendulas da terra ao mesmo tempo, de quaesQuer tamanhos ou feitios, batêssem depressa ou devaBar, em todas as latitudes e em todos os climas, cadenciavam sempre pela mesma forma igual, uniforme, invariavel, a nossa marcha fatal para o aniquilamenRR ce e tac... Lá estava este galopando, a seguir, a seguir, um tempo que não mais contaria para mim! lã me estavam vôando breve tantos, tan“tos segundos, irremissivelmente nulos na minha ambicionada carreira de gloria e de fortuna! —'Tic, tac... E tinha um bater forte, irritante, incomodo o de -Monio da pendula! Impropria dum quarto de dormir. Olha p'ra uma pessõa doente! Nem sabia como ela podia... Questão de habito, decerto. Eu é que + me não poderia habituar. — Tic, tac... Nunca tivéra — um Telogio, eu... uma coisa tão simples! Ha criaturas bem miseraveis... p'r'as quaes é toda feita à E. sg

de abastardamento e hostilidade a Vida! Ora, mas tambem, na aridêz do meu isolamento, na minha camita estreita, no meu quarto solitario, podia tranquilamente dormir; em quanto que aqui... Tic, tac... Faziam-me agora saudade! — Tapei os ouvidos com a roupa... balda coisa! Ouvia a pendula da mesma fórma, ainda mais forte, com uma intensidade e uma insistencia agora crescentes na minha sensibilidade estimulada. E o meu egoismo revoltado, e o corpo a doêr-me, e o monotono compasso titinabulando-me cada vêz mais agudo e implacavel, no cerebro espesso e cansado. O meu exaspero era enorme... Queria desviar do relogio a atenção, — era impossivel! A impertinen-: te e barbara toada teimava sempre em martelar-me o ouvido, por uma forma que á força de dolorosa se tornava insuportavel, e a que já emprestava as mais absurdas e estranhas desfigurações o começo de delirio daquela insónia, paredes meias da loucura. — Tinha silvos de troça, bravas sonoridades de prazer, Tessonantes melurias de cornamusa, arpejos, frases de amor, pragas, ameaças, imprecações, queixumes; era um alarido de multidão e o cicio dum segredo; cabriolava em geitos de farça e agonisava em tragicos arrancos; ora rasgava o silencio num traço imperativo e brutal como um castigo, ora dorída e plangente se arrastava como um dobre de finados... Tic, tac,.. -— Insuportavel Levantei-me, peguei do meu sobretudo, e erguendo as mãos à grande misula lavrada sobre que assentava O relogio, envolvi-v raivosamete, numas poucas de voltas, com o pano, a vêr se lhe abafava 6 som por completo. E com efeito o espesso involucro absor

via duma maneira satisfatoria, completa, o ritornelo aspero do metal. — Ótimo! Deitei-me... Agora, sim lia finalmente sossegar... Ejão espirito amadornava, e todo O corpo se me esquecia num inefavel entorpecimento reparador, quando a minha companheira, voltando- -Se, Veio caír sobre mim com todo O peso do seu corpo inerte. — E, portanto, eu esperto outra vez Tive uma comoção de contrariedade, subiu-me um calor de arrelia. — Que demonio fazia eu alil... Estupida coisa! Semelhantes desmandos não eram para um tímido, um delicado como eu. Só a pleniposse da saude e da vida os comportava. A irregularidade, O excesso eram bons para estas fortes organisações equilibradas, nas quaes, á hora do repouso, a animalidade recupera integralmente o seu imperio, e portanto é dominadora, absoluta a amnesia do exterior, e O sono certo e infalível, — Oh, como eu naquele momento invejei os tisnados labrostes dos campos, que de criança via, na assoalhada paisagem da minha aldeia, adormecêrem de pedra, à hora quente da sésta, sobre o chão aspero e duro, de peito ao ar, mãos sobre o ventre e o chapéu guardando os olhos, numa pacificação absoluta, numa perfeita é feliz identificação com a risonha paz da Natureza!... Pois eu nem numa cama, com todas as comodidades, conseguia dormir Tinha-a arranjado fresca! — Então desejei-me longe dali... E logo a seguir a minha sensualidade, espicaçada e tremente, a protestar... a fazer-me aflictivamente estender o braço, tacteando, procurando a carne fresca e rija da minha companheira! O certo é que ouvi a uma, as duas, as tres, as quatro, as cinco horas, — batidas, através do pano, pelo

relogio em surdina. Depois, suponho que dormi..: à avaliar pela minha desordenada febre interior, pelas grossas e aAlucinativas visões que em disparates curveteios, em abstrusas e sóltas incoerencias, mê trabalharam longamente a fantasia... De muitas delas nem já dou conta. -— Mas lembra-me que So= nhei que o quarto era grande, muito grande! inundado de luz... e bamboleava ritmicamente, como ao baloiço das águas... 6 nós dois dormiamos mas era sobre a toalha da mêsa de jantar... lá estava a mantha do azeite, é só ela, avolumando na atrigada álvura do linho, espessa, dominadora, enorme. É o relogio crescêra tambem e descêra da parede... lá tomava fórma humana... às colunatas do seu estôjo - eram os braços, fazia as pernas o mover da pendula, na claridade cinita do mostrador os traços negros das tetras garatujavam de escarneo. — E ele a subir, à subir... estava junto de mim, era um gigante! E porque a mancha de azeite ovalára, segundo a linha exterior dum rosto, agora no seu lívido relêvo um dos ponteiros burilava a preceito, — flagrantes de verdade e crispadas de agonia, vê tu! — as finas feitio da Minha noiva. Quando atordel à rapariga, de braços ao altô, compunha o cabelo, na disposição de quem se ia levantar, de joelhos na cama. Instintivamente, erguilhe à mão aos seios. E ela, muito séria, acudindo-me: — Psiu! quieto agora Persignou-se, ergueu as mãos junto aos labios, “entresilhando os dedos, e baixando a cabeça monologou com mistico fervor esta oração, que me ficou de cór, de pa vêz que lh'a ouvi:

Com Deus me deito, com Deus me alevanto, Na graça de Deus e do Divino Espirito Santo! Ele me cubra com o seu manto a há Se eu bem coberta fôr, Não terei mêdo, nem temor, Nem de coisa que má fôr, Nem de noite, nem de dia. Encomendo-me a Deus e á Virgem Maria pi Que Gristo atende a quem o adora. Bemdita seja a alma que se ergue nesta hora! Ofereço-me a Jesus, - Ao nome de Jesus, ÃO cravo e á cruz, E ao Senhor Crucificado! Que me tire a alma de penase o corpo de pecado! Cristo virtuoso, Filho dum Deus poderoso, Esta alma que me déste, não m'a deixes morrer triste! Como vós a remiste, Dae-me a hora em que nascéste.., Jesus, amparai-me! Jesus, guardai-me! Jesus salvai a minh'alma das penas eternasl Amem, Depois benzeu-se, debruçou-se p'ra me dar um beijo, e salvando por cima de mim, num pulo estava fóra do leito, 21 de fevereiro. Quando saí, foi meu primeiro cuidado ir a um Cãbeleireiro lavar a cabeça. Estranhei a rua... O lindo Sol que fazia, alfinetava-me os olhos. Tinha um peso de chumbo no peito, a testa a escaldar, congestivas

pulsações: no cerebelo, o artelho dorído, os lombos derreados. E costeava rapido a rua, numa vergonha de ser visto, como se toda a gente soletrasse na minha fatigada expressão a lutulenta noite que passára, o insueto aguaçal em que eu, tantas horas de seguida, folgadamente prostituíra o meu corpo e emporcalhára, a minha alma. [ No cabeleireiro, não faltaram comentarios trocistas à minha serodia operação; os fregueses, olhando-me de inteligencia, acotovelavam-se; o frascario que me serviu, chamou-me « um pandego de estalo » e aventurando suas graças e biscates, numa contiança que me vexava, epilogou: — Não, p'ra v. ex, vir limpar-se só hoje, à quinta-feira, é que toda a quarta esteve, ou muito entretido... ou muito incomodado Um leve sorriso de desdem foi toda a minha resposta. Estava tão arredado, tão longe de tudo aquilo!... Pronto e limpo, segui pela praça do Principe Real adiante, no fito de ir dar uma lecionação que tinha ali perto, à rua de S. Marçal. No entanto, era um pouco cêdo e o dia estava um incanto,,. Senteime, num banco afastado e sombrio, p'ra evitar que me descortinásse algum importuno, — e então procurei pôr ordem nas ideias, encarar bem de frente, analisar, medir esse parentesis imundo e ardente que acabava de abrir-se na pautada ordenação da minha vida. Quem era a misteriosa criatura da rua do Norte? Que casta de mulher era essa, perturbadora, infernal, que tão de escalada me povôára o coração, e já tão despoticamente me influia na vontade? — Ignorava,..., Nem sequer o nome lhe sabia! Em tantas horas “de íntimo abandono, de contubernal frequencia, de

amoroso e estreito convívio, nem um segundo de curiosidade, de investigação, os sentidos em extase deixaram ao meu espirito, para que eu indagásse ao menos as linhas geraes da biografia, de certo pitoresca e irregular, da minha amante. E teria sido tão natural Pois nada disso fizéra... O prazer traz despreocupação; é o cêvo animal o mais intransigente, o pior dos despotismos... De sorte que todo aquele tempo inolvidavel parecia fugir ante a galopada febril do meu desejo! todo ele fôra pouco para as inéditas revelações que essa caldeação fumegante do amor trouxera à minha carne alvoroçada, Ela, sim, — agora me recordava...— ela é que habilidosamente lançára, aqui, ali, interrogações... e a poder de solertes manejos, em certos claros da conversa, por meio de arteiras intercadencias no dialogo, conseguira que eu muito simples e naturalmente- lhe confiásse fartos detalhes da minha vida. E com que comovido interesse, com que contemplativa e meiga atenção ela os colhia Como a porcelana azul dos seus olhos fosforava, e havia emoção na sua face, e ternura nos seus labios, e na sua atitude dobrada e imovel uma carinhosa piedade internecida, quando eu lhe deblaterava as mil dificuldades da minha boémia de rapaz; o modo como aportára a Lisboa, só, sem recursos, sem protecção, sem arrimo; e o cargo que inexoravelmente me impozéra de me fazer a mim mesmo, de vir a alcançar uma grande posição, só por mercê da minha honestidade e do meu trabalho... No fim, ela ouvia-me com lagrimas... Mulheres daquela estôófa teem a lagrima facil. E eu, cego, a imaginar que partia duma vibração afectuosa o que não passava de méro simpatismo animal! A termos

que exclamei: — Oh decerto porque me amava... — E esta segurança fêz-me instintivamente erguer, Julguei-me senhor do mundo... A certeza de que era amado por uma criatura tão deliciosamente bela, trouxe neste momento à minha convicção um incanta ingenuo de vaidade. No entanto, a irregularidade do meu proceder preocupava-me. Esta imprevista ligação, esta tão fresca e já tão fundamente radicada mancebia, quando eu tinha o meu futuro prêso, atada num sério compromisso a alma, sentia bem que era uma colossal indignidade uma coisa, a poder de abjecta, revoltante, um desvario iniquo e inconfessavel... E este pensamento fazia-me remorso, afligia-me as ideias... Já esquecido da lecionação, segui pela Alegria abaixo, caminho de minha casa. Ia depressa, e o pensamento fugia-me... Buscava na automecanica do movimento escapar à responsabilidade, iludir a atenção... ah, mas o latego da consciência fustigavam-me os nervos, fazia-me galopar sempre na frente a nítida noção do meu erro, esmagadora, implacavell Na Avenida, lembras-te de que te incontrei e te falei de escape? — Por sinal que tu estranhaste, e ainda me disparáste nas costas um: « Que é isso, Mario? que bicho te mordeu?...» e já eu ia rapido e longe internado pela rua das Pretas. Não queria que me incarásses,.. de puro mêdo que lêsses o meu segredo, que na vergonhosa desordem do meu rosto soletrásses a taboleta da minha infamia, Em casa, pareceu-me tudo acanhado, pequeno, réles: as casas sem ar, os tetos em cima da gente, os moveis sem conforto. Como o meu companheiro ti-.

II — Q LIVRO DE ALDA BE vésse saído, não me pude ter que não desarvorásse tambem, breves minutos passados. Fui jantar à Baixa; e, comendo, pensei: — Precisava de ir a Buenos-Aires... Desde terça-feira sem a vêr! que haviam de imaginar?... Ela havia de estar em cuidado... — Mas o que me falecia era a coragem Não me sentia digno, capaz de transpor os umbraes daquela estancia de paz e de virtude... Ia faltar-me a serenidade. Traír-me-ia, por força.,. Levar essa bostelosa mascara de lama dos meus ultimos dois dias áquele sacrario resplendente e imaculado, era de seguro um sacrilegio. — Ainda se já tivésse mediado mais tempo... as horas tudo acomodam, tudo aplanam. Mas eis exactamente o que não podia ser era urgente, fatal, inadiavel que eu a procurásse, que ela me visse “aquela noite ainda. E se eu tivésso meio de a incontrar numa parte que não fôsse a casa dela? Num teatro, numa recepção amiga qualquer, onde houvésse mais gente, onde a dispersão da atenção permitisse ao meu acobarda“mento moral um certo desafogo?... Mas aonde? porque modo?.,.. Fôsse lá saber... Só um acaso... E de repente, quando pagava a conta do jantar, sacudiu-me um relampago de perenal satisfação. Tinha achado! — As Salgados recebiam, como sabes, às quintas-feiras; em casa delas é que eu travára conhe cimento com a minha noiva; e aquele dia era justamente quinta-feira. — Ótima coisa Assim, pouco depois das 8 da noite, e contando antecipadamente com a certeza da realização do meu desejo, puxava eu o cordão da campainha daqueie modesto 2.º andar da rua da Procissão, Impagaveis estas Salgados! Mãe e filha, "Tipos

completissimos da impostura que tomou chá em pequena. Grande prosapia. Vinham direitinhas de Egas Moniz, — diziam. Tendo vivido na primeira roda, frequentado os melhores salões e pompeado rocagantes- opulencias, antes que a mãe enviuvára, não se resignavam de modo nenhum a abdicar, a arrastar agora numa decadencia patente a grandeza e lustre do bom viver antigo. Por isso o seu interior era a estereotipica expressão -da vida ostentosamente falsa da mediania lisboeta. Cada estofo custoso, cada movel restaurado, cada fenda do mogno, cada esbeiçamento das alcatifas mofavam, sem rebuço, dessa pretensa mentira das abundancias dum viver que eles conheciam nos mais intimos detalhes. Debaixo daquela farraparia elegante de soutaches, crochets e talagarças, com que discretamente as mascaravam as suas donas, as sêdas esfiampadas e destintas riam zombeteiramente, lavravam mudos mas irrefragaveis protestos em abono duma irremediavel pelintrice, contra as mentirosas pretensões duma ora impossivel grandeza. Mais desadornada e simples, aquela casa seria um incanto; assim atramochada de coisas velhas, gastas, era mais do que grotesca, — infundia piedade. Ali tudo estava fóra do seu logar, tudo era impropria e antiteticamente aproveitado, no atabalhoamento do disfarce, no inalteravel cuidado de doirar as falhas duma existencia facticia e vaidosa. — Gavetões cheios de vestidos, baús vasios de roupa branca; duzias de assentos estofados na sala, na cosinha um unico mocho de pinho da terra; uns ricos reposteiros de damasco de sêda carmezim, na sala de visitas, suspensos por grossas argolas de madeira, de travessas cilin

dricas envernizadas, só proprias de casa de jantar; mais pares de botinas que de guardanapos, mais espartilhos do que toalhas, mais luvas do que talheres. E então que havia sempre invariavelmente, sobre o marmore da banquinha de cabeceira, uma palmatoria de vidro de bazar, com uma vela quasi inteira, e, espetado no morrão, um côto chato e irregular como um projectil servido,.. o côto da vela antecedente, espetado ali assim para se gastar até á ultima molecula, escorrendo gôrdamente uns moles pingos negros pela baça alvura da vela que o sustinha. E havia assim por toda a casa um contraste comicamente deploravel entre a miseria subjacente e a riqueza que sobrenadava, entre as privações que se acantoavam e as mirabolancias que se traziam à luz, entre o conforto e o desmazelo, entre a linha e o ridiculo, entre o luxo e a fome. A mãe era viuva dum antigo funcionario publico, homem duma probidade inconcussa e duma bondade inverosimil, o qual, como ocupásse lugar bastante rendoso, —na alfandega, suponho, — deixara bonacheiramente esperdiçar á esposa quanto quis, em superíluas ostentações de custosa elegancia, Os manes de Egas Monís não se contentavam com menos. De sorte que a D. Francisca alimentára gostosamente e à farta, durante bastos anos, a sua paixão pelo fausto, incarnára a mesma paixão na filha... e agora, depois de viuva, desbaratava toda a sua diplomacia superior de velha mulher do mundo num constante esforço de fingimento p'ra atamancar com os farrapos de outr'ora um simulacro do bom viver antigo. Gonservára as mesmas relações, o mesmo trem de vida, o mesmo ar fidalgo, a mesma negligencia, o mesmo menospreço

do dinheiro. Reduzida a um simples montepio, dava-se a pêrros na organisação da orçamentologia casoira: havia sempre de mês p'ra mês um deficit que «somava e seguia »; e toda a sua economia se cifrava nuns ridioculos ER ao sustento, de influencia insignilicante no activo domestico, de efeitos bem menta na abalada saude da filha. Esta, — a D. Dulce, -— era um novelo de cêra, Cheia, baixa, redonda, clorotica, a cabeça pequena, grosso o labio inferior, grandes olhos negros melancolicos, farto cabelo negro que lhe chegava aos calcanhares, pequenas mãos carnudas com covinhas na raiz dos dedos. Verdadeiro tipo da lisboeta moderna, com o seu curto nariz em arrebite, o seu buço incipiente, dôces olhos de veludo, a côr interessante dos anemicos, o queixo voluntarioso e provocante. Tinha 26 anos, mas podia passar por ter apenas 20. O opado da figura emprestava-lhe mocidade. Sôb aquele seu verniz inalteravel de serenidade e inocencia, cavava-se um poço sem fundo de malicia e de inveja. Odiava instintivamente todas as raparigas do seu tempo; mas sabia a primor * afogar o seu irreprimivel ciume de galanteio em ondas da mais efusiva ternura, E a assombrosa desfaçatez, o imperturbavel descaro como ela abordava os mais escabrosos assuntos, engatilhando na expressão a mais estreme ingenuidade Não raro eu a ouvia soltar, como de acaso, um dito picante, sem córar, sem hesitar, sem se trair, como ignorando-lhe “a significação, como quem dizia a coisa mais natural do mundo, a fisionomia parada sób a sua mascara de céra, inalteravel, e os grandes olhos negros inundados duma tão simples e gentil ex:

pressão, tão arteiramente sublinhando a ignorancia ea pureza, que chegava a por completo iludir os que menos a conheciam. Vinha-lhe talvêz de Egas Monis ainda, e já reduZidã à uma postiça exteriosação apenas, aquela imensa lealdade mentirosa no olhar... Arlequim travestido em Margarida; uma grande velhacaria essencial, abroquelada de inocencia. Na quinta-feira que seguiu ao Carnaval, quando eu entrei em casa da D. Francisca, rodeava a grande jardineira redonda do centro do quarto do toucador uma bem curiosa assembleia feminina. As donas da casa, ---a mãe lendo negligentemente o Ilustrado, à filha trabalhando num pano de linha crua. Uma octogenaria já mumifeita, — a D. Brites, — vivendo num mundo antigo de capitães-móres, desembargadores e morgados, hirta e lívida como um esqueleto, touca de rêde sobre o chinó, muitas joias e amuletos, é nas mãos, vestidas de mitenes e deformadas pela cachexia, duas agulhas trabalhando com dificuldade uma renda antediluviana. E a D. Adelaide, uma galhofeira e sadia quarentona, muito adiposa e rubra, cheirando a lavado, toda de preto, cabelo grisalho, luneta, o nariz sempre no ar: — gra, à seu pezar, solteira, jantáva invariavelmente por casa das amigas, e vivia Só com uma criada... surda, à quem apapariricava muito. E estava tambem a D. Isabel, uma outra senhora de preto, orçando pelos cincoenta, a tara taparrosada, oleosa, e todo enxovalhado, o ar muito doutor: — passava por ser inteligente, erá viuva dum major reformado, ensinava matematica ao filho e sempre muito atreita a constipações: e de cada vêz “Que encatarroava, disse-me a D, Dulce, era o próprio

filho quem a curava, apiicando-lhe brutas massagens aos lombos... com a tranca da cosinha. No entanto, com todo este seu ar desabusado e varonil, explicava tambem a D. Dulce, a pobre da viuva tinha um coração bem sensivel... Havia até um homem, — homem de posição!-- que a amava perdidamente, que a contemplava, horas esquecidas, de longe, POE um oculo, do alto do seu mirante, e que lhe dirigia por via dos jornaes inflamados logogritos amantes, em Ingiez, E havia ainda, falando, gesticulando muito, uma outra, a D. Emilia, casada, pequenina e magra, ictérica, a carne flacida, os olhos pardos, o cabelo sempre riçado, — artisticamente, na sua frase, — a bôca inlabiada e linear como um rasgão enorme, os dentes azues c um balito insuportavel. Era tida por letrada, ia sempre ás premiêres de D. Maria, vivia separada do marido, com uma bela mesada, morria por beijos lesbios, e tinha ataques histericos em vendo muitos homens. Mais um na sociedade: um velhote. de grande cabeleira branca, mudo, parado, cabeceando risonhos sinaes de adesão a quanto diziam aquelas senhoras. Era o marido de D. Brites. E tão passiva a sua função de comparsa no cenaculo daquela noite, que não lhe tirava o caráter acentuadamente feminino.? Entrei, saudei; e logo, chofrando como uma aresta de gêlo as amigas saudações, a chuva de frases cordeaes com que fui recebido, a D. Dulce me disse, ao dar-me a mão: — A Branca não vêm hoje! Foi-me direita a fréchada ao coração... Como! pois eu que fôra ali na intima certêza de a incontrar,

eu que tomára mesmo á rua da Procissão mais cêdo, p'ra me livrar do embaraço de entrar, estando ela já, Colhia logo à chegada e evidencia de que errára a previsão, de que ia estupida e tediosamente ali malbaratar o meu tempo; eeraa D. Dulce quem se apressava a dar-me caridosamente o desengano Oh, como eu entranhadamente a odiei, naquele momento! — Não vêm?,.. Ainda bem! — acudiu lésta a das primiêres de D. Maria, batendo as mãos e erguendo os joelhos. — Não diga isso... — reprimendou, na intenção “de me ser amavel, a D. Francisca. — Ah, isso é que digo! — insistiu D. Emilia. — Se cà tivésse a sua noiva, 0 snr. Mario era todo p'ra Cd fa — Natural... — foi o que num cantado suspiro aventurou a D. Isabel. — Emquanto que, assim, sempre nos dará um pouco de atenção... sempre lograremos hoje o seu fino convivio, e irradiarão até nós as peregrinas scintilações do seu espirito — O minhas senhoras... — calculas que me apressei a atalhar. Mas o côro aplaudia com ruido e convicção; exceto a D. Dulce, que pigarrou de despeito. O velho manequim cabeceou um aplauso; emquanto a espo$a, parando de tricotar, muito evidente e ridicula na luz do grande candieiro de petroleo, me despedia, por cima dos oculos de oiro, da papugem descalabrada e inerte dos olhos desciliados, implorativas miradas de ternura, suplicas que eram formaes solicitações ao adulterio. A D. Francisca, sem despegar do jornal, e mal er

, guendo a sua bela cabeça grisalha, ondeada em bandós, malignamente, com um piscar de olhos muito seu, observava-a. E eu ainda de pé, arreliado, perplexo, tudo era vêr se descobria um meio airoso de me safar. A D. Emilia puxou-me do frak. — Ô snr. Mario, aqui... p'r'o pé de mim! Então, resigne-se a passar uma noite aborrecida... Já leu La Débdcie? Grande bulicio, ao tempo, no conclave. Entrava meu tio Mateus Felix, juiz da Relação, cuja calva ampla e solene, ao radiar no recinto, como que emprestou luz é calor aos olhos morbidos da D. Francisca. E O carinhoso abandono, a sublinha familiar do seu comprimento! -— Conheciam-se intimamente, de longa data. Ainda do tempo de Coimbra, donde a D. Francisca era natural. Boquejava-se até que, quando ela casára, já previamente havia feito generosa oblata ao Mateus Felix das suas tenras premicias de mulher... O certo é que o retrato dele lá estava, agora ainda, naquela mesma sala, superior ao espelho, no lugar de honra, como que sendo a providencia, o sol, o deus tutelar da casa, — com o seu antigo ar triuntador e menineiro, olhos em redondilha, farta cabeleira romantica, e nada obêso, antes todo afinado e leve numa apostura cheia de apolinea graça, a que as suas insignias de capêlo acrescentavam magestade. Sempre a D. Francisca quiséra muito a este “retrato. Inseparavel dos seus olhos; como inseperavel da sua vida ficára sendo o retratado. O marido nunca, fizéra reparo; nem mesmo, naturalmente, nunca lhe deu p'ra pôr embargos a uma assiduidade que lhe Hisongeava tambem o coração, visto como haviam sido

dois, em caloiros, companheiros de casa e contemjoraneos. Assim tambem, quando o bom do homem morreu, » Seu grande amigo sobrevivente foi inexcedivel de lisvelos, atenções, carinhos para com as duas deslitosas senhoras; e agora — vês bem... — ele aí continuava primando em fazer patente ao mundo que, qem por térem mudado as circunstancias delas, haviam feito quebra os seus sentimentos. — E havia muito quem o aplaudisse, quem o admirásse... Tarufo é de todos os tempos. Já ele se sentára junto da agradavel viuva, e inlormava-se da sua saude com interesse. E ela: — que já não prestava p'ra nada Ha que tempos não saia... As pernas recusavam-se-lhe,., Estava muito orecisada de trem! A parraquêta do cabelo artistico, especie de latriaaria madame de Savigné da Baixa, importunava-me com literatices. E eu tão longe dalil... Mas a conversa generalisou-se. — Ora a pobre da D, Joana... Dizem que está mal. O medico foi lá ontem duas vêzes, — informou 4 bisbilhoteira do nariz no ar. — Se lhes parece! — comentou trocista a D. Emilia, que agora cortava papelinhos com uma tesoura. — Estar vestidinha e pronta, e inutilisar assim o vestido E que vestido, meninas!.., Vi-o na Aline, Era lindo! — Já tive um assim, aqui ha anos... — atalhou de inveja a Salgado, filha. — O meu ainda tinha rendas melhores. Foi p'ra um baile do Gandarinha, Não foi, mamã? E, a fazer de distraída, a mãe que tinha ouvido tudo 5 *

—— Que dizes tu, minha preta?... Porque esta minha filha é uma pretinha, não é? — acrescentou, voleteando mimadamente com as pontas dos dedos a face da filha aos circunstantes. E depois de ter colhido do auditorio um: — Ora! não diga isso, minha senhora! — e pedindo escusa à rosada e ampla calva do meu tio, voltou a fingir que continuava lendo o jornal, com a cabeça na mão, o antebraço ao alto e o cotovêlo apoiado na ponta da mêsa, deixando vêr o pulso redondo e eburneo, de que ela tirava grande presunção. -— Esta minha mãe sempre assim foi... amavel] como se vê! — entendeu dever dizer a filha, a fazer de amuada. J E “E a figura tutelar de meu tio: — É a mais feliz das filhas! — Tem ido a D. Maria? — perguntei eu então à D. Emilia, irritado, à vêr se punha ponto na ignobil comedia. — Ainda segunda-feira gôrda lá estive. Representou-se 0 Tio-Milhões... Ai, muito gósto — Dizem que é bonito... — observou a D. Adelaide. -— Delicioso 1... O Augusto, a Rosa, que bem! -— E mais, na primeira noite, não prometia grande carreira. — Ah, aquilo agora em D. Maria está muito afinado Está-se bem ali... Gósto muito de vêr repre. sentar os Rosas. — Eu gósto mais do Brazão, — acudiu à D. Dul. se. — Tem outra alma! — Mas não é tão fino.: -— Não é tão fino? ora essa! Então no Aléria dc A “ER pra

Villemer, por exemplo?... É até mais ERRAR Enche a cena. E que BEE que talento! — Depois, voltando- -Se para o velho bonilrate: —- De qual gosta. mais, snr. Osorio? O velho grunhiu uns monossilabos intraduziveis, emquanto a sua grande cabeleira branca oscilava no. habitual cabeceamento sorridente. =— À. proposito, — insinuou com voz muito arrastada a viuva oleosa, — a Carmo diz que deixou o marido p'ra ir viver com o visconde de santo Adrião... — Que mais lhe faz a ela viver com um, ou com outro?...-—interrogou a D. Dulce, com a tal maliciosa ingenuidade. — Ora, menina, sabes que mais! — emendou, rindo muito, a D. Emilia. == E tôla esta” minha filha... — acudiu à D. Francisca; e poisando 0 jornal: — A Carmo fêz bem! O marido sustenta duas dançarinas... -— Regateia-lhe as toilettes... — Peste! peste — atalhou com calor, parando outra vêz de tricotar, a D. Brites. — Não ha nada que desculpe uma mulher casada de faltar aos seus devêTes! —— Meu tio e a Salgado, mãe, entreolharam-se. — O marido tem fantasias?... — E encolhia os hombros. — É homem... Ai, se eu fôsse a fazer caso disso, quantas escandolas não tive do meu primeiro marido! como eu o adorava e-o que eu lhe sofri!.. — Mas, minha senhora, nem todas temos. essa filosofia... — Ou essa virtude... digo-o, sem me querer ga-. bar. Desenganem-se! não ha mulher nenhuma que tenha o seu homem seguro,

— 6 D. Brites! —acudiu a Salgado, filha, — isso é uma ofensa aqui ao snr Osorio. — O quê! — insistiu a octogenaria, com decisão, = nem por este fico, não apezar de velho. O homem da cabeleira córou e sorriu... À mulher continuava: — A tal Carmo não tem toilettes, disséram p'r'aí... Mas de que serve isso?... O luxo é que nos perde. Ai, tempos, tempos esses que não voltam! Sabem como é que eu ia vestida, da primeira vêz que me casei? —uma simples saia de foulard verde e um chale de tonkin branco... E mais o meu casamento foi de estadão, e eu tinha doze mil cruzados de renda! Os padrinhos fôram o então conde da Redinha, reposteiro-mór do snr. D. João VI, e o desembargador Teixeira, do solar de Pedras Ruivas. Não conheceu?... — interrogou para mim, num interesse que me VeXQU. Os circunstantes riram. — Ai desculpe, minha Íflôr! — emendou pressutosa a mumia, movendo já novamente as agulhas. — Quando o desembargador morreu, ha bons... Quantos anos, Osorio? Desta vêz, a melena druídica falou: — Trinta e cinco. — Ora veja ainda o snr. estava muito longe de nascer... Mas a minha questão é que nesses tempos não havia luxo, não se sofria deste desordenado turor de exibição, que eu noto agora! E havia mais Tespeito pelas coisas, e a imoralidade não era tanta... A nossa vaidade era outra. Cuidava-se muito mas era do amanho da casa, daquilo que não andava à vista... Aqui estou eu, que não tinha uma unica peça

de roupa branca, lisa: todo o meu enxoval, incluindo roupa de cama, era entremeado de renda. Pois en= tão... E hoje é ainda a mesma coisa — perorou com êniase, puxando a linha e dardejando-me de esa cônso um significativo olhar, patognomico sinal do seu amadurecido programa de sedução 4 minha pessõa. Eu aborrecia-me enormemente. — O quarto abafado e pequeno, embocetado em velhas tapeçarias, relentava deste cheiro particular de gente acumulada; o ar pesava, gôrdo e parado; o espelho rasgava na penumbra um rectangulo de ardosia; um rato roía a um canto a alcatifa; e o grande candieiro de petroleo, de pára-luz branco, posto sobre a jardineira, apenas apanhava no seu largo circulo de luz doirada e quente os nossos troncos, deixando tudo o mais na discreta indecisão da sombra. Não tinha fim a seroada. A conversa arrastava froixa, intervalada, cortada a bocejos, quando, cêr-= ca das 10 horas, entrou o Gustavo, — esse belo e flamante rapaz de cabelo em fios de ambar e olhos de safira. Pois foi um alvoroço, um espanto, um gaudio enorme naquele pequeno mundo feminino! Todas se ergueram... à D. Emilia bateu palmas, a D. Adelaide E a côr, e a D. Isabel a segurar o coração, a D. Dulce a tossicar, largando presto o serão, e a dona da casa mostrando com graça o outro pulso. Só, imovel e trabalhando sempre, a D. Brites, de olhos fitos em mim, se manteve imperturbavel. Os homens... amolavam, “— Então, isto são horas?,... — Muito gosta de sefazer desejado — Mau ]

— O minhas ricas senhoras quem vêm, não tarda...-— já arriscava, em ax de desculpa, aquela rica amostra de homem, Gulcerosamente, com o gesto numa atitude cheia de dignidade e complacencia. — Vá lá... por esta vêz, perdoado. E como ele se sentára nc sofá junto à parede, num repente todas em roda lhe fizéram circulo, voltando cadeiras, achegando almofadas, arrastando os tamborêtes. Um bloqueio sentimental em regra, decerto perigoso p'ra qualquer que fôsse mais inflamavel, ou menos precavido. Mas este, muito fino, muito sereno, cortêz mas giacial, sem afectação e ao mesmo tempo sem familiaridade, colhia numa altiva e dôce mansidão aquele holocausto ardente de vontades, parava e mantinha a distancia, num desdem olimpico e galante, todo esse cerrado vircteio de corações em febre, que a sua cabeça loira polaxisava c o seu olhar ceicste escandecia. — Que homem avisado e superior! Como eu e invejei e admirei, naquele instante! Era e é um tipo singular, uma criatura verdadoi-: ramente dominadora e feliz, este bom deste Gustavo. Com o seu ar candido e superior, a gracilidade attiva do seu porte, os seus olhos sideraes, as suas falas timidas, os seus dedos Dbisantinos e a frescura virginal da sua face penujosa, ele é o desespero dos outros homens, eo inlêvo e o incanto das mulheres. Todas o adoram... Como se não conhece preferencia, nenhuma ao seu co“ração inédito e dificil, natural é que cada uma pelide por ser a preferida, e que a vaidade propria estimule e afervore cada pequenina alma juvenil na iraiçoeira esperança de que será dela o pomo da vitória. Quando mais que Gustavo põe nas relações do seu trato mun: dano delicadêzas infinitas, e que o seu geito fugidio

II — LIVRO DE ALDA 73 e alto de actuar, de sentir, de viver formou-lhe len“da, engrandeceu-o... doirou-lhe a arcangelica e máscula figura dum atraente nimbo de misterio. — Acerado como um punhal e dôce como um queixume. A magestade dum semi-deus e mimos de sensitiva. Bathilo moderno, cerimonioso, discreto, inalteravelmen-. te candido e frio, não ha festa que o não reclame, não ha salão que o não dispute. Di-lo-ias refractario à paixão... mal parece aflorar a Vida] Tem não sei quê de imperativo e sobrenatural... como um transviado habitante de estranhos mundos. A sua mesma feição semi-divina o mantêm a distancia e a salvo do atasqueiro social. Aí nessa. pestilente vasa em que nós cutros animalmente retouçamos, ele passa breve à tlôr ec apenas roça, de desgosto e de receio, com a ponta da sua aza imaculada. — Ora tu compreendes bem que este raro poder de isenção lhe forme, melhor que todas as perfeições naturaes, um irresistivel talisman, porque lhe empresta essa luminosa tinta de ideal que alvoroça a experiencia das quarentonas e destrambelha a imaginação das raparigas. Depois, a sua relutancia produz obstinação, e é uma armadilha terrivel á sensibilidade feminina aquele seu bom sorriso eterno. — Sorriso que lhe vêm da íntima, irrecusavel convicção do seu prestigio. Porque, se bem que Gustavo renuncie a amar, nem por isso lhe repugna sentir-se amado. O perfume do incenso inebria. Saber-nos motivo de tentação é-nos duplamente agradavel: traz-nos o vanglorioso prazer da resistencia e faz-nos vibrar da emoção do perigo. Vae dahi, tu não podes imaginar o que foi aquele primeiro quarto de hora, em requebros, lisonjas, Se“duções e ferozes arremetidas à inexpugnavel compai

xão do nosso amigo. Todas à compita o queriam, faziam um barulho infernal... todas lidavam no mais comico empenho de lhe levar de assalto o desejo, de lhe conquistar marcadamete o seu jupiteriano sorriso inviolavel. A D. Dulce e a D. Emilia principalmente. Houve até um momento em que esta, como num gesto mais desabrido houvésse com a sua perna roçado a perna de Gustavo, logo envilidesceu... e erguendo-se de impeto, com os braços retêsos, os dedos abertos nas mãos em angulo, e os olhos amauroticos, suplicou à dona da casa, numa voz insalivada e pêrra: — Ai, meu Deus! se me mandásse dar uma gôta de agua... Estou tão agoniada! — Sim, filha, sim....-— acudiu maliciosamente, tangendo um timbre, a D. Francisca. E à criada, que logo apareceu: — Olhe, Gecilia, traga um copo de agua com limão e assucar, aqui p'r'a snr.? D. Emilia. Depressa! — Depois, p'ra esta, com uma inflexão que valia uma epopeia: — Não vale nada... é flato. E piscava de inteligencia o olho ao Mateus Felix. A D. Brites, essa, inteiriça e solene na sua indignação como um rude templario na sua armadura, fitoume e regougou, de fórma que eu ouvisse: -— Não teem mesmo vergonha nenhuma! E puxou de repelão a linha do carritel que dançava sobre a mêsa. Serviu o chá a Cecilia, de sapatos de salto, frisuras e um avental muito bordado; o que não a impedia "de andar, o resto da semana, invariavelmente de chinelos de liga e avental de serguilha. Ajudava-a no serviço a criadita da D. Emilia, — uma pequenina servilhêta, quente, morena, apetitosa e roliça como

um morango, uma precocidade viciosa patente nos seus modos, e os grandes olhos bistrados e fundos postos sempre na patrôõa... Viéram dôces da Confeitaria Nacional, Dôlos de gema, lacinhos, um pão de fôrma em fatias com manteiga ingleza. Meu tio tinha o seu leite. As donas da casa não tocavam nos bôlos e comiam á parte um pãosimho torrado... com manteiga de dezasseis vintens. Depois, levantada a louça e a alva toalha que fôra posta sobre o grosso pano atapetado que vestia a jardineira, a conversa continuou estirada com esforço e sem interesse. Perante a inalteravel e glacial cortezia de Gustavo, as senhoras haviam capitulado; a D. Brites guardou as agulhas na sua malêta de rotim;, e a D. Francisca procurára agora, um pouco á parte, posição mais comoda no distanceamento vago da-penumbra, e, molemente dobrada numa grande cadeira à Voltaire, para melhor e sem suspeita observar as suas visitas... dormitava. Cêrca da meia noite, dissolveu-se a assembleia. Primeiro a D. Brites com o marido; depois a D. Isabel e a D. Adelaide, fazendo ansas condizentes ao reflectido abdomen de meu tio; seguiu, com a servilhêta, a D. Emilia; e Gustavo, na defensiva, aguardando paciente aquele exodo de grotescos. — Que me esperava na Patriarcal, em cima. — Eu fiquei o ultimo, a receber ordens da D. Francisca, que me encarregava sempre de pequeninas comissões, de cada vêz que “me apanhava: um recado na mercearia, compras no retrozeiro, indagações na Fazenda, umas cartas p'r'o correio. E entretanto notei que já a filha acendêra o côto da palmatoria do quarto de dormir e apagára o grande candieiro de pára-luz de loiça

branca; e quando eu batia sobre mim a cancela da escada, ainda ouvi a mãe dizer à criada, na gosinha: =- Ouviu, Cecilia?.. Já se sabe: esse chá servo âmanhã p'r'o almoço. Quando, chegado acima, ao termo da ladeira em que a rua da Procissão entesta na da Escola Politecuica, parei uns segundos, a acender o meu cigarro, dei com meu tio, que ecguia no mesmo sentido, úcvagar, muito apoiado à bengala. — Então só, hojt?... -- interpelei, batendolhe nó ombro. — Deixou assim essas duas matronas incautas seguirem confiadas aos perfidos azares da noite? - Ora adeus não sejamos sempre tôlos... Estou pior da abafação boje... Móram longe... Não estive p'r'as aturar - Caso virgem nos anaes da sua vida! -— Ainda em cima, fazes troça! Nem elas teom nada que estranhar,.. Quando vocês. às rapazes, que gozam melhor saude e teem obrigação de ser galanteadores, não fazem o menor caso delas, que admira que 08 velhos?.«. —— Nós?... Já se não usai -— Sois um bando de egoistas -— Ou então, querem vêr?...--arrisquei eu, num abandono familiar, baixando a voz e tomandolhe do braço. — O tio não se zangue, mas diga-me... foi proibição da D. Francisca? =- "Police — logo atalhou ele, arreliado, na manifesta intenção de pôr ponto no incidente.

Ed Tambem, avistavamosao tempo Gustavo, que, encostado a uma arvore da alamêéda marginal da praca, numa atitude alheada e simples, distanceava alto «e longe o seu olhar flutuante e vago, perdido ma contemplação do luaceiro calmo do hoxisonte, das tosforencias distantes do Tejo adormecido, e do titanico rosario de humes. que como sobre um colo imperial, em miriades de caprichosas scintilações se ennastravam pelo estiraçado declive do imenso bairro da Estrela. -—- Bem... adeus — disse meu tio Mateus, mal nos viu juntos. — Espere... vamos todos, — observei. — Nada, nada não me serve... Já não sou p'ta acompanhar gente nova. Quem sabe lá onde os snrs.. -“vão...--E perante a nossa insistencia, levando.a mão ao coração e crispando dolorosamente a face: — Não estou hoje nada bem, palavra... Tomára-me em.casa. -— Acompanhâmo-lo... -— Muito obrigado não... São dois passos. E, despedido, tomou dum passo vagaroso e pesado em direcção ao Moinho de Vento. — Vaes p'ra casa, não? — pergunteu-me (iustavo, atravessando a rua. * — Vou, — respondi maquinaimente. E descemos os dois, muito acamaradados, pela Mãe-d' Agua e Alegria abaixe, norteados à Avenida. Eu ia leve, distraído... já por completo amnesiána o motivo que naquela noite me levára ás Salgados; O Gustavo, taciturno e cabisbaixo, alargando as passadas, parecia laborado e vexgado ao peso de qualquer - obsessão, muito fóra dos seus habitos, Tanto, que — interroguei:

—— Que diabo tens tu?...; — Eu?...— acudiu ele logo, num involuntario estremeção de quem desperta. — Sim? estranho-te... Vaes tão calado... — Enervado, aborrecido!... Tão cêdo não volto a esta casa! — Homem e porquê?... Tão mal te trataram! — Por isso mesmo Venho zaranza de tédio, saturado de baboseiras l... E, depois, sempre as mesmas barcaças... Já não ha meio de encontrar ali uma criatura de geito! — Que diferença te faz isso a ti?... — Ora essa! a mesma que aos mais. E como sublinhásse o meu rosto uma incredulidade piedosa e ironica, ele parou, e, com intimativa: — Não sou tão frio, tão inestetico, não! como vocês pretendem. — Simplesmente, em erotismo sou um dileitanti, em amor sou um delicado... Aplico a gulodice à sensação, e eis aí o que faz a minha superioridade! O vosso modo usual de apreciar, de gozar a mulher é uma brutalidade de glotões... é libertinagem, não é prazer. Só quando fartos, vos. daes por satisfeitos. Deus me livre! Eu gozo-as espiritualmente... — E voltando a andar, num sacão de desdem: — Mas emfim, vocês não percebem nada disto! Dize-me outra coisa... quando te casas tu? Não sei bem explicar porquê, mas a pergunta chocou-me, fez-me frio no zigoma... pareceu-me uma coisa fóra de proposito, tôla, absurda, uma contestação absolutameute descabida, colhendo-me por inteiro de surpreza. — De pronto não atinei com a resposta. Mas o Gustavo insistiu:

prá — Deve estar para breve 2... —- Logo que ultime o curso. —. Grande tolice vaes fazer! — arriscou ele com doçura. numa exortação amiga. -— Porquê!?... — Que, isto é, nota bem eu não tenho nada com a tua vida... Não temos obrigação de pensar todos do mesmo modo, — apressou-se ele a corrigir, já na solícita preocupação de me haver talvêz molestado. E com crescente animação foi dizendo: — Mas é que, na verdade, pensando bem... O casamento é das mais absurdas e colossaes asneiras que a Humanidade persiste em proteger nos seus codigos e manter nos seus costumes. Pois não é?... Acho-o contraproducente, imoral... Uma odiosa reliquia dos ominosos tempos do servilismo e da ignorancia. —: E sacudindo a caDeça, indignado: — Oh, é uma escravidão completa — P'r'a mulher?... — observei eu, com um sor“Tiso que pretendia ser velhaco e deve ter sido idiota. —- P'r'o homem! p'r'o homem principalmente 1... É a alienação do vosso afecto, o suicidio da alma, a perpetua e formal abdicação de toda a vossa vontade! -— Não é tanto assim... — Tu verás... Has-de querer saír, e não podes, porque tua mulher tem ciumes... imagina que vaes ter com outra, e não deixa. Has-de querer vestir-te, comprar artigos p'ra teu uso, ou então adquirir um livro, um objecto de arte... coisas agradaveis, uteis, imprescindiveis mesmo ao teu espirito, e não has-de poder... porque tua mulher precisa do chapéu, do vestido da estação, e estas coisas sobrelevam em importancia a todas as outras. Has-de querer tratar duma “colocação tua, duma melhoria de posição, dum nego

cio urgente, de qualquer diigencia, em suma, cuja oportunidade se perderá completamente, passado aquele dia, e não poderás egualmente... Porque tua mulher quer fazer visitas e tu tens por força que a acompanhar! E os caprichos, as exigencias do arranjo domestico, as criadas, as relações, os filhos?... É um inferno, meu Mario é uma desgraça Este punhado amargo de verdades, ditas assim no calor da improvisação pela sua voz meiga e insinuânte, à que o silencio calmo da noite acrescentava - eloquencia, abalaram-me profundamente. Vergado à evidencia e como que envergonhado, balbuciei:: — Estou comprometido... — Bem sei, filho, bem sei! —acudiu Gustavo, abraçando-me com carinho. — Desculpa-me.... Nem eu pretendo dar-te conselhos, e muito menos desviarte do caminho de todo o homem de bem! Segue O teu destino, rapaz... Podes ser muito feliz. Estavamos na rua central da Avenida, no enfiamento da rampa da Alegria com a rua das Pretas. Era ocasião de nos separarmos. Áquela hora, a grande aorta da cidade ia quasi completamente silenciosa e deserta. O pesado giro dos americanos cessára: mal a uma ou outra esquina apontava algum raro vulto de tardigrado, breve apagado nos longos panos de sombra que a luz electrica, jorrando de alto, projJectava das arvores sobre os passeios: cantava-nos no ouvido o saltado correr da agua, musicalmente prolongado num vago sussurro de trens rodando ao -Jonge; vinha, dos quintaes proximos, regalar o ambiente o aroma voluptuoso das nespereiras; e no ar calmo e diafano, de espaço a espaço, arripiando ag arvores, uma fresca viração passava. a E

Bem, então, adeus! Continuas em frente, não?... — disse, dando-me 3 mão, Gustavo, que morava na rua Ivens. Mas eu, a quem um inconfessavel desejo espicacava, eu que, bem contra o meu querer! sentia o pensamento preso e a carne acorrentada à paradisiaca espelunca da rua do Norte, entiei no dele o meu braço, e, dando frente à Avenida é descendo: — Já agora... interessa-me a tua teoria. Acompanho-te mais adiante... — E logo, simulando grande interesse e no proposito de cortar o incidente em “que vinhamos enredados: — Muito estimava que me explicasses... Tu és uma criatura admiravel Como “demonio te arranjas tu, que vaes zombando do amor, “e tens a filosofia e a dureza de coração bastantes p'ra Tesistir ao cêrco implacavel que te fazem as mais ga. “lantes raparigas? Aqui, ele parou... e num geito muito seu, plan. tado diante de mim, firme, direito, disse batendo-me ho ombro, com suas falas dôces e flutuando-lhe nos labios um arcangelico sorriso: — Imagina tu um apreciador de bons petiscos, “Que parcimoniosamente se contentasse apenas com provar os môlhos, sem tocar nas grandes peças culi. harias; que humedecêsse, rasos do licôr, os labios sem beber; que se limitásse a fitar, sem se sentar; ela, a mêsa mais bem servida... Um Epicuro intele. cual, um sibarita inteligente... Has-de concordal “que esta admiravel continencia, embora o não satis fizésse de pronto, deveria, no entanto, afinar-lhe « gósto, subtilisar-lhe o paladar duma extrema acui dade de impressão, trazer-lhe à sensação delicadeza + frescura. — Agora abria, de evidencia, os braços, e re:

tomava a andar, e mal se ouvia o cicio da sua voz aveludada e branda: — Pois aí tens! é o meu modo 'de gozar a mulher... Demóro, mergulho nela os olhos, 'pósso tocá-la com os labios, mesmo com a lingua... “com os dentes, nunca Provo, mas não cômo... E assim, já vês, estou livre de indigestão, e como conservo o estomago leve, este estã sempre apto e ávido de apreciar as varias boas iguarias que lhe vae deparando o Acaso. — É um prazer incompleto! — Não é tal! estás enganado... — O amor tem que tomar raizes no instinto sexual. — Embora! Ouve. Eu quando vou a um baile, não penses que me ratráio e reduzo a uma passiva condição de manequim o exercicio da minha sensibilidade. Pelo contrario, em parte nenhuma a mantenho tão esperta e tão viva Aprecio tambem e gózo, como vós. A diferença está em que, nesta especie de priaprismo mental, eu estimulo de preferencia a imaginação, sem dar grande pasto aos sentidos. — A vista dum braço fino e redondo, dum colo bem cheio e bem branço, e à força de branço, luminoso, são para o meu olhar incantado uma cariciosa delicia; não raro me obstino a fitar e a seguir extasiado o claro-escuro de amor e de lascivia que se afôfa, tentador e calido, na rêgo de dois seios; um dôrso liso e farto aquece-me e se descortino uma nuca bem distinta e escultural, essa descoberta inquieta-me... porque na desordena.. da nuvem do seu cabelo como que vejo e surpreenda o encrespar dos proprios dedos da Quimera E logo & dona dessa nuca divinal se me afigura uma sereia.. s o meu olhar experimentado e incendido sabe enté

descer, por entre as espaduas, ao longo da sua linha dorsal, o fundo e estreito vale das electricas fascinações, das magias sensuaes, dos maleficos e nervosos amavios... Assim, de indução em indução, eu visiono-lhe os rins, a garupa, a coxa, o calcanhar, toda a sua nudez venusta e perfeita; assim consigo ter dela, sôb uma fórma subjectiva e intensa, a sensação mais completa! Gozei-a, sem lhe tocar... Sem ela saber, amei-a... Nunca me farto, é certo; mas tambem nunca sei o que seja tédio, desilusão, arrependimento; porque nenhuma dessas grosseiras repulsões, nenhum desses enfados animaes que fazem cortejo à posse, vêm deslustrar do meu perene sonho erotico o ideal enristamento, a magnifica e dominadora expansão, a ignorada e inefavel doçura! — És doido — observei eu, p'ra dizer alguma coisa. Mas ele não me atendia; e todo na febre da sua intima convicção, erguido no férvido alheamento do seu sonho, continuava sempre a parenese lustral do seu sistema, serenamente, com uma voz mansa, intervalada e tímida, que o fremito da aragem no arvoredo por vêzes anulava... e cujo vagaroso e dulcido acento dava uma bela tinta de sobrenatural aos seus conceitos, fazia um contraste incantador com as coisas ardentes que dizia. Como estavamos perto do obelisco, o grande globo Jablockofft da porta do Internacional mandava-nos, directo e rasteiro por sôb a copa das arvores, um dardo de luz aguda, — o que fazia com que a figura afusada e alta do meu amigo ganhásse em elegancia e nobrêza, afilada ein negro no brilho envernizado do passeio; emquanto, transfigurado na idealisação do pensamento, o seu 6;

olhar azul brilhava claro e límpido... não do azul, que lhe era habitual, de miosotis, esse que o povo chama «os olhos do menino Jesus », mas dum vago azul de infinito, como só raro se desenha, nas frias manhãs de inverno, e debruado de nuvemsitas de prata, nalgum diafano trecho do céu alto e distante. -— Oh, eu bem sei que tenho uma achincalhante e singular reputação... Dizem que sou castrado, impo- tente... Não faz mal! Dá-me vontade de rir... Gózo 2“ meu modo, — mais e melhor do que vocês, podes ter à certeza! Este meu vicio, se Vicio se lhe pode chamar, é tanto mais comodo e isento de risco, que tem uma feição toda interior. É onipotente, porque não dá na vista... Processo muito larga e profundamente amadurecido, não é uma incapacidade, é um calculo; não constitue um recurso, forma um sistema... Vocês achani-no ridiculo, quando ele é soberano Escapa é analise, sim... mas por isso mesmo não ha mulher nenhuma que seja capaz de se furtar à inciGencia ideal do meu desejo! — Pois que pensas tu 2... este meu olhar frio e parado por entre os fauteuils “das senhoras, ninguem lhe dá importancia, reputam-no inofensivo... e no entanto ele vae voluptuosamente passeando os colos, os braços, as espaduas... rasga os decotes, cava e mergulha nos refêgos, abstrae das roupas, desataca os espartilhos... invencivelmente esquadrinha e devassa os mais reconditos segredos... Incubo sutil e impalpavel, eu vou assim por dóses minimas saboreando, deliciosamente multiplicado ao. infinito, todo o imenso abismo de prazer que em cada mulher ondula e palpita... E ninguem se ofende, e ninguem se queixa E eu contente!... Porquê?... Porque, evidentemente, respirar cem flôres é mais

saboroso e mais nobre... do que desfolhar uma só Eu, deslumbrado, aturdido, não sabia propriamente que lhe dizer. Ele fêz pausa; e parando novamente, e agora com um belo rasgo de dicisão a vibrarlhe na voz alta e resoluta, acentuou: — O vosso modo de amar é uma brutalidade de Silenos, o meu um extase de sabio ou de asceta; eu contento-me com a contemplação, vocês querem por força o contacto... por isso, ao passo que vos vejo miseramente escabujar nas ínfimas alfurjas, a minha alta noção do amor empresta-me azas e a eterisação do meu desejo alevanta-me a defrontar com as estrêlas E sacudindo-me o braço de impeto, avançou dois passos, como se me julgásse indigno tambem de acompanhar com ele, como se me quisesse involver naquela dogmatica formula de condenação e de desprêzo. -* Estranho e singular fenomeno, paradoxal introversão se operava em mim naquele momento! Quanto mais ardidamente me expunha Gustavo o seu sistema, quanto mais intimativa e alada procurava a sua eloquencia persuadir a porção boa e nobre do meu sêr, tanto mais aspera e brutalmente, ao estimulo desse mesmo banho de ideal, os meus sentidos se revoltavam. — Como, em ultima analise, na sua maneira sutil de amar havia depravação, aconteceu que, por um natural efeito de contraste, as suas candidas e auroraes imaginativas não fizeram senão espertar na minha sensualidade, ainda delas vibrante, as bravas luxurias recentes da rua do Norte... Ao proprio embalo daquela dôce melopeia, daquela toada musical e melindrosa, a ideia de voltar a gozar os mesmos

inflamados extasis, que solapada e latente se identificára comigo, e que, ha pouco ainda, no meu coração perplexo pulsára apenas como um desejo, ganhára agora em imperio e crescêra, tornára-se uma necessidade iniludivel, fatal, absoluta! Eu já não via, não sentia, não compreendia outra coisa... Tinha de voltar por força! A ardente visionação dos magnificos prazeres passados, o crescente furor de os renovar, escandeciam-me... De sorte que esse depurador sermonario de Gustavo foi p'ra mim, em vêz duma catequese, uma tentação; em vêz dum calmante, um aperitivo. Mas ele, entusiasmado e todo entregue ao desfraldar do seu tema favorito, novamente rodára, Avenida acima, esquecido da hora, alheio á distancia... a termos que nutrido tempo passeámos os dois: ele pondo todo o prazer no desdobramento das suas predilecções essenciaes; eu levemente impaciente pela tardança, que o episodio trazia, ao que era plano assente p'ra mim, para o resto da noite. Ele ia dizendo: — O resultado é que, até ao dia de hoje, ainda não fiz cometer uma falta, ainda não abusei duma inocencia, ainda não atasquei uma virtude! Satisfaço o desejo, sem ennodoar... sem ofender, os meus sen-. tidos gozam! Assim, este meu geito de amar não entra, como o da maior parte dos homens, na classe das violencias bestiaes, das teratologias vergonhosas; antes forma um dos mais belos titulos á reabilitação da nossa especie, e uma das mais nobres e independentes funções da nossa alma. Oh, Mario! — acrescentou ele, numa exclamação de confidencia, — se te eu fôsse a contar... quantas ocasiões tenho tido de

amar, de possuir uma mulher em toda a liberdade e segurança... vê-la, senti-la ali assim, inteiramente ao meu dispôr, ávida, suplicante Nem tu acreditavas... Pois beijo-a... e pronto! — E, ante a minha incredulidade: — Dou-te a minha palavra de honra! Não pretendo mais dela... As tolêtas ficam-se rindo, fazem-me troça, lastimam-me... quando se não enFOTEROML As — Teem toda a razão — E sáe-me caro o sistema porque tenho deixado muito sobretudo em finas mãos apetitosas... Ah, mas não importa não me arrependo... O meu deSejo ficou servido e a minha consciência tranquila. — O que elas te chamam principalmente é vaidoso, soberbão... — Pudéra! Pois se não ha mulher nenhuma que -Se póssa gabar de lhe eu ter feito uma declaração! E p'ra quê? se não preciso... Limito-me a dizer a cada uma as palavras indispensaveis p'ra tornarem Junto dela a minha presença plausivel, e entretanto darem aos meus olhos o tempo de exercitar a sua transcendente missão gustativa... A imaginação faz o resto; não preciso de mais! E é esta a razão porque eu tenho todo o vasto gineceu humano ao meu dispôr... e sempre, inevitavel e impunemente, de cada vêz que eu queira, disponho um harem em cada sala que frequento e em qualquer canto do mundo improviso um serralho! — Falta-te a sultana favorita — Não tenho, nem quero!... E Deus me conserve este pensar até morrer... Porque então, nesse supremo instante libertador, eu poderei com bem legitimo desvanecimento exclamar: — Fui o mais ho

na nesto, o mais perfeito, o mais feliz dos amantes! porque mulher nenhuma sofreu por mim... De tanta soma de prazêres que nelas colhi, nenhum houve felizmente de se converter num remorso! Chegáramos novamente á praça dos Restauradores, e, quando tomávamos á rua do Principe, o Gustavo lobrigou, molemente arrimado à porta do Internacional, o manco e espectral Securas. — O diabo! o Securas... — exclamou, empurrando-me — P'r'aqui! p'r'aqui! senão temos massada até pela manhã. Ele lá estava, com efeito, numa apostura vaga de noctambulo, o olhar baixo, a espinha em ansa, O inseparavel bengalão suprindo o apoio da perna claudicante, e a mão livre renhindo na sua faina habitual de almofaçar as barbas. Tomámos pela esquerda, indo passar rentes ao Suisso, a cujas pequeninas mêsas gloriosas deglutiam saturnaes baratas de xácaras e sonetos varios guêssos onanistas literarios. Quando chegámos ao Rocio: — E por minha causa viéste cá tão longe — deplorou, fazendo alto, v meu amigo. — Não faz mal... — disse eu, — tomo agora aqui á rua da Palma. E ele, muito afectuoso, despedindo-se: — Adeus, filho! obr gado. Desculpa a massada... E, olha, não faças caso do que te eu disse... É uma caturreira só minha... E então, por amor de Deus! nem por sombras guardes na lembrança uma só das baboseiras que ha bocado te declamei ácerca do casasamento Tu estás num caso especial — acrescentou, numa intimativa de sinceridade e convicção que é.

mê deu reparo. — Branca é uma exceção... fazes muito bem! — Não é verdade que é uma criatura extraordidinaria, angelical, a minha noiva? — acudi eu, um pouco a querer convencer-me, e num acento de voz que me não parecia a minha. -— Se é! — confirmou Gustavo com calor, conservando e agitando muito a minha mão entre as dele. — Digo-te mais! e perdôa a minha franqueza... Não compreendo, p'ra perene companhia do homem, uma mulher senão assim! Eu, já agora, toda a vida tenho que ser um incorrigivel solteirão; mas se por: ventura entrásse comigo ainda a maluqueira de casar... — palavra! — não queria outra. E, arrancando com decisão, breve a sua nobre e graciosa figura se afastou, esbatendo-se ao longo do passeio. Surpreendido e parado, eu fiquei-o observando. Aquela calorosa aprovação á minha escolha faziame feliz; tinha o mais alto e lisonjeiro valor, emanada de semelhante autoridade. — Mas a fugaz impres são passou, como um relampago... e num instante eu voltava ao dominio da minha obsessão maldita. Ainda arrisquei alguns passos, como na intenção de quem ia atravessar o Rocio... não fôsse dar-lhe q démo que o Gustavo se voltásse de repente e colher. me no engano Depois, mal que uns minutos decorrêéram sobre a sua desaparição à quina da rua Nova do Carmo, eu desandei rapido pela calçada do Duque acima, passei a Trindade, S. Roque... num pulo al. cançava o Bairro-Alto. — Levava a vida toda no cerebro, as fontes batiam-me como as marrêtas duma forja, tinha um lume de brasa nas mãos, tornára-ma

imponderavel o desejo... e o congestivo orgasmo da minha obstinação fazia-me vêr rubescencias na luz do gaz, figurava-me como que iluminadas a zarcão as ruas. Na rua do Norte, a minha amante, já deitada, reprimendou com doçura: — Se aquilo eram horas 2... Vadio! Andar assim, na moina, tempos esquecidos, sem mais se lembrar dela... Boas amizades, não tinha duvida — E eu, mole duma voluptuosa embriaguez, eu com a fala tomada, o peito opresso, os dentes pêrros, e nos nervos marinhando um tremor de anciedade pelo penetrante odor di femina que de assalto me involvera, mal que abri a porta do quarto... não atinava que dizer. Avancei de salto à cama e atoguei-lhe em repetidos beijos dulcerosos as ultimas censuras... Depois, numa pressa e sempre em silencio, despi-me, deiteime... E, como de vespera, não dormi!

O Livro de Alda

Sinopse

Leia gratuitamente O Livro de Alda, romance naturalista de Abel Botelho e segundo volume da série Patologia Social. Edição Literunico em pt-BR moderno preparada a partir de fac-símile em domínio público, com teor adulto e crítico sobre degradação social, desejo e exploração.

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