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Capítulo 17 · O Livro de Alda

23 de março

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23 de março. — Que mais te hei-de dizer agora, que o teu belo co* ADS não sinta e não adivinhe já o teu instinto?. Calculas a tormentosa noite que passei... Nem ensaiei " deitar-me, porque antecipadamente sabia que não lo- graria dormir! Dormir, sim... quando o repousg

é não só o toque da salubridade fisica, mas o baromes tro regulador da alma, e na ocasião a minha:estava doente de morrer... debatia-se na mais horrivel e exasperada crise que é possivel imaginar — Pois não é assim?... Eu olhava para dentro de mim, e. reconhecia-me um assassino... mas um assassino a frio, consciente, cdioso, que não pode ter perdão... q pois bem vira eu a natureza alarmante do mal, bem conhecêra a marcha fatal das coisas, e não obstante, por cobardia de acção, por um bruto egoismo sensual, perniciosamente fôra deixando alastrar os efeitos da minha vilipendicsa conduta! Olhava para dentro de mim, e que viaeu?... O meu passado, este meu triste e negro passado, tão breve e já tão fundamente eivado de erros, vicios e perversões, que seguramente o seu cortejo infecto havia de para todo o sempre acompanhar-me como um rasto de ignominia.., havia de arrastar, arreliativo e infamante, pela mi- nha vida fóra, inviperando as mais honestas resolu- ções, por completo baldando o meu futuro. Que tinha eu pois de mais logico, mais consolador, mais digno a fazer, senão tambem eliminar-me? de-. sertar da vida de que não soubéra fazer uso?... Era o melhor. A ideia do suicidio alegrava-me, seduzia- me o desejo, luzia na minha desordem interior como uma alvorada sobre um campo de batalha... Não que eu me julgásse inferior aos outros homens, pior do que eles, — não... mas é que a minha inercia no querer, a minha inánia de vontade, a minha pacifica q brandura, acomodatícia e facil, haviam de inevita- velmente sempre, âmanhã como ontem, atraiçoar-me as melhores intenções, dar uma linha vaga ao meu A caráter, amesquinhar a poluir a minha vida... E ma 1 aa a o pio aÃ

assim não valia a pena! No duro conflito social, a tolerancia é uma capitulação, a passividade chega a ser um crime. Portanto, morrer, morrer... era 0 melhor “E isto já, o mais rapido possivel, a vêr se conseguia “ ainda obter dê Branca a explicação daquele seu ultimo gesto... se da sua misteriosa esquivança eu aclarava a mortificadora duvida! Havia momentos em que, com a cabeça pesada como chumbo, farto de cogitar e sofrer, eu especiosamente ia buscar atenuantes na irrefragavel força do destino, e queria dar-me a comoda ilusão de me torsar alheio a essa enormissima desgraça. — Era da ordem das coisas... Por efeito mesmo da sua natureza superior, a minha noiva era uma criatura antecipadamente condenada... estava-lhe imposta essa fatalidade -de condição pela sublimidade mesma da “sua essencia... — Ah, mas não! Imediatamente, num * justo e sincero arranco, vinha a consciência e abalava-me o coração, abria-me os olhos da alma... e eu tinha de então inapelavelmente confessar-me como O autor de todo o mal, o primeiro e essencial tomentador do meu proprio infortunio E aqui vinha cavalgar" me o espirito, fixava-se-me implacavelmente na retina a danada visionação desse diabolico trem fugindo à disparada... a atitude descomposta de Alda, os seus - brados de achincalho, o seu olhar impudente... ali “assim de chofre caíndo sobre a veemente acuição da " minha dor, como um escarro sobre uma chaga —: É arrogante de roda de min, sobrepondo-se à doce imaE eu queria por força arredar, apagar a infernal aparição... arrepelava a cabeça, mudava de lugar, sacudia a mão diante dos olhos... tudo debalde O amaldiçoado grupo recalcitrava sempre, casquinador, vivo,

gem de Branca, e isto com uma simultaneidade e uma UM justeza que era decerto uma profanação, com uma dura insistencia que centuplicava o meu desespero E A eu, dementado, perdido, perguntava a mim mesmo onde estava? que fazia, por que esperava 2... perdia a noção real das coisas... E em volta de mim o lei- LO, a mêsa, os moveis dançavam, cambeteavam, como se eu estivésse embriagado. Então, numa insofrida ancia de libertação e de repouso, — mal apontava o dia, — abri a gavêta da comoda, arranquei do rewolwer, e dispunha-me a alcançar o eterno esquecimento colando ás fontes esse. minusculo circulo de aço, quando tu, a quem Gus-. tavo contára tudo, entraste gd inda justo ao tempo de me desviar a mão... --. Ainda não sei se te deva agradecer. Setembro 1893 a julho 1894.

O Livro de Alda

Sinopse

Leia gratuitamente O Livro de Alda, romance naturalista de Abel Botelho e segundo volume da série Patologia Social. Edição Literunico em pt-BR moderno preparada a partir de fac-símile em domínio público, com teor adulto e crítico sobre degradação social, desejo e exploração.

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