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O Livro de Alda

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O Livro de Alda

Capítulo 6 · O Livro de Alda

25 de fevereiro

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25 de fevereiro. Quando cheguei a casa, era cedo. Pouco passava das 3 horas. Ora a minha loira Afrodite da rua do Norte não jantava antes das 6, o meu companheiro de casa ainda não viéra das aulas, e 0 corpo aluía-se-me prostrado, numa quebreira, vencido das recentes comoções, exausto das noites mal passadas... de sorte que à cama chamava-me e atraífa-me, numa carinhosa volupia, num mole prenuncio de prazer irresistivel, Assim, sem mais exame, atirei-me, mesmo vestido, para cima da minha magra enxerga, e breve amadornei, quebrado, imovel, num belo sono reparador e tranquilo. Tendo eu de ordinario o sono tão leve, nem senti entrar o meu companheiro; e mais ele, como bom e solido alentejano que se presava de ser, punha sempre em todos os seus atos externos uma tal tara de pêso e de ruido... Quando me levantei, fiquei pois bem admirado de o vêr, tambem comodamente estendido sobre a sua cama, de peito ao alto e as pernas em compasso, lendo, a encher o tempo, um jornal. Reprimendou-me, todo sorna, entre afectuoso e ironico:; cha

116 PATULOGIA SOCIAL mou-me estroina, vadio, D. Juan fim-de-seculo. En“trou, ao tempo, a serviçal com o jantar. E quando eu aqui lhe declarei que ainda desta vez não jantava com ele, então é que os apódos, as chalaças, as lastimas chovéram, então é que desfechou metralhando-me de chufas, inquirições e hipoteses sem fim a sua curiosidade facil de rapaz, aziumada, é de saber, de uma pontinha de inveja... Eu porêm, que tinha pressa, fui ouvindo num inalteravel sorriso complacente o aranzel, sem replicar, emquanto me lavava e arranjava; e depois, como já na Bemposta tinham batido as 5 e meia, prometi no dia seguinte confiar-lhe a chave do misterio, e, pondo o chapéu, de salto repelei p'r'a rua. Ao chegar á porta da casita da rua do Norte, vi que saia uma mulheraça obêsa e grande, ruiva, sardenta, com certa garridice serodia no trajar, na cabeça um antigo chapéu enxovalhado de mulher mercenaria, e uma pequena caixa de madeira invernizada suspensa da mão esquerda. Perante a muda interrogação do meu olhar, a Eternidade explicou: — É a cabeleireira... a Amparo. Não conhece? De dentro, a rapariga atirou-se-me ao pescoço, numa grande chilreada de risos e beijos, agitada, viase, no proposito essencial de me aturdir, toda invencioneira e alegre. — Vestia um amplo roupão de finissimo tafetã de sêda créme, que fechava numa corola de rendas, deixando o colo e os braços nus, no intervalo das prégas raro entre-mostrando algum trecho perturbador de carne, e então que á frente lá aproavam, têsas e quentes sôb tão absoluta transparencia, as pontas de bistre dos dois seios. O seu rosto irregular e petulante saltava de prazer. Os olhos ti

* *» IH — OQ LIVRO DE ALDA 2147 nham lume. E na pequenina cabeça, impetuosa e louca, à sábia desordem do cabelo, frisado levemente, formava uma linha ornamental deliciosa, tufando farto é Grespe sobre as fontes, em dois bandós romanos, para " depois juntar-se sôb a nuca, e torcido e revolto fechar ao alto, numa grande trança redonda e fulva como um diadema, Como motásse a insistencia desgostosa do meu olhar, apressou-se a inguirir, com a voz melada: -— Gostas? — Não está feio, não... -— resmoneei. E ela, logo a seguir, rapidamente, no tom decidido e breve de quem quer saír duma situação de embaraço: — Vou hoje ao teatro! E numa cobardia instintiva, sem esperar a minha resposta, sem mesmo curar de vêr que efeito teria acendido em mim esta noticia inesperada, logo ela desandou para o seu quarto, a assentar-se diante do toucador, onde atabalhoadamente continuou nos seus preparos; emquanto, mesmo nas costas dela, eu, que à tinha seguido, me arrimára para cima do leito, mudo e pêrro da arrelia, com o olbar tôrvo e sombrio, e a tremer-me na consciência um inquieto frio de incerteza. Quando, tendo decorrido algum tempo, ela calculou se teria distanciado a borrasca, voltou-se então a mim e pondo as mãos nas costas da cadeira, e sobre elas o queixito rasc de etebo, com os olhos humidos de ternura aventurou docemente: — Que tens, amor?... Parece que não gostáste? — Não tenho vada com a tua vida, — És maul...

E já de novo ela junto de mim, afogando-me o pescoço no marmore coleante dos seus braços. passeando-me pelo rosto as mãos, o cabelo, os labios, a macieza de arminho da sua face penujosa e fresca. No entanto, eu tive ainda força para a repelir grosseiramente, e num amuo infantil: -— Bem! bem! basta de lérias... —. Infado-te 2... — Guarda esses luxos p'r'o outro! — Qual outro? — Esse com quem vaes naturalmente ao teaULD sa - — Oh, Mario cêdo começas... Com que direito me jogas uma piada assim?... — Está bem claro! — Não tenho homem nenhum, — juro-te! — Ora... — objectei com desdem, numa incredulidade esmagadora e formal.; E ela, com a mais calorosa e absoluta sinceridade, espalmando a mão sobre o peito: — P'la luz dos meus olhos Acalmou-me, alegrou-me um pouco o tom decisivo e convicto da sua jura. Trazia um cunho de verdade irresistivel. Guardei silencio um instante, e depois, pausada e afavelmente, continuei: — Mas que empenho, que furia, que têlha foi essa agora de ir de repente ao teatro 2... -— Não te pósso dizer... -— balbuciou ela, baixando os olhos e cerrando os labios num parentesis de misterio. — É singular!,.. Porque foi? dize lál...— insisti eu, com meiguice. Ela encolhia os ombros; e eu então, num repente, afagando-lhe as mãos e fitanto a, O

HA do-a nos olhos, insinuei: — Queres que te acredite?.. Não vás! — Ah, isso é que tenho de ir por força! Ante a inabalavel firmeza desta declaração, voltou a sacudir-me uma onda de colera. — Adeus! adeus! — exclamei raívoso, erguendo-me e de abalada seguindo em direcção á porta da rua. — Filho! ouve.... espera! — lamuriava ela, atraz de mim. E a Eternidade, julgando este o bom momento de intervir, saía-nos ao caminho: — Venham jantar que são horas. E o caso é que me levaram as duas, não sei bem como, pelo corredor adiante, té á sala de jantar, onde a sopa estava já nos pratos... e, sempre à fazer de contrariado, eu acomodei-me e sentei-me à mêsa, — no que realizava afinal o mais intimo e o melhor do meu desejo. A rapariga, ao sentar-se, murmurou com aspereza, numa “amorosa expressão de desafio: — E queria-se ir embora l... Ora 0 pastel Do outro lado da mesita, na minha frente, a Eternidade mirava-me com carinho: — Olhe, o menino perdoará eu intrometer-me na conversa... mas lá na minha terra costuma-se à dizer: a gente vê caras, não vê corações... e é uma palavra muito direitinha Aqui a minha senhora está, sem querer, a ralá-lo, faz-se de manto de sêda: não lhe diz o que o snr. quer saber, está mesmo quasi a tratá-lo mal... e comtudo sabe Deus o que lá vae por dentro! Ih, Jesus aquilo morre, estala por se... — confirmava ela, num gaudio enorme, agitando os

braços e na garatujada aridêz das palpebras sumindo os olhos por completo, E já voltava a aconselhar: OCH então, deixe lã... dê tempo ao tempo... Não faltará a ocasião de RE --« Capaz duma a é que ela não é! digo-lho eu... Nem eu consentia! — Juntava as mãos, ER com q rir à sumir Os olhos: — Oh, meu Dei ralhos de namorados. são aguaceiros. Que bom que éi Quantas vêzes eu, mal'o meu Carlos... Que isso lá não dou licença à mulher nenhuma o seja mais estimada do que eu lui! — E agora já a meu lado, batendo-me no ombro: — Côma, côma, snr. Mario! O que o menino tem é fraqueza. Emquanto a criada mudava os pratos, disse a minha amante, com decisão: -— Olha lá... e tu porque não vaes tambem?. — Eu!? — Sim Escusas de ficar p'r'aí assim a resmungar! Vaes vêr por teus proprios olhos. - Ficarás convencido de que a tua desconfiança e os teus zêlos não tem pés nem cabeça — Não pósso! — Eulogo vil... — exclamou ela, num arremêsso, parando de comer e int de raiva o cotovelo na mêsa. E tu compreendes que eu estava por igual desesperado... porque, demais a mais, a minha promessa ainda ha pouco feita a Branca, de ir passar a noite com ela, baldava, impossibilitava por completo a realização deste alvitre, o qual eu não podia deixar de convir ser, no fundo, muito aceitavel! E assim, numa absorvente e muda irritação, num furioso silencio de embaraço, à medida como ia comendo eu remoia men

talmente: — Era de esperar aquilo mesmo, mais dia menos dial Queria abarcar o céu com as mãos ambas... estar a bem com Deus e com o diabo. Não podia ser! Ou uma, ou outra... —m E aqui me ribombava no cerebro e me insanguentava a vista uma congestiva furia, ao lembrar-me de que irremissivelmente havia de a minha amante ir passar uma noite festiva e alegre, longe de mim, sem mim, fóra por completo da minha atenção, livre e alheia do meu cuidado Ela entretanto, meiga, insinuante, procurando abrir-me brecha na vontade: — Não vaes porque não queres porque não te importas Se calhar, é que já não gostas de mim... Depressa te fartáste!... Nem que fôsse agora algura grande sacrificio, ir ao teatro... Que demonio te custava? Pa A Eternidade tudo era sentenciosamente menear a cabeça, em grandes gestos aprobativos. — Deixe, deixe, menina... Ele vae! Chegou então a momento em que, num primeiro resvalo de transigencia, interroguei: —- Mas a que teatro vaes tu? — Ao Coliseu Novo. Tenho um camarote... o 28, — Ah, então... — observei, quasi involuntariamente.: — No camarote não tens lugar, filho, não! — acudiu ela logo, vindo de incontro ao meu pensamento. E querendo desfazer a penosa impressão que me causaram as suas palavras, como quem levava de parodia o caso, acrescentou sorrindo: — Tenho que estar eu só... Quando soubéres a razão, fártas-te de rir — Olé: —. apoiou a alcoviteira. Eu, porém, que não estava disposto a tratar a

riso o incidente, e que quanto mais nele considerava, mais o odio, a raiva, a indignação me cresciam, atalhei com desprêzo: — Ah, não ia p'ra lá, não... Descança! Só se fôsse tolo... A minha apetitosa amiguinha vibrou num estremeção de exaspero, logo reprimido; e com a mais afectuosa graça, e depois dum berve suspiro impaciente, dominando-se: — Ô meu grande chatão! Safal... Quantas vêzes queres que eu te diga que nisto não ha'mal nenhum p'ra ti?... Já vejo que custas muito a aturar! --- Melhor — resmunguei com mau modo, abalando da mêsa.? E o caso é que já me não largava a maligna tentação... um delicioso veneno inundava-me o desejo, escalava-me a vontade... e eu, —em luta com o meu proprio querer — por mais que recorrêsse a honestas sugestões, por mais empenhadamente que evocásse o meu comprimisso, não tinha já a força de furtar-me a que, de espaço a espaço, sempre depois de cada nova batida o meu pensamento, voltando á carga, se embrenhásse com ardor na insalubre cogitação de vêr... se não haveria modo de poder conciliar as coisas. A rapariga insistia sempre: —- Então, meu pequeno, meio carriço... porque não vens? que teima é essa?... A primeira coisa que te peço! -— Tenho muito que estudar... Sabes lá lt... Fiquei de ir p'ra casa de um condiscipulo meu, esta noite. — Ora, adeus estudas âmanhã... Dás-lhe uma

desculpa qualquer...-—- Eu abanava negativamente a cabeça; e ela, furiosa contra a minha obstinação:-— Ou vaes p'ra outra!? -— Não — tive eu a insigne cobardia de assegurar. — Bem i então deixa iá vw homem... A minha companhia sempre vale mais... -— Eu lá não pósso estar ao pé de ti... — Mas vaes p'ra deironte — Batia as palmas, de contente. — Bem bem vae feito?... — E como eu permanecia irresoluto: — Sempre estás um môno! Então?... Manda-se aviso ao rapaz? Porque não chegas lá, num pulo? — Não ha tempo de ir e voltar. Móra muito longe. — Os trens não se fizéram p'ra outra coisa! — E com seu delicado geito, mãos entrelaçadas sobre o meu ombro, soprou-me ao ouvido: — Tenho ali dinheiro... — Tambem tenho, obrigado... -—disse eu, vexado da oferta. — Ou, então, não! não! melhor... Faz-me isso mesmo na ida p'r'o teatro. Vaes no meu trem... vamos ambos. — Nada! que tu, se te pilhas agora na rua, não voltas! Eram horas de vestir. Por isso ela passou ao quarto do toucador e, já de luzes acêsas, mudava de traje, passeava uma ultima vêz pelo rosto a boneca do pó de arroz, compunha as olheiras, avivava os cilios, punha o chapéu, as pulseiras e procurava as luvas; emquanto eu, cá fóra, sósinho e ás escuras, passeando a todo o comprimento da salêta, procazmente média a situação, e, progressivamente obstinado e quente nc empenho de acompanhar ao teatro a minha amante, tudo era extraír do pensamento em febre claros: y

motivos de transigencia, comodas e insalubres atenuantes à infamia que me chicoteava o desejo... — Que diabo Acima de tudo, eu tinha que esclarecer bem as coisas... Inganado é que de modo nenhum --—- Traçava-me a retina um relampago de sangue, — £ isto, só indo eu mesmo... não podia deixar de ser... só vendo por meus proprios olhos! -— Aqui, numa reilexiva interrogação, num aspero rebate de dignidade, que me fazia de repente estacar, lembrava-me a promessa que fizéra a Branca... a descuidosa e santa confiança com que eia, naquele momento mesmo, me estaria esperando... o negro e imerecido desgosto que de certêza lhe iria causar a minha mentira. E esta ideia remordia-me... punha na cega obstinação do meu espirito um claro de bom-senso, um breve frio de hesitação e de incertêza. Mas logo a minha preocupação essencial voltava a senhorear-me, o malignc imperio da vontade tinha mais força, e eu, arrancando de novo no passeio, justificava e atenuava: — Ora adeus! isto afinal não lhe trazia a ela dando nenhum. Ninguem lhe ia dizer... era mais noite, menos noite... Emquanto que, p'ra mim, era indispensavel De sorte que, quando a velha proxenêta nos veio dizer que estava o trem á porta, e, tôda acêsa e petulante num diabolico sorriso, tomando-me do braço, a rapariga me levou direito à porta da escada, eu sem objecção, sem resistencia, facil e jovial, deixei-me conduzir, como quem iá praticar a coisa mais lisa e natural do mundo. Em baixo, ao acomodar-me ao canto do coupé, juntando os joelhos e conchegando com o leque a sáia, a minha amante perguntou: az Dia E? o SR SR SE PG a PO

— Aonde vamos então?... onde mora o teu amigo? — Em Buenos-Aires... Mas nós não lhe havemos de ir parar mesmo á porta... -— Decerto! pode perceber... Decsonfia. — Apeio-me cá um pedaço antes, e chego lá num salto. Tu esperas no trem... 2 POIS Sim... -— Olhe, bata p'ra Buenos-Aires! — disse eu ao cocheiro. — Pare ao meio da rua. — Depressa! — ainda a rapariga gritou, já eu batia sobre mim a portinhola. E, ao estalido sêco do pingalim, a carrejola desarvorou, a trote, em violentos sacões atirando um contra o outro os nossos dois corpos ávidos de gôzo, de amor e de ventura. Quando, tendo-me apeado a uma distancia conveniente, por forma que a minha companheira não pudésse do trem alcançar a que porta me dirigia, eu entrei em casa de Branca, devo confessar-te que me tomou de assalto um arrependimento e que a minha primeira ideia foi então ficar. E como não havia de ser assim! Imagina que os incontrei já, muito alegres e tranquilos, na sala habitual dos serões, em baixo: ela tricotando uma frioleira qualquer, a Tita juntando os panos duma grande colcha de crochet, que seria o seu presente de nupcias, e o comendador lendo os jornaes. Havia uma serenidade patriarcal no recinto, uma atmosfera familiar e carinhosa, a que a dôce temperatura ambiente acrescentava incanto, e que uma discreta e sossegada luz acentuava. Porque o grande lustre de gaz suspenso do tecto, estava apagado, e apenas, sobre a mêsa, um alto candieiro Garcel, alimenN

tado a azeite, intornava o seu frio cóne luminoso, atenuado ainda por um fino pára-luz de papel japão, sobre o pequeno. grupo reunido em tôrno. Mesmo ao lado de Branca, puxada á mêsa e esperando-me, lá estava a minha cadeira costumada; tudo ali falava, tudo pensava em mim... e até esse fino a amoravel Tejo que entrára aos saltos adiante dos meus pés, agora na antevisão de como a exemplo das anteriores, ia passar-se a noite, fôra mansamente enroscar-se ea o vão da janela. Recebêram-me no coração, —'calculas; e como eu permanecia de pé, contrafeito, irresoluto, com a sua Voz mais afavel o comendador interpelou: — Então não se senta!? — Não, comendador... — balbuciei eu, de braços longos e as palpebras descidas, muito de industria exagerando a minha situação, toda de pena e de embaraço. Ele abriu muito, de espanto, os olhos, poisando sobre o jornal a lunêta; emquanto a filha e a Tita paravam por igual as mãos, fitando-me com suspreza. E eu estão atabalhoei, o melhor que pude, comodas desculpas forjadas no momento: grande afluencia de materias a estudar de repente, para a Escola; um exame de frequencia, dali a quinze dias; e, antes, uma conferencia escrita enorme! — Tinha lições e lições por lêr... atrazára-me. Por força havia de agora recuperar o tempo perdido... — O comendador ainda me observou, na mais adoravel boa-fé, que eu, de manhã, nada disso havia dito; ao que eu logo soube responder que só depois de ter saído de lá, e indo vêr a tabela à Escola, é que vira o exame e a conferencia marcados. — Uma e outra coisa se esperava... mas

af não assim p'ra breve. Agora não havia remedio... O lente era terrivel! Custava-me infinitamente... mas decerto o cumprimento do devêr, os meus brios de estudante tinham que sobrelevar aos impulsos do coração, ainda os mais gratos, ainda os niais santos! Ia estudar com um condiscipulo, até altas horas... Que remedio — E o caso é que eu comediava a primor a minha ardilosa teia de patranhas. A frase saiame pronta, facil, natural; a inflexão era inexcedivelmente apropriada, trazia um belo tom de sinceridade e evidencia; e todo este ignobil papel eu jogava com um sangue-írio, um desplante e um comunicativo calor que a mim mesmo me espantavam, — tão pouco eles eram do meu temperamento e dos meus habitos. O comendador, triste mas crédulo, aquiescendo, baixava em silencio a cabeça e juntava os labios, limitando-se a bater com o aro da lunêta no jornal. Branca porêm enlividescêra, as feições afilaram-selhe... e via-se que a sua alma sensitiva e altaneira fazia esforços sobrehumanos para domar a angustiosa contrariedade que lhe subia do intimo... E agora vê tu como eu apreendia e anotava, na mais ingrata indiferença, esta atribulada emoção, ferida no animo celestial de Branca pelo meu traiçoeiro embuste Não me largava a ideia, a deliciosa, a tiranisante lEmbrança desse trem que ali me esperava, a dois passos... E assim eu, que, ainda havia pouco, na rua do Norte, todo me acobardára e movêra ante a imperiosa exoração da minha amante; eu que fôra todo condescendencia, mimo, atenções, fraqueza, quando posto em conÍflito com a caprichosa exigencia dessa mulher de ocaSião, puro escanzêlo do alcouce ou da rua, que não deVia merecer-me senão desprêzo; eu era o mesmo que

128 PATOLÚuÚIA SOCIAL agora assistia, esquivo, duro, impassivel, á mal reprimida luta interior dessa outra mulher rara e singular, cujo altissimo valor moral deveria infundir-me o maior dos respeitos, e a mais empolgante e efusiva ternura. — Que isto, no fim de contas, é trivial: menosca bar, desconhecer a gente o que melhor valeria preo: cupar-nos, e só dar importancia áquilo que a não merece. É toda a historia do Homem, Já porêm a cena se prolongava alêm do meu desejo; O que me fêz, adiantado um: passo, hipocritamen. te aventurar: — Por isso, se a minha querida Branca désse li. cença... — Vá, vá...-—respondeu ela logo, a tricotai outra vez, numa serenidade que era uma censura aprumando o busto e cerrando os olhos. E fêz-se na sala um silencio de gêlo. Eu ainda ar risquei: — Até ámanhã... Mas ninguem mais se moveu, ninguem me fitou, ninguem correspondeu á minha Saudação, cujo tímido acento se alongou e perdeu como no vacuo infinito dum deserto. Frisando pela hostilidade, aquelas três figuras, ha um instante ainda tão abertas e cordeaes, haviam-se ao influxo de Branca abroquelado num alheamento de desdem, numa passividade resignada e fria. Apenas, quando eu voltava costas, e estranhando o caso, o Tejo ergueu dentre a concha das mãos inlaçadas a sua bela cabeça de azeviche. E eu num salto desandei, corredor fóra, e uma erata sensação de alívio expandiu todo o meu ser, mal que me apanhei na rua. Depois, dentro do coupé, uma plenitude de felicida

II— O LIVRO DE ALD 129 ae, o grande invaidecimento interior do meu fim conseguido, furtando-me á noção do tempo, fizéram com que o transcurso dali ao Coliseu me passásse num segundo. Á porta, numa embaraçosa afluencia de trens, apeámo-mos com importancia; e dos quinhentos mil réis do comendador gastei então o primeiro dinheiro numa gorgêta que dei ao poa e na compra do meu bilhete. Havia uma grande enchente, — devo dizer-te; e, quando entrámos, já uma ecuyêre qualquer deixava a pista, onde agora as truanices dum jogral arrancavam à geral gargalhadas estridentes. Era espectaculo fino, pelos modos. Os moços do circo vestiam casatas verdes; ao fundo da rampa que dava saída aos artistas, enfileiravam belas mulheres decorativas, travestidas em bravas coruscancias de oiros e setins, cheias de camelias e enfarinhadas. E eu comecei a divisar, em quantidade, pomposas figuras conhecidas, o sindicato arrogante da evidencia, quasi tudo quanto, ao tempo, aí usufruia o facil e barato monopolio do high-life nacional. Assistiam as Magestades. E, consequente, todo esse parasitismo suntuoso e inutil que arrasta na orbita flamante da realeza, tendose dado senha, meteorava nos camarotes e estadeava pelas cadeiras seus grossos brilhos de joias e ingomados. na Do programa propriamente do espectaculo nada fixei, nada te pósso dizer ao certo... porque tu compreendes bem que, dado o alvoroço e a preocupação * que e atormentavam o animo, todo o meu espectacu

lo iria cifrar-se na exclusiva e obsidiante analise do que faria a minha amante. Assim, mal que entrei no recinto, na crua incidencia de luz que vinha da cupula monumental, profusamente iluminada, eu logo curei de arranjar um logar fronteiro ao camarote para “onde ela ia, o que realizei com dificuldade; e depois, apenas instalado aí, de binoculo sempre assestado, todo o meu cuidado, a minha atenção, toda a minha vida se resumiu em ardente e pertinazmente espionar e seguir, nas mais insignificantes modulações, nos mais minusculos detalhes, todos os movimentos, gestos e olhares de rapariga. — Pois nada vi que pudésse acender uma desconfiança, nada que fôsse base bastante a uma suspeita. Ela entrou só e só se conservou sem- pre no camarote. Finamente recortando no fundo vinolento e aveludado das paredes, o seu miudito busto moldado em branco, os tules e rendas do chapéu, as frisuras do cabelo côr de areia madura, formavam uma adoravel mancha, clara e fresca, da qual as sucessivas projecções e variantes eu não me fartava de apreender e admirar, extasiado e atento. E a nobreza, a distinção, o modo celso e senhoril como ela poisava Com que graça e que aprumo ela instintivamente afinava com as preciosas gentes que a rodeavam... Parecia que fôra embalada num grande berço heraldico, O raio da pequena! Nos primeiros momentos, com o binoculo tambem em punho diante dos olhos, procurou-me, fazendc. demoradamente o giro da plateia. Quando deu comi: go, imobilizou-a o prazer, um instante... depois Dai xou a mão, arredando naturalmente a vista, e aí é tens tu novamente incadernada no seu grande ar no bre e tranquilo. Quebrada numa desdenhosa fadiga

numa patricia indolencia, abandonada a um como que inlanguescimento de tédio, mal seguia do olhar incerto e vago as peripecias da arena; os diferentes numeros do espectaculo, e a qualidade e genero das pessõas que povôavam a sala, interessavam-na mediocremente. A termos que eu, mistificado, chegava por vêzes a duvidar se aquela criatura meticulosa e dificil seria realmente a mesma azougada e gracil rapariga que tão de esfusiote me arregoára os nervos e dementira o desejo. Apenas com mais alguma insistencia me pareceu que ela binoculava, uma, duas, muitas vêzes, um camarote distante e quasi fronteiro ao seu. A vêr “LOBO na mesma direcção enveredei o meu olhar inquieto. — Vi, no lugar de honra, uma grande dama de dôce ar dominador e olhos inteligentes, o vestido opulento de farfalhices caras, íris de agudas scintilações ardendo nos dedos, nos pulsos, no colo, nas orelhas, e entre os dois bandós grisalhos do cabelo uma rosacea de diamantes. Por detraz dela, em pé, correctamente vestida de negro, desenhava-se uma bela figura de homem, — trigueiro e alto, nariz aquilino, crespo o cabelo, suissas, — grave, sério e fino como um diplomata. Quem é que os não conhecia?.. Eram os marquezes de Aguas-Belas. — Provavelmente, alguma particularidade de toilette, a magnificente faiscação das joias, atraíram dali à minha amante mais de força a atenção. Nada mais natural... E de abalada dei mãos ao incidente, quando neie afinal estava, como mais tarde perceberás, toda. a chave do misterio. No entanto, firme na minha obstinação, conti“nuei invariavelmente seguindo sempre o caminho dos seus vihos. Para onde quer que eu a visse apontar

o pequenino binoculo de madreperola, logo no mesmo fito apontava álerte o meu olhar. Como se manobrássemos os dois de inteligencia, como se através daquele espaço imenso a mesma corrente magnetlica norteáss e a nossa atenção e polarisásse a nossa vontade. — Mas nada! nada por onde aquele demonio pecásse! Por toda essa plateia mesmo, onde mais provavel eu supunha se acoitásse qualquer pequenina traição irremissivel, nada por aí logrei vêr que sobressaltásse os meus zêlos. Muitos homens a alvejavam com avidêz. Ela não atentava em ninguem. E aí está como, repito, os varios episodios da diversão da noite me passaram quasi desapercebidos. Notei, sim, que havia duas ginastas rivaes, cujos correspondentes atractivos dividiam a sala em dois partidos, e acendiam renhidos duelos de entusiasmos, com grande proveito de suas respectivas glorias, e não menos provento e gaudio para a empreza. No intrevalo, aproveitando o movimento e confusão da gente que saía, eu ergui-me tambem e deixei o meu lugar, sem que a rapariga percebêsse. E áqui continúo eu a minha ronda de suspeição, fitando-a, espiando-a sempre, ávido, incansavel, já em diferentes alturas do anfiteatro, já na coxia da geral, do fundo dos corredores ou arrimado aos alizares das portas, todo na ancia dum motivo de ciume, querendo por força achar alimento ao meu desgosto. Agora é que era apanhá-la! agora, que ela, não me vendo, na ignorancia do ponto onde eu me achava, poderia mais facilmente ser surpreendida, por se julgar fóra da incidencia suspicaz do meu cuidado! — E, assim, fui ainda até junto da orquestra, subi ao premonoir, aventurei-me porfim ao corredor da 1.º ordem, num tremulo receio, avan

çando com precaução, com a manha sutil do caçacador, na imponderavel fixidêz do gato que vae abocanhar a prêsa. — Nada aqui tambem que me despertásse suspeitas. Ela recuára discretamente do seu lugar à frente do camarote, e a porta sempre cerrada. Quando, leve de prazer, desci, topei á porta do botequim o Securas. — Devia conhecê-la... caía do céu! — Ao invéz de o evitar, abeirei-me. Muitas festas, grande expansão... e ele atonito. E logo a perguntar-me — se eu era pela Géraldine, se pela Barenco? — Mas eu, arrastando-o, com desembaraço e prestêza pouco vulgares em mim, à porta do circo mais proxima: — Anda cá... Conheces aquela rapariga, de claro, ali defronte... na 1.º ordem? — Espera... —disse ele, munido do meu binoculo, “procurando e afirmando-se: — Qual é, dizes tu?... — Ali, no 23... — expliquei; e emquanto ele fazia o seu exame, já eu, impaciente, interrogava: — Hein 2... — Olha quem ela é!...— exclamou o incorrigivel boémio, com ar intendedor, passando-me o binoculo, e num tom em que eu vislumbrei seu tanto de compaixão e de desprêzo. — A Troixa d'ovos — Conhéces-la?... — inquirí com alvoroço. — Não conheço eu outra coisa! — Afastava-se da porta, arrastando penosamente ao longo do corredor a perna; e com certa familiaridade trocista, batendo-me no ombro: — Temos então aventura? — Não! Deu-me na vista... — atrapalhei eu, a meia voz. — Queria saber... — SÓ se pagas uma bebida E então, dahi a um instante, emquanto seguia

maquinalmente do olhar o fio de cognac que eu lhe vertia no calice, o Securas continuou: — Não tens mau gosto, não... E aquilo deve Ser Lad — Matriculada?... — aventurei, numa estudada indiferença. — Não! por ora, não, que eu saiba... Está muito longe disso! Mas em suma, p'ra lá caminha... E como este seu pessimista horóscopo descêsse sobre os meus olhos um grande véu de tristeza: — Que é isso!? Temos sentimentalidade de cor- del?... Sáes-teeme Armand Duval à ultima hora? Palerma! Por uma qualquer Manon do Bairro-Alto. é forte! E eu, a disfarçar: — Importa-me lá! — Deixa... É a sua condição natural! Desta e da toda a canalha da mesma laia. Ha uma certa or- ' dem de mulheres que não fôram feitas p'ra outra coisa... Veem ao mundo já com essa fatalidade radicada nos nervos e inscrita no destino. E, para o efeito, a Natureza dota-as então com uma certa opulencia de perfeições exteriores. Bem combinada coisa! O oficio, a obrigação do homem é simplesmente gozá-las... montar e andar... tomá-las no seu valor subalterno, retribuir-lhes o gôzo em desprêzo. Tudo o que fôr mais ou menos do que isto, é improprio, é porco Os que as exploram são infames, os que as estimam são tôlos. — E, já a contas com o segundo copo: — Não bebes? — Já vae...-—disse eu; e, estimulado e aturdido pelo picante aranzel daquele salafré com talento: — Mas que sabes tu dela, assim de mais particular PA ego

— De particular, nada sei... Aquilo é uma histericasita como tantas outras que o nosso tempo está “dando com fartura. Apareceu de repente aí assim, vinda do Norte. Foi figuranta, depois corista, na 'Trindade, na Rua dos Condes, no Avenida, onde fêz furor! Houve então uma Revista qualquer, em que ela figurava a troixa d'ovos, e que, — eu não vi! — mas - dizem que era de apetite, dentro do seu maillot e da sua trussa amarelo-tostada. Ficou-lhe a alcunha. A sua minuscula e délfica figura, a sua derrancada plastica de decadente grangeáram-lhe adeptos, puséram logo de impeto ao seu dispôr a bolsa de muito imbecile o juizo, o futuro, a vida de muito pobre diabo, acendêram bastas paixões, fôram alvo de mil loucuras. De um caixeiro sei eu, que se matou por causa dela... e um guarda-livros que, alcançado, emigrou... e um jornalista que, dementado por completo, geme hoje dolorosamente em Rilhafoles as consequencias do seu desvario. — Com efeito — Deixa... — tornou ele, bebericando. — Está no seu papel... E, pelo que vejo, governa-se! -— Mas donde a conheces tu 2... -— Sei lá nem me lembra. Aqui não me pude ter, que lhe não apertásse convulsamente o braço, e, com a voz garrotada de anciedade: — Já te puzéste n'ela? — Estás doido — Sério? sério?... — Palavra! Ha muito que não sei o que isso é... Então, depois duma pausa em que a minha vaidade, em briga acêsa com o meu retraímento, acabou

por vencer, confidenciei, com os olhos brilhantes, e achegando a minha cadeira à dele: — Pois eu, falando com franqueza... eu iá estive com ela! — Sim? — Mais do que uma vêz — Ah, seu maganão E estavas-me então a comer?... Vá lã! — acrescentou ele, bonacheiramen-. te, de copo ao ar e mirando em extase a transparencia do licôr: — Em atenção a esta rica pinguinha, relevo-te a falta de franqueza... perdôo-te a ruindade da acção pelo bem que esta merda me sabe! Mas de repente poisou o calice, e com uma funda expressão de contrariedade e receio, incarando desconfiado e fixo um individuo qualquer da muitidão anonima que compacta marulhava no botequim: — Que diabo está aquele homem a olhar p'ra mim!?... É a tal coisa! Eu segui-lhe com interesse o olhar; e como nada visse que me parecêsse justificar a sua apreensão, interroguei: — Mas quem?... Eu não vejo nada — Disfarçou, o ladrão! — murmurou com mal reprimido rancor o desgraçado. — É isto!... Estou hoje reduzido a esta triste condição... já uma pessõa não é senhor de ir a parte nenhuma! E, bracejando muito, vociferava em alta voz contra a sociedade, circumvagando de terror a vista, num giro atormentado e inquieto, e corria os dedos tremulos pela cerdosa hispidez da barba cuja viscosa e arTipiada trama os pingos de cognac, vertidos da comis

sura inerte dos labios, rociavam de abundantes e loiras camarinhas. Eu não atinava justo com a causa do pavor, daquele inopinado sobressalto, aquela indignada homilia intempestiva; e, a não querer filiar-lhe as origens num começo de patognomonia cerebral, nalguma pavorosa e inevitavel descerebração, devida ao abuso do alcool e ao excessivo esgotamento sensual da sua vida, eu não sabia verdadeiramente a que atribuir o desnorteado terror do meu amigo. No entanto, parte na caridosa ideia de lhe derivar a atenção, parte em obediencia ao proposito essencial do meu cuidado, voltei a insistir: — Ora mas não me saberes tu nada da vida, hoje, do demonio da rapariga! »-— Gostas então dela? — Adoro-a!... Nunca vi nada assim! Eu sou um inexperiente, um parvo... começo agora a vida... mas tenho de mim p'ra mim que p'ra um artista, p'ra um homem de coração, ela deve ser uma criatura irresistivel! Não achas?... Só aquela perfeição ideal, aquela delicadêza... É flexivel como um junco, e fresca e ondulante como o mar... é a sintese do prazer, a mais completa e espumante objectivação da Feliciãade sobre a Terra! E tão dada, tão afavel, tão bõôa rapariga i Depois, aquele seu todo estranho e coleante tem um não sei quê de oriental, — não é verdade?... A sua figurita miuda e galante... o cabelo, da côr do sandalo... da côr do sandalo as marmoreações sensuaes da pele... e do mesmo aroma do sandalo a fragrancia do seu corpo, a picante essencia que se evola das caçoletas de oiro que se aninham sôb os seus braços! Vi

— Pois sim... mas toma cautela, não te obrigue ela tambem ao uso do sandalo Midy... É uma analogia esta que sinceramente te não desejo! Uma rapariguita, com flôres, abeirou-se da nossa mesa. — Ô sr. Securas, compre-me um raminho. — Só se me déres um beijo... — Não! que é muito feio! E de salto desandou, com o açafatito perfumado, farandolando por entre os grupos, perdendo-se breve na distancia. Eu, que a ficára observando, murmurei: — É bem galante! — Ingana... nunca ha-de ser grande coisa! — corrigiu desdenhoso o Securas. — Ha-de ser muito trigueira de corpo... Não viste aquele pescoço?. E muito baixa de RR - E as articulações mito grossas... Ainda assim, se fôsse nos meus tempos, não me AR Recomeçára ao tempo, no circo, o destemperado hallali da orquestra, e eu A Stin A van endE ia-me a levantar. Mas o Securas atalhou: — Espera um bocado... Ela não sái por ora... descança. — Que me importa a mim! — observei de manhoSo, incolhendo os ombros. — Mau! não digas isso. - deixemo-nos de baboseiras. Estás embeiçado o mulher, acabou-se Nada mais natural... O que eu quero simplesmente, visto que E A uma crise patologica semelhante áquela de cuja cronicidade derivou esta miseravel ruina da minha vida, o que eu quero é dar-te uma lição, abrir-te os olhos...e, forte da minha experien

cia e armado com a pratica da propria ignomínia, dizerte e provar-te que isto do amor é uma léria... que não ha senão sensação aí aí onde vocês persegueim a ilusoria alquimia do sentimento... e que à primeira, a mais pura e ideal das mulheres, com todos os seus incantos, primores e seduções, não vale nem merece o infimo sacrificio ao ultimo dos homens — Mas como tu agora estás contra elas — Mulheres... — tornou ele, dolorosamente, com a pupila acêsa de rancor € aberta a grossa bôca num rictus de indignação e de remorso. — Oh, os bons tempos em que eu tinha tesão para as consolar, e alma e toleima para as sofrer! Hoje toda essa porcaria acabou... Safa!... Ha muito que não sei O que isso é... A contumácia no prazer esgotou-me; à saciedade abroquelou-me de gêlo o coração, embotou-me à vontade e inferrujou-me os nervos... Esta minha calma atual é a mascara duma resignação amarga é irremissivel! Essa desvergonha e esse cinismo que tanto escandalisam o burguez, e de que parece hoje toda, a gente querer tomar-me contas, são O invéz do meu martirio... fóram feitos de falsidade e de dor, de decepções e desinganos... marcam O derradeiro estadio na minha latibular odisseia de abjecção e de cansaço — Aqui, fêz pausa, intornou novo calice, e “pela ardente estimulação do alcool tornado mais e mais expansivo, continuou: — Ora, francamente, não vale a pena... Tudo uma sucia de coiros! No amor não ha senão egoismo. Os dois sexos são inimigos.... odeiamse. Crê nisto Vê tu nas leis, nos interesses, nos cosyumes... De sorte que, em toda essa enorme porção de ligações, legitimadas ou não, que todos 08 dias p'r'aí se fazem, não é a mulher, não, que vêm ao incontro

da nossa protecção, do nosso carinho: é a femea que se agacha, faminta do nosso coito! — Por amor de Deus Isso é uma heresia — K uma verdade! Vaés vêr... Eu comecei assim pela tua idade... Fui comido por muita quarentona viciosa, por muita viuva exaltada, colaborei em muito adulterio, desflorei muita criança! P'ra quê?... Quanto a elas, para as vêr implacavelmente rolar todas, em sucessivos rodilhões de exaspero, no abismo sem fundo e sem remedio da prostituição e da infamia! quanto a mim, para de resvalo em resvalo descer à horrorosa condição de hoje... à esta atonia irreparavel da sensibilidade e da acção, a este negro e árido scepticismo, a esta fatal plenitude de impotencia que me povôa os dias de amargura e as noites de remorso, e que, por me haver tornado inutil como um trapo, e ascoroso e vil como um bandalho, quasi que até me tira todo o direito à vida! Porque tu bem vês... de tanto que eu usei, gozei e explorei a mulher, não ha hoje particularidade do seu corpo que me póssa trazer um pouco de inédito, nem escaninho da sua sua alma capaz de me deslumbrar com um traço de misterio! E, assim, emquanto vocês, doidos e ardentes, as procuram, e fazem do seu amor o centro essen“Cial da orbita da vossa vida, eu não as pósso aturar... Achas bonito, invejavel isto?... O meu largo tirocinio erotico, a minha longa pratica dos bastidores, fabricas, ateliers, leitos de engano e prostibulos, déram-me a pósse absoluta e completa de todos os segredos da plastica feminina. Basta-me vê-las «+» Adivinho-as, dispo-as... iria fazer-te miuda e rigorosa exposição da sua euritmia, belêzas, perfeições, Tedundancias, mazelas e defeitos... reconstituo logo,

“441 flagrante e perfeita, toda a sua anatomia. Assim, por exemplo, esta tua apaixonada de agora, estou à Merss é um arenquesito com sal, um vibrião com duas boias, um esqueleto com mamas. — Não é? — Exacto! — Aí tens! — exclamou ele, num invaidecimen“to, coçando as barbas e chupando os dedos lambusados de cognac. — Sou no assunto infalível! Olha, ainda não ha muito tempo, ganhei eu a um bôlha qualquer, meu amigo, uma aposta bem singular... afiancei-lhe que uma dama, que ele muito admirava, havia de ter por força um sinal na parte interna da bimba esquerda. “E mais eu conheci-a tanto como ele, só de vista e de relance... mas pelo tipo e o arranjo das feições... certas sardas especiaes... em suma, fiz o meu diagnostico. Vae dahi... que tinha, que não tinha... Apostámos... Pois ganhei! — Mas como é que verificaram? — Do modo mais concludente e cabal! — A mulher prestou-se ao exame? — Sem duvida — É incrivel!... — exclamei eu, atonito. E logo, numa incredulidade: — Estás a fazer romance?.. — Não estou... — disse com decisão o Securas. E, com um estercorario riso e os olhos vidrentos de Juxuria, “explicou: — Convenceu-a uma das condições da aposta... QUÊ OLA (e! — Aquele que perdêsse, tinha de lhe dar um beijo lesbio... na região contestada. — Bandalhos! — exprobrei, num impeto de nausea e repulsão, cuspindo. Ele porêm, agora, segurando a luneta e arrastando

À frase num queixume, num amargurado tom contrito, continuou: -— Ora mas tu compreendes que a ciência levou-me todo o prazer. Como não constituem p'ra mim tema de novidade, atracção, incanto, sucede que ag mulheres são-me hoje todas por igual despreziveis... Não só as olho com indiferença, evito-as com tédio... Oh, tu não calculas por que preço me ficou esta minha prespicacia de velho fauno que excessivo esgotamento nervoso e mental, que enormes sacrificios à minha dignidade custou este meu saber de experiencia feito, em materia de pouca vergonha este meu dom de dupla vista!... Sem duvida que, para o alcançar, cadelei muito! gozei como ninguem... oh, mas seguramente essa galopante vertigem de prazer que me desfibrou e anulou, em anos seguidos de febre, os melhores fundamentos do meu pundonor e as radiculas essenciaes da minha vida, não soma, não vale, não atinge a pavorosa aridez moral e o miseravel derrancamento fisico da minha atual situação — Mas, que diabo ninguem dirá... — observei eu, todo ouvidos á comunicativa exposição daquele ente singular, que me despertava ao mesmo tempo nôjo e piedade, repulsão e interesse. — Estás sempre pronto a rir, a troçar, a dizer mal de toda a Sente — Tudo isso é artificial! Faço-o por uns restos de decóro. — O sarcasmo é a forma de protesto do nosso orgulho. Lusbel deu o exemplo. — Pois sim, mas em todo o caso gozáste... Ele deglutiu vagarosamente, num grande regalo voluptuoso, novo calice de cognac, e prosseguiu: —— À principio, como estava moço e rijo, eu mantinha a preceito a dignidade e a supremacia do

Sexo... procurava na mulher unica e simplesmente o prazer proprio. Despachava-me e... pronto! não queria mais saber... Mas depois, levado do meu espirito de analise e porventura tambem dum começo de cansaço, subalternisei a minha função genesica... deu-me p'ra de preferencia procurar e estimular O prazer delas... Bestial ingenuidade Queria que gostassem de mim, que me apetecêssem... que gozássem comigo... Todo o meu empenho era então, por meio de sabias manobras e demoras, desdobrando uma abominavel tactica de luxuria, conseguir que o meu contacto as dominnásse e erguesse té aos paroxismos extremos do prazer... E a enorme bagagem de desgostos, humilhações, vergonhas que esta doentia preocupação me trouxe l... amarguras, decepções, cenas violentas a toda a hora, ciumes, raivas... as noi“Les sem sono, os dias sem descanço... Faz-me arripíos lembrá-lo! -—- Deu-me uma forte palmada no ombro, aconselhando: — Ah, meu caro amigo! quando o mesmo fenomeno entrar comtigo, desconfia de ti, meu filho... põe ponto na coisa! Essa subserviencia da nossa animalidade é uma capitulação. Parece uma generosidade, e é o nosso primeiro sinal de impotencia!. Mas aqui, de acaso incarando com um dos moços do botequim, quasi deserto, rompeu, numa supita irritação de doido: — Bom agora é o demonio do galego a implicar. comigo Olhei. O pobre homem, incostado ao balcão e de guardanapo seguro no braço pendente, sonoleava. Não obstante, o meu apostemoso comensal não despegava de o fitar, com uns grandes olhos apavorados.

E num tom, ora deprimido e triste, ora agressivo € brutal, desatou lamuriando: — Olha que é bem triste esta minha situação... Não tenho casa, ocupação, familia, amigos... sou um ente perfeitamente inutil! Podiam-me deixar em paz, tratar-me com indiferença... mas não! Querem-. me mal! não ha hoje ninguem que me não tenha aversão... Perseguem-me... tu vês! —e indicava 0 criado. — Não me bastava ser um pária.... sou tambem um condenado! não se contentam em me desprezar... odeiam-me! E porquê, senhores?... que mal lhes faço eu? em que contrario, em que incomódo essa sociedade formalista e hipocrita, tão implacavel nas suas destituições como convencional nas suas glorias?... Pois haverá por ventura ente mais desgraçado, mais careador de perdão, mais digno de dó do que eu?... E comtudo, éistol... P'ra onde quer que eu me volte, nas ocasiões mais despreocupadas, ainda nos lugares votados ao prazer, mesmo nas hipoteses mais distantes duma provocação... como agora, aquele palerma!... eu não côlho senão propositos de agressão, rancores, desconfianças, não vejo em mim cravados senão olhos de hostilidade e de ameaça! Porquê?... Só se é pelo meu passado... Teem razão!... — E depois duma pausa em que, sucumbindo à evidencia e à justiça da expiação, a cabeça lhe vergára abatida e humilde sobre o peito, voltou ele á sua ideia dominante, já com o pensamento tardo e a voz progressivamente entaramelada: — O certo é que me dão caça como à um animal daninho! Cada dia sinto mais e mais espesso e estreito em tórno a mim o colête de forças da perseguição e do odio Por isso eu já não entro em cafés... raro concôrro a teatros

e passeios... quasi não vou a parte nenhuma... Ainda hei-de desaparecer de vêz! Porque, demais a mais, não vejo por toda a parte senão motivos de desgosto... Oh, por essas noites sem fim, a colossal, a interminavel ronda de desgraçadas que eu reconheço, atiradas por mim ao abismo, e que na, algida sombra hostil das ruas vagueiam... mendigas, crianças vadias... meretrizes... grilhetas do lupanar, o rebotalho, a escoria, o mau fermento da cidade... umas em avinhados torcicolos ás portas das tabernas, outras desafiando os homens com frases canalhas e gestos suplicantes, outras lamuriosamente arrastando deformidades e aleijões que fôram a fatal supuração do vicio, dum monte de trapos outras alongando algum braço descarnado e hirto, com anjinhos tiritantes no regaço... e todas fantasmaticas e horriveis como espectros, inevitaveis evocações de pesadelo, atormentadas larvas de fome e de miseria, que a mim devem a iniciação no rosario patibular do seu destino!... Não pósso! não pósso! não estou p'ra mais!... Nem já hoje eu devia ter vindo aqui... Vou-me mas é sumir de vêz! — É erguendo-se e cambaleando, com os olhos fitos novamente no criado: — Diabos te levem! Fui pagar ao balcão; não se désse o caso de a aproximação do criado exacerbar a insistente mania do meu amigo. E o caso é que a sua comovente e abjecta ladainha repercutia na minha alma com uma violencia interior de terremoto, fez-me por instantes esquecer a causa da minha estada ali, quasi me desinteressou do fim que ao circo naquela noite me levára. Á porta do botequim, ele ainda perorou, dandome a mão: — Põe os olhos em mim, rapaz... toma cuidaAQ

» do Vae lá ter co'a a mulher, visto que gostas dela... mas, vê bem! toma conta... sabe parar a tempo. — Olha que a gente começa a brincar é depois já não tem forças p'ra se desinvencilhar da infamia! A alucinação do deboche, com à continuação, agrava-se... Todo este insaciavel furor animal, base do abandalhamento do nosso ser, e cujo germen dentro em nós dormita, uma vêz excitado e desperto não sussega, não descanca, nunca se farta a carne afeiçoa-se-lhe, Os nervos acostumam-se... quanto mais alimento lhe damos, mais o monstro reclama... é uma brutalidade, um delirio!... Foi como eu, que mal saía dum bosteiro, ia logo atascar-me noutro E o resultado aqui O tens... Toma cautela

O Livro de Alda

Sinopse

Leia gratuitamente O Livro de Alda, romance naturalista de Abel Botelho e segundo volume da série Patologia Social. Edição Literunico em pt-BR moderno preparada a partir de fac-símile em domínio público, com teor adulto e crítico sobre degradação social, desejo e exploração.

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