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O Livro de Alda

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O Livro de Alda

Capítulo 13 · O Livro de Alda

13 de março

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13 de março. Veio a vespera de S.!º Antonio, e claro que Alda não dispensou a obrigada romagem a esse pandemonio atroador e infecto da praça da Figueira. E eu, é de saber, com ela. Que sacrificio enorme! O alarido, o calor, os encontrões, as luzes, todo esse fumegante marulho humano, o possante resfolgar da animalidade à solta, compacto recocheteando e bramindo sôb o angulo negro das naves, numa bravejante e metalica ressonancia, tudo isto me causticava, contundia-me os nervos, punha doente a minha compleição sonhadora e delicada. Os descantes, os assobios, as prêgões, o ríspido cornamusar da garotada varriam-me o pensamento, varejavam-me o cerebro, faziam-me contraír as mãos em irreprimiveis crises de arrelia. As graças e doestos da aninoma onda da multidão com fito aos olhos de Alda, que iam espertinados e acêsos por uma forma que dava na vista, enchiam-me de zêlos. Depois, a cada passo, porque vislumbrava qualquer pessôa conhecida, eu tinha de disfarçar, tomando geitos de não ir com ela... E ali assim aturei tempo esquecido, naquela inexoravel moenda, naquela insuportavel saturnal civilisada; ali contei, mordido de impaciencia, exasperado, uma das horas mais PP atormentadas e crueis da minha vida. - De dia, tinha Alda querido ir a S.tº Antonio da Sé, aonde eu condescendi em a acompanhar tambem. Foi; e mal que entrou na garrida e banal igrejita, toda picada de lumes, apopletica de gente, sécia de damascos e flôres, ela dirigiu-se ao altar do taumaturgo, e

entre a faceira imagem do Santo e a concavidade do nicho com destreza insinuou um pequenino papel dobrado. Eu naturalmente perguntei: — Que diabo quer isso dizer?... O que é que tem esse papel?... — O meu nome e o da pessõa que eu mais estimo — respondeu a perfida, com um sorriso singular. — E p'ra nos dar felicidade... p'ra nunca nos separarmos! — Então é o meu, já se vê?... — tornei eu, ingenuamente, num estupido invaidecimento. Ela não respondeu... Antes numa grande preéssa, adiantando-se, abreviando o passo, dahi a um instante estava na rua. Depois, ainda nessa noite, fômos à casa da D. Eleuteria. Nessa e em todas, a bem dizer. Agora era para a rapariga um vicio, uma obsecação, uma coisa necessaria, inevitavel, essa quasi diaria visita ao recatado antro da rua da Emenda. Por mais que eu objectasse, uma ou outra vêz, que me fazia transtorno, que era uma vergonha, um desproposito - -. não havia meio de a dissuadir. Mal chegava, em vindo a noite, aquela hora habitual, e logo a ladina se levantava, punha o chapéu, tomava a capa e as luvas, num momento; a termos que nem bem a Eternidade havia tido tempo ainda de acender a luz para nos alumiar, e já o demonio descia veleira o primeiro lanço da escada. Quando: eu árriscava qualquer objecção, irritava-se e batia o pé, mimadamente primeiro, ainda num proposito conciliador, em mocanqueiros trejeitos de crian“ca contrariada. Depois, se eu insistia na escusa, a sua, rabugem infantil exacerbava-se, os olhos reduziam

se-lhe, como que se lhe alargavam os malares ameaçadoramente, a voz tinha silvos, as alêtas Go nariz, Dbrancas e largas, palpitavam, e todo o seu rosto tomava não sei que expressão dura e imperiosa, quasi odienta, que me fazia cismar. A guitarra ia tambem sempre comnosco. Pois se O pretexto arranjado para esta obrigada peregrinação nocturna, a mascara inocente á descarada traição contra mim planeada, era o seguimento das lições! — Que ela tinha imensa queda p'r'aquilo... toda à gente lh'o dizia... Sentia mesmo lã de dentro! Porque não havia de então dedicar-se, aprender a valer 2... Ninguem adivinha as voltas da fortuna... podia vir um dia a ser-lhe preciso. E então deixásse-a lá! Que mal havia?... Eu não tinha mais remedio, dava-me por convencido, submetia-me.... E a guitarra lá era, com mil cuidados, desprendida da grande escapula em serpentina doirada, comprada de proposito para a pendurar, e comnosco seguia dentro do seu rico saco de veludo carmezim, com borlas e cordão de sêda côr de oiro. Quando sucedia eu ter que fazer, ao chegarmos à ruà da Emenda, nem subia; deixava-a em baixo, à porta;. depois vinha, mais tarde, buscá-la. E então era certo incontrá-la ainda, ás vezes só, com o Bolacheira, no comedor, proximos os dois, polarisados e atentos no mesmó lubrico desejo, a-que os languidos acordes da guitarra formavam. cama, davam uma voluptuosa sublinha de simpatismo e esperança. Ora a verdade era que os motivos sobravam para as minhas apreensões, e todas as circunstancias pareciam hostilmente conjugadas em nutrir e confirmar os. meus receios. — O Bolacheira era um destes sa

bidos e insinuantes rufiões com exito seguro no coração das mulheres faceis, um Romeu de taboleta, um Almaviva de bordel, fazendo da sedução modo de vida, amparando a sua ociosidade na prostituição feminina, sabendo em bom dinheiro de contado colectar-o andromaniaco furor das desgraçadas. Orfão de pae e mãe, vivia em casa de duas tias velhas e tontas, que o estremeciam, permitindo-lhe todas as liberdades, tolerando-lhe desvanecidas todos os desregramentos, indo até abonar-lhe, muitas vêzes com risco de se empenharem, quantiosas parcelas de seus limitados haveêres. Mas como estes escassos recursos não bastassem à sua vida de dissipação e intemperança, por isso começava o malandrim a exercer a sua amaviosa função na propria casa, dormindo com as criadas e cardando-lhes o dinheiro. Não tinha ocupação, rumo, ambições, ideal, modo de vida... antes acidicsamente era sistema seu confiar do acaso o regimen do dia seguinte. A sua já fertil lenda amorosa dava-lhe prestígio, acrescentado por uma eloquencia natural e por este inato condão dominador, feito audacia e emoção, de suavidade e arrogancia, que faz a fortuna e a ralé de certos homens. As pensionistas da D. Eleuteria, como no fato achavam convidativa base ao garrular da sua esperta malicia essencial, dele iam procurando extrair, em materia de bisbilhotice e escandalo, a maior soma possivel de proveito. —- Era os dois aproximarem-se um do outro, ardídos, confiantes, e elas logo a fitarem-me com grandes olhos comiserativos... elas a segredarem-se facecias, casquinando risaditas ruíns e movende escarninhamente os ombros. Eu saia dali com as orelhas em braza, corrido, as dl É idCARE o A a

estonteado. Todo o caminho depois, e seguidamente em casa, resmoneava: ora mansamente, ora querendo mesmo, com energia e decisão, impôr a minha vontade. Alda porêm agastava-se, e numa gritada exaltação a cada passo interrompia-me. Num tom rasgado e veemente, que dava a ilusão de ser sincero, tudo “era então protestar a sua lisura, lealdade, isenção, O seu interesse limpo de maldade, a inocencia escampe daquele seu prazer, a firmeza inalteravel do seu amor por mim. E com o mais claro despejo epilogava: — Ora mas que séca! Se eu gostásse dele, cuidas que não tinha alma de t'o dizer? que não corria comtigo?... Alguem obriga-me? O pior era que, — a denunciar bem flagrante a falsidade da sua vibrante exoração, —- sempre na calorosa emissão de cada novo protesto o labio inferior crispava-se-lhe irreprimivelmente! A mim não me passava despercebido este sinal, de cuja diagnose a “iniludivel certeza eu aliás conhecia de sobra. No entanto, como ela continuava sendo para mim a mesma... na confiança, na efusão, no abandono, na ternura, “na sempre insaciada e saborida ancia com que procurava a calida mutuação do meu amor... eu, aplacado e indolente, por temperamento e por medo, fugia de incarar bem de frente a evidencia brutal dos fatos, o coração montava-me o cerenro, o desejo podia mais que a vontade, e ia deixando correr. Entretanto, um outro sintoma aqui rompeu, tambem, que não deixou, — este, sim! — de me abalar dum grande e pávido sobressalto... É que a exprescão dos seus olhos fugia-me de novo! Já não os int Jia, não os dominava, já outra vêz uma fria nevoa * “c insensibilidade me furtava a sua cristalina e doce 7 M

transparencia. Sim! meu amigo... o que é bom dura pouco... eu tremia, eu acobardava-me de o verificar... e todavia era bem certo que os seus dois belos olhos, claros e travêssos, haviam perdido para mim a sua afectuosa diafaneidade sorridente. Eram de porcelana outra vêz — irrequietos e doidos, banaes, pueris, absolutamente impenetraveis... Por detraz do seu esmalte de desdem, do seu azul brunido e translucido, tornava agora Alda a escapar-me nos cambiantes do seu sentir, nas modalidades do seu querer... Essa gélida e tenue placasita de azul era uma intransponivel barreira ás minhas ardentes inquirições adentro da sua alma! E emquanto implacavel me trabalhava o animo esta inquietadora e ácida suspeita, eu não tinha olhos para vêr, nem coração nem instinto para pressentir a formidavel tempestade que noutro ponto, bem mais séria e decisiva, áquele mesmo tempo tambem contra mim se desencadeava. Emquanto eu na rua do Norte me dava a pêrros e multiplicava as experiencias e afinava os carinhos, tudo no aficando empenhe de rossegar um amor que inevitavelmente ia sentindo escapulir-se-me, Branca no seu alto e virginal retiro chorava lagrimas vivas, consumida de dor tambem, minada de desespero e esmagada de vergonha -— Porque has-de saber que a D. Dulce levou-lhe inteira e patente confirmação a quantas revelações de descredito a meu respeito lhe fizéra. De tudo isto eu colhi mais tarde a pormenorisada historia. Com Telina obstinação, num virulento porfiar de inveja e despeito, curou primeiro de se informar mais por miudo, saber as minhas paragens, cursos, predilecções habituaes, as minhas quotidianas estancias de prazer e de

ride irepouso. Aliciou gente de proposito que me seguisSe, dia e noite, por toda a parte. Assim, — já vês, — foi-lhe facil... não tardou muito e estava inteira dal Em Dino dias tinha a sordida osga na mão a indecorosa chave do meu segredo. E então, mal - se sentiu munida de provas bastantes, foi-se direita a Buenos-Aires, — «mulher de palavra até'li! tudo por amizade... não podia vêr ninguem inganado!» =—e numa crueldade triunfante desenrolou, ponto “por ponto, sem recato, sem pejo, os capitulos todos do esmagador libelo, ante o confrangido, o doloroso, e indignado espanto da minha noiva. Ao ouvir, numa contrariedade tormentosa, o su“dario da ab jecta inquirição, a cada momento Branca interrompia: — Meu Deus! Cala-te!... Isso pode lá ser! — Não acreditas?... Pois tira-te dos teus cui' dados... vae tu mesma! -— Eu!?... Por caso nenhum — É a pura da verdade! E ferozmente, regaladamente, continuava. O efeito estás a vê-lo... Atingida tão brutalmentec quasi de improviso na sua desprevenida confiança, no mais mimoso recanto da sua alma, Branca teve uma crise, adoeceu. O mesmo maligno sôpro que lhe varreu de rôjo as ilusões, que lhe atirou por terra a capela divinal do seu amor, abanou-lhe de morte o or“ganismo delicado, determinando a galopante patognose de assoladores morbos latentes... O seu pri“meiro movimento fôra de nojo e repulsão contra a ao delatora. A sua dignidade absoluta revoltouSe contra a manobra vil do estratagema. Mas tam“bem depois a sua celsa virtude ergueu-se contra mim,

tomou-me em asco... tornou a minha lembrança impossivel ao seu coração e a minha imagem insofrivei aos seus olhos. Uma semana seguida levei sem lograr falar-lhe. Nem a ela, nem a ninguem da casa, a não ser o Francisco. Chegava, tocava ao portão; vinha o criado: «que a menina agradecia muito... estava melhor... e pedia desculpa, mas como estava ainda de cama, não me podia receber.» E era tudo! Apenas se, uma E has por outra vêz, o Tejo, no quintal, tentava carinhosamente arrastar-se té mim, balindo; ou nalguma das janelas do primeiro andar eu surpreendia a buliçosa cabeça da Tita mirando-me, repreensiva e triste. Branca teve realmente que guardar o leito. O medico veio, dias seguidos; receitou a codeina, O creosote, o salicilato de bismuto, o benzo-naftol, a striquinina. Mandava-lhe tomar vinho quinado. Ela porêm não fazia tratamento nenhum. Intactos, inute's, amontoavam-se-lhe tristemente os medicamentos junto á cabeceira do leito. Eu, que nem por sombras vislumbrava a origem certa do mal, porque nada sabia ainda do que se tinha passado, inquietava-me, sim, mas sem sobressalto de maior, crente como estava de que se não tratava de doença de cuidado. No entanto, apezar de toda a minha imprevidencia habitual, não só este fato em se, como os seus antecedentes proximos e as alarmantes circunstancias que o haviam precedido, eram bem de natureza a não me deixar tranquilo. — Foi quando o mais funesto dos acasos trouxe um desenlace nítido á situação, determinando para breve uma catastrofe que afogou o meu coração em remorsos, € inexoravelmente baldou para a felicidade e o sossego todas as assoalhadas aspirações da minha vida,

Imagina tu que um rico domingo de verão, crepitante, criador, — lembra-me como se fôsse hoje: “— Alda, que se levantára tardissimo, e já nem mesmo a tempo de irmos aos toiros, arreliada por não haver gozado a amenidade festiva e excecional do dia, quis tirar a desforra indo à noite à Trindade. Eu condescendi; mandei tomar um camarote. E, à sossegar u consciência, ia dizendo comigo que não havia perigo de, nessa multidão charra e anonima que ao domingo enche os teatros, eu ir deparar com gente conhecida. E então com as relaçõsos de Branca, ou com esta, ainu:: “muito menos, porque demais a mais à minha noiva, alêm de doente e ter o pae muito mal. nunca safa qu domingo. Á hora propria saímos pois, eu e Alda; fômos primeiro á rua do Oiro, para ela comprar umas luvas. E quando subiamos depois o Chiado, — meu Deus — eis que me cruzo de improviso no passeio com Branca ea Tita, que desciam apressadamente, olhando á frente, levadas, via-se, numa palpitante anciedade, impelidas nas azas dum grande e sensacional cuidado. -— Oh, meu amigo, como eu fiquei! Fugiu-me a luz dos olhos, cambaleei, pus-me frio de neve... Porque as não tinha eu descortinado de longe?... que estupido azar E agora!... Que havia de eu dizer?... Estava perdido ll... E a rapidez, a decisão com que elas iam Pareciam aílitas... Estaria o pae pior?... Talvêz até nem me tivéssem visto... tudo aquilo foi tão depressa! E o caso é que, gradualmente atenuando a importancia do incidente, já dahi a pouco o meu incorrigivel e comodo optismismo me convencia — de que realmente me não tinham visto E foi incidente fechade

para mim, e mais nele não pensei, durante toda a noite. No dia seguinte, porêm, não sei o que de grave e terrivel eu adivinhava... não me sofreu o animo delongas e ao meio dia estava em Buenos-Aires. Logo. mandado entrar, o que me pareceu de bom agoiro. Como eu andava distante da verdade! Subi para a minha tão conhecida c amada salêta do primeiro andar, contigua ao quarto de Branca, singelo e claro retiro, discreta camara de solidão e amor, onde a vida tinha perfumes e canticos, onde o tempo não contava, e adentro de cujas sossegadas paredes, duma Santa discrição de confessionario, se tinham afectuosamente cambiado az mais perturbadoras efusões da. nossa alma, o programa do nosso futuro, a visionação ardente do nosso destino. — A minha tenacidade, diligencia e bom gosto haviam-na radicalmente transformado. No teto, deslumbradoramente branco, apenas uma estreita silva oval, em oiro, ao centro, correspondendo-lhe na mesma finura e estilo os lacêtes dos cantos, entressachados de redondos amorinhos, pintados a fresco por Malhôa. Seguidamente, uma larga e sólida cornija, delineada por Leandro Braga, branca tambem, cheia de caráter, ressaltando em ovulos raiurados de oiro, como suporte ao teto rodeava toda a casa, ligando por meio de sóbrias volutas às pilastras caneladas que definíam as portas c a janela. Delicadissimamente talhados em madeira, e escaiolados a branco tambem, graciosos festões, pendendo da mesma cornija, desciam a destacar a sua curva sôlta e leve nos panos lisos da parede, forrada toda por uma preciosa sêda em riscas côr de melão e trigo maduro, salpicada de floritas magenta, crême e cór de

perola. Em torno um farto rodapé, macio, resplendente. Em baixo, do sinuosamento verde-escuro da alcatifa saltava, fino e galante, o branco eburneo e luzente daquela adoravel mobilia por mim descoberta e mandada restaurar. E, a mais, apenas um tremó semicircular, entre cujos pés, lineares e direitos, exubera"tUvamente festoava uma grande urna doirada, e cujo elançado espelho, abrangido em duas colunas corintias e erguido a toda a altura do aposento, tinha na almofada superior uma bonita policromia campestre: e na parede fronteira, ladeando a porta do quarto de Branca, dois grandes retabulos, brancos tambem, “ tiletados a oiro fôsco e fartamente boleados, um dos * quaes se opulentava com o retrato da minha noiva, pintado a oleo por Golumbano, e o outro esperava o meu. Vês que não podia haver nada de mais parcimonioso, mais delicado, mais incantador e mais puro. “Tinha o sêlo aristocratico da Arte. Era dum córte sereno e classico: alegre sem estouvamento, rico sem ostentação, suntuoso sem demasias. Todas as suas * côres eram atenuadas e mansas, como a modestia da “minha noiva; por toda a parte se evidenciava e impunha a linha recta, o simbolo da virtude, antecipado espelho e lição do que havia de vir a ser a nossa vida. Assim, penetrado da confortadora sugestão do ambiente, 3 emquanto eu esperava, breve o meu espirito descuidado e frivolo desanuviou, minhas cávidas apreensões vôaram, e eu agora sentia-me tranquilo e seguro como se indecorosas sombras não poluissem o meu passado, como se sobre o meu futuro não impendêsse, inevitavel, fatal, uma temerosa desgraça...

à como se eu fôra a pessõa mais limpa, inocente e feliz da terra j Quando Branca entrou, estranhei-a... Vinha o seu harmonioso andar ainda mais compassado e mor= “Dido que de costume. Aqueles ultimos oito dias parecia terem sido para ela oito anos! Sumiíra-se, envelhe'cêra... No rosto havia sulcos de aflição; cavados e 'mortaes, os olhos ardiam do brilho consumidor da febre; e sobre a empanada alvura do vestido as “mãos longas e emaciadas tinham mortificados tons 'de cêra. — Gomo eu lhe estendêsse naturalmente a 'mão, ela com delicadeza fêz menção de não vêr, voltando-se ao tempo, a procurar onde sentar-se; 'e deixando-se alquebrada tombar numa cadeira de braços, com um leve suspiro fatigado, logo depois atacou:; — Fio subir para lhe agradecer o beneficio enorme que'ontem, decerto involuntariamente, me presPROL S — 6 Branca! que quer dizer!?...— balbuciei eu, confundido, caíndo no pégo da realidade. — Fêz-me um grande serviço, creia!l... Pode “ufanar-se com essa triste gloria — Não, mas é que ás vêzes as circunstancias... parecem malignamente empenhadas em... Preciso explicar-lhe... — atabalhoava eu, tresnorteado, perdido, sem atinar com o que dizer. — Explicar o quê? e para quê?... atalhou ela, com superioridade. — Deixemo-nos de comedia... Seria amesquinhar-se ainda mais a meus olhos! dirminuir perante a minha alma, que se amparava na sua dignidade... perante o meu coração, que vivia da ilusão do seu amor:

— Pois se eu sobre este assunto tenho tanto, tanto! que lhe dizer... — É inutil!... Demais sabia eu tudo já... A cena de ontem não foi mais que uma tristissima confirmação a esse punhado eaustico de ignominiosas verdades, que como um jôrro de chumbo derretido me caíram na alma! Foi o começo do fim... E veio no momento oportuno... Algum resto de generosa duvida que ainda resistia dentro do meu coração, incantado e iludido, com o repulsivo incontro de hontem secou tambem Foi cruel, mas foi bom... Repito, agradeço-lhe... — Ó Branca, por amor de Deus! ponha ponto nas suas ironias... retalha-me o peito de dor e desespero! Não é só condenar-me assim sumariamente, dementada pela paixão, inconsciente instrumento duma abominavel intriga! Ha-de ouyir tambem o réu. Vae vêr como. -— Ai! não, Ro: meu digas devia conhecer-me. e dahi avaliar bem que a formosa ponte ideal que unia as nossas almas, ao embate deste humilhador desingano fracassou por completo! A derrocada foi formal, irreparavel!... Agora não haveria extremos de carinho, milagres de afecto e dedicação, efusivas epopeias de sacrificio e amor capazes de encherem esse imenso e pavoroso abismo de fingimento e de torpêza! — Fustigado em cheio pela afronta, eu estremeci. — De torpêgsa, sim... perdão! Sei que o magõo, mas é o termo proprio — Castigue-me como intender... — No entanto, fêz muito bem em aparecer. Se 0 não visse por estes dias mais proximos, eu mandava-o chamar.,, Custe-me o que custar, esta dolorosa soena

era indispensavel! Tinhamos de dizer-nos coisas amargas, decisivas, duras... Por mais que a ele quisésse esquivar-se a minha alma agreste e melindrosa, eu não podia de modo nenhum furtar-me a este violento conflito moral... que vae talvêz custar-me a vida! — Céus Branca... que diz!?2... Morrer?...: — Pois não é assim?... Que de melhor tenho eu agora a fazer... para o Sr., para mim... do que anular-me sossegadamente na terra surda e fria, com a alma cheia de perdão e não pedindo mais do que o esquecimento?,.. Ao ponto a que as coisas chega-. ram, este é o meu dever! Impõe-mo a propria dignidade; aconselha-mo a gratidão que apezar de tudo lhe devo, pelas candidas horas de consolação e prazer que me proporcionou a pia ilusão do seu afecto Bo Que mais quer?... O sr. fica livre... lastima-me, esquece-me... e é tudo Nunca mais sofrerá a vergonha, o oprobrio de seu inclassificavel proceder, nem o remorso pelo meu Sofrimento, nem a humilhação pelas suas mentiras! —- O meu Deus! meu Deus! eu estarei sonhando?...-— exclamei com veemencia, levando as mãos à cabeça em febre. O certo era que eu não me podia conformar com a realidade. Esta cena imprevista e brutal tenalhava da mais aflitiva angustia a minha alma espavorida. Nada! seguramente eu estava sendo vitima dalguma obsessão infernal, algum formidavel e sinistro pesadelo... A minha Sensibilidade, o meu amor, o meu cgoismo reagiam ferozmente contra a ameaça daquele dique de exterminio e humilhação, que viria barrar subito toda a risonha carreira do meu futuro! Nem o, meu coração poderia sujeitar-se à renuncia dessa mus,

» lher rara e superior, que me atraíra mórmente pelo enigma do seu espirito, pela admiravel biblia de castidade, nobreza e isenção que era a sua vida... Só ela podia abondar ás minhas aspirações mais intimas, porque a sua alma tinha esta nuança delicada e morbida, meio scetica, meio ingenua, ora resignada e dôce, ora desdenhosa e Íria, do nosso modo atual de sentir as coisas; só ela poderia calmar, dominar as minhas turbulentas diateses afectivas, dando-me a Tegularidade, o sossego, a moderação que bastavam ás minhas predilecções e convinham ao meu temperamento; só ela poderia realizar esse tipo superno e ideal, criado pela Igreja para exemplo e edificação das outras mulheres: a mulher esposa e mãe, mantida sempre pura de aspecto virginal, com a inalteravel candidez da sua alma desatando-se em liliaes perfumes. Perdê-la era-me impossivel... seria perder o Paraiso! Por isso eu, intimativo e dôce, dobrava numa exorativa ancia o tronco e rolava os humidos olhos afectuosos, direitos ao coração de Branca, que, sempre sentada, com o seu quebrado ar de fadiga e numa impassibilidade de santa, continuava: — O que tem de ser, meu caro, tem muita força Ente humano nenhum pode arrogar-se a pretensão de contrariar o destino! — Mas nós é que não estamos nesse caso! Não tem nada de insoluvel a situação... — Não é da minha parte obstinação ou ruindade... — atalhou Branca friamente, com uma expressão singular, — tambem não é uma birra, um capricho doentio. Oh, se o fôssel... Olhe, quer saber?... Agora mesmo, quando entrei, admirei-me da impresgão de estranheza, de desgosto... quasi repulsão

que a sua presença imediatamente me causou Não sei bem explicar... mas o que quer que fôsse de displicente e aspero me embaraçou e fêz conter a distancia, dominando a vontade, desviando os olhos... Perdõôe! mas eu tenho que dizer-lhe tudo... Pareceu-me uma pessôa estranha... Piorl— E aqui, baixando carinhosamente a voz e contra o seu querer vibrando-lhe de emoção os labios: — O sr. sabe quão dôces, longas e saboridas horas nós levámos, aqui nesta mesma sala, sós os dois, languidos, felizes, longe do mundo, cheios um do outro, na mais confiada, pura e santa intimidade... pois agora sinto quesseria impossivel renová-las! tudo isso desapareceu!... Essa sutil e homogenea essencia que se evola de dois sêéres que se amam estreitamente, essa inefavel sensação familiar que me alvoroçava o coração á sua chegada, que me permitiría, mesmo a olhos fechados, reconhecê-lo em qualquer barte, não mais do que aspírando o ar que nos involvia, tudo falhou, vôou, perdeu-se batido do vento do desengano, invenenado como que dum antecipado fartum de adulterio... Nestas condições, bem vê, que outra coisa ha a fazer senão separarmo-nos, definitiva e formalmente, pelo distanciamento ou pela morte?2... A logica dos fatos é como a dos numeros... inapelavel, fatal! Minado. como irremediavelmente se acha o alicerce á deslumbrante edificação do nosso futuro, desmarcada temeridade seria querer levar por diante essa sedutora quimera! Pretender eu, depois de tão decisiva catastrofe, continuar mantendo as coisas no pé em que estavam... dar-me a ilusão do seu, do meu amor... seria atraiçoar o meu proprio coração, a minha consciência, o meu instinto; e no que toca ás minhas re

lações comsigo, significaria isso mesmo uma indignidade Ora eu indignidades não sei praticá-las... — Quer dizer que me supõe a mim...? — Eu não disse semelhante coisa] — Mas deixou-mo subintender... O Branca, por amor de Deus! poupe-me, tenha dó de mim... Mostre-se tal qual é... Então! a ultima coisa que lhe peço... P'ra que é toda essa atormentada porfia em contrariar a grande, a incomensuravel bondade ingénita da sua alma?... Pois o meu procedimento não ha-de ter atenuantes? não se conta com a minha inexperiencia, a minha juvenil sofreguidão, à minha vida desbride, rude e solitaria?... Em toda essa brava devassidão que me assacam, não haverá que descontar tudo quanto foi efemero efeito de inofensivas leviandades de rapaz, demasias necessarias e banaes da mocidade? — Ah, perdão! perdão... mas aí é que está O engano. Não nos iludâmos... Os abominaveis atos ce licenciosidade e desordem, que vistos pelo prisma do seu desejo tão sem importancia lhe parecem, téem uma gravidade suma! não lhe derivam apenas dos nervos, sáem-lhe do caráter; não são um acidente, são um estigma; não acusam sómente o estímulo das sensações, denotam baixêza de sentimentos... E, contra esta, a minha repulsiva intransigencia deve ser bem sua conhecida!... Pensa que o caustíco por " gosto? qeu é algum destes subitos repelões da ventoinheira alma feminina que me leva a romper assim violentamente comsigo? — Oh, Branca, de modo nenhum! — '"Tomára eu ter só que absolver!... Bem sei que temos muito pecadilho, muito pequeno prazer a pel

doar áqueles à quem amâmos... Que feliz que eu era, se estivêsse nesse caso! Mas não... E o gr. mesmo.. pense bem... osr. bem o sabe! Essa sua falta de recato, esse seu jovial! bandalhismo inconsciente, os tristes episodios da sua vida dissoluta são da ordem dos que marcam indelevelmente uma. existencia, e povôam para sempre de desconfiança, tédio e receio o coração daqueles que com essa existencia contavam Não tive mais remedio, baixei esmorecido a cabeça, como um condenado. E aí nos mentivémos os dois por algum tempo num destes silencios que atam as linguas e humedecem os olhos... agudo, cruel silencio de anciedade e incerteza! Eu não atinava com uma palavra, não achava um argumento em meu adbono. Uma fraqueza voluptuosa amolecia-me o coração... E agora que já nenhuma esperança me restava, agora que me via perdido sem recurso, sentia no entanto não sei que misteriosa e pungitiva doçura em me conservar junto dela. Tambem, aparentemente aplacada e serena, Branca prosseguiu: --— Longe de mim o censurá-lo... Que ganhava eu com isso?... Nada! Embora a uma larga margem de recriminações eu tivésse direito, no entanto, em homenagem ao muito que lhe devo, aos abençoados extases de emoção e prazer com que me regalou a alma, eu não farei uso dela Nesse particular, deixo-o a contas com a sua consciência... não lhe faço uma exprobração, não me queixo, não me indigno... lastimo o nosso destino! E visto ser este um assunto que só a nós dois essencialmente interessa, entire nós dois ficará... Não o comunicarei a ninguem... nem

mesmo a meu pae! Era o que me faltava... coitado ' Eu cá o irei entretendo, conforme pudér... Porque não imagina como ele está! Pobre velho... Agravaram-se-lhe penosamente os sofrimentos... as dores quasi o não deixam, não tem sossego um instante! E então a cara opada, côr de vinagre, OS ossos parece que lhe estalam, já não tem pés... as mãos são uma chaga viva! Que horroroso e incomportavel martirio! Por causa dele é que nós ontem saímos as duas, áquela hora, aflitas, doidas... O medico veio e disse uma coisa cruel: que o desgraçado pode ainda aturar muitos mêses, um ano, naquele esfacelo de ruina, naquela lenta decomposição, naquele misero e atassalhante estado! Meu Deus quem o ha-de poder ouvir?.... Ainda o que vale é aquele bom anjo da Tita.... Que geito, que paciencia que tem! Nisto, um grande, alto e arrastado bramido de dor abalou toda a casa, estrangulado, ululante, que me fêz estremecer. — QOuve-o 12... — exclamou Branca, pondo-se de salto em pé. — Meu querido pae! — E numa desvai“ vairada consternação, lívida, de olhos ao céu e mãos postas, balbuciava aflitivamente uma oração, com os labios tremulos. Os dolorosos uivos repetiam-se, vindos do piso in- ferior, lancinantes, horriveis, ora estrugindo como rugidos, ora queixosos como lamentos, numa sinistra e cava repercussão, numa lamuriosa e quebrada ressonancia, com este estertoroso e cortante estalidar duma coisa essencial que se despedaça. E Branca sempre alanceada e as mãos juntas, como a Virgem das Dóres, numa atitude de suplica e de fé, gemendo e orando, em fio as lagrimas pelas cavadas faces sem brilho.

Emquanto eu, naturalmente de pé tambem, crucificado no desespero da minha situação, transido de terror e angustia, num religioso enlêvo contemplava aquela grande e ideal figura posta diante de mim, -— a suma integração moral do Perfeito, admiravel amparo cheio de graça á incerteza cruel da minha vida, — é que eu irremissivelmente tinha que deixar perder para sempre!... Esta ideia retalhava-me o coração, punha-me em dó de mim mesmo, fazia-me olhar as amadas coisas que me rodeavam com uma grande anciedade internecida... Lá estava, lá estava ali quasi na minha frente, branco, deserto, esse largo rectangulo destinado ao meu retrato. Parecia um vaticinio. Eu olhava-o, e a sua severa alvura tinha não sei que impassivel desdem, reflectia uma como que altiva e profética hostilidade, que me desconcertava e abatia... Então um grande e aflitivo compungimento, que derivava do meu proprio infortunio, abalou-me todo, té ao mais intimo do meu ser. Ao mesmo tempo, a minha sensibilidade avivada pelo desespero de Branca, fêz romper em mim uma impetuosa e solicita reacção de ternura, de piedade por ela, durante a quai eu cheguei mesmo a esquecer 0 impuro fundamento ao seu desespero. E em pé, mortificado e doido, com o cerebro a latejar contra as fontes gemendo um suor frio, ora imovel e prestes a ajoelhar junto dela, ora esgarabulhando veloz pelo aposento, eu desatava-me numa torrentuosa febre de exorações, em catadupas de frases como estas: — O Branca, por quem é! pelo que mais ama no mundo! reconsidere, perdôe-me... Pois não vê que com esse seu despedimento formal é como se lavrásse tambem a minha sentença de morte?... Ter eu de

RR yi a perder, ter de renunciar ao seu amor, e nestas deprimentes condições, —repare bem!—o mesmo é que obrigar-me a tomar um invencivel horror à vida Quer que eu sáia desta casa com o doloroso convencimento de que foi pela minha mão que aqui entrou a Desgraça?... Esta esmagadora ideia nunca mais se me apagará do espirito, nunca mais se me desarreigará da alma!... E que vou eu fazer? que vida vae ser a minha?... Eu podia lá conformar-me, santo Deus! — Pode ainda ser bem feliz. -— E o mundo que ha-de dizer?... -— Desprézo o mundo o bastante para semelhante interrogação me não dar o mínimo cuidado. -—— Ah, mas é que não é assim... Isso é muito bom de dizer, mas na pratica falha Todos nós temos, perante os mais, responsabilidades, ligações, devêres de que se não pode por méro capricho prescindir... -— Eu tomo o seu exemplo! Não foi isto o que o sr. fêz, em relação a nós?. — Cruel! sempre Eatalto «- Reconheço finalmente agora, abranjo, louco de terror, qual é a verdadeira natureza dos seus sentimentos por mim... —O quê!? ainda queria que fôssem melhores?... Ô Mario! isso é o cumulo do egoismo e da cegueira... Bem vê: um coração que assim lhe fala com este sincero e amargo desingano, uma mulher que, sem a mais leve mostra aparente de ressentimento, lealmente lhe expõe e justifica o mais que sobrado fundamento a suas maguas, é porque ainda o considera... ainda totalmente, —e bem contra o seu querer! — não conseguiu varrer da alma a sua lembrança bem-ques rida!

— Gomo se entende isso então?... — ataquei eu com vivacidade, procurando anciadamente tirar partido daquele começo de capitulação. — Considerame, e não me dá uma esperança? conserva em afecto a minha lembrança, e ao mesmo tempo engeita-me, despede-me?... quando a melhor caracteristica do amor é a generosidade, quando desta hora decisiva e terrivel podia muito bem datar a minha reabilitação, podiamos ambos, confiados e felizes, retomar a linda trajectoria azul do nosso comum destino? Branca ouvia-me, torturada e impaciente, sumindo cs labios, torcendo as mãos... ora media a passos nervosos o aposento, sem achar posição, como se de todos os pontos a picassem agulhas inviziveis; ora alanceada e muda se quedava, de olhos ao alto, numa confrangidora atitude de desconforto e desespero. E uma tossita cava e insistente raspava-lhe a intervalos na garganta, comendo-lhe as palavras, em cuja atropelada e sacudida emissão se denunciava o seu descomunal esforço por domar e conter a alma. — Oh, como eu o amo, apezar de tudo, Mario l... —— exclamou ela, vibrando numa crise de emoção, provocada pela sua extrema fraqueza. -- Tenho vergonha de fh'o confessar, mas é à verdade... Agora me lembra o delicioso embaraço que me prendia junto de se, embevecida, imovel, quando era das nossas primeiras entrevistas, emquanto o meu coração desatava a galopar doidamente, sem eu saber porquê... Nunca pessõôa nenhuma me tinha assim tão erata € profundamente influenciado... nem paes, parentes, amigas, o alvoroço do prazer, a compaixão pela desgraça, coisa nenhuma! ninguem! Assim como tambem nunca, — oh, como isto é desolador — nunca

eu teria compreendido que essa inefavel perturbação era verdadeiro e real amor, sem a dor cruciante e morta), sem a tumultuaria assolação que em todo o meu ser moral desencâdearam as horriveis revelações dos ultimos dias! — Mas então, visto que me ama ainda, que me perdôa... tudo tem remedio! Eu abjuro formalmente do passado, recomeço vida nova... — Ah, nãoi não! isto acabou... é fatal! tinha de ser... Acabou por duas razões: porque assim o quis a desbragada expansão dos seus desvarios, e porque dentro em pouco eu vou morrer... Verá! E ain“da é este o unico pensamento que me traz lenitivo, em meio do meu aspero e incomensuravel sofrer... Bem - vê: morrendo, deixo-o livre... presto-llhe um bom serviço; e fazer bem é uma grande e deliciosa voluptuosidade! Os sacrificios que nós fazemos pelas pessôas que amamos, são o nosso melhor titulo de orgulho, inundam-nos o coração duma embriaguez capaz de causar inveja aos proprios anjos do céu... onde eu estarei em breve — Branca! Branca! por amor de Deus... não insista nessa funebre e tresloucada ideia! — A paixão do devêr tambem tem os seus adeptos...-— confirmou ela, sem me atender, o seu fino rosto como que iluminado duma vaga luz sobrenatural, — Alucina, inebria, empolga-nos... E na tristis- Sima situação a que chegámos, eu sinto bem, — e como esta intima convicção me anima e seduz! — sinto que a minha obrigação é morrer... -— E eu morrerei tambem! — Para a minha.alma o seu amor era indispensavel; para a minha dignidade a sua condenação é irre

dutivel! Nestas condições, bem vê, que de melhor?... Escapo ao dilema, eliminando-me; resôlvo a dificuldade desertando da vida... Oh, a doença vae fazerme neste ponto a vontade — Não diga issol... — É mais que certo Ainda bem!... Pois se é osta ideia emancipadora, repito, a que ainda me ampara, a que me empresta um pouco de conformidade e resignação, em meio da irremediave! desolação de tudo quanto me rodeia! A mim agrada-me a solução... E o sr. deve sentir-se lisonjeado com ela Desalentado e aturdido, eu desatára num e alto mimado soluçar, cheio de dó de mim mesmo. Branca prosseguiu: — Pois não é assim?... Eu dar-lhe-hei esta suprema prova de amor: não devendo transigir e não podendo esquecê-lo, môrro para o deixar livre, môrro para o fazer feliz... Que melhor pretende? que mais quer -— Como eu sou desgraçado! como no fim de contas tenho de expiar perpetua e duramente simples delitos veniaes, sabidos e efemeros pecadilhos que... oh, Branca! eu só queria que, por uma derradeira vêz,. condescendêsse em mergulhar os seus olhos de inteligencia e perdão bem a dentro da minh'alma... e então, num imenso hausto de alivio e prazer, para mim, para se, verificaria, — juro-lhe! — que todas essas porcarias que me assacam não passaram de triviaes acidentes, em certo modo involuntarios, sem rasto e sem valor no subsequente correr da minha vida! Aqui a pobre criança, movida da calorosa sinceridade da minha suplica, vibrou num estremeção de

angustia, e erguendo ao ar desatinadamente os braços, exclamou: — Oh, meu Deus! meu Deus!... não poder eu, neste mesmo instante, unicamente peio esforço da minha vontade, desaparecer deste mundo... pura, tranquila, feliz... só por efeito da demonstração do meu desejo, que eu enunciaria com toda a coragem, decisão e ardor —- Branca! pela saude de seu pae... pela nossa vida, pelo nosso amor! seja razoavel!... espere, escute... Eu não sou tão culpado como pareço... jurolhe por alma de minha mãe Essa minha vergonhosa obsessão foi obra do acaso... não a procurei, não a desejava... foi um laço de oprobrio armado pela desgraça ao meu coração desprevenido... Comprometi nele c futuro, prostituí as minhas ilusões, mas sem obrigar a vontade E foi tambem, — estou convencido — foi uma das muitas provações com que decerto à Providencia aprouve abrolhar antecipadamente, Branca, o seu destino... -— Gomo sabe isso? — É uma lei da natureza que toda à verdadeira grandeza moral tem de ser regada com iagrimas e ungida pelo sofrimento! — É o seu caso, Branca... Não se é perfeita impunemente! Uma criatura tão requintadamente ideal, e tão soberana e absolutamente bela, tem larges contas com o Mal... Esse magnanimo quinhão de cxcelencias ha-de ter fatalmente o seu equivalente reverso de atribulações e amarguras... Esta porêm passou, garanto-lhe P'ra que havemos de estar “agora a querer obstinadamente sacrificar-nos p'ta todo o sempre, sem remedio?... Vamos! perdoar, esquecer... expunjâmos confiada e lealmente o pas

sado.., Já nem me lembra! Siga-me o exemplo, Bran= ca! Façamos vida nova! Branca ia responder, mas atalhou-lhe a fala um acesso violento de tosse, que a enlividesceu e a fez levar o lenço á boca, instintivamente. Então, mostrando-me empastada nele uma golfada de sangue, disse-me, numa expressão triunfadora e mortal: — E tarde!, Entrou ao eo a Tita, que, depois de me comprimentar ligeiramente, e vendo com desassossêgo o rosto transformado de Branca, disse com decisão: — -Ó menina, isto não tem geito nenhum!... fatigada como está! — Não faz mal... — Eu peço desculpa... mas parece-me que para o que tinham que dizer, já houve tempo demais — Tens razão. 7 E desandando nene! sem uma palavra mais para mim, a cabeça entre as mãos, arquejante o seio num reprimido carpir, ôgre de grossas lagrimas silenciosas, Brança desapareceu... Eu ainda hoje pergunto a mim mesmo como é que desci aquela escada? amarfanhado, estupido, entre a morte e a vida, perdida toda a esperança, caminhando para um negro vacuo sem medida, largando em cada passada um farrapo de-coração, deixando degrau a degrau em frangalhos tudo o que podia haver de sério, util, digno na limpa e alta visionação do meu destino... Sei que em baixo, ao atravessar o corredor para saír, de novo um exasperado uivo do comendas dor, gritado proximo, me sacudiu bruscamente os nervos, chamando-me à realidade. E eu não tive mão em

mim quê não exclamásse, numa sincera e remordida " magua: — Mas que maldição esta minha que tremendo azar eu vim trazer a esta casa! Ao que a Tita, que seguia a meu lado, contraditou: —- Não direi que fôsse o sr. que O trouxe. +. mas que o deixa isso é que não tem duvida nenhuma E depois de me abrir, ela mesma, à porta da rua, numa severa inflexão gue me fustigou come um açoite, “mixto de censura e de desdem, de piedade e de des* prêzo, epilogou: — Vá com Deus! O portão fechou-se-me discretamente nas costas, e eu fui seguindo, vergado ao pêso do remorso, com a esmagadora bisarma dos meus erros e aberrações pesan* do-me na alma, emquanto ouvia sempre, perseguindo“me longe, o atormentado carpir do comendador, alto “e ululante na pacatez dominical da rua. “Quando entrei em casa, na rua do Norte, Alda estava logo na salêta de entrada, junto a uma das mêsas, proximo à janela, entretida, — caso raro — " com uma qualquer pequenina impertinencia de cos“tura. Toda dobrada e atenta, um dos joelhos erguido - pela perna posta em diagonal sobre a outra, num gracioso e leve dar dos dedos ela ia passeando a agulha pelo refêgo, que a mão esquerda mantinha tenso e O polegar vincava. — Vi-a, e já eu era outro Inclinei— me, Deijei-lhe as frisuras calidas do cabelo, e ela insenRESivel.

— O sua tôla isso são modos? — repreendi meigamente.. E ela, com um breve geito implicante, ainda sem me encarar:. — Deixa-me não vês que estou ocupada 2... -— Ah, sim... — observei eu de malicia, rindo. -— Parabens — Não é isso!... Asneiras! — acudiu Alda com mau modo. — Estou com um trabalho de pressa Não vês?... -— Deve ser coisa de grande importancia... Ora valha-te Deus! — Não... maséo cós duma saia que preciso muito aprontar. — Fitou-me com arrogancia. — E então?... Ainda cheio de paciencia, arrastei uma cadeira, sentei-me defronte dela; e então notei que sobre a mêsa, junto da tesoura e das linhas, luzia um pequeno papel dobrado. Parecia um bilhete, uma carta Logo um jacto de ciume me espirrou no peito... O sangue afluiu-me ao coração, e contraíu-me o rosto um instantaneo esgar de contrariedade e duvida, que lhe não passou despercebido. No entanto, a simular de manso, sem querer dar mesmo o minimo sinal da descoberta, continuei: — Era caso p'ra foguetes este hoje! Alda de agulha em punho Vou mandar tocar os sinos da fregueZÃA di, Mesmo contra a minha vontade, as palavras azedavam, traziam veneno, assumiam um tom agressivo, crescente, indominavel... enquanto, inflamado e doido, o meu olhar voltava a pregar-se nesse misterioso papel, que continha talvêz o fio duma traição, o asqueroso enigma dalguma infamia

— Que quer's, filho?,.. a gente alguma vêz hade estar de maré p'ra fazer coisa que valha a pena! — entretanto contestou Alda, malignamente, num claro proposito de desaíio, fosforando-lhe nos olhos o prazer pelo meu desassossêgo. E furtivamente, num relance, tomou do papel e sumiu-o pronta no regaço. Nem tanto era preciso para acabar de desnortear o meu animo e espicaçar a minha suspeita. Acudindo ao repto, e já com um grosso prenuncio de colera a pigarrar-me na garganta, interroguei: — Que diabo de papel é esse?... — É um papel! — Mau! responde direito... -— Não é talvêz?... Parece-me que falo verdade! -— Mas de que trata 2... — Ora, não sejas curioso Deixa isso ás mulhePEGRS Aa -— De que trata? dize lá... Peço-te por favorl — Ó senhores, mas que sécai Trata... — arrastou ela, numa hesitação propositalmente exagerada. — Olha, não é nada que te diga respeito, nem a ti. RENA AA rats -— Então p'ra que o escondêste? — Porque me apeteceu! -— Ai! como tu estás hoje... — Tu é que não vens bom! Alguma te aconteceu... Mas cada um que está em sua casa, muite sossegado, é que não tem culpa nenhuma das tuas arrelias! —. Intendo-te... A casa é tua e a rua é minha, sei muito bem! Se isso é um mandado de despejo, — acrescentei bruscamente, pondo-me em pé, — não

te darei tempo de m'o dares a intender segunda vêz — Olha a grande desgraça! — acudiu ela, num azêdo desplante, numa agressiva ironia. Um frio de raiva e despeito quebrou-me as articulações, encolheu-me os nervos. Tinha diante dos olhos rubras flamas congestivas. Voltei a sentar-me, e aproximando dela a minha cadeira, tornei com energia: — Bom bom! nada de disfarces.. — Que papel é esse? — É uma carta, — respondeu Alda, num arrastar de pachorra insolente. — P'ra til?... De quem?...— logo em sobressalto atropelei. — P'r'a Eternidade... É da neta... Fui eu que lh'a estive a lêr, — explicou ela ainda, na mesma toada provocadora e monotona. Com a explicação, o meu grotesco ciume subiu de ponto... a minha dignidade, o meu amor revoltaramse contra este desafôro de aclaração, evidentemente especiosa, Por isso eu tambem, com um mau riso incredulo: — ânnh! com rd pensas tu que estás falando tu — Ah! não me acreditas? — SÓ Se eu fôsse parvo! a, — Pois agora e que não nas-de vêr! — ameaçou o demonio, com birrenta ênfase, largando de vêz a costura e fitando-me com rancor, emquanto implicativamente cruzava sobre o colo os braços. — Alda! Alda! toma conta... Olha que eu já: te não vejo bem! Tu arrependes-te... — regou

guei furioso, pendulando as mãos ameaçadoramente. -— Não vês! e não vês! Atirei-me de impeto sobre ela. Mas a ladina, que jà esperava 0 assalto, mais agil e esperta do que eu, tombando a cadeira, escapou-se-me... Alcancei-a a dois passos ja junto a porta que dava para O corredor: é então aí, cegamente, brutalmente, depois de lhe ter arrancado esse diabolico papel, que ela queria engulir, esboteteei-a, premi-lne dolorosamente Os pulsos no implacavel torniquete do meio odio, amarianhei-a, sovei-a a pes e mãos, engasgado de raiva, alucinado, feroz, Insaciavel... cortando-lhe à murro Os - gritos, afogando-lhe os gemidos no garrote de aço dos meus dedos, o espirito toidado duma sanguinotenta e ferina embriaguez, como eu nunca tinha sentido... do proprio furor da agresão tirando, por cada VIOlencia mais, gosto e estimulo a violencias novas. Pressurosa e aflita, veio a Eternidade Interpôr- se, arrancou por mim, lá conseguiu arredar-me. E então é que, das duas ao mesmo tempo, numa seraivada atrontosa, as chutas, os Improperios, as imprecações sobre mim cehoveram. — Covarde — Bruto! — Malandro! — Vou mas é chamar um policial — Se tem força va p'r'alfandega... Canalhão! Eu porêm, impavido e indiferente, como 0 homem justo de Horacio, voltára para junto da janela, e numa triunfante avidêz, numa regalada e insalubre ancie“dade, desdobrava febrilmente o excomungado bilhete, com as mãos tremulas, a escaldar... Agora! A

letra parecia de mulher... primeiro desapontamento! -— Vejamos bem... Não havia duvida! — Era com efeito um simples e barbaro escrito, com ortografia de cordel, em que a netita pedia á avó cinco tostões. para ajuda da compra duns sapatos.. Fiquei um instante como parvo... corrido, vexado, estupido... os braços caíram-me num vergonhoso desalento, sacudiu-me um arrepio de indignação contra mim mesmo, molharam-se-me os olhos de comiseração por Alda, a qual, ao vêr a minha lastimosa atitude, já enardecida e meio vingada, continuou: —Então, que lhe dizia eu? seu malandro, seu traste!?... Está desinganado agora? — Tinhas toda a razão -— Bem! mas vamos que a não tivésse... Se fôsse dalgum homem p'ra mim... Você tinha alguma coisa com isso? Eu tenho que lhe dar satisfações da minha VICE ri — Ouve lá... — supliquei, a meia voz. — Ouvir o quê!? — acudiu Alda com arreganho, — Seu pegamaço Depois do que acaba de me fazer Era o que me faltava! — Eu ainda não estou em mim! — comentou com espanto a Eternidade, persignando-se. — Um sr. tão acomodado... Nunca imaginei! — Ah estes songamongas são sempre assim É fugir deles! — continuava, num arreliativo excedente de rancor, a rapariga, resfolgante, fatigada, ageitando o corpête e compondo os punhos. — O mulher, pois tu não compreendes que eu me exaltásse com o teu desproposito?... — voltei dulcidamente a insistir. — Não vês nesta minha afron

tosa alucinação mais uma prova de guanto te quéro? -—— Olha! — retorquiu ela canalhamente, levando de impeto a mão esquerda ao sangradouro do braço direito, que ergueu e agitou, de punho fechado, num sabido gesto insultante. -— P'ra cá vens de carrinho... Cantigas não me adormecem — E avancando para mim, e dardejando-me raivosa a sua clara pupila em fogo, que, como uma lamina de sol por entre um aguaceiro, tinha ainda o brilho facetado e humido das ultimas lagrimas, exclamou com imperiosa rudeza: — E já tire-se diante da minha vista, seu bandalho!... Bater assim numa mulher... sem razão nenhuma E troquei eu este demonio, este lacrau p'lo outro a quem fugi, em D. Maria... Gertamente o diabo estava comigo a contas nessa ocasião -— Eu bem disse à menina... — insinuou felinamente, de mãos sôb o avental, a alcoviteira. — Ao menos esse era tudo quanto eu quisésse... — E eu, não?... — aventurei, com a mais despre“vivel humildade. *— Não se metia em certas coisas... conhecia o seu lugar — Qh, Alda! ouve lá... tambem eu, de hoje em diante... Juro-te! — Rua! rua! já lhe disse... Estar você p'r'aí a falar e estar um cão é tudo a mesma coisa E eu acobardado, eu silencioso, eu imovel, numa implorativa e ignominiosa atitude, sem me desafrontar, sem reagir... sem forças para me arrancar à esta cena repulsiva e infame, cuja só lembrança me faz desmaiar de vergonha. Alda sentia-se mestra e segura da situação; e por

isso, olhanão-me agora de lado, com desprêzo, os mala-' res rancorosamente dilatados, a voz cortada em sílvos de reptil ferido, saboridamente ia desdobrando o seu plano de desforra. Motivo pelo qual, voltada para. a velha, e num pausado tom achincalhante, acrescentou:; — Teve por lá alguma azoinice co'a outra...“quando Deus quer, veio co'a dor... e a gente que lhe ature a madureza! — Co'a outra? — exclamei eu, tonto de assombro, num sobressalto intraduzivel. —- Que queres tu ÚMerm a — Go'a outra, sim! Você pensa que eu que não sei?... Co'a sua noiva! — Alda, por modo nenhum! — atalhei eu, congestionado de raiva e indignação outra vêz. — Sobre essa senhora, nem palavra! Proívo-te absolutamente! — E porque?...-—interpelou ela, erguendo o queixo com insolencia.. — Porque na tua bôca esse nome sagrado é uma blasfemia! — Quer não que você dá-lhe grande, estimação!— replicou Alda com dureza, num deprimente rir sarcasta que me deixou absolutamente petrificado. — Pobre menina Mal empregada — Mulher! que te disse eu?... — Hei-de falar! hei-de falar Eu ia a crescer para ela, no fito manifesto de a casligar segunda vêz; mas já a Eternidade, abrindo a cancela da escada, ameaçava: — Olhe que eu grito por socôrro E cruamente a pertida a insistir: — Você é mas é um grande bandalho! Tem ali

uma menina que é um anjo... fina, bem criada, com téres, virtuosa como os santos do céu... e vae trála indecentemente inganada! e em vêz de ser todo p'ra “ ela, de levantar p'ra Deus as mãos, de agradecido, e não pensar, não vêr, não adorar outra coisa, anda-me só p'r'aí assim a puteirar, a abandalhar-se comigo e outros coiros como eu -—— De quem é a culpa?... -— O quê! eu obriguei-o?... — Não mas infeitiçaste-me! — prorompi, cego de colera e despeito. — Cortáste-me o futuro, baldáste para todo o sempre a felicidade, a paz, a fortuna “e a honra da minha vida!... Excomungada! Maldita! — Rala-te — comentou ela, troçando. — Fôste o meu genio mau, o demonio da minha perdição fôste a forma perversa e irresistivel que a Tentação vestiu para me invenenar o destino e empolgar a alma!... Abomino-te Odeio-te Oxalá que... — O menino! por amor de Deus... — suplicou aterrada a Eternidade. — Deixe-o lá, mulher, — atalhou a outra com petulancia, — deixe-o rogar pragas à vontade! Não me atingem... delas me rio eu! Ele bem o sabe... — E numa supersticiosa e credula segurança: — Ou mais p'r'aqui, ou mais p'r'ali, nunca a vida me pôs medo! Trago hbôa marca comigo... Vocênão sabe 2... Em a gente tendo no corpo um sinal que não veja, é por força feliz! “Referia-se a um pequenino botão côr de Distre, que lhe adornava a garupa, junto aos rins, e tão conhecido era dos meus dedos, dos meus olhos, dos meus HADIOS ii.

— Demais à mais, — tornava ela para a criada, que já de tranquila abanava a cabeça, sorrindo, — as pragas são com'as formigas, voltam ao mesmo cortiço... E portanto, anda! pragueja, barafusta p'r'aí,. que contra ti trabalhas!... Contra ti e contra essa pobre menina que, sem a conhecer, tamanho dó me faz, e por quem tenho um grande respeito... Que negra sorte a espera! Mal empregada! -— Tu quer's-me por força indoidecer, mulher quer's que eu me pérca!... Alda teve um sorriso petulante, e com a mais destemida arrogancia continuou: —— Poig não é assim?... Tão cego você anda, que não compreende isto? Você não percebe que é um homem de lama, um homem indigno, véles, que não merece a consideração de ninguem?... Então intruja-se assim sem precisão uma-pessôa de bem, uma menina virtuosa e limpa, que merece um altar... anda-se-lhe a mentir descaradamente, e emquanto ela, coitada na inocencia do seu coração imagina que você está em sua casa muito sonso, a pensar nela, você atola-se na pouca vergonha até aos ossos, passa-me a vida inrolado em porcas ligações comigo e outras pindongas como eu! -— Fa aí uma diferença a fazer... — É bonito isto, é decente?... é proprio da tal personagem grada e importante que você diz que hade vir a ser?... E não me hei-de eu rir, e não o heide desprezar, seu alma de unto?... Pois que vida vae ser a sua depois, — diga-me cá! —- quando casar? — Tudo muda! -— Quem é que muda?...— rompeu logo Aida, ironicamente, voltando a rir e distendendo uma das “

EE eaÃS palpebras com o indicador, num gesto incredulo. — “Olhe, costuma-se a dizer: a mulher na cama e a amante na lama. Pois você, com o seu genio lamecha, com o seu coração ingrato e estupido, é capaz de fazer o contrario -— Estás muito inganada... Ouve... Deixame falar... — Tenha vergonha! tenha juizo! Raspe-se-me por “uma vêz daqui e vá p'r'o pé da que ha-de ser sua mu“lher... dedique-se-lhe de alma, vida e coração, que ela tudo merece! A mim não me faz falta nenhuma, "já vê!... Ainda não está farto de fazer tristes figu' ras? Quem gosta disso assim?... Nós mesmas, as mulheres da ralé, não sabemos o que sejam lá esses grandes sentimentos... mas um homem que não seja - homem, que não saiba o seu luga?, que se nos ponha debaixo dos pés, p'ra nós riscou... Fedelhos, maricas metem nôjo, não nos merecem senão desprêzo Eu sofria humildemente, resignado, mudo, cabisbaixo, esta flagelante lição de moral infligida por uma mulher perdida. Pelo mais singular e irritante dos contrastes, era o meu genio mau que me ensinava o caminho da reabilitação, era a minha socia na devassidão quem me apontava o devêr, quem me abria os olhos! Invectivava-me por aquele modo vituperioso e formal, “arguia-me sinceramente dos meus erros exactamente a criatura que neles tinha o maior quinhão, o quinhão inicial, das responsabilidades, a minha funesta instigadora, o traço negro de luto é desordem com que à fatalidade barrou o meu destino. — Era a consciência a falar-me pela voz dela... Por isso eu agora, “submissa e contritamente, sem reagir, ia escutando, No entanto, a um breve claro de pausa aberto m

, nas causticas expronrações da rapariga, doce e admirativamente aventurei: — Mas como diabo soubéste tu essas particulari-. dades todas da minha vida? —. Não é da sua conta!-— E com uma decisiva e. inexoravel. arrogancia: — É verdade ou não é 2... Ah, estivésse cu no lugar dela, sabendo da-vida o que. sei, e diabos me levem se te não fizésse pagar com usura as indecentes traições que me tinhas feito primeirol — Alda! é demaisl... — Olé! — insistiu ela, com rancoroso tres '-— Quem te ouvir falar... parece que me tens um. odio de morte... -—no proposito de a amansar, arrisquei epa Cate — Adeus, amigo! — epilogou Alda porém, com o mais afrontoso desprêzo, refugiando-se no quarto, cuja porta beteu com estrondo. Amarífanhado, perplexo, volvi de roda de mim os olhos... Subtilmente a Eternidade, como por encanto, havia-se sumido tambem. Percebi então que irremediavelmente não tinha outra coisa a fazer: tomei ao corredor, puxei a cancela e saí. Na rua, em baixo, estive um momento parado... depois segui, vagaroso, ao acaso, numa grande consternação, numa apavorada incerteza. Sentia-me indigno de mim mesmo, veio-me um desejo veemente: de morrer! Tu compreendes... pois se eu via-me de repente absolutamente só, com a dignidade espesinhada e retalhado o coração, burlado nos meus afectos, nas minhas predilecções, planos, gostos e desejos... inexoravelmente comprometido e apagado o brilhante sonho acariciador do meu futuro! Valêra-me este resultado a aberrativa dualidade da minh'alma, "> mm

BIO Esse absurdo ecletismo sentimental, que eu por comodidade e cobardia moral me estabelecêra., carreou-me este duplo castigo: despedido pela noiva, achincalha-. do pela amante... Por as duas querer amar, tido em) odio por ambas! E aí estava eu agora novamente sem, arrimo e sem norte, perdido e só na tumultuaria agitação da vida, rôtos e inuteis os dois pólos do meu cui) dado, as duas colunas essenciaes do meu afecto, os “dois unicos amoraveis esteios a que confiadamente se amparava a minha organisação complicada e melindrosa, apreensiva e tímida...

O Livro de Alda

Sinopse

Leia gratuitamente O Livro de Alda, romance naturalista de Abel Botelho e segundo volume da série Patologia Social. Edição Literunico em pt-BR moderno preparada a partir de fac-símile em domínio público, com teor adulto e crítico sobre degradação social, desejo e exploração.

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