Universo da obra
Universo da obra
5 de março. E agora a nossa vida seguiu de novo acamaradada e facil, num mutuo enleio inefavel, numa dôce harmonia de predilecções e numa conformidade de instintos que nos fazia felizes, tão presos um do outro e tão esquivos ao mundo como se nos fundiíra os des“tinos e nos inleára o desejo um verdadeiro e grande e perenal amor. O amor... E o que é o amor?... Qual o verdadeiro significado, a natureza, o alcance desta eterna palavra, enigmatica e sombria? quem logrou já bem na raiz desfibdrar o magnifico sentimento, duma analise bem flagrante e bem viva extrair a esse atribulado movimento de alma a sua feição tormentosa e sublime, arrebatadora e terrivel?... Andaram durante seculos varias pias criaturas, e uma afrontosa legião de insignes velhacos, tentando persuadir o genero humano de que o amor era a paixão por excelencia, à mais nobre das ocupações e a mais etereal das fortunas, deliciosa nesga de Ideal neste mundo aberta para o céu, o unico fundamento e motivo essencial “de felicidade sobre a terra... quando afinal, — falo por experiencia! — não ha nada mais efemero, mais lalso, mais perverso... nada que mais esmagadoramente pregõe e contirme a ruindade da condição humana. O Paganismo divinisou o amor; veio depois o Cristianismo, e castrou-o. Ambos fôram excessiVOS; O primeiro no seu entusiasmo, o Segundo no seu odio. Considero o amor coisa mais ilusoria e inconsistente que a mais pueril das amizades. É uma feroci
244 “PATOLÓGIA SOCIAL dade sem garras, um ergastulo com azas. — Pois tu. não vês?... Depois de saciada a cubiça que uma vêz. nos galvanisou, nada mais ha a esperar da animalida-. de satisfeita. A pleniposse endurece o coração. Quem diz fartura, diz tédio. Realizar um desejo é matá-lo.. Toma-nos então um frio desdem implacavel, que não concede às suas vitimas nem solicitude, nem dedicação, nem lagrimas... Uma ferina solicitação do amorproprio, uma irresistivel necessidade de inconstan-. cia fecham à piedade e ao dó corações em que abertamente confiavamos. O proprio movimento egoista que nos fêz numa imperiosa suplica encaminhar todo O nosso querer à conquista do idolo da nossa alma, do tema afectivo do nosso ser, é o mesmo cuja enfastiada intolerancia nos leva depois a estramachar o despojo inerte da vitoria, como um trambolho inutil, para os “inapelaveis confins do abandono e do desprêzo. — Por isso o despenhamento é colossal, o sofrimento é infinito! Porque, por mais solidamente abroquelado de bom querer que um homem se julgue, por muito lido que seja em filosofias e a despeito de quanto estoicismo e resignação lhe hajam instilado as lições da Ciência e a pratica da vida; embora consiga por vêzes renunciar à avarêza, à gloria, à inveja, á vaidade, ao odio, — movimentos de alma que o não aquecem, — comtudo, se o momento chega de querer contrariar a sua tendencia afectiva interior, se pretende deslocar O eixo sentimental da sua vida, então reconhecerá que perante essa dificuldade formal todas as teorias falham, todos os sistemas se desmoronam, todas as arrogancias baqueiam... e desinganado e exausto terá de finalmente confessar que não dispõe de força nenhuma capaz de lhe assegurar o dominio de se mesmo! E cia sa mao em o NO e ANE Ra ECT Ei A pai E Sp
IH — O LIVRO DE ALVA 240 Nenhum destes amargos pensamentos acudia no entanto a aguar-nos o prazer, ou pelo receio e a duvida esfriava a nossa inalteravel ventura. E, não obstante, os fatos bem breve iriam mostrar que irrisorio alicerce formava base ao nosso amor! e inconcebiveis traições, brutaes surprezas viriam ferir de morte o meu pobre coração desprevenido... No momento em que vamos, porêm, ainda nem o minimo sprenuncio do temporal se vislumbrava no asSoalhado céu da nossa união. A nossa concordancia era absoluta, perfeita; parecia para sempre unir-nos um carinhoso laço indissoluvel. Eu principalmente, inleado na frescura impetuoSa da minha inexperiencia, não queria, não via, não atingia outra coisa. Aproveitava todos quantos mo“mentos podia, para estar com Alda. O meu pensamento, a minha vida, o meu desejo resumiam-se ali... Tudo o mais era fumo, ilusão, indiferença, tédio Já me não bastavam as noites passadas em comum, as refeições à mesma mêsa, os teatros, as casas de pasto, ruidosas patuscadas tfóra de portas, compras pelas lojas, —o dinheiro do comendador dava, p'ra tudo! — visitas a Dordeis, arriscados passeios com cia pelas ruas. A cada momento a minha crescente -obsecação, o meu rubido e furioso amor inventavam “motivos novos de perenal convívio, de tudo sabiam forjar pretextos a tornar-me dela inseparavel. Assim, como a pobre de habito se lastimásse muito, ao vêr-me com os jornaes, da sua rasa e formal ignorancia, eu propuz-lhe ensiná-la a lêr e escrever. E ela, no mais comovido alvoroço, — que sim!... tomáTa ela... quantas vêzes estivéra já p'ra m'o pedir, e sempre com acanhamento! — Não precisei ouvir
mais. Logo comprei a Cartilha Maternal, e então... tu não imaginas... era uma delicia! A lição tinha lugar quasi sempre de noite; quando eu sem chapeu e sem gravata, e ela num ligeiro traje de casa, não ti-. nhamos já tenção de tornar a saír. — Sentávamonos à mêsa, muito juntos, beira a beira, rosto com rosto, as respirações unidas, os corpos enlaçados... havia mesmo ocasiões em que no inconsciente resvalo do nosso mutuo furor de aproximação, ela passava de todo para o meu colo... eu abria o livro, e regalado e paciente ia-lhe apontando e debiaterando' alto as silabas, que ela à seguir marmotava, hesitando, em tregeitos infantís, com uma graça infinita, Afagavam-me, penetravam-me ali, numa violenta osmose sensual que me destemperava os nervos, as calidas emanações da sua perversa carne irresistivel... e, assim, cada vêz mais ardido eu porfiava na lição, fitando Alda muito nos olhos, que como que bebiam dos meus o saber, num amoroso relampago intuitivo... E com uma das mãos eu ia apontando sempre, porfim já maquinalmente, as letras, emquanto lhe passeava a outra pelas dobras palpitantes do seu corpo, insinuando-a cariciosa e tremula pelas folgas das vestes em desalinho. Bem empregado trabalho. Que lucidez! que intuição Aprendia que era uma beleza... Por milagre naturalmente da minha afectuosa sugestão, mais do que pelo seu decidido esforço de vontade, o certo era que, dia a dia, fazia rapidissimos progressos. Por momentos, como que adivinhava. E, na escrita, a mesma coisa. Por sinal que ela ria a perder e achava imenso interesse na vêsga e camba confusão dos primeiros traços, laboriosamente garatujados no pa
pel pela sua mão engranhotada e perra dentro da minha. Eu não podia acreditar... aplaudia-a, festejava-a; grandemente desvanecida, ela afogavaMme em caricias, agradecia-me com beijos... breve, destas efusivas demonstrações a consequencia era reacender-se a nossa furia passional, interromper-se a lição, e lá davamos as consoantes e as vogaes ao diabo, e os nossos dois corpos famintos voltavam a inroscar-se num desses rubros, doidos, interminaveis amplexos, absolutos senhores do nosso querer, que davam toda a razão da nossa vida, e que eu timoratamente considerava, arrogantes desafios ao céu, pela undante pletora de felicidade em que inundavam a minha extatica e espavorida alma! Quando eu ficava com ela, o que era quasi habitual, tambem depois as manhãs, ao acordar, eram uma verdadeira festa. Rompendo fresca e leve do seu longo sono reparador, a minha rica amante espahejava-se e abria-se em ruílos, saltos, 8orgeios, risos de ave que desperta... Então, mal nos ouvia chalrar, vinha a Eternidade trazer-nos o leitinho; e, ao levar às chavenas, sabia muito bem cerrar sobre se a porta, acomodaticiamente, sem dizer palavra. De sorte que nós os dois ficávamos ali assim horas esquecidas, garrulos, feiizes, brincalhando, prêso o desejo e à vontade flutuante numa Voluptuosa inacção que o silencio môrno e a penumbrosa luz do aposento favoreciam, Ela fazia as suas orações, depois não estava quieta um instante: contava anedotas picantes, erguia em angulo os joelhos, batia palmas, cantarolava, mordia-me... e então que mania singular! — lembras-te de eu haver ali notado, na minha primeira inolvidavel noite de insonia, que a franja do
docel do leito estava incompleta e como que comida, na altura do alcance da mão, aos lados?... — pois se todo o furor daquele demonio era arrancar-lhe as bolitas de sêda que a adornavam e metêr-mas por força nos ouvidos! —— De seguro que este mesmo divertimento ela haveria crescidas vêzes ensaiado com os meus antecessores... Punha-me fulo semelhante ideia E quanto mais eu arreliava do incidente, mais tambem a foliona malignamente renhia na travessura. Mas sobretudo a minha maior exultação derivava agora de que eu começava a apreender-lhe a expressão dos olhos... Já não eram p'ra mim de porcelana: eram de cristal... eram como duas grandes janelas patentes à minha inquirição dentro da sua alma A. nossa reaproximação grangeára-me este favor singular, fizéra este milagre... Fundira-lhes o gêlo es“Sencial esse tresbordante exacerbar da nossa mutua ternura. — Agora os seus dois belos olhos, claros e travêssos, falavam-me, davam-me toda a confiança, pertenciam-me... indefesos e- amigos, eu lia neles sincera e escampe a mocidade, a petulancia, a dedicação, a franqueza, o amor, seguia-lhes as mais incoerciveis cambiantes do sentir... eram ao meu coração barometro infalivel por onde regular a minha conduta com Alda, para lhe prevenir os caprichos, antecipar a vontade e ir adiante do desejo. Assim, a nossa intimidade afervorava-se, a nossa conformidade era perfeita. E o conhecimento, que eu supunha completo, e a afectuosa dominação duma alma tão complexa e tão rebelde, traziam-me cheio de mim, davam-me saude, banhavam-me de-emoção, faziam-me um gigante de vaidade. dt O maior prazer dela, à noite, quando nos deitaE PES SE UE mi ap 1 im DE
mos, era adormecer nos meus braços, infantilmente acalentada pela minha voz contando-lhe historias... Porêm, umas vêzes por outras, — calculas bem que não podia deixar de ser... — ou porque tinha no dia seguinte aula cêdo, ou por precisar demorar-me até mais tarde em Buenos-Aires, tinha de ir por força ficar a minha casa. Pois dessas vêzes mesmo, assim que eu soprava a luz e anulando o pensamento me dispunha a pegar no sono, era tão dominadora, tão imanente em mim a vibração da voluptuosidade, que nos nervos em remanso logo o formigueiro das ultimas impressões restolhava e crescia... e eu revivía sem querer as delicias passadas, como que sentia as mãos dela premindo-me os pulsos, os deditos fazendome teclado das costas, a onda calida dos seios, a Trescura do queixo contra o meu, a gorja de veludo dos seus braços no pescoço... e surpreendia-me involuntariamente contraíindo tambem as mãos e virgulando os dedos para a afagar, ou alongando os labios na dulcida emissão dum beijo.! — Então, ou me sacudia, dando-me a noção da realidade, um ávido sobressalto, cuja violencia algumas vêzes chegou a projectar-me fóra do leito; ou então, embalado no languido engodo da ilusão, narcotisado dum vago, dum suavissimo prazer, como se tivésse comigo ali assim a minha amante, aplacado, feliz, adormecia... Depois, por essa noite alta, lá vinham largos claros de sono, lucidas stases em que inlevado o meu espirito se esquecia a pensar nela... ELA! — aí tens tu uma palavra que por se mesma é como que duma côr de pronuncia distinta... palavra que, tomada no valor que eu lhe atribuo, resume em se toda a razão que ha para vivermos, exprime quasi o inecfavel,
o divino, o infinito! — Esquecia-me pois a pensar nela... nos seus começos, de abandono e miseria, a sua vida caprichosa, atormentada, incerta,.. os formidaveis saltos, as alternativas crueis do seu destino... e tomava-me uma súrda e comovida indignação, crescia-me no peito uma onda sufocante de piedade e de ternura. Que culpa tinha ela de ser o que era?... O seu viver era irregular, marcava-a um estigma infamante, fizéra do coração estalagem, podia considerar-se impossibilitada de vir. a constituir familia. Mas por culpa de quem?... Não tinham sido todos esses homens, que agora lhe voltavam costas, os mesmos que haviam brutalmente abusado da sua inexperiencia, torcido o seu querer e gastado a sua virtude? — Oh, meu amigo, repara um pouco nisto... vê como é mes“quinha, egoista, absurda 'a chamada justiça social, — Anátema á mulher perdida! — clamam todos. Porquê?... Bem mais odiosa e ultrajante que a prostituição da mulher, a qual não passa dum fenomeno todo fisico, automatico, animal, considero eu a consciente prostituição do homem, que é pensada, reflectida, filha do calculo, uma ignobil transigencia com a desonra, perpetrada na perfeita antevisão de toda a sua vileza. O espião não vale a meretriz. Nas insondaveis profundezas da estratificação social, abaixo do esterco das almas fica a bandalheira das consciências. A descarada que cinicamente oferece o seu corpo na praça publica, não merece maior execração do que 0 ambiguo malandrim que surrateiro deslisa pelas Tecamaras dos grandes mandões da terra, dos beatos do destino, dos favoritos do poder e da fortuna, pronto a vender-se por um negocio, pondo em almoeda na,
sombra à sua inteligencia, o seu braço, a sua força para desdobrar uma intriga ou para esconder uma infamia. Esta, sim! esta é que é a verdadeira prostituição moral, é a lia mais aviltante da humana condição, a grande pustula essencial do nosso tempo. — E, não obstante, nós vêmos que aqueles que a exercitam, triunfam... para eles são honras, famas, glorias, considerações, riquezas; ao passo que as desgraçadas cujo crime unico foi cederem a um impensado movimento do coração, a um generoso impulso afectivo, a essas o dogmatismo social embrulha-as todas na mesma inapelavel formula de abominação e de desprêzo. No entanto, nós deviamos considerar que nesSas pobres criaturas, minguadas de espirito, em que a sensibilidade predomina e o grande simpatico dá o rumo. à vida, o seu pequenino e desguarnecido cerebro vae admiravelmente preparado, por uma educação ridicula, para o luxuriante bracejar de toda essa emaranhada teia de erros, caprichos e quimeras que arrastam ás grandes faltas inconscientes. Ora, nestas condições, se nós em boa parte é que lhes preparáâmos a sorte, e de começo encaminhámos as coisas no sentido que ao nosso egoismo mais interessa, não será grandemente injusto tornarmo-las responsaveis por mor" bidos estados de alma e traiçoeiros delirios dos sentidos que nós como que nelas enxertámos, e que ineVitavelmente as haviam de perder?... É, decerto: a nossa mesma superioridade, o nosso saber, a nossa força deveriam impôr-nos para com a mulher como um devêr a benignidade, a tolerancia e o perdão. A mulher é uma atoada e incorrigivel criança, que não vae a maus tratos... antes se torna indispensável
instruir, mimar, moralisar, guardar... e absolver, — Alucinada e impulsiva de condição, violenta porque É arbitraria, curiosa porque é ignor ante, impetuosa e excessiva em todos os seus atos, mórmente no amor, que é a sua verdadeira vocação, a cada passo ela é sacudida de comoções organicas e sugestões moraes que incarniçadamente se apoderam da sua natureza vibrativa e facil, fazendo-a desdobrar em tudo quanto seja paixão, em tudo quanto signifique um querer ou subintenda um desejo, uma soma de des interesse, emoção, energia e valor verdadeiramente desmedidos, doidos, formidaveis. Tambem por isso o homem sabe em beneficio proprio aproveitar a primor as demasias afectivas da sua adoravel e dôce companheira. E não ha nada mais abjecto, mais ignobil, mais perverso do que --& nossa tortuosa ferocidade, assediando-as... Não tem inscrição nos codigos, e todavia é o mais baixo e infernal dos crimes, a nossa implacavel industria da sedução, o nosso bandoleirismo erotico, o pavoroso arsenal de amavios, manhas, elequencias e promessas que nós sabemos pôr em campo para as obrigar a ceder! E depois ainda, o que torna incomensuravelmente torpe o nosso proceder, o que degrada para os ínfimos capitulos da monstruosidade a nossa infamia, é que do descredito da mulher não ha apelação, a sua desonra é sem recurso... Mulher perdida, é perdida para sempre! Antes de violada, um anjo; depois de servida, um trapo. Ela pede-nos piedade, protecção, carinho, e nós não sabemos senão vibrar-lhe injurias; retribuimos-lhe em desprêzo o que ela nos deu em prazer. Depois de a fascinarmos com a miragem dum trono, arremessâmo-la à podridão do monturo. — Por
mais que a misera, pretenda reerguer-se, emendar-se, voltar à vida normal... não o consegue, não se lhe consente. Se uma vêz cincou, tal momento de irreIlexão foi bastante para condenar fatalmente à ignominia e ao erro o resto da sua vida. Todas as classes a repelem, todas as profissões a engeitam, todas as portas se lhe fecham. A mesma sociedade que pronta e jovial lhe serviu todas as facilidades ao despenhamento, que a oiros e veludos lhe debruou solícita a convidativa rampa da desgraça, opõe-lhe agora toda a sorte de obstaculos à reabilitação... é tão intranSigente e cruel na condenação como fôra persuasiva e dôce no aliciamento. — Não é sentimentalismo isto que eu te digo: é logica. É a perene e estupida consagração, por esse mundo fóra, da absurda invenção do Pecado Original... invenção a cujos dogmaticos efeitos disciplinares o homem, como é quem fabrica as leis e os costumes, tem sabido cinicamente furtar-se, fazendo incidir todos os rigores da condenação sobre a outra metade da especie. Vae tu e dá-te um pouco ao trabalho de conSultar as estatisticas... verificarás que, das duas mil mulheres que em Lisboa exercem a prostituição regulamentada, mais as seis mil que se entregam à prostituição clandestina, bem os quatro quintos fôram vitimas do egoismo e perversão dos homens. — Nestas condições, que admira que a mulher se perca?... “Tendo tentado em vão manter-se honesta, afinal prostitue-se, porque reconhece ser este o bom caminho pratico a seguir. As mulheres fazem mal em ser sérias, porque ninguem as toma a sério... Gom efeito, é curioso de analisar o papel duplo da mulher neste mundo, — o que a hipocrisia social lhe talha, e o que ela,
revoltada e impulsiva, a se mesma se distribue. Temos, a um lado, a mulher livre, esturdia, insolente, que zomba de abusões, refratária a preconceitos, tendo por unica preocupação o dominio, o prazer, a seu bom talante desbaratando toda a fortuna e todo o amor dos homens; e, do outro, a mulher infeudada à obrigação, escrava submissa do devêr, tendo o meticuloso culto das convenções sociaes, resignada e mansa arrastando uma existencia crepuscular, toda abnegação e silencio, ignorada, esquecida... Pois tanto aquela é mimosa de honras, distinções, larguezas, como esta é computada em infimo valor. A primeira dispõe da supremacia mundana, da riqueza, do poder, da evidencia; a segunda apenas consegue... morrer de fome. E, assim, bem tôla é a que se sacrifica! Eu não só desculpo, mas compreendo e aplaudo a mulher livre. — Repara bem... nós nascemos todos com instintos, homens e mulheres. Logo no nosso embrio-. nario ser o bioplasma do Mal vibriona e fermenta, muito antes que a educação nos amolde ao Devêr e nos enverêde á Virtude. Ora o certo é que a mulher que despejadamente segue o caminho do erro, essa alcança toda a nossa protecção, simpatia e favor. E porquê?... porque é nossa irmã no Vicio. Repudiâmo-la em comum, é certo; denegamos-lhe a publica esti mação, a consideração colectiva... ah! mas no recato e na sombra rojamo-nos a seus pés, servimo-la, adoramo-la, sentimo-nos por ela capazes de todas as abjecções, de todas as loucuras; ao passo que a mulher honesta, essa que melindrosamente contravía e vence Os seus instintos, por uma austera obediencia às leis da virtude que em conveniencia e proveito da nossa hipocrita moral nós lhe tabricâmos, essa é
a eterna burlada; numa passividade de automato, inapreciada, a um canto, se definha e anula; e quantas vêzes as duras contingencias da vida não fazem dela uma vitima! Por isso, — não te vás irritar — mas, no meu con“ceito, a sinceridade no vicio é uma grande qualidade. Acho um grande merito ao desbragamento arrogante e alvar da prostituta. Saber-se relegada ao infimo desvão da escala social, e senti-lo e confessá-lo com dureza, arcar publicamente com a desonra, ter o orgulho da profissão, o brio da afronta e timbrar no erro, — isto é que é honestidade, isto é que é coragem! E aí tens tu porque eu me inflamava e internecia, junto de Alda....Estava a lêr nela, travestidas na mais ritmica e divinal das formas, as comoventes reivindicações do seu sexo. Considerava-a a sintese hu"mana duma intima revolta essencial, um simbolo vivo de protesto contra a nossa tirania secular, a vindita, pela sedução e pelo engano, do nosso convencionado e formal desprêzo. Vaes-me prêgar com os preceitos da moral, que eu tinha, como bom cidadão, o devêr de acatar e cumprir. — Mas que moral? de que especie de moral me falas tu?... Da que se funda nas leis naturaes, ou do mistiforio artificial manipúlado pelos homens?... A primeira é um eterno prinCipio salutar; a segunda é uma baboseira. E aquela, a verdadeira, a sã moral, não consiste senão na inteira conformidade dos nossos atos com O Nosso desejo, da nossa volição com a nossa consciência; é uma correspondencia harmoniosa e completa entre o nosso senso intimo e as nossas relações com o exteFlor, Qbseryássemo-la nós, a ela e só a ela; bem
tranca e rasgadamente, e tu verias como o mundo marchava melhor! Nesta ordem de ideias, que querias tu que eu figésse... fantasista, inexperiente. moço, com o espirito sequioso e a sensibilidade espertinada?... Havia de continuar para aí assim, frio e só, desmaridado, inutil, estirando os meus fortes musculos no vacuo, sem um derivativo regulador ao coração, sem um onto de apoio à minh'aima?... E, como eu, OS nais... Em vez de tanto nos incarniçarmos em fazer mal uns aos outros, melhor nos irá ocupando-nos em cultivar dentro de nossos peitos o amor. A chamada virtude, a abstenção genesica é o que quer que seja de antifisico, místico sonho de algum poeta religioso, irrealizavel e incompreensivel ao comum dos homens. O celibato não existe senão em teoria. O concubinato é uma instituição. O gineceu é um sacramento. E até, para que nós em toda 8 sua admiravel complexidade possâmos apreciar a mulher, tem ela que despojar-se do pudor, — essa epiderme da alma. Deixar pois cada um debater-se na turbulenta espiral dos seus erros, prediiecções, instintos. A vida é assim... Bem sei que o meu procedimento não tinha nada de regular, que o meu iuturo estava prêso a VOtos sagrados; que, muito longe e acima desta vilipendiosa aberração, um outro ideal, um outro norte me guiava... Mas se eu queria por força, primeiro que tudo, gozar! Gozar tanto quanto pudésse! Queria ser o dilecto da fortuna, o benjamim do destino. E para isso, --—- bem sabes, —- tinha de paralelamente abandalhar-me... Porque só se alcança a ventura a poder de abdicação. O prazer dilue o caráter. Um vicio extremo, vadical vale mais do que uma medios [RR
o eo! “cre virtude. Requer sua ponta de abjecção a verdadeira felicidade. — Tanto que, nesta minha epicu-: tea é ardente obstinação, na minha inestancavel stde de amor, eu chegava a desgostar-me de ser como sou... queria vêr por completo varridas ao sópro calido da paixão algumas boas qualidades que ainda me restam, para poder então, franca e desapoderadamente, afrontando a sociedade, atropelando o devêr, cavalgando o mundo, chafurdar bem de vontade e de instinto no complicado atasqueiro de todos os deboches que a imaginação libertina dos torturados pelo desespero inventou...
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