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O Livro de Alda

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O Livro de Alda

Capítulo 16 · O Livro de Alda

22 de março

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22 de março. Depois de haver passado uma noite extenuadora, horrivel, sempre com as fatídicas revelações da bruxa martelando-me na ideia e flagelando-me o cuidado, no dia seguinte apressei-me a colher noticias de Bran- ca, essa doce e resignada vitima com cuja morte, a A despeito de todo o cortejo de fataes prenuncios que se iam produzindo, eu não podia de modo nenhum conformar-me. Bai Só já muito sobre a tarde logrei encontrar Gustavo, “O qual, com as lagrimas nos olhos, apertando-me confortadoramente as mãos, me disse «que não havia. mais meio de alimentar a sua generosa ilusão! Branca estava perdida sem remedio 1... Á espera do fatal. desenlace a cada instante, o medico já deixára de a x visitar...» Eu fiquei doido... julguei de caír redonER do no Sto! Era a figura viva do desespero. No enc

tanto, estimulado por um agudo sobressalto interior, - sacudido mum repelão de remordida angustia, tomou-me de repente o desejo inflamado e convulso de a procurar, de a tornar a vêr... Aceitando emtoda à Sua esmagadora brutalidade a evidencia cruel dessa desgraça, queria eu ao menos presenciá-la. Ao incomensuravel tormento da minha dor traria porventura lenitivo o alcançar o seu perdão. Mal anoiteceu pois, — lembra-te de que era um - Sabado e no dia seguinte havia toiros, —já eu era de "roda da casa de Branca, ardendo incansavel no obstinado empenho de ir até junto dela castigar-me na assistencia à sua agonia, exorar o seu perdão, a sua “benção uma derradeira vêz! A noite, verdadeira noite “de fim de outono, estava desabrida, negra, impenetra“vel. Silvava sinistro o vento; e por entre a nevoa que * como uma escumilha de dó se esfarrapava pelo espa* ço, a pequena mancha cinzenta da casa de Buenos-AiTres escorçava-se vagamente, no tremulo alumiamento 4 “dos lampiões da rua. Toda a fachada ás escuras, com "* exceção das duas janelas da esquina, no primeiro andar, através de cujas vidraças vasquejava o clarão “duma palida luz vacilante. — E se eu pudésse en“trar?... Pela porta da rua, como qualquér pessôõa k “de bem, era impossivel... —- Mas notei então que, ] aos fortes sacões do Nono) as frondosas pimenteiras -do quintal raspavam, na parede, rentes com as janelas A altura não era grande... O muro baixo, a rua deserta... Porque não?.. PR momento, tendo-me * primeiro certificado de que ninguem me surpreenderia, eu estava em cima de um dos frades de pedra que; “ladeiam' 0 portão: dum pulo pendurava-me da cornija, ilexionando os braço serguia-me, hirto, direito,

os bicos das botas roçando a caliça, cavalgava-o muro, suspendia-me para o lado oposto, saltava dentro do: quintal... Então dei-me pressa em ir afagar o pobre Tejo, que, derreado, paralitico, jazia na sua casota, é logo deu sinal de me reconhecer, balindo meigamente, Depois, a pés e mãos, abracei-me à arvore que melhor podia servir o meu intento; dahi a pouco, tendome prolongado e arrastado de bruços, cingido a um ramo, estava de posse do meu tão anciado lugar de observação. — Olhei para o interior, mas não consegui vêr nada do que pretendia! Apenas diferençava coisas sem continuidade, confusas e indeterminadas manchas, longe a longe cortadas por vagas sombras de mulher que afadigadas perpassavam...; Nisto, uma dessas sombras veio crescendo, crescendo e definindo-se na apressada aproximação da vidraça. De cautela, agachei-me e anulei-me quanto pude, como um reptil, na amiga cumplicidade da sombra... Era a Tita, que veio suavemente erguer a vidraça, e logo tornou para o interior. — Agora, sim via melhor... E podia até... Parecia isto um acaso providencial, um singular favor divino —- Não hesitei dois segundos... Com infinita precaução, avançando primeiro um braço, uma perna, com apoio ao parapeito, o resto do corpo depois, aí destiso eu, silencioso e leve, inponderavel, para o interior da casa. E agora ali, ignorado e imovel, oculto no vão da janela, colado à parede, recuando os pés e adiantando o tronco, protegido pelas cortinas, pude finalmente presenciar a desoladora e aflitiva cena que se desenrolava no aposento. “A Não havia duvida... Pobre martir invioladal Num pequenino e sóbrio leito de mogno, posto a meio M

1 — O LIVRO DE ALDÁ Cu AOS “da casa, com docel mas já sem cortinas para quê 0 ar circulásse em. liberdade, Branca debatia-se nos paroxismos dilacerantes da agonia. O seu rosto longo, socavado, austero, banhado já como que do clarão funeral dos círios, destacava lugubremente, violaceo e sumido, na imaculada alvura do travesseiro; febricitante o delírio bailava nos seus grandes olhos, ancia“dos, mortaes, deliquescendo no embaciado adeus do abandono; irrequieta, sem parar, a cabeça moviase-lhe atormentadamente; em quanto, brancos e ardidos, se lhe desfaziam os labios em torrentes de palavras indecifraveis, e inclavinhadas as suas mãos de céra bedelhavam com a roupa sem descanço, como querendo, num supremo arranco, segurar a vida! Em volta o silencio era absoluto, formal... Aos pés do leito, desfeita em lagrimas, contemplava angus— tiadamente de face a Tita a sua grande amiga agonisante: e flanqueavam a cabeceira duas estranhas mulheres de negro, rigidas e solenes, os braços á “frente cruzados, sumidas as mãos na farta amplidão das mangas, a cabeça e o colo toucados de duas grandes azas brancas, - A um dos lados do leito improvisára-se um altar, tendo um crucifixo ladeado por dois castiçaes com ve las de cêra, ainda apagadas, e à frente uma pequena bandeja de prata com espevitador a uma concha de a agua benta com um raminho de oliveira. E tudo numa, E fria impassibilidade de necroterio, num discreto e meticuloso arranjo, simples como a inocencia, calmo como a virtude. a Na adoravel singeleza do aposento, naquela apa" gada e sutil sinfonia côr de rosa que irradiava das paredes, dos moveis, das decorações, da delicada 26 w

lampada suspensa do teto, a pavorosa agonia da pobre triança tinha o quer que fôsse de angelical, era como que a alvorada ideal da sua transmigração para um qutro mundo...: Na sua tormentosa faina parecia agora a moribunida haver aplacado, numa intercadencia de relativo 'repouso que multiplicando-lhe o sofrimento pela sua mais consciente compreensão, a fêz, com uma voz que 'me gelou o sangue nas veias, aflitivamente su'plicar: — Que pêso no peito, Deus do céu!... Arlarl.., peu mórro... Por amor de Deus! não me ponham véu... ai, não me iaçam o caixão pequeno! E ja de seguida continuava no mesmo exasperado jescabuj ar, no mesmo infatigavel frasear de demencia, 'a intervalos coberto, em baixo, pelos doloridos uiivos do Tejo, que recomeçava a sua lugubre lamenta'cão das noites. Eu insensivelmente, sem dar tino de mim, sem me poder dominar, com um mar de dor a referver-me na alma, adiantei um passo, outro e outro... dentro em pouco estava, impeLuoso e suplicante, em meio do “aposento. As três mulheres não pudéram reprimir “um grito de espanto. A Tita veio logo a mim, repreensiva, hostil, num grande pasmo indignado; mas perante o meu aflito e desordenado aspecto, ante a 4 impositiva eloquencia da minha dor, não teve alma de me tratar com durêza... fêz-me praça e afastouse, fazendo um sinal tranquilisador ás duas companhei- E ras, encolhendo de lastima e piedade os ombros. isu então avancei pressuroso ao leito, ajoelhei, e beijando. q efusivamente a mão que Branca deixára pender, num esmaio de cansaço, tive esta suplica suprema: e

— Branca! Branca da minh'alma!.., Soueu.. perdôa-me! Ao contacto ardente dos meus labios, ela rolou morosamente para mim os seus olhos de morta... um claro de razão abriu-se na caotica escuridão da sua demencia, reconheceu-me... confrangeu-se-lhe dolorosamente o rosto... e logo, desviando os olhos, furtou brandamente a sua mão dentre as minhas. E eu fiquei sem saber, meu amigo, — oh, como isto é horrivel! — fiquei sem saber, nunca O saberei se este expressivo gesto de Branca significava querer ela poupar-se à emoção, se acentuar uma repulsa... se era à demonstração do seu afecto, se a confirmação do seu desprêzo Fiquei sem o saber... e esta cruciantissima duvida nunca mais me deixou, agarrou-se-me à consciência como um eterno, um implacavel remorso... constitue ela por se só mais que bastante penitenciação a todos os meus erros! E nunca mais tambem a pobre teve descanço... nunca mais os seus dedos sossegaram, nem se apaziguaram os seus labios. Porfim a morte, a pôr o logico remate à sua obra de exterminio, garrotou-a num cavo — estertor, seguido dum breve colapso tranquilo, especie: de almo sonho de redenção em que dulcissimamente a sua alma desprendeu-se... Quasi ao mesmo tem- po, no andar terreo, O comendador, como se tivesse — instintivo rebate do tragico desenlace, soltava um Prado atroador e ululante, um daqueles seus homeri“cos rugidos de esfacelo e dor, que no quinial os dolorosos uivos do Tejo lugubremente prolongaram. E a Tita, abandonada de bruços sobre a cama, desatára E soluçar espavoridamente; emquanto uma das reli- giosas, serena e triste, ajoelhava, e a outra acendia

as duas velas de cêra e aspergia agua benta sobre o cadaver. -- Não sei o tempo que estive ali... não sei quando saí, nem como, nem por onde... Lembra-me apenas que, cá fóra depois, me causou RS e intimidou a Íeição estranha das coisas, 0 aspecto hostil, carregado e funebre da cidade. — Na uniformidade de crépe, na cerrada escuridão da noite, onde tudo, céu, terra e agua, era impenetravelmente negro... para onde quer que me voltásse eu não via mais senão grandes - Tosarios de lumes... por toda a parte o imenso anfiteatro me aparecia corrido de formigueiros de pequeninas luzes tremulas, cruzando-se, indo e vindo, desla-. cando, anroximando-se, como a prepararem-se para 0 saimento de Branca... Era a ciãade toda quê vinha: com tochas ao seu enterro! -— Então tomou-me uma “cobardia de instinto, um indominavel pavor. Quis fugir... porque a mirha cabeça como que ía a rolar para um abismo, despenhada pelo ar, duma altissima torre... e eu; junto com o arrastado lamuriar do ven-. to, via em torno de mim acrescer, a crescer ameaçadoramente, pronto a esmagar-me, o ciclopico montão. da casaria. — E aqui desatei pelas ruas fóra numa. carreira desgarrada e cega, tapando os ouvidos, sem: me voltar... Mas as casas cresciam na mesma, e impendiam, altas e negras, sobre mim.,. continuavam a perseguir-me os lacerantes bramidos do comendador, os clamorosos uivos do Tejo... e sempre a meu. lado tambem. vingativo, implacavel, vinha vôando o vento, carpindo nénias nas arvores, assobiando Er lamentações pelas esquinas. E Quando cheguei, con gestionado, exausto, ao lar- 4 go do Rato, e ía na mesma desapoderada carreira ao

atravessar para o Salitre, oiço de repente gritar com, furia: — Eh! eh! lôórpa... Ehl Estaquei... Um caleche, prestes a atropelar-, me, rasgou de impeto o ar, mesmo rente a mim, instantaneo como um relampago, e breve como um meteóro luziu, passou diante dos meus olhos. Não tão - rapidamente ainda assim, que eu não pudésse vêr E quem ja dentro... Iam, — que imaginas tu?... — “ia o Bolacheira, dedilhando arrogante a minha guitarra, e Alda ao lado dele, arrebatada, louca, em ca'* belo, dardejando-me ao passar um olhar impudente, " montada à ginêta na portinhola. -— Ah, putal... Foi a unica frase, formula suprema de abomina" ção, que eu tive alma de proferir, numa vertigem de odio, numa grande é assoladora vergonha; emquanto, pregado de pasmo e indignação, de punhos ao ar 3 - com os olhos em braza, com a vista eu seguia a diabolica e imprevista aparição, que estridulava já longe, * chispando lume no basalto, E Dea = AR

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Sinopse

Leia gratuitamente O Livro de Alda, romance naturalista de Abel Botelho e segundo volume da série Patologia Social. Edição Literunico em pt-BR moderno preparada a partir de fac-símile em domínio público, com teor adulto e crítico sobre degradação social, desejo e exploração.

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