Leia agora
O Livro de Alda

Universo da obra

O Livro de Alda

Capítulo 10 · O Livro de Alda

8 de março

10 de 17 ≈ 34 min de leitura

8 de março. Muito de caso pensado deixei passar três dias sobre a minha ultima carta. Como o artista que, duvidoso e incerto do resultado, temporariamente furta à sua vista fatigada a obra tocada de fresco, tambem eu quis deixar volver alguns dias sobre o que escrevêra, “para poder então no seu justo valor apreciar 0 quantum de paradoxo e disparate a minha tara degenera“tiva lográra instilar nos atropelados periodos que precedem... Eu estava a traçá-los, e ao passo que, rapida, febril, a mão obedecia ao pensamento, um vago instinto me segredava que não ia senão amontoando - grotescos e alinhando inconveniencias. Vejo agora que não me inganava... Faltou-me a serenidade; à fria linha imparcial de analise que eu me havia imposto formal obrigação de manter nesta “implacavel auto-dissecção, embrulhou-se, atraiçooume. Fartei-me de escrever destemperos, de malucar 47

asneiras. Batidas no alado steeple-chase do meu entusiasmo, as aberrações, os erros, as hiperboles galoparam na raçaga umas das outras, com a violencia rompante de esquadrões na refrega. —Nem admira... As mais das vêzes, duma insignificancia, dum nada, os cerebros doentes dos atribulados derivam á insania, á duvida; a propria hiperestesia funcional arrasta-os à aleivosa amplificação dos sentimentos, á visionativa deformação das coisas. E a minha alma, tão facilmente inflamavel, não podia a esta ética geral fazer exceção. Reatando... so Avisinhava-se o verão, com ele o risonho tempo das seroadas, fogueiras e descantes em honra dos três santos populares; e tanto bastava a servir de estimulo ao crendeiro arsenal da rapariga. Agora é que não houve meio de para mais tarde lhe diferir a satisfação dum pedido com que ela ha mêses me provava a paciencia. Queria ter um oratorio. — Era sempre bom haver em casa santos a que: a gente apegar-se, numa aflição. — Por forma que um belo dia eu lá me decidi a comprar-lhe um lindo oratoriosinho portatil; não um destes cacifos banaes, talhados em nogueira ou vinhatico invernizado e forrados a papel de sala, que são o relicario consagrado dos penates burguezes, e constituem a grande ambição mistica das costureiras; mas um fino, alto e elegante sacrario gótico, todo em cedro, que eu de acaso descortinei no meu sabido entalhador da. rua da Rosa, e que era encantador, com a sua alta cupula esguia, amparada em cabecitas aladas de anjos, terminando em baldaquino, com os seus fortes botareus oitavados, com as portas abrindo em triptico, mal amparadas, vanguejando nos en

gonços oxidados, e seus vestigios ainda de pinturas 'barbaras de martires sobre um fundo fôsco-doirado, saltando em escamas na madeira encarquilhada e fibrosa. Quando tal maravilha viram, os olhos de Alda, mstintivamente, sem mesmo lhe saber apreciar o raro e artistico valor, de pasmo e exultação duplicaram em tamanho. — O que aquilo disse que festa, que aleeria! — Na estonteadora impulsão do seu contén-. tamento, já me queria adorar a mim... Eu instaleilhe o oratorio sobre a comoda, depois de o haver forrado a velho damasco de sêda, em ramos, dum belo tom sanguineo, cuja gran a incoercivel fuligem dos seculos escurecêra, fazendo-o liturgico e dominical como um retalho de casúla, adaptando-o a primor para que désse o mais vantajoso destaque ás santas imagens de que eu ia povoar-lhe esse precioso escrinio rendilhado. — E fôram: um grande Senhor Crucificado numa cruz de pau santo, com peanha, onde Se viam incrustados a madreperola os emblemas todos da Paixão; depois, ladeando essa bela figura dominadora, a Virgem e a Madalena, rolando ao alto o olhar aflitivo e triste, de braços longos e os dedos entresilhados, duas primorosas figuritas em barro, incarnadas a branco, azul, vermelho e oiro, finissimamente modeladas, acusando fielmente, no vulto e na côr, os minimos detalhes, a anatomia, as roupas, as feições, os deditos, as unhas, e até no angulo interior das palpebras uma tenue gota de cristal figurando o coagulo das lagrimas; e um grande retabulo de téca filetada a ebano, com rosaceas de metal nos anguilos, dentro do qual avolumava um grosso coração de sêda côr de rosa, abrigando no centro, protegida por um

vidro, a deliciosa miniatura dum Menino Jesus em cêra, frêsco, redondo como uma guloseima, domindo amparado à mãosita o seu lendario sono redentor, num fôfo ninho de nuvens de algodão em rama alfi-. netadas de estrelas de oiro. E veio mais um Santo Antonio de porcelana, uma Santa Barbara de prata, um registo do Senhor dos Passos; mais ainda uma Nossa Senhora de marfim, já tostada e fendida, velho trabalho indiano, hem eva de três seculos, toda dum córte ingenuo, duro, impassivel, o têso acamo das roupas assentando num soclosito de pau sissó, retalhado de ornatos Duuicos. E depois ainda, com o crescer dos dias, o inventario das pequeninas coisas preciosas foi avolumado, na proporção que a sua piedade e o meu disvelo as iam pelos leilões e adelos descobrindo: reliquias mais ou menos autenticas, rosarios, bentinhos, um sino-samão, uma pedra de raio, escapularios, raminhos de perpetuas, amuletos, figas, orações, antenas de vaca-loira. Naturalmente, não me esqueceu fazer suspender do baldaquino uma pequena lampada de prata doirada; e ao lado, na parede, pendurar uma piasinha moderna para agua-benta, em biscuit, que era uma cruz de rosas, anemonas e violetas enlaçadas, com a sua concha á frente. — A pequena não cabia em se de contente, andava como doida de admiração, de entusiasmo, de alegria; e a cada santo novo que eu lhe trazia, a cada novo acrescentamento ou correcção que á sua piedosa mania o meu cuidado e o meu amor descortinavam, tambem na mesma medida ela me trejurava, entre beijos, carinhos sem conto, que cresciam o seu reconhecimento, a sua adoração, o seu amor por mim...— E, está de saber, queria ela agora sem

pre, noite e dia, a lampada acêsa, E na agua benta permanentemente mergulhava, para as aspersões, O requerido raminho de oliveira. Eu tambem, progressivamente, por efeito deste “constante incidir do pensamento e da atenção no meso e Ana Ee o E pad Ega E tá Elgin * E mo objecto, acabei p r dar-lhe razão... achava uma atracção e um incanto singular à minha obra. E é que: tu não imaginas como era belo, afinal! principalmente de noite... Estou a vêr como aquela sossegada e fria luz do azeite, depois de espelhada em macias irisações nas santas imagens, tendo riscado sobre o mar-. more da comoda um grande leque, scintilante e redondo como um resplendor, ia banhar o pequenino aposento num tenue luaceiro, tranquilo e austero, e lhe dava um recolhido ar de capela, um impositivo caráter de religiosidade brigando com o solto arranjo pagão da adjunta camara de dormir. Mas, ao mesmo tempo, como os caprichos lhe vinham sempre aos pares, entrou Alda de insistir comigo em que queria por força um animal em casa. Um ente vivo qualquer, que fizésse chiada... que désse alma, animação áquelas paredes. — Ai, filho! depois de tu saíres não calculas a sensaboria de morte que aqui vae...-— lamuriava, a justificar a lembrança, a rapariga. Discutiu-se com atenção e vagar 0 magno assunto. Reuniu o conselho de familia. E perante essa grave dificuldade domestica dividiam-se as opiniões de nós três, os alvitres choviam e eternisava-se esterilmente a discussão, sem haver meio de chegar-se a um “ acôrdo. — Um canario acordaria a gente muito cêdo; os cães eram muito porcos; pombos, se morriam ou fugiam, vinha azar à casa... Opinou-se afinal por

um gato. Mas o desalmado riscava os moveis, rasgava as cortinas, marinhava pelos reposteiros, roubava tudo o que fôsse comer, e irritava dolorosamente os nervos da rapariga com o seu aspero afiar das unhas nos pés da mêsa da cosinha. Em pouco tempo, foi posto fóra. E logo no mesmo dia em que o galego o levou, dentro dum saco, estrebuchando, mal que eu entrei, pela tarde, em casa, logo ouvi na sala de jantar o raspante grasnar dum papagaio. Arreliei e agastei-me, porque sempre nutri uma instintiva aversão por essa estupida ave, infatuada e palreira. A pequena, porêm, logo de roda de mim: — que não... que era uma embirração esta minha, sem fundamento. E que aquele seu papagaio era uma coisa singular, nunca Vista... melhor que os dois do Casademunt! muito manso, vinha comer à mão, dizia tudo quanto havia, cantava, assobiava... tinha imensa graça! E, insinuativa e meiga, aí me leva ela mansamente, pelo braço, té á casa de jantar p'ra eu vêr 0 bichoninho. De longe, cnamava-o «meu menino! meu loiro!» com a maior soma de mimalheira e ternura de que era capaz a sua natureza estremosa. O adunco animal respondia-lhe aguçando o bico, arripiando ariscamente as pennas. E ao lado dela a Eternidade, de mãos sôb o avental, sentenciosa, complacente, corroborava: — Ah, ter em casa um animal é muito bom... Pode entrar um ar, e dá no animal, não dá na pessôa. — Um ar, salvo seja! sabado de Nossa Senhora é hoje...-— acudiu logo Alda, num supersticioso pavor, benzendo-se. Eu sinceramente na ocasião lastimei que, ao menos essa manhã, não. tivésse entrado ali em casa,

antes do papagaio, o tão temido ar, que levásse p'r'os quintos o raio da megéra Assim, em tudo e por tudo, eu estava sendo o passivo joguete, o grande instrumento aquiescente e gostoso das leviandades, depravações e fantasias pueris da rapariga. Entre as suas amigas mais dilectas, ocupava o primeiro lugar uma antiga colega do Porto a Amalia, — escultural e perturbadora morena, rija, redonda, com essa côr hepatisada e calida das ardentes depositarias da paixão, a epiderme de setim e uns olhos de veludo. — Havia sido propriamente a sua mãe na prostituição, a sua iniciadora e mestra no vicio: do que lhe ficára sobre a pobre tutelada um claro e reconhecido ascendente. Conhecêram-se na sua primeira casa de perdição; e para Lisbôa tinham vindo tambem quasi uma a quando à outra. Alda estimava-a profunda e convictamente; era a suá confidente, a sua conselheira, o receptaculo leai dos seus segredos, a Egeria patibular do seu destino. Acatava-lhe a antiguidade na profissão, soíria-lhe a hipnose do temperamento. Em casa, v nome da Amalia andava sempre na baila, era citado cem vêzes ao dia. A proposito de qualquer coisa. -- Se a Amalia gostaria... ela era capaz de não querer... vamos a vêr o que diz a Amalia. —- Com ela tinha ido, no Porto, buscar o livrête ao Governo Civil... e num esturdio alarde infantil, quantas vêzes a misera me não contou como ela desceu nesse negro dia, vaidosa, arrogante, feliz, ao lado da outra, a rua de Santo Antonio, já com o imundo folheto no seio, e toda num bravo alvoroço, numa ancia de relatar a toda a gente, de gritar bem alto à cidade a sua recente pactuação com a vergonha, como se houvéra praticado a maior das

façanhas ou a melhor das virtudes! — Tinha 15 anos que querias tu?... Esta Amalia demorava agora à rua da Emenda, numa casa particular, a cuja industria ilícita a policia,. como tinha suas gostosas compensações, fechava in- teressadamente os olhos. Curioso... Homem nenhum ali entrava sem prévia apresentação; e a dona da casa era uma pretenciosa e tipica onzeneira, com o seu longo perfil de asceta, vergado e solene; o seu grande laço de sêda preta sobre o inseparavel chinó grisalho, destinado a vestir os estragos duma antiga e irremediavel alopecia sililitica; a sua grande verruga aflotando à ilharga do mento, a fazer base a um farto pinccl de cabelo; a sua face arregoada em pelhancas de asténia senil e de cansaço; o grosso nariz empastado, uns pequeninos olhos, falsos e inquietos, as suas mãos de palmipede e os seus modos bem falantes. Dizia-se muito apontada em melindres de pundonor, não consentia na sua presença palavradas, confessava-se e comungava todos os mêses, e não faltava um dia santo à missa. As pensionistas cnamavam-lhe mãe; para as visitas, para o mundo era a D. Eleuteria. Morria por conversar, e o seu maior sinal de simpatia ou consideração por qualquer, era o oferecimento duma pitada. Alimentava-se a café, arrastava penosamente as noites no tédio, no tormento sem fim de implacaveis vigilias... e no entanto sempre o mesmo inalteravel sorriso complacente os seus labios de cêéra e mel stereotipavam. Se ha categorias na crapula, se as diferenciações hierarquicas abrangem as ínfimas camadas, sem contestação esta. D. Eleuteria pertence á Aristicracia do vicio. Viva e inteligente, chegava a parecer erudita, facilmente E) ” id Sa a e SAP sado

aquecia na discusão e se apaixonava por um assunto. Então era de vêr como, na febre da convicção, do entusiasmo, a sua angulosa fealdade se multipli' cava... Rompiam-lhe os malares o pergaminho da epiderme, a testa era um revolto mar de escamas, os olhos duas ascuas de lume, a bôca um rasgão ao vento, e no vertice da sua grande verruga vibratil cada uma das crêspas cerdas tinha movimentos proprios tambem... todo esse arreliativo penacho branco falava e mexia, fechando, abrindo, torcicolando, espetando, inrolando-se, em crispaturas de insecto agonisante, em grotescas e formaes eloquencias. Pois, volta e meia, sobre o jantar, ficava-nos ali “perto... iamos lá. Eu condescendia, parte por cobardia moral, parte porque, atenta a relativa discrição da casa e a singular familiaridade de que desfrutavamos, eu podia afoito entrar e saír sem o risco de ser visto. Toda a casa era como nossa. A qualquer hora entravamos, pela porta escusa da cosinha, e já nos conheciam o tocar, ninguem fazia maior reparo. Alda ia logo ter diteita com a patrôa; e eu tinha de roda de mim, sem mau sentido, a farandoleira côrte das raparigas. Tratavam-me todas de tu, contavam-me seus pecadilhos de amor, faziam de mim confidente, oraculo, juiz, e estavam absolutamente proíbidas de me pedir dinheiro. Nessa data memoravel da entrada do papagaio em casa, Alda quis ir por força á noite à rua da Emenda. “Queria levar à Amalia a grande novidade. E eu ins-. tintivamente a recusar-me... Como o caração adivinha!... Afinal, ela tanto insistiu... lá fomos. — Entrámos, como de costume, para o comedor. A D. Eleuteria, que, sentada á cabeceira da mêsa, alinhava

com um baralho uma paciencia, arredou num pronto as cartas, mal nos viu, e jucunda e afavel já me fazia, praça junto dela, achegando uma cadeira. A despeito de toda a sua amabilidade e agrado, estava horrivel Banhada na crua incidencia obliqua da luz vertida do candieiro, suspenso do teto, toda a pavorosa ruina do seu perfil, avivada e longa, assumindo linhas de monstro, se exacerbava é crescia. Comtudo, dominando o melhor que pude toda a minha repugnancia, ocupei o meu logar... Ao lado dela, de antebraços cruzados sobre a mêsa, fazendo cama ao debil corpo alquebrado, amarfanhava-se uma franzina e esbelta rapariga, murcha, clorotica, raso o cabelo pela nuca e um forte cheiro a essencias fenicadas. Havia tido alta do hospital naquele dia. Passiva, muda, indiferente, o seu tenue corpo exausto gozava numa beatitude a voluptuosidade do descanço: o nos tristes olhos macerados vagamente lhe bailava o desgosto, a resignação pela rude faina que ela de força havia de ir agora ali assim recomeçar... Um pouco mais recuado que ela, junto á parede e ao lado do aparador pejado de cascas de laranja e garrafas vasias, O amante da Amalia, derreado e macilento, sujo, intonso, com o gato no colo e um prato adiante de se, ruminava agriões silenciosamente. E ainda, na cabeceira oposta da mêsa, um outro intimo da casa, o Bolacheira, — celebrado galanteador de viela, arrogante e vistoso valdevinos, de uma interessante côr biliosa, o buço incipiente, grandes olhos negros, sua mécha de. cabelo como azeviche puxada aos olhos, gravata á toireiro, calça Dôca de sino, polainas, — com a perna esquerda em descançu sobre o joelho direito, afinava distraído uma guitarra. Não obstante a sua assidui

dade ali, era esta a primeira vêz que nós o encontravamos. -- Havia um cheiro requentado a femea, complicado das perfumarias banaes do quimico da Trindade. Vinham de fóra trilos de risadas. Sentia-se 0 ensaboar de roupa na cosinha. A Amalia veio logo, da sala, sobre nós; c entre um cantado desbaratar de beijos, Alda apressou-se a perguntar-lhe, baixo: — Aquele é que é o Bolacheira? Ho, sim... — Ah... E depois, já alto: — O teu rapaz como vae?... — Queixa-se do peito... — respondeu a sinnpatica bruna, baixando por seu turno a voz. E depois, incarando o rapaz com mimo, e de modo que ele ouvisse: — Está uma boa lesma i Aqui, viu-lhe o gato no colo, e logo, correndo a enxotá-lo: — Válseu Belmiro, fóral... Ora o trastel Tornára para junto da amiga; mas não se poude ter que não voltásse a fitar o amante, dizendo-lhe num tom simultaneamente repreensivo e meigo: — Vae-me fazer essa barba... Pastell — O rapaz não se moveu. — Ah, não te mexes?... Não tens amanhã agriões! Nem esta ameaça logrou arrancar o interpelado à sua grande apatia insensivel. Automaticamente, O olhar parado, um vago ar sofredor na expressão, continuou no seu trabalho de ruminante, sossegado, impassível. Alda era agora toda interesse, efusão, carinho para. a anemisada e debil convalescente;

— Então, que tal te déste?... — Eu, bem... — Vontade de estar por lá mais tempo? — Ah! não... isso não! — O tratamento?... — interveio a Amalia. — O tratamento não é mau... As empregadas, o fiscal é tudo boa gente. Mas, ó filhas esta coisa de a gente comer em latas... vestidas que nera umas pobres de Gristo E depois, muita choldra, uma grande contusão... Não se vê quem a gente quer... Eu cá - Sempre lhes direi: via-me ali no meio de tanta soma de pessõas e sentia-me mais só do que aqui! Não sei o que me faltava... — E, com uma grande doçura na expressão, apertando o pulso da petrôa: — Lembrava-me da mãe... — Vá! vá! — acudiu com dignidade a D. Eleuteria, sacudindo-a. — E então que aquilo hoje é uma casa embruxada! — Grédo — exclamaram com terror Alda e a Amalia. — Já todas me pareciam almas penadas... Não se vêem pelos cantos senão mésinheiras com promessas, manigancias, feitiços, rezas... E então as coisas que aparecem de noitel... Eu A levava-as em claro, cheia de medo! — Mas então o que é!? — atacou a Amalia com vivacidade, indo sentar-se junto da companheira. — Conta lá! —ao mesmo tempo insistia Alda, com interesse, tendo-se sentado tambem, o queixo apoiado à mão e o cotovelo na mêsa. E a rapariguita, depois duma pausa, e não sem primeiro cautelosamente circumvagar pelo aposento a e de Saad RE SA RD SS A TRE NES A 1 O

“vista, numa intimativa solene, endireitando o tron+ co, aventurou: — Vocês não sabem?... a Marta? — Agneiras — atalhou repreensiva a D. Eileu, teria, prolongando o nariz e batendo o pé de impaciencia. — Ô mãe, já lhe disse! — contestou a doente com calor. — Não ha como a gente presenciar as coisas... -— Almas perdidas, valha-vos Deus! — Ó máesinha! não seja chatona... deixe ouvir] -- Pois esta Marta é uma grande amiga que nós temos no outro mundo — continuou, restabelecido v Silencio, a narradora. — Sempre pronta a acudir ao nosso chamado, coitadinha Aos homens, não. «e Só nos atende a nós. — Bem haja ela ' — Dizem que foi uma antiga colega nossa, que ali esteve e ali morreu... Na sua derradeira hora, perguntaram-lhe qual queria ela mais: se tornar a vêr o amante, se receber Nosso Pae... — Ves!? —fêz Alda para mim, radiante desta incontrastavel confirmação á sua piedosa fabula. — Ela disse que antes queria o amante. Pois logo morreu... E ao morrer deu-lhe tamanha ancia botou as mãos à parede... ainda hoje lá se vêem as "marcas, ao lado da cama Ninguem quer ir p'ra lá. “Não ha meio de as tirar... CGáiam, tornam a caiar.... isso sim no dia seguinte lá estão outra vêz. Já ao tempo, na quente e abafada cufaia, o audi“torio tinha aumentado. Como na sala de fóra não hou* vésse visitas, as mais colegas da doente, estimuladas e atraídas por uma ou outra palavra sôlta, que haviam Ra AM, fé

colhido, da narrativa, tinham vindo surrateiras aproximando-se; e agora, num eretismo patente da atenção, aí formavam circulo, umas de rôjo pelos moveis, outras sentadas no chão, de garupa outras ao alto, estendidas de Pruços sobre a mêsa, todas imobilisadas num ávido silencio espectante, todas cravando na emaciada figura da narradora seus grandes olhos interessados. A mesma cosinheira viéra assomar à porta, luzidía, redonda, nas grossas mãos escumantes um rodilhão branco de roupa, a escorrer. E o vago tamento em surdina da guitarra, que o Bolacheira não cessava de tanger, fazia às formidaveis revelações da rapariga um acompanhamento a proposito, dava, uma leve tinta de sobrenatural ás ie e e ignoradas coisas que ela dizia. — Oiçam vocês... — continuava ela. —A mulher aparece chamando-a com esta oração: Marta, Marta abençoada, Por teu amor te perdêste... Pelo bem que tu quiseste É que fóste desgraçada Que me venhas já falar O meu coração deseja... Bemdito e louvado seja O Santissimo no altarl — Linda — murmurou de extase a Amalia, rolando ao alto num bDeatifico inlêvo os olhos. A outra continuou: — Primeiro ha-de-se-lhe pôr de comer... Estense um lençol em cima da cama; põe-se-lhe pão, queijo, vinho e um talher em cruz. — P'ra não ser como ip'r'o diabo...

— Ouve! ouve! — tornou Alda para mim, toda inroscada e pequenina, acotovelando-se, prêsa dos labios da recenvinda. — Então, fazendo a réza, é certo! Vêm ela e uma filhinha santa, que tem... -— Alda olhava-me, triunfante. — O gás apaga-se logo... ouvem-se umas enxadadas no claustro... ela vêm, raspa nos vidros... e todas as mulheres, menos a que chamou, adormecem de pedra. — Ora adeus! — aqui atalhou, num sacudido rasgo incredulo, uma ruça esborifada e petulante, que irrequieta passeava ao longo da quadra, rilhando tremoços e bamboleando o busto lascivo. — Bem vêzes tenho eu estado: já no hospital, e nunca dei por semelhante coisa! a — Por que és uma grande estupida! — acudiu logo com azedume, na arrelia da contestação, a interpelada. — Nunca viste?... Pois pergunta á Luiza dos cafés, à Maria do Porto, à Giraldinha, á Petinça... a todas! A cousa é Dem sabida! — Pois já se deixa vêr! — apoiou uma das do rancho. — Ora se a doutora não havia de falar! — outra esfusiou ironicamente. Foi vivo e manifesto o desagrado daquele improvisado congresso contra a irreverente interrupção da lourêta. Esta porêm, sem responder e sempre peneirando-se, cosia ao canto os labios, num belo desdem altivo, e atirava como em desafio ao alto as cascas dos tremoços. E, desesperada, a D. Eleuteria: -— Vejam! vejam... Oh, meu Deus! mas que enxovêdo aquele!. — Olha, — tornava a pequena oradora, com ca

lor, — aí tens tu o que aconteceu com o fiscal an tes deste... Tambem talvêz queiras negar!... Veio uma vêz, a fazer de pimpão, mesmo ás escuras... estava a alma de Marta á beira duma mulher... e vae ele disse-lhe: « Oh, sua pôdre! vá-se deitar » Pois não foi mais nada... ouviu-se no dormitorio uma grande bofetada e o homem caíu p'r'o lado! Isto foi a uma sexta-feira... pois todas as sextas depois a Marta lhe aparecia. E o homemsinho foi mirrando, mirrando... até que morreu! — Grédo Virgem Santa! — conclamaram, num terror, as assistentes, algumas benzendo-se. — É verdade, a co'a Rosaria, empregada 2... -— voltou a oradora a confirmar. — Tu falas bem -— Que foi? que foi?... — Conta lá... — Essa tinha o costume, p'ra nos guardar melhor, de passar a noite sentada numa cadeira, ao cabo do dormitorio. Era uma velha cadeira de rodas, com encosto, que servira em tempo a uma doente. Pois, uma noite em que a Marta veio, tambem se fêz forte... mandou-a deitar. E sabem vocês o que aconteceu?2... De repente arma-se uma barulhada medonha por aquele dormitorio fóra! nem um terremoto!... Era a cadeira a rodar, a rodar por'li fóra, numa carreira doida... ela aí vae pelo dormitorio, pelos corredores, pelas escadas... não parou senão no claustro! A mulher, já se vê, tolheu com o susto. — Pudéra! — exclamou Alda, numa compenetrada vibração. — Pºr'ali ficou, na mesma cadeira, entrévadinha... e vae morreu logo que fêz um ano! -—- Eh, cal'te aí, mulher

ENO — Bando de tontas —. repreensiva resmoneou a D. Eleuteria, enviando-me um comiserativo olhar de inteligencia. Aqui uma alta e aparatosa judia, de longo rosto espiritual e um pequenino seio alado, espalmou com ruido a fina mão sobre a mêsa, e aprumando o seu corpo airoso e ondulante como um estipe de palmeira, com solenidade e vagar informou tambem: — Homem, eu cá não sei... mas, quando fui de casa da Castro, assisti a um caso bem exquisito.,. Havia lá uma pobre rapariguita... chamavamos-lhe “nós a Manjerica, — um fiosinho de gente, toda olhos - € cabelo, — que não tinha mesmo sorte nenhuma. Os homens engalinhavam com ela, a patrôa tratava-a iimal... eia pequena ralava-se Afinal, uma noite, por conselho da bruxa do Monsanto, mesmo ao dar das doze badaladas, — coragem tinha ela! — desce ao saguão, nua, esguedelhada, sem preparo nenhum, sente-se, e chama p'lo diabo... Pois logo veio um gatarrão preto aninhar-se-lhe no colo — Essa agora... — Vi eu, com estes!... E ela a fazer-lhe festas, e a gente de cima, da janela, a examinar... Parece mesmo que estou a vêr! Brrr!... Quando ela lhe passava a mão e lombo, os pelos do bicho chispavam lume E ante o fixo terror das companheiras, batendo nova palmada na mêsa, com decisão e fé epilogou: — Pois, senhores, dahi em diante teve muita sor“te... passado um mês, foi por conta!: Neste momento, a campainha da escada retiniu com furia. E logo, num brilho interesseiro de olhos, " a mãe a comandar: 18

— Meninas, p'r'a sala Num relampago o esturdio bando abalou, palreiro, alado, de tropel, com um têso e espumoso ressagar de saias, cada uma á compita disputando a frente, num picado taquinar de saltos pelo oleado. Mal que as viu longe, disse-me, afectando um ar superior, a D. Eleuteria: — Ouviu isto? É da gente pôr as mãos na cabeça! — Ignorancia... — observei eu, indulgente, p'ra dizer alguma coisa. — Qual ignorancia! — logo emendou, numa leve irritação, a minha austera e filosofal interlocutora, Sorvendo com impeto uma pitada. — Sabe o que lh'eu digo, menino... É mas é muita falta de religião E estendia-me aberta a caixa do simonte. Entretanto Alda, progressivamente desinteressada da conversa, fôra sentar-se junto do Bolacheira; e num grande e aplicado interesse tudo era agora seguir-lhe a harmoniosa gimnastica dos dedos pela guitarra. Não sei que flâmea tentação, que diabolico sugesto, que amavioso filtro irresistivel a trespassára.de repente... que o barbaro planger do canalha instrumento e a garatujada solfa do malandrim monopolisaram-lhe por inteiro a atenção, e eram naquele instante os pólos do seu querer, o norte regulador da: sua vontade... Manhoso, complacente, o marmanjão voltára-se para ela, e com atenciosas deferencias de mestre, com uma éarinhosa pachôrra como de velho conhecimento, demorava a pressão numa ou outra corda, para ela vêr bem, voltava atraz nos acordes, repetia-lhe os compassos. E ela: «que morrêra sempre por uma pi R ad cd E

guitarra... dava-lhe choque lá dentro! No Porto, quando estivéra co'o brasileirito, aprendêra alguma coisa... já arranhava o seu bocado. Mas, depois, parou... nunca mais! Uma pena... Já não sabia nada... tudo quer continuação » — Pois é continuar, que está muito a LeMPo A — verteu-lhe no ouvido o biltre, a meia voz, fitando-a muito nos olhos, com uma imperativa e dulcerosa expressão, com um metistofelico sorriso. — O Mario ouves 2... — rompeu de impeto para mim a zorata, num garrulo alvoroço, esperta, afogueada. E meigo demandava-me o seu olhar suplicante, em que eu via flutuando uma onda de desejo. Fiz querença de não ouvir. Mas ao mesmo tempo dizia-me a dona da casa: — Tu dizem que tens uma linda voz... — Tive; tive... — O mãe, deixe falar — emendou aquela peste da Amalia, que, vinda da sala, apontára á porta do corredor. — Ainda hoje... e cada vêz melhor! Quisésse ela cantar agora... Aquilo é uma garganta de prata! E — Vá lá uma piadinha... — rogou, todo insinuativo e adulador, o gabaçola, já dedilhando o fado, a estimulá-la. — Então — suplicou tambem a suave panegirista da Marta, deitando-a face nos braços em cruz sobre a mêsa. Alda não cabia em se de contente. Parecia outra. “Tonta de vaidade e de prazer por se saber o centro de toda a nossa atenção e interesse, e sentir-se do mesmo passo encaminhada a uma das suas mais absorventes e dilectas diversões, não lhe esqueceu no entan

to o fazer de modesta, e escusava-se... meneando & cabeça, torcendo as mãos e dobrando o busto, num garridismo perverso. — Invergonho-me... — Anda lá! — animei eu. Então a rapariga, tendo pigarrado E leve, levando a mão à tarjêta de setim da testa, compôs de ins-. tinto uma atitude de abandono e morbidez, e numa voz cheia, perturbadora e quente, -— voz que p'ra mim mesmo foi uma revelação... voz que era a formula integral do seu caráter, que trazia a gama toda dus abominações da sua alma, e em que gemia a fataidade sentimental da sua vida, — lamuriou: Minha saia azul-clara, Solteira te hei-de romper! Tenho um «mor pequenino, Quero deixá-lo crescer... Quande acabou, e arrastado e dolente o arquejo va ultima nota se perdeu no gordo ar ambiente, logo romperam, vibrantes, formaes, os aplausos; € eu senti molhar-me os olhos um indizivel invaidecimento, uma dôce e inefavel ternura... Fóra, na sala, estruciu tambem uma vigorosa estralada de palmas, flanqueada des abaritonados bis de varias vozes masculinas. O apático ruminante dos agriões parára a manAibula extasiada. Alda agradecia, invaidecida, arfando, baixando os olhos. A D. Eleuteria repetia-lhe — que fizéra grossa tolice em deixar o teatro. E, entretanto, toda esta pequenina apoteose cordeal mortificava-me os nervos; o seu declarado e legitimo triun- (EE a E Da

AR Io, como se fôra o prenuncio dum grande mal, agoniava-me... — Outra! — insinuou-lhe o faia. E logo aquele demonio, com um grande ar canalha:; Ó meu S. João Baptista, Valei-me, que bem podeis 1 Tirae-me as teias de aranha Aquillo que vós sabeis... Aqui os aplausos fôram delirantes, doidos, sem fim. Então, aflorando à umbreira da porta com a sua graciosa cabeça turbulenta, veio a ruça dizer: — Aqueles senhores pedem mais... por obsequio! secundámos todos, com calor. E a rapariga, no progressivo alôr do entusiasmo: — Então esperem... agora ha-de ser uma das minhas! E depois de recolhida em meditação um instante, franzindo o cenho, amão diante dos olhos, — emquan“to o interesse nos pregava a todos a atenção, e redonditas cabeças loucas vinham besbelhotar ás portas, — fêz signal ao tocador, e com malicia e decisão rompeu: Vae fazer dezoito anos, Minha mãe teve uma dor... Era eu que vinha ao mundo, P'ra vir ter c'o meu amor! E ao lançar o ultimo verso, astuta, apaixonada, a * Sua voz de incenso e mel tinha modulações estranhas;

assim como no felino esmalte das Íris, que a perfida erguêra ao faia, eu julguei vêr relampear um brilho concupiscente, uma gulosa e ardente PN que me pôs calaírios. Nova ONO A bravos, novas instancias para continuar, que ela soube no entanto habilmente iludir, de proposito demorando a sua dificil aquiescencia, a dar tempo a que por outros objectos se disseminassem as atenções, e ordem diversa de assuntos iôsse tema da conversa. Eu é que nunca mais tive sossego. A D. Eleuteria não cessava de me interpelar, pretenciosa e insistente, afeita como andava à minha bondosa complacencia. — Queria que eu lhe explicásse bem como é que fóra esta coisa da crise... quando voltariam as libras... e se com essa obra do governo mandar vir dinheiro de França, sempre se arranjaria que voltásse. ao menos à circulação a prata. — E mil baboseiras por este teôr, a maior parte das quaes eu nem ouvia, dolorosamente prêsa como me andava a atenção por outros cuidados. O esfalfado roedor, esse voltára impassivelmente à sua faina. E as raparigas todas longe... a não ser a emaciada doentita, que, com a face apoiada ainda contra a mêsa, adormecêra. Eu porêm, desnorteado, não desfitava os olhos do aleivoso grupo, em cujo atrevido arranjo, em cuja insolente e pegada aproximação como que sentia já a minha atual ventura fracassar, e em farrapos, sôlta e desfeita, toda a auroral visionação do meu futuro. -— Alda suplicára com delicadeza e AE LERSESO ao Bolacheira: — Deixa-me vêr?... Eu ainda talvêz me ageite. E agora era ela que empunhava a guitarra, e em

graciosas tentativas, num comico e adoravel desgeito procurava acertar os dedos, que todo solícito o rufião, com as mãos sobre as dela, carinhosa e longamente lhe ia levando ao seu lugar. — Mas que geito que tem! Que paciencia ll... — exclamava, num sorriso patente, a rapariga, mandando-lhe uma enternecida gratidão nos olhos. Ele olhava-a tambem, mostrando compreender... E eu sentia-me mal! Porque irrecusavelmente estava a vêr chispando naquela muda e ardente telegrafia uma galopante mutuidade de impressões, e uma inata comunhão de instintos e desejos, que podiam muito bem vir a ser a implacavel derrota da minha primazia no coração de Alda e a anulação formal do nosso amor! A certa altura, não podendo mais e querendo ata“ lhar no começo o incendio, um pouco bruscamente,. ergui-me... Pretextei um incomodo qualquer e saímos, quasi sem me despedir de ninguem, com o pêrro aquiescer da rapariga. Depois em casa dela, essa minha noite foi infernal! Não atinava na cama com uma posição, tinha agulhas na alma, corriam-me formigas nas veias... Abria os olhos e na penumbra vinosa do aposento dançavam-me, hilariantes, enormes, as figuras perversas dos dois, petulantes e vivas como num efeito de teatro ou numa rubra luz de forno, fulminando-me com suas miradas de escarneo, fundidas cabriolando em sensuaes amplexos... Então sacudiam-me estremeções de dor, exasperados impetos, raivas indomaveis. E mais me aziumava O mal eu reconhecer que, infelizmente! o desassossêgo não era só meu... Tambem com o sono rebelde, dava. Alda tento dos meus menores movimentos; e a cada “passo, contrariada, estranhando, interpelava:

) — Que diabo tens tu hoje! que não sosségas?...: No dia seguinte, quando á tarde Voltei, para o jantar, achei-a distraída, nervosa... ou não me ouvia, ou respondia por monossilabos, sêcos, breves, como de quem não quer que lhe desviem de qualquer absorvente preocupação o espirito... e não fazia senão chegar às janelas, atirava com as coisas, não comeu, por pouco não despede a criada. Propondo-lhe eu sossegadamente não saímos aquela noite, deitarmo-nos cêdo... logo rompeu numa clamorosa oposição formal: — que farta de solidão estava ela não nascêra p'ra freira.... queria divertir-se, tomar ar, saír — Submeti-me. E ela então, emquanto se arranjava, continuou desbaratando os mesmos bruscos signaes de impaciencia. Tudo lhe faltava, não atinava com o preciso. E logo de gritar: «Os meus ganchos? o leque? o chapéu? os cigarros? as luvas 2...» E nós de roda dela, atarantados, servís, procurando, obedecendo... Porfim, quando prontos, lá fômos, a um teatro, e a outro... Em nenhum estava bem Ao outro dia, não se calava com a guitarra. A abominavel lição do Bolacheira acordára-lhe sopitadas predilecções, trouxéra-lhe a aspera saudade.do seu grande furor antigo. — Que rico tempo! Então nada lhe faltava... Todos ficavam perdidos, ao ouvi-la... la gente de proposito... Porêm agora... que pena Perder assim uma coisa p'ra que tinha tanto geito l... É que então valia ela alguma coisa... tinha quem lhe adivinhásse as vontades... Foi o unico tempo feliz da sua vida — E com os labios franzidos e os olhos humidos, de repente arrancava de ao pé de mim e seguia, corredor fóra, na derivação do movimento procurando um dique ás lagrimas, em que grosso ameaça

va diluír-se aquele seu violento capricho insatisfeito. A termos que eu, afinal, apiedado, e um pouco tambem no ingenuo designio de reganhar-lhe exclusivo e completo o coração — vaes vêr! — regalei-a com a surprêza de lhe levar á noite uma deslumbrante e magnifica guitarra, de chapa de léque, téca, pau-rosa e ébano, com embutidos, — o mais caro e melhor que incontrei. A alegria dela foi infinita... Que de protestos, que meiguices, que carinhos. E o espalhado que aquilo fazia! Saltava batendo as mãos. Fêz acender quanta luz havia em casa, queria beijar-me os pés, foi em acção de graças rezar ao oratorio. Já essa noite não quis sair. Horas e horas aí esteve embevecida, alheia a tudo o mais, doida de contente, mirando e remirando, ensaiando a voz, encordoando, afinando... E, infantilmente, quis adormecer com a guitarra ao lado.

O Livro de Alda

Sinopse

Leia gratuitamente O Livro de Alda, romance naturalista de Abel Botelho e segundo volume da série Patologia Social. Edição Literunico em pt-BR moderno preparada a partir de fac-símile em domínio público, com teor adulto e crítico sobre degradação social, desejo e exploração.

O Livro de Alda

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Ir para o carrinho
Mercado de O Livro de Alda

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral O Livro de Alda Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
0Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 10 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir