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O Livro de Alda

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O Livro de Alda

Capítulo 15 · O Livro de Alda

21 de março

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21 de março. ' Da ultima vêz que fui a casa da D. Eleuteria, de. parei com episodios imprevistos, estavam-me reserVadas bem amargas e dolorosas surprezas... Nessa noite, como já aspero apontava o frio, a dona da casa estava numa aconchegada salêta, pequenina, cheia de estofos, contigua à sala de comida e num extremo do corredor, donde eu enfiava na outra extremidade os espelhados azulejos e o trem reluzente da cosinha. Pois neste scenario comesinho e banal, neste retalho de habitação cosmopolita e mercenaria, esperavame o repulsivo desinrolar de algumas cenas extravagantes, que seriam magnifico tema desopilativo a um espirito despreocupado, mas que na mortificada ancia da minha alma se desdobraram em pesadas circuições do pesadelo. Sentára-me eu, surrateiro e familiar, num pequeno tamborête, cérce com a chaise-longue onde se estatelava a fantasmatica bisarma da patrôa, e dispunhame a encetar manhosamente o meu interrogatorio, quando da cosinha veio a mim uma grande ruina de "homem, todo vestido de negro, com seu ar marcial, claudicando, grossas opacidades brancas desorbitando-lhe dos olhos, —o qual se acomodou então diante de mim, sorridente, humilde, no evidente proposito

de me conciliar o favor, com um afectuoso respeito e mansos gestos dulcerosos. — É meu irmão, —- apresentou a D. Eleuteria. — Aquele de quem já por varias vêzes lhe tenho falado. Cortejei levemente, num distraído ar de polida indiferença. E ele logo a achegar imperceptivelmente a cadeira, firme no empenho de entaboilar conversa. Como porêm, ao tempo, entrásse do comedor a Amalia, apressei-me a interrogar: —. Então, minha tonta, que noticias me dás da tua amiga?... —.Sei lá — observon de malicia a incantadora bruna, com um brilho de maldade no veludo humido da pupila. -- O sr. é que deve de saber ” -- Hoje mal a vii = Pi de Dia Dhca E nas costas dela as cabecitas loucas das colegas,: agrupadas como num painei, riam de mim descaradamente. E no fito scrna de me interpelar, arrastava manso a cadeira o velho e encolhia as pernas. A este tempo, uma fumarada nauseante e espessa, lufada do corredor, invadia sufocadoramente o aposento. Olhei assustado, a inquirir... Lá longe e em frente a mim, uma alta e elançada coluna de azul, como a flôr do lotus, nascia dum fogareiro crepitante, poisado em baixo, sobre o ladrilho escaqueado da cosinha, € subia, subia e engrossava, aberta numa como umbela de renda, perdida em sôltas e algodoadas vol- “tas. — Tratava-se de alguma réles mesinhice. Pergun- tei se estavam queimando alecrim? 1 — Qual! É mais alguma coisa... — explicava- me, com um leve ar de desdem, a D. Eleuteria. — Estão ali a arder quatro ingredientes: cocas, estura

que, incenso e alecrim. Dizem que é bom p'r'as raparigas se defumarem... p'ra desenguiçar a casa, La coisas delas! E com efeito. -— Agora o endiabrado rancho, num belo agrupamento gentilico lembrando os frescos etruscos, fazia roda à fogueira; e logo a seguir, daudose as mãos, desataram em tôrno dela numa atabalhoada carreira, em espiraes de capricho, impetuosas, loucas como bacantes, sofraldando as batas, os pés no ar. o cabelo ao vento... encabritando-se, pinchando, salvando o fogo ás canchas, recebendo num supers“ticioso regalo o banho propiciador do fumo, por entre um ruge-ruge atroador de sêdas e na engomada alvura das saias projecções iascivas de longos jarrêtes negros... -— Eu gozava, incantado, o imprevisto e picante espectaculo. Surpreendente de petulancia, —* vivacidade e graça! E assim em globô e longe, no vago atenuamento do fumo e da distancia, aquela vertiginosa dança tomava não sei que demoniacos, sobrenaturaes aspectos... era com um delirio sordido de sabbath, a nebulosa e opressiva visionação dalguma grande e imunda pantomima. No mesmo epilepsiado afan, as raparigas lá ro dopiavam, rodopiavam sempre, agora cantando em côro, numa toada mecanica de colegiaes rezando a lição, esta cantiga alegorica: Assim como as cocas Cocaram os peixes do mar, Assim as cocas coquem os homens, P'ra eles de mim gostar, P'ra com eles bom dinheiro ganhar, P'ra com ele comer, beber E pagar a quem devêr... Em louvor do S. S. Sacramento do altar!

Depois, uma por uma, vinham, á mesma saléta: onde nós estavamos, desincantavam de sôb a chaisetongue um enorme chifre de carneiro, já esboroado e rombo dos maus tratos, e dando com ele furiosa-. mente, ás mãos ambas, contra a parede, contra as portas, iam numa credula alucinação clamando: Corno [ cabrão Dá-me dinheiro, fortuna e pão! E logo o chifre para o chão de arremesso; e elas de roda outra vêz da cabalistica fogueira, que agora a cosinheira, de cócoras, assoprava, do puniceo refdexo dos tições luzindo-lhe apopleticas as bochechas. Entretanto, sempre o velho conseguira fisgar ensejo para me prender ao seu importunador dialogo, e numa timidez insinuante aventurou: — Ora vossa excelencia desculpará... mas eu, sim... eu já ha tempos que ando p'ra lhe fazer um + pedidosinho... — Se fôr coisa que esteja na minha mão... — Ora se está! Com a linda posição que o sr. tem! com as suas relações... — Tambem digo.. — obtemperou, muito afavel, a D. Eleuteria, oferecendo-me uma pitada. — Vamos então a saber...? — Eu fui militar, sabe vossa excelencia? — Doze anos, menino! — corroborava com inti- mativa a irmã, premindo-me o cotovelo. — E sem uma nota, pósso-me gabar! "Tenho a minha baixa limpa. — Felicito-o — Agora o que é, é que aproveitei mal esse tempo... não passei de anspeçada. Hoje tórço a orelha e não cH

me deita sangue... E os tempos vão tão maus! Já não pósso trabalhar, não vejo nada... Quem me vale é minha irmã... — É amiga, hein 2... — Não faço mais que o meu devêr. Mas tambem que pósso eu?... Os ganhos são poucos! — De sorte que se o sr. me arranjásse a eu entrar para veteranos... — Da melhor vontade, se eu pudésse influir p'ra isso... — acudi, já contrariado. — Mas, Lem vê, eu não sou militar... E o carracento invalido, num patente ar de lisonja inveredada á minha simpatia: — Ah, quita que o não seja Isso é a mesma coisa... Querendo vossa excelencia... E não largava de me importunar, de perfeita inteligencia com a irmã, lamuriando as suas precisões, gemendo os seus achaques; à termos que a sua pega; josa obstinação em me causticar com um assunto tão descabido ali, tão fóra das minhas previsões, tão ulkeic ao meu cuidado, deliquescia-me as ideias, punha-me um grande pêso doloroso na cabeça, desorientada já pelo fumo, as enervantes emanações das drogas no brazeiro, e o descomposto farandolar das raparigas. — As quaes, incansaveis, coleantes, cabriolavam sem cessar e do mesmo passo iam cantando o seu simbolico aranzel, com variantes como esta: De oiro eu tenha um tesoiro, De prata eu seja farta, E cobre pra me governar, P'ra esmola aos pobres dar... Em louvor do S. S. Sacramento do altar!

Depois, invariavelmente, o caprino exorcismo es-. trondeava: Corno: Cabrão Dá-me dinheiro, fortuna e pão! Emquanto eu arreliava, engolfado na comovida consideração do meu infortunio; e com um ar desenfastiado e superior a D. Eleuteria assistia 4 cerimonia. Aproveitando comtudo um momento que me pareceu mais asado, e inclinando-me ao ouvido da aparato. sa megéra, confidenciei: — Jntão, já nem tambem o Bolacheira sap — É verdade — Essa quantidade constante da casa... Ela teve um risinho inteligente; e voltando à apertar-me o braço, com os olhitos sumidos e o pincel da verruga crêspo de maldade: -— Ail meu tontinho... Que dor que aí vae: - — E como eu, vexado e por um resto ainda de orgu lho, me conservásse silencioso: — Mas então?... Eu não percebo nada! Que demonio de vida é essa de VOCÊS 1 fis —. Sei lá 1 — exclamei, com lagrimas na voz. -Um absurdo um inferno! EE Rg Agora o esturdio rancho das iniciadas grupárase de roda de mim, e, tagarelas, trocistas, ofegando do seu desconchavado exercicio e involvendo-me num banho de capitosas exsudações animaes, achavam seu voluptuoso prazer em flagelar-me de inquirições sobre a minha sorte, num regalo evidente, nos seus risitos maus vibrando uma sublinha achincalhante de vindita. dy

— Então, era uma vêz uma Alda 2... — Fez por lá lua nova?... — Meu rico, tem paciencia O que Deus quer, santos não rogam... — Aquele empelamado do Bolacheira é um homem feliz! —lLàá estão vocês com asneiras; — aqui acudiu logo a Amalia, num enfado hipocrita. — A Alda era incapaz duma ação dessas... conheço-a Não levan-. tem falsos testemunhos! — Pois olha que da fama já se não livra P—observou brutalmente a ruça do cabelo esborifudo. — Nem ela, nem ele! — Que tambem devo dizer.. — tornou a Amalia, pausadamente e fitando-me com uma expressão singular, como quem queria preparar-me — se tal acontecêsse, não era admiração nenhuma! A rapariga, no fim de contas, é livre... ele não é feio rapaz... "E agora está sem murmita, De sorte que... se à coisa calhar... — E então aqui o nosso engenheiro não é ninguem?... a — Ah, eu teria muita pena que tal viésse a acontecer; mas nestas coisas do coração é com'o outro que diz: não ha lei que regule onde o querer não: queira! De mais a mais, O raio do rapaz tem muita aquela com mulheres e anda mal acostumado! Olhem vocês que esta ultima amante, que ele tinha, dava-lhe sete tostões por dia e um fato novo no verão, outro no inverno. — É barro?... Pois ele mesmo assim fêz-se de manto de sêda... largou! — — Só o meu Puntaré não me aparece — exclajmou, num grande arranco de aflição, uma loira ma

grita e pequena, que num principio de amolecimento espinal vinha entrando do comedor, arrimada á parede. — E eu dava-lhe tudo o que ele quisésse ainda que tivésse de o roubar! — Ó mulher!... — atalhou repreensiva a dona da casa. --- Palavra mãe... Não pósso não pósso viver sem ele!... Eu indoideço, eu mato-me — Boa vae ela! Matar-te p'ra quê?...— censurou com desdem uma trintona, enxundiosa e flácida. — P'ra te acontecer com'a mim, que fiquei com o estomago estragado, e agora nem pósso beber vinho nem comer salada! Olha que preparo! -—— Não te rales, mulher! — disse á loirêta compassivamente a incredula ruça. — Deixa que ele cá te. virá marrar... Tenho essa fé! -— Porque não vaes ao Monsanto, á bruxa? Baixou a pequena meditativamente a cabeça, num grato silencio de aceitação. E logo esta mesma ideia, como um relampago, se me apegou ao espirito. — -— Porque não havia de eu ir lá tambem? Ha tanta. coisa, afinal, assim... O mundo invisivel, sobrenatural tem sua existencia real, não ha duvida... cada dia aí surgem da sua espírita influição provas iniludiveis, reaes, maravilhosas. — E todo eu agora, alheado, aquecido, era dar-me à tirania desta bela, emancipadora ideia, quando arreliativamente o gorado anspeçada, que se erguêra na intenção de saír, voltou a renítir no seu estrambotico espenho: — Então vossa excelencia sempre quer que eu traga um memorialsinho?... — Oh, homem traga o que quiser! — respondi. com mau modo.

— Perdoe-me, se sou massador... mas é uma grande esmola que me faz Simultaneamente, a ruça aconselhava à amante infeliz do Puntaré: — Não me cáias em araras Deixa lá o Monsanto aos coelhos e ás perdizes... O que essas intrujonas querem é comer O que deu ensejo a que a D. Eleuteria me oferecêsse: — Olhe, snr. Mario, aí tem... Faça o que pudér a meu irmão, que eu, se o menino quisér tambem ir consultar a bruxa, o que pósso é dar-lhe um papel de recomendação. Sabe que lá não entram homens Pça — Estou capaz de aceitar... — disse eu, depois "duma pausa, brilhando-me nos olhos um alento de confortadora esperança. — Não me faltava vêr mais nada! — rompeu a ruça, num rasgo de sincera indignação. — Ora espera! — E como quem toma uma resolução, O seu vulto airoso e petulante desandou rapido pelo corredor, sumindo-se. Quasi logo a seguir, a troça irrequieta das raparigas, leves da sua inconstante vivacidade de impressões, foi desertando de ao pé de mim. Tambem o importuno velho entrára com a irmã para O comedor. De “sorte que eu estava inteiramente só, quando, dahi a minutos, a rucita voltou, inquirindo a casa com olhos cautelosos, e trazendo oculto na mão, espalmado contra a saia, um pequenino objecto branco. Ela então, vendo-me só, e depois de novamente assegurar-se de que não tinha testemunhas, aproximou-se breve e segredou-me: — É preciso que deixes de ser tanso QUYISLe NA

= BRTÃO sia — O Bolacheira fêz anos um dia destes... — aclarou ela, num rasgo de generosa decisão, olhando seimpre com desconfiança as portas. — E vae trouxe p'r'aí assim as prendas que recebeu... Pois entre elas, ao de cima duma caixa de lenços, vinha isto: É passou-me pronto para a mão um grende e aparatoso cartão de felicitações, macio e luzente como « marfim, as arestas profusamente rendadas, tendo a palavra — PARABENS — em caprichosas letras de oiro, entressachando com sôlta elegancia um farto mólho de cravos, perpetuas e amores-perfeitos. — Sem nada perceber ainda, eu olhava maquinalmente esta ofertoria banal, quando, sempre em voz baixa, a FApARa me comandou: — Volta. No verso Avis isto escrito, em duas linhas sinuosas e dificeis: Pesso-lhe que aceite o que mais estime d'esta que mui- E to lhe quer.; Fiz-me lívido,.. E observando-me, rejubilada, triunfante, a obsequiosa delatora interrogou então: — Corheces a letra?. M Não havia duvida! Parecia de Alda, era efectivamente de Alda essa caligrafia barbara, irregular... Aí tinha eu tudo bem claro agora! Ali estava toda a caritativa e afectuosa paciencia do meu ensino, frutificando naquela traição... ali estava a laboriosa - primícia das minhas lições infamemente ofertada ao seu novo amante

Estás a vêr o meu primeiro cuidado, no dia seguinte. — Era uma sexta-feira, o dia oficialmente votado às consultas da afamada sortilega de Monsanto. Logo de manhã cu entrava em casa da D. Eleuteria, e dela obtinha uma penhorante e expressiva carta de apresentação, una qua!, depois de lisonjeiras referencias á minha pessõa, se rogava à celebre embusteira tuda a atenção e empenho para o que eu pretendêsse. E ainda a minha amavel patrocinadora me recomendou que tomásse cuidado ao aproximar-me da misteriosa furna onde se acoitava esta nossa mercenaria Egeria fimde-seculo. Não seria mau ir munido de um bom bengalão. Perguntei-lhe se por ali havia gatunagem?... Que não; mas era por causa da canzoada... uma formidavel matilha de vinte e um cães, grandes como avantesmas, ferozes como lobos, prontos logo a agredir, dando fé de quem quer que se aproximava, e que “formavam assim em torno á lendaria estancia um Tespeitavel cordão de isolamento e defêza.. Ao anoitecer, armei-me com um grosso e nodoso pau cerquinho, propriedade do meu companheiro de casa, e, cheio de confiança e interesse, parti... Tomei direito a Alcantara; e aí, passado o Galvario, a rua da Créche, e tendo subido boa parte da calçada da Tapada, enfiei então à direita, e subindo - sempre, pelas terras. Assim fui atravessando longamente, enibaraçado, incerto, numa aguda hesitação não isenta de receio, grande extensão de terrenos vagos e estereis, o esmadrigado flanco desse triste vale, vulcanisado e fendido, todo acusando a tragica ruina de antigas convulsões, com eflorescencias brancas como ossadas, com grandes rasgões vermelhos como bô

cas de feridas, e em cujos terrosos tortoméêlos os meus pés magoados tropeçavam a cada instante, na indecisa luz do crepusculo, que apenas uns tenues iaíivos de amarelo sujo no adormecimento negro do céu alu- miavam. Tendo andado bem dois Kilometros, divisei então, formando um pequeno rectangulo tarraco e negro no cêrro dum comesinho oiteiro, a sibilina casa que demandava. Sim, lá tinha esta as duas oliveiras ao lado; num môrro proximo, à esquerda, luzia bem ainda, em branco, a prismatica projecção dum marco de referencia para a barra; e á direita e ao fundo, com valentia cortada no horisonte, avolumava a arcaria colosal das Aguas Livres... Certamente era ali. — Dispunha-me eu a avançar, esperto o espirito da mais intensa e picante curiosidade, quando, num alarido de ensurdecer, aí desce das cercanias da casa o de:apoderado tropel dos mastins, despedido contra mim, raivoso, implacavel, desfeito em furibundos latidos que acordavam furias irmãs nos casaes distantes e agressivamente multiplicavar; pelos ecos das quebradas. Então, não tive mais remedio, parei, e de olho atento e mão leve não cessava de brandir em volta do corpo o varapau, bradando-lhes alto e com imperio, a conter em respeito a distancia a matilha, cujas prêsas brilhavam ameaçadoramente na escuridão, emquanto sanhudos os olhos eram vivos como lanternas. Nisto, um matulão saíu do casebre e desceu, impondo-lhes silencio. Quando me enxergou, logo de regougar com desconfiança e mau modo: — Que é que quer?... Aqui não entram homens — Tenha a bondade de vêr... — respondi eu com firmeza, estendendo a carta. DD ps 4

O marmanjo veio a mim, tomou a carta, examinou-a avivando a mesma braza do cigarro que trazia ao canto da bôca; e, mal conheceu a letra, acudiu logo a dizer-me, todo solícito e afavel: — Ah, queira desculpar Venha dahi... Enfiou o braço no meu, conduziu-me confiadamente acima; e já eu ia rodeado da malta dos lebreus, aquictados, farejando-me. Assim enirei á recatada mansão do oraculo, cujo exterior eu tive num relance ocasião de verificar que não passava duma trivial e modestissima barraca, terrea, oblonga, seu obrigado parreiral à frente, e ao lado da porta, prolongando, alta e maciça para o céu, a parede, uma grande chaminé mourisca. * Egualmente o interior pouco de particular acusava... pouco que afirmásse de um modo frisante, in confundivel, o seu clandestino caráter, a transcendente e aziaga feição do seu áestino. — Imagina tu Jum grande quadrilongo, pobre e uu, de paredes mal passadas a cal, grossas manchas ruças de pó nas saliencias, devidas à imperfeita junção das pedras subjacentes: longe a longe, o esguío traço de raras frestas dando para o exterior; e imediatamente por cima, sem cornija, sem o mais elementar ornato, e como que fantasticamente recuado na vaga atenuação da sombra, e descarnado cavername do teto em osso, ' nodoso, irregular, com o negro bracejamento das vigas a descoberto. A luz era escassa, intercadente, espessa, e dançava anamorfica pelo aposento, dando aspectos sobrenaturaes ás coisas, formada como erá pela lívida e tremula fumaceira de quatro simples candeias de petroleo, suspensas em arame das asnas do telhado. Do fundo alvacento e monotono das pareO]

des cabalisticamente destacavam, pregados ao acaso, temerosos perfís de sapos, lagartos, morcegos, cobras, toda a zoologia da superstição, grandes saurios monstruosos, dispostos por uma forma acidental e caprichosa, como sendo alucinadas visionações de pesa- delo, o pavido delirar duma imaginação enferma, — usão esta que a oscilante luz das candeias, passean- do-lhes os contornos, emprestando-lhes movimento, E mais sugestiva e intensa tornava ainda... Na parede á direita de quem entrava, rasgava-se uma porta de comunicação para o interior, mesquinhamente resguardada por um simples reposteiro de riscado. Um pouco à frente dela, e correspondendo proximamente ao meio da parede, havia uma velha mêsa, com os pés mascarados por uma baeta negra, tendo em cima dois haralhos em cruz, uma pequena caixa de folha com tampa de vidro, papeis soltos com orações impressas, fragmentos de ossos e um grande môcho A empalhado. Ao lado e rente à mêsa, notava-se ainda uma tósca poltrona de pinho da terra, com o assen- Ro to de pau e espaldar, tendo à frente no chão uma pequena esteira. Se olhava á esquerda, eu via o vão da + gigantesca chaminé completamente atulhado de mólhos de hervas milagreiras, pequenos embrulhos brancos, ferraduras, saquinhos, cornos, sal, amuletos, livros de sinas. Ao lado, junto ao alizar, uma caixa de madeira verde, especie de cofre, pendia dum prégo. Havia quantidade de gente pelo aposento. Por toda a vasta extensão do piso, pavezado de ladrilho vermelho, arrastava uma nojosa e mesclada porção de mulheres, na maior parte andrajosas, humildes, tressuando miseria, sentadas pacientemente sobre os calcanhares, como escravas, os longos rostos sofredores

' ocultos no rebuço plebeéu dos lenços, umas com crian: ças ao colo, exasperadas outras alongando à frente do joelho os braços... aqui, ali a pinturíla irritante, O libertino traço decorativo das mulheres de prazer, ou o garridismo pelintra das costureiras... e todas formando no pardo anonimato da penumbra um sujo e confuso amontoamento, uma nublada e gordurosa mancha, da qual sómente, febril e vitreo, ressaltava, erguido confiadamente com fito á porta, o lume anciado dos seus olhos. Mal que entrámos, disse o meu introdutor, a meia voz: — Veio em boa ocasião... A consulta vae começar. E adiantando-se no casarão, desapareceu pela misteriosa porta do reposteiro. Eu então por instantes tive ocasião de observar esse extravagante conclave feminino, que, ao vêr-me entrar, um ligeiro arrepio moveu de estranheza e sobressalto. —- Como eu as estou a vêr, agora mesmo, as desgraçadas Como funda e perduravelmente se me gravaram na alma os episodios dessa atormentada, memoravel noite! Elas olhavam-me, olhavam-me intrigadas... e de caminho segredavam-se coisas. Do seu insalubre amontoamento erguia-se um nauseativo cheiro, feito de licenciosidade, miseria, doença e “desmazelo. E O seu maguado respirar comum tinha o "que quer que fôsse de opressivo e triste... era como que a indefinida prolongação dum gemido. Nisto, colhida por mão invisivel, a discreta cortina franziu ao lado, e entrou no aposento solenemente a bruxa, —- uma longa figura macilenta e espectrai, com um feitio de estatua, inteiriço, impassivel, avançando numa demorada cadencia, em leves passos silenciosos, hirto o pescoço, a bôca entreaberta, os olhos. sem brilho, e erguida ao alto num meditativo extasi a cabeça, onde liso o cabelo empastava em dois far- tos bandós grisalhos. Ladeavam-na de respeito duas figuras: uma criança franzinita e triste. de grandes olhos sonhadores, e o esperto matulão que tinha ido ao meu incentro. Quando a viu aparecer, 0 implorativo circulo das mulheres agitou-se, teve uma conso-. lada expiração de alegria. E entretanto a singular fi-. gura vinha avançando, vagarosa e solene, rigidamente envolta numa negra estamenha talar, como uma monja, um simples lenço branco em cruz sobre O peito, os olhos baços, sem luz, amauroticos, alheados, neste contínuo bater de palpebras peculiar aos cegos, e as longas mãos nodosas projectadas com cautela á frente,. solícitas, tateando... val Chegada junto à poltrona, ageitou-a, sentou-se; e numa atitude de esfinge, sempre à frente as mãos sobre os joelhos, numa voz mansa e doce saudou: — Boas noites! Salve-as Deus... Vêem então todas, cheias de simpatia e de fé, ter comigo... Mau sinal é esse... Prova de que lhes não corre bem a vida! Um aflitivo côro em surdina, de suspiros, lamentos, lagrimas, foi a esta amistosa saudação O irreprimivel comentario. E a velha pitonissa, a confortar: — Então então! nada de aflições... Tenham paciencia, resignação, conformem-se... Quem é que não tem seus maus passos neste mundo?... Vamos! Jesus Cristo deu o exemplo... Nós já vamos a vêr se eu lhes alcanço o favor de darem algum bom geito à vida... Mas, antes, devo de explicar-lhes mais uma vêz.., eu não sou nenhuma criatura amaldi-

çoada, não mereço os nomes feios que me chamam os jornaes, não tenho pacto com o diabo... O meu poder está todo nisto — Aqui o pequenino anjo passára-lhe da mêsa para as mãos a caixa de folha com tampa de vidro, dentro da qual agora a cega nos mostrava, boiando em agua e mole vermiculando seus numerosos tentaculos, um repugnante e inclassificavel animalito, especie de feto abortivo, gelatinoso, informe, sacrilega e torpe mistificação obtida não sei por que complicado e genial artificio. — Isto é o meu mestre! o meu inspirador... neste pequenino e delicado manipanço está toda a chave do meu saber, todo o Segredo da minha fortuna! As mulheres iam de rojo pelos tijolos, aterradas, credulas, examinar... e, segura e contente do seu prestigioso efeito no auditorio, ia a bruxa continuando: — Está vivo! sustento-o com aço moído, terra de cemiterio e lascas de barba de baleia, raspadas nos espartilhos das mulheres perdidas... É um ente mak “ravilhoso e fóra de todo o preço! Adivinha, cura, faz f milagres! Mas não é privilegio meu... Qualquer de: * Vocemecês pode, assim como eu, obté-lo... O que é, é que custa um bocado! Precisamos trazer debaixo do braço um ovo de galinha, galado, por espaço de nove semanas... Não lhes levo nada pelo segredo, — se alguma quiser experimentar... Faz-se assim: toma-se um ovo de galinha, como disse, abre-se-lhe um buraquinho, deita-se-lhe dentro uma gota de semen huma"no, ainda quente, tapa-se muito bem... depois ligaSe 40 sovaco por meio dum lenço. Durante aquelas nove semanas a gente sofre enjôos, espasmos, dores... tal qual como se estivéssemos gravidas E vae, ao cabo, o ovo está chocado... o bicho pica a casca e

sáe — Foi o que eu fiz... Não por espirito de ruindade ou ganancia, como dizem... não porque esteja vendida ao inferno; mas unicamente pelo prazer de fazer bem, só p'ra dar consolação e gosto à minha alma Um admirativo sussurro de aplauso fremeu no pastoso grupo das mulheres; emquanto, impassivel, serena, poisava a vidente o seu absurdo talisman sobre a mésa, e em voz alta interrogava: — Vamos qual de vocemecês está primeiro?... Levantou-se pressurosa uma des-sangrada mulherita das fabricas, tendo uma criança pela mão e outra ao colo, que foi ajoelhar-lhe aos pés. A bruxa tateou-a com atenção, fêz menção de reconhecê-la; é então, conservando-lhe a mão direita sobre a cabeça, e com a esquerda estendida à mêsa, espalmada contra o manipanço: — Ah, bemsei...éa cigarreira viuva, de Xabregas. Quer saber do seu marido?... Ele foi um grande pecador mas apezar disso vocemecê estimava-o muito... queria vê-lo no céu — Acenava a viuva afirmativamente com a cabeça. — Pois bem... Fêz as coisas todas que eu lhe disse? — Tudo — Foi á porta duma igreja acordar três almas? — Sim, sr.*... A S. Domingos. Á meia noite. -— Sem se voltar p'ra traz? — Sem me voltar p'ra traz — Está bem! vamos a vêr... Espere... — E aqui, sempre com os seus vagos olhos ao alto, o austero rosto da vidente, num progressivo afinamento, como que por um esforço sobrenatural, transfigurava-se... tomava não sei que sibilina expressão, que iluminada e nobre transparencia; ao passo que, sôando dulce

rosa e grave no recolhido silencio da assembleia, continuava a sua voz: — Vejo um grande palacio, umas colunas... uma cortina preta ao lado, caída... são. os alados dele! E ele lá está em baixo ainda, coitado! Vêm um anjo, vêm outro... dão-lhe a mão, levantam-no um pouco... torna a caír! Entretanto a cortina vae-se correndo, correndo... agora vêm uma rica Senhora, vestida de branco! ladeada por três serafins... ergue-o tambem e leva-o... a cortina sumiu-se... Está perdoado! está no céu! Na temerosa atenção da assembleia, apenas se ouvia da pobre viuva o soluçar reconhecido. E com voz carinhosa e velada, como quem voltava dum sonho, perguntou-lhe então a cega: — Está contente agora 2... — Como lhe hei-de eu de pagar 1... — Bom! que mais quer? Depois de uma pausa hesitante, num arranque - de decisão, a viuva exclamou: — E então o estepôr da amiga que ele tinha, hade-se ficar a rir... Se eu lhe pudésse fazer mal! — Vocemecê A que eu não gosto nunca de aconselhar p'ra esse fim... P'ra coisas ruíns não me procurem! No entanto, a sua razão é tamanha... — Ó sra! cardou-nos indecentemente... DeiX*ou-me sem nada! a mim e a estes dois inocentes! — Bem pois vamos-lh'o fazer amargar... P'ra isso tem vocemecê de arranjar — tome sentido! — tem de arranjar três coisas do corpo dela; um cabelo, uma gota de sangue e uma lasca de unha do pé es-querdo. — O meu Deus isso é impossivel... Como heide 009

— Não tem outro remedio, se quiser conseguir. alguma coisa! Depois ha-de juntar ainda um pedaço de pão, mordido por ela, e uma piuga servi- sh da... Lava a piuga em agua a ferver, com uma man- vg cheia de alfinetes dentro, sete noites a fio... Depois vae a um cemiterio, traz um punhado de terra... morde o pão, mistura tudo, e mete num saquinho, que ha-de entalar entre o colchão e o enxergão da. sua cama. — Feito isto a preceito, não falha.:. entra mandinga com ela! Começa a mulher a aganar, a aganar... passadas três sextas-feiras, já deita sangue pela Nova! -— Vamos a vêr se sou capaz... — Depois quando quiser que ela môrra, não tem mais nada... É só espetar um alfinete no cor-ção duma pomba, E despedindo dum gesto a cliente, tornou para. O grupo: — Quem segue?... 7 Veio uma delambida, bonitota e fresca, de man- a tilha, chale andaluz, grandes rosêtas de vermelhão na face, e todo esborifado em petulantes monêtes o. cabelo. Tinha um airoso desempeno que acusava sem hesitar a fatalidade animal da sua condição. — Em- quanto ela, resoluta a viva, se adiantava, a viuva com E os filhos desandára silenciosamente, de cabeça bai- E xa, o rosto conirangido numa grande concentração mental; e, chegada à porta, meteu na mão do mar- manjo a obrigada esportula, que este imediatamente:. recolheu no cofre verde. ae Ao tempo, já a petulante boémia, de mão y na ilharga e em pé diante da bruxa, xa maya: “UR

— Minha sr.*! eu venho buscar remedio p'ra uma grande pouca vergonha que me fizéram! — Diga lá!... — Já se sabe, eu governo a vida conforme me quadra e dá gósto... Não dou escandalo, ninguem tem nada com isso! Mas umas porcas dumas visinhas, invejosas, salgaram-me a escada... e dahi não ha mal que me não venha! O gato fugiu-me, morreu-me um papagaio que eu tinha em grande estimação, os meus conhecimentos, tudo homens bons! não aparecem... ontem ia morrendo queimada, intornei um candieiro de petroleo! E elas regaladas! De sorte que isto assim não tem geito nenhum! Eu não pósso mais... eu faço um disparate! — Não te aflijas, filha... — maternalmente a bruxa acudiu, sorrindo. — Isso não vale nada! Assim tudo tivésse tão bom remedio... — A rapariga fita“va nela uns grandes olhos ávidos — Vae e esfrega muito bem à tua escada... mas has-de ser tu mesma! com agua do mar, sete noites a fio, sempre de baixo p'ra cima... E terás novamente a fortuna de volta comtigo.<.. adeus="" agora="" a="" desinvolta="" criatura="" desandava="" e="" pagava="" era="" uma="" desses="" tantas="" toleradas="" profissionaes="" do="" amor="" que="" vinha="" desalentada="" aflita="" rojar-se="" aos="" p="" da="" sibila="" inquiridoramente="" lhe="" passeava="" as="" m="" pela="" face="" cabe="" os="" ombros="" o="" pesco="" minha="" sr.="" valha-me="" por="" deus="" n="" tenho="" sorte="" nenhuma="" cega="" com="" bondade="" meiguice="" parando="" de="" analisar="":="" tonta="" ha="" quanto="" tempo="" est="" na="" vida=""/>

— Ha cinco mêses... — Eu logo vi... Por isso te atrapalhas com uma coisa tão simples! Será ainda a santa agua do mar que nos ha-de servir... Olha, tu tomas um pedaço de sêda preta... Encharca-o bem em agua do mar, 'é trá-lo comtigo, rente ao peito, logo sobre a camisa. Mas toma conta! quando estivéres com um homem, has-de tirá-lo sem que ele veja. — Agradeço muito! Mais nada 2... — Não... Esse pano é posto à noite e ha-de enXugar no corpo. Em estando sêco, tornas a molhar, tornas a pôr... E vae, anda! por ti fico eu... — epilogou a bruxa, a sorrir, batendo-lhe no ombro. — Vejo bem que não és peste não has-de precisar mui-. to de maleficios para atrair os homens. Uma outra consulente demandava já, numa nervosa impaciencia, o conselho e a atenção da bruxa. — Era uma pobre e derrancada mulher, tipo caloso e exausto de antiga operaria, magra, verde, pequenina, concavo o peito, desconformemente extensos os braços descarnados. — Valha-me, por Deus! senhora... — já ela rompia, de joelhos. — Eu assim não pósso mais Não tenho remedio senão acabar co'a vida! — Então o seu côxo continua na mesma 2... — Cada vêz pior! Não ha dinheiro que lhe chegue... Eu sacrifico-me o mais que pósso, sou uma moira de trabalho... e aquele alma do diabo não reconhece nada É só o jogo, tabernas, mulheres... eeu, se fanfo, se não lhe apronto quanto dinheiro ele quer, ainda em cima levo pancada — Mas porque o não deixa? — Ai, senhora pudésse eu... e NM

— Então o que a impede? — Perseguia-me... Era capaz de me matar! — Não diga vocemecê isso! Eu estou-lhe a lêr no pensamento... A mim deve-se falar como se fala ao confessor... Vocemecê não o deixa porque tem um animo fraco... não tem alma de se vêr sem ele! — É isto, ou não é? Baixou a mulherita envergonhada a cabeça £, de- pois duma pausa de embaraço: — Por vergonha minha, assim é... Que raiva que eu tenho a mim mesma! Ail... — Ora eu vou-lhe dar um remedio, remedio infalivel! p'ra vocemecê o esquecer... Oiça: rasguelhe um pedaço á fralda da camisa... talhe-o assim a modo dum coração, côsa-o a uma boneca... depois vá interrá-la a um cemiterio e retire, atirando, sem se voltar, três punhados de terra p'ra traz das costas, "dizendo sempre: Foge, sume-te, ladrão Deixa em paz meu coração. — Em seguida, persigne-se, defume-se em casa com o meu preparado n.º 2, e verá... O homem varre-selhe de todo do sentido Já, esperançada e ligeira, a mulherita retirava, recebendo das mãos do porteiro, ao pagar, um dos mo lhinhos de hervas a monte no vão da chaminé; € uma outra, — mulher passante da mocidade, sem frescura e sem agrados, tomava o seu lugar: — Eu vólto, porque o meu homem, senhora! não deixa o caminho da perdição! — Estou a vêr... -— confirmou branda a viden

te, com as mãos sobre a cabeça da vitima. — Aí está a amante dele a aparecer-me, de mãos postas... pede-me perdão... jura que a teima é dele... Bem! é meio caminho andado. — Veja! veja se lh'o pode arrancar de todo! — Olhe, espere pelo quarto crescente... Numa noite bem clara, ao toque das almas, incare co'a lua. e Teze: Lua, luar! Como és bonita e Dela! Viste por aqui passar Os três maioraes do inferno, Batanaz, Cailaz e Barrabaz? -— Logo uma voz lhe ha-de responder: Não, mas ainda hão-de passar... — E vocemecê continua: Faze, lua! o seu poder Do meu homem o coração voltar... Que ele não póssa comer, Nem beber, nem dormir, nem sossegar, Emquanto inteiro a mim se não voltarl... Em louvor do SS. Sacramento do altar! E cheia de confiança e alegria, tendo recebido uma folha com o ingenuo: aranzel impresso, a displicente mulher partiu. Omitirei um sem-numero de episodios, todos se-' milhantes, que interminavelmente se fóram desdobrando, sempre com a mesma solenidade, a mesma a credula e religiosa atenção, sempre dentro do mesmo: a compenetrado e pavido silencio, a intervalos cortado.

do rabido latir dos cerbéros, fóra, e a que indefinidamente se seguia a entrada de novas consulentes, as quaes logo na penumbra, sobre os tijolos, se anulavam e acócavam, silenciosas, deslises como velhinhas numa igreja. Quando chegou a minha vêz... Ao tempo de eu avançar, segredou algumas palavras ao ouvido da nigromante o matulão que ali me havia introduzido. Então a cega esboçou um vago sorriso afavel, e disse-me com doçura: -— Estimo muito vê-lo aqui! Mórmente p'la pessôa que m'o recomenda... Mesmo é tão raro que dêsçam té á minha insignificancia pessõas assim de qualidade... Seja pois bemvindo! De que se trata então, flôr?... cuidados de amor, decerto? —— Duplos cuidados, senhora... — Eu sei, eu sei... Não se cance a explicar! O meu amigo tinha a sua vida encarreirada num certo - sentido... estava p'ra casar... Vae intromete-selhe uma mulher de má morte, que não tem feito senão tolher-lhe a fortuna! É isto 2... -— Exactamente — balbuciei eu, sinceramente - espantado de tamanha ciência, vibrando todo tam" pem de credulidade e interesse. e — — E então o que é que lhe palpita?... Não tem tido sonhos “ — Muitos! Quando consigo dormir... Ainda a noite passada sonhei que estava a comer uvas brancas. — São lagrimas... — E que tinha muito oiro! — Pior! São fézes... É -— E numa outra noite, a grande aflição que eu " tivel Eram uns poucos de gatos a morderem-me.

— Traições! Depois, confiadamente, acentuou: “— Mas descance, meu amigo, que a verdade vae aparecer... Levantou-se, foi vagarosamente postar-se em pé contra a mêsa, do lado oposto ao nosso, tomou um dos massos de cartas e baralhou-o muito bem, murmurando breves palavras ininteligiveis. Depois mandou-me partir, com a mão esquerda; e, logo que. eu fiz esta operação, ela juntou os dois galhos do bara-. lho, e distribuiu este em cinco montinhos proximamente iguaes, com as costas para cima, formando cruz sobre a mêsa. Neste comenos, explicou: — O meu amigo é o rei de oiros, tome sentido... e portanto o valete de oiros será o seu pensamento, e a lama do mesmo naipe a sua noiva. A outra é a dama a de espadas... Vamos a vêr! A seguir, benzeu as cartas e imobilisou-se por instantes, de olhos ao alto, os braços longos á frente, as mãos estendidas sobre o baralho, emquanto imperceptivelinente murmurava uma outra oração; feito o que, voltou de frente os cinco grupos de cartas e percorria-os agora com os dedos, para o efeito de reconhecer-lhes tactilmente as pintas. As cartas voltadas fôram estas: o cinco de oiros, o rei de copas, o terno de copas, a quina de paus e o seis de espadas. Com uma expressão contrariada e triste, disse-. me então a bruxa: — Meu rico amor... não são infelizmente para o seu coração extremoso de boas novas estas cartas! Elas dizem que ha novidade, com um homem de boas palavras, isto é, amorosas, e que os cinco senti-. y Pia PESA ção ED 2 RA DE

“dos desse homem se empregam em desviar alEuein «o. Eu fiz-me palido, desta imprevista confirmação & minha suspeita... A bruxa continuava: — Quem será esse alguem, e o resultado de seus maleficios, vamos nós já sabê-lo estendendo as cartas ' Colheu-as, baralhou... eu tornei a partir, e seguidamente ela desdobrou as quarenta cartas sobre a mêsa, em oito fiadas sucessivas, de cinco cartas cada uma. Depois começou a tomá-las, pausadamente, “em diagonal, tendo-as primeiro por via dos dedos reconhecido; e o seu terrivel vaticínio ia começar, correspondente á minha enorme anciedade e em meio do compenetrado silencio das consulentes, que timoratas tinham todas vindo rodear a mêsa.; — Sinto bem ter que lh'o dizer, meu filho... mas 0. caso está mal parado O pensamento das primeiras. cinco cartas começa a confirmar-se nesta sorte! Olhe, aqui temos nós o mesmo moinante, que por causa duma prenda, -—— é o az de oiros, — que a mulher má, — aqui a tem —. lhe deu, procura por noite e caminhos breves, —- az e três de paus, — obter dela, na cama...--—- az de copas, vêl — o que a prudencia manda calar... Entretanto, com zêlos, -— seis de — paus, — a sua noiva, mais com lagrimas e grande pai xão d'alma, — cinco de copas e sete de espadas, — " Sofre uma grave doença e tem do senhor um grande desvio, com alguns dinheiros... — Meu Deus mas tudo isso é horrorosamente exacto I... — Tudo está confirmado por este az --- corroborava a cega com energia, colhendo na mão o az de

espadas. — Agora temos nós uma mulher de má lin- gua, que com o pensamento malefico, — valete de espadas, —favorecerá toda a traição da outra mulher. E esta... olhe! cá tenho a certeza dela agora,. ligada ao estafermo... Qu'antés a outra, filho...; a outra... coragem mas aqui a vejo eu, no quatro de oiros, levada à igreja, não p'ra casar, não p'ra ser.. Teliz... pobre menina! — tão EM IA -— Côlho o cinco de espadas... Vae numa tumba,

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Sinopse

Leia gratuitamente O Livro de Alda, romance naturalista de Abel Botelho e segundo volume da série Patologia Social. Edição Literunico em pt-BR moderno preparada a partir de fac-símile em domínio público, com teor adulto e crítico sobre degradação social, desejo e exploração.

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